Aventura na Auto Estrada


Lá na aldeia bucólica, continuei a ler o Kafka à Beira Mar do Haruki Murakami, sempre que não era interrompida por pedidos para matar aranhas, salvar gatos em árvores, pendurar baloiços, ir tomar café ao Marco de Canaveses (eufemismo das minhas primas para irmos aos saldos). De resto almocei e jantei na casa desta e daquela, que chatice, bebi binho berde, e claro, na véspera de vir, empoleirei-me num banco velho para apanhar limões e ele partiu-se (nem imagino porquê). Aterrei sobre a perna esquerda desta vez e senti uma dor lancinante.

Tomei Nimed, pus Voltaren e tentei passar o resto do dia sem me apoiar no pé, o que era fácil, pois não conseguia esticar a perna. Assim coxinha, acordei no dia seguinte perante uma viagem de 400 km (?) praí, comigo ao volante, até Lisboa.

Lá venho eu, com a minha mãe de 80 anos, dois gatos, dois miúdos, um carro tipo jipe atulhado de roupa suja, batatas, cabos de cebolas, couves e essas coisas que se trazem das berças.

Parei em Penafiel porque queriam ir ao Macdonalds, na estação de Leiria porque queriam ir ao wc, e estava a ser uma viagem calminha, longe das corridas contra relógio do ex, apostado em bater os seus anteriores records de tempo... A perna doía mais ou menos, mas eu vinha sempre a cem, por isso...

É então que por volta das 19 h, depois de Santarém, o carro parece um tanto estranho e barulhento, e decido encostar. Bingo! O pneu traseiro esquerdo furado, digamos mesmo completamente rasgado .... maravilhoso! A malta toda estática de felicidade, uma aventura na auto estrada! Saltam todos do carro como pulgas, avó incluída, para ver, enquanto os carros passam a 160 km hora por nós! Mando-os recolher para trás dos rails e mal acabo de pôr o elegante colete amarelo, estaciona um automóvel da Brigada de Trânsito atrás de mim.

Muito elegantes e simpáticos colocam-me o triângulo na estrada (depois de o retirar debaixo das couves) e prontificam-se a mudar o pneu. Nada feito. Ponto 1, não tenho a chave de segurança que remove as porcas, ponto dois, o pneu sobresselente está vazio! Telefono à Assistência em viagem, sim, mandam o reboque, não, como o pneu sobresselente está vazio só me rebocam à oficina mais próxima e não pagam o táxi! Os agentes desejam-me sorte com uma oficina aberta aquela hora e partem para outra ocorrência.

Chega o senhor com o reboque que muito prestável leva toda a gente, apesar de ser proibido (os miúdos vão escondidos no carro em cima do reboque). Na oficina, que está a fechar só está o dono, que não pode nem sabe, mudar o pneu sem a tal chave que tenho em casa, em Lisboa.
O carro terá de ficar lá para sábado. Telefono então em último recurso ao pai dos pequenos, que se prontifica a contragosto a vir-nos buscar.

E ali estamos nós, sentados nos sacos de batatas à porta da oficina, a velhinha a comer pão, o rapazinho de capuz do blusão na cabeça, a menina de cabelo seboso e piolhento aos saltos de volta de dois gatos, uma mulher dobrada a coxear de um lado para o outro, ao anoitecer, enquanto os carros param no semáforo e olham curiosos. Parecemos personagens dos "Feios, Porcos e Maus".

Finalmente chega um mercedes com um senhor carrancudo que mete tudo no porta bagagens, menos nós, embora olhe duvidoso para o nosso aspecto de quem não toma banho há três dias, e se interrogue se lhe vamos sujar o carro. Não, tomámos banho, afinal, até fomos à piscina e tudo.
E estamos todos contentes, e chegamos a Lisboa num instante, a avó fica com as batatas e couves em casa, a mãe (eu) com a roupa suja a coxear e com a missão de ir no dia seguinte buscar o carro, e os filhos vão com o pai, para a barrela, não sem este dizer "espero que não tenham carraças".

16 comentários:

teresa disse...

eheheh,,, sangue é sangue... não teria feito melhor!

O QUATORZE disse...

Bom dia
Dia de azar, quando isso me acontece, eu digo para mim, tem de ser tem de ser, daqui a 15 qias já não me lembro.chatear-me comigo não vale a pena quero é viver o amanhaque hoje já passou.
Amizade
Luis

Gabsna net disse...

Até que foi divertido. Eu pelo menos conseguia ver o nosso aspecto lamentável e ainda me ria.

teresa disse...

Essa é uma enorme qualidade. Também gosto de me rir de mim, mas tenho alguma dificuldade em conseguir que as miúdas o façam (não é rirem-se de mim, que isso riem e muito...)

Gabsna net disse...

Os meus estavam todos contentes, a minha mãe só dizia que tinha fome, por isso se pôs a comer o pão, que não sei porquê, insistia em comer aos bocaditos da palma da mão, como se fosse um prato...

teresa disse...

Para dar alguma dignidade há situação... ao menos alguém que mantenha a elegãncia...

O Santo disse...

ja la vao uns anitos e eu ainda era miudo pequeno, la fui com pais e avós num domingo para Benavente à famosa sopa de pedra. 4 adultos e dois petizes num carocha, e eis que mesmo a chegar lá, um furo. Tudo mais ou menos normal até que... segundo furo. Confusao porque a unica oficina estava fechada e o dono numa festa mas la fez o favor de arranjar aquilo. Um bocadinho depois terceiro furo. Um domingo feliz (mas mesmo com algum humor que agora permite rir do acontecimento, na altura não havia muitos sorrisos)

teresa disse...

(confessa, levavas o bolso cheio de pregos...)

O Santo disse...

inocente. mas dia lixado mesmo

teresa disse...

inocente.... claro!

O Santo disse...

e santo

teresa disse...

nunca ouviste falar nos santos de pau carunchoso?

Gabsna net disse...

Ena, tanto furo! Eu até tinha posto pneus novos à frente, antes de ir, assim fiquei com dois novos atrás, por menos trinta euros!
Já pagava o táxi, mas chamar o ex é mais simpático...

O Santo disse...

tinhas furado antes de ir e menos 60 euros ja dava pas ferias

Gabsna net disse...

Eu devia era ter trocada os quatro antes de ir, mas assim foi a mãe que pagou... hehehe.

Gabsna net disse...

Ai, ontem fui almoçar com o meu primo Rui e família e a propósito do furo a minha tia contou uma que eu já me esquecera. Ele tinha uns 3 ou 4 anos e estavam de férias no Vale, e passeavam de carro com o avô e houve um furo. Omeu avô era conhecido pela sua irascibilidade e lá estava ele todo vermelho a olhar para o pneu, e o meu primo "O carro não anda, não tem gajolina?" cala-te Ruizinho... "Oh avô, o carro não anda, não tem gajolina?"...ehehehe.Ninguém o calava....