Escolher um título de Proust só podia dar nisto...

Tiago Mota Saraiva reproduz hoje no 5dias um texto de Pedro Levi Bismarck que está tão fundamentalmente errado que é difícil dizer o que está principalmente mal nele.

O peixe que Pedro Levi Bismarck nos tenta vender é em resumo o seguinte: O capitalismo destruíu a infância e a cultura.

A quem propósito vem isto agora? De Martim Neves, cidadão que aos 16 anos se dedicou à venda de t-shirts não muito originais, e que vem demonstrar que qualquer pessoa pode vender seja o que fôr desde que o saiba vender.

De caminho diaboliza-se o "marketing ideológico capitalista", os slogans, e uma coisa chamada "marketing económico".

Martim Neves, a quem Bismarck trata por "Jovem Martim" para nos fazer pensar numa criança, é para Bismarck o exemplo mais triste de uma sociedade que deixou "que o actual marketing ideológico capitalista colonizasse esse último território por explorar da vida humana – a infância".


Nem vou tentar contradizê-lo nem mostrar-lhe o contrário.

Vou apenas explicar-lhe que antes da sociedade moderna e capitalista, aos 16 anos não se era criança nenhuma, era-se um homem. Antes da sociedade moderna e capitalista, as crianças começavam a trabalhar aos 3 e aos 5 anos, mais recentemente aos 10, quando acabavam a escola primária. A infância, caro Bismarck, era uma coisa para ricos. Tal como a cultura o era, e como ainda o é. A esmagadora maioria da população passa ainda hoje completamente ao lado da cultura, nas sociedades mais ricas como nas mais pobres. A cultura tal como a apregoa, é de quem tem tempo e dinheiro para a fazer. Os outros são meros consumidores quase cegos do que lhes vão impingindo.

Fez bem em citar o exemplo grego, e a Grécia antiga, em que a democracia era exercida pelos "cidadãos", ou seja, os naturais de Atenas e donos de terras, excluindo todo o resto, nomeadamente a esmagadora maioria constituida por servos e escravos. Servos e escravos que também não participavam na "cultura", não sabiam ler, nem iam às peças, nem tocavam harpa.

As sociedades modernas quiseram dar educação e infância a mais gente, a toda a gente. Mas cedo perceberam que isso sai brutalmente caro. Algumas optaram pela via do socialismo, onde toda a gente é pobre mas educada e culta. E funcionou, excepto na medida em que aquela gente toda não queria ser pobre, nem viver numa sociedade regulada e paternalista que lhes condicionasse os passos. Outras sociedades optaram por uma via capitalista e "democrática", dando personalidade jurídica às empresas, dando-lhes direitos e deveres, e deixando que elas se tornassem numa peça fundamental das sociedades. As empresas tornaram-se escadas para a ascensão social de quem fôr capaz de as subir. Mas não só as empresas - a liberdade de ser uma empresa, a liberdade de comerciar livremente na sociedade, a liberdade de promover os seus produtos, os seus serviços, a sua empresa.

O estado diz que a actividade de Martim Neves é legal. Diz que o ensino obrigatório são 9 anos. Diz que o salário mínimo existe e é legal. Diz várias outras coisas.

Pedro Bismarck diz que é uma tristeza um jovem de 16 anos dedicar-se ao comércio e usar estratégias de marketing para ter sucesso. Diz que aos 16 anos ele se devia estar a dedicar à infância e à cultura.

Pedro Bismarck está no seu direito de achar isto tudo e de o dizer. 
Como eu estou no meu direito de dizer que acho que ele está profundamente errado.
Como estou no meu direito de dizer que o que Pedro Bismarck diz ilustra perfeitamente tudo o que está errado com uma certa esquerda portuguesa, que quer a infância e a educação e a cultura e é contra o capitalismo e a favor dos grandes valores, mas depois quando se lhe pergunta não sabe quem vai pagar isto tudo, nem sabe explicar para que servem mil licenciados em Filosofia em Portugal, e que fica muito triste porque os mais de cem licenciados em Antropologia que saem por ano das faculdades não encontram emprego "na sua área curricular" e acabam como caixas do Continente.

A sociedade capitalista assente no marketing está a destruir os valores da nossa sociedade. Está. Concordo com Pedro Bismarck nisso. Mas está a destruí-los introduzindo desde há décadas um ímpeto consumista em toda a gente. Está a destruí-los forçando os pais e as mães de família a trabalhar oito e nove e mais horas longe de casa e a levar mais duas no trânsito ou nos transportes, e a não passar esse tempo com os filhos. Está a destruí-las porque a televisão e os jogos tomaram o lugar de muitos pais na educação dos filhos. Está a destruí-las porque criámos nos filhos a ambição de ter mais. De ter brinquedos e jogos e roupas só por ter, e se for preciso depois não lhes ligar, e querer mais do mesmo no ano seguinte.

A sociedade capitalista está a destruir os valores da nossa sociedade porque lhes ensina o preço de tudo, mas o valor de nada. Oscar Wilde definiu assim os cínicos. Talvez seja isso que está a acontecer.

Mas não vi nada em Martim Neves, que não conheço, que me leve a fazer dele símbolo de coisa nenhuma. É simplesmente alguém que, no mundo em que vive, no mundo que lhe deram para viver, soube interpretar as regras e explorá-las a seu favor.

Compreendo que isso enoje muita gente, especialmente quem anda para aí a pregar o fim do capitalismo mas não tem nenhum modelo alternativo a propôr. Até entendo como é que se chega a esse ponto - quando vivemos sempre na sombra de alguém que gera riqueza e nos subsidia para fazermos aquilo de que gostamos. Quando dizemos que somos contra os impostos e as instituições e as corporações e nos esquecemos de quem paga o dinheiro que ganhamos.

Mostrem-me um funcionário que nunca tenha trabalhado para a máquina do Estado capitalista, mostrem-me um actor que nunca tenha participado numa obra subsidiada pelo Estado nem por uma grande empresa, mostrem-me um poeta que nunca tenha beneficiado do marketing corporativo ou institucional, mostrem-me um arquitecto que só tenha feito projectos para particulares ou para PMEs, mostrem-me um engenheiro que nunca tenha trabalhado para nenhuma das empresas que promovem e fomentam o marketing e o capitalismo, mostrem-me um investigador que não tenha sobrevivido à conta do dinheiro que o Estado recolhe em impostos sobre o capitalismo ou de subsídios desse mesmo capital, e mostrar-me-ão alguém por quem eu tenho todo o respeito e a quem admito, em enorme grau, justeza na opinião que queira emitir.

Quem encontrou uma via que lhe permita e permita à sociedade desenvolver-se de uma forma distinta da actual pode e deve advogá-la e mostrar como o fez, e apontar caminhos. Outros quanto mais falam mais parecem estar a advogar que se corte o ramo onde estamos todos sentados.

Martim Neves é um cidadão português que decidiu fazer dinheiro na sociedade em que vive e produzir riqueza para ele próprio e participar no tecido produtivo nacional. Não o conheço de lado nenhum e até pode ser pessoa que eu não tenha interesse em conhecer. Mas só por ter feito alguma coisa por ele próprio em vez de se ficar até aos 40 anos a viver por conta de outrém, mesmo que a tirar cursos e a fazer cultura, tem o meu respeito.





a indiferença

A 13 de Abril de 1981, faz hoje 32 anos, Margaret Thatcher dizia na televisão, a propósito dos Brixton Riots: "Nothing, but nothing, justifies what happened".

Pois.

ideias para resolver o problema nacional - 5

Promover o Turismo Especializado


Um país tem de explorar as oportunidades que tem. E há todo um campo de oportunidades no plano legal que Portugal simplesmente não explora e não divulga.

Onde está a promoção de Portugal como destino onde duas pessoas do mesmo sexo podem casar? Onde está a promoção de Portugal como destino onde se pode abortar? Onde está a promoção de Portugal como destino onde os jovens podem apanhar bebedeiras sem ir presos?

O truque é descobrir as coisas que as pessoas querem fazer mas são proibidas nos outros países, legalizá-las cá, e usar isso como chamariz para atrair turistas. Não parece complicado.

ideias para resolver o problema nacional - 4

Legalizar a Prostituição

E cobrar impostos, claro. Dizem que é um mercado em crescimento.

ideias para resolver o problema nacional - 3

Legalizar As Drogas

Enquanto o país discute onde é que há de cortar nos salários, há toda uma economia paralela a que o Estado podia ter acesso e à qual se limita a fechar os olhos.

A legalização das drogas permitiria a assunção do controlo da sua distribuição por parte do Estado, gerando lucros, impostos, e emprego.

Quem usa drogas não as usa mais por serem legais ou por serem ilegais. Está mais que provado que o consumo de droga não diminui por se tratar de substâncias proibidas. A única diferença é que o Estado gasta dinheiro a combater o tráfico quando podia perfeitamente estar a fazer disso uma fonte de receitas.

ideias para resolver o problema nacional - 2

Liberalizar o Jogo

O jogo é uma indústria florescente, dá dinheiro, gera emprego, e não custa nada ao Estado.

É uma questão de a liberalizar, e isso é fazer uma lei, que sai barato.

Com bom clima, boa hotelaria e restauração, e jogo liberalizado, Portugal poderia transformar-se numa espécie de Macau ou Monte Carlo mas em grande.

ideias para resolver o problema nacional - 1

Vender os Açores aos americanos.

Para nós não tem interesse geo-estratégico nenhum (tomara a nós que nos deixem comer, quanto mais pensar em geo-estratégia), e para os Americanos tem.

Nós não conseguimos fazer nada de jeito com a ZEE, porque já não temos frota de pescas nem sabemos explorar os recursos naturais.

Os açoreanos provavelmente não se importavam - deixavam de fazer parte de um país em crise e passavam a ser cidadãos de uma das maiores potencias mundiais. E passavam a pagar menos impostos.

E nós podíamos usar o dinheiro para pagar a dívida externa e pararmos de nos endividar.

Relvas


não digam mal dos oligarcas russos, os nossos são iguais ou piores mas em pobre


Um político de carreira é alguém cujas competências são necessariamente focadas em (1) convencer as pessoas de que ele é a pessoa em quem votar, em (2) convencer as pessoas de que ele faz as coisas bem e os outros fazem as coisas mal, e (3) convencer as pessoas de que em seja o que for que acontecer de bom o mérito é dele e em seja o que for que aconteceu de mal a culpa é dos outros.
Outras qualidades necessárias a um político de carreira consistem em (4) criar e manter uma rede de contactos no tecido político e empresarial que lhe permitam ter apoios quando precisa deles, seja para o que fôr, sem prejudicar (1), (2) e (3).

Quase todos os actores da cena política nacional são políticos de carreira, o que, não fazendo deles todos iguais, em termos práticos significa que pouco muda. A política hoje é algo que não se faz por convicções, faz-se segundo o ponto (4), e os actores do ponto (4) não mudam consoante mudem os políticos, são sempre os mesmos.

Isto significa que o que realmente condiciona a decisão política em Portugal não é o voto dos cidadãos, uma vez que o voto apenas permite seleccionar os actores da cena política segundo as listas apresentadas pelos partidos. Uma vez que o poder assenta não nestes actores mas na teia (4) que os suporta e alimenta, a natureza do regime tem de ser caracterizada segundo os vectores que seleccionam essa teia.

Portugal é uma oligarquia de pequenos grupos de famílias e amigos. Nessa oligarquia convivem, por um lado, uma plutocracia, composta pelos indivíduos e famílias que detém os principais interesses económicos no país, e por outro lado uma oligarquia de base partidária, que ao mesmo tempo se justifica e promove a dificuldade de romper o domínio tradicional dos partidos do chamado "arco do poder".

Esta oligarquia é mantida em funções pela Constituição da 3ª República Portuguesa, que permite perpetuar o poder da meia-dúzia ao mesmo tempo que só pode ser alterada - salvo uma revolução - pela própria oligarquia que protege.

Isto, em economia, chama-se um "cartel" e dá cadeia.
Ou devia dar. Mas os oligarcas arranjam sempre maneira de se safar uns aos outros.

uma alegoria sobre toxinas, ou seja, cócó

Benoit Mandelbrot sobre Vilfrido Pareto:

"At the bottom of the Wealth curve, he wrote, Men and Women starve and children die young. In the broad middle of the curve all is turmoil and motion: people rising and falling, climbing by talent or luck and falling by alcoholism, tuberculosis and other kinds of unfitness. At the very top sit the elite of the elite, who control wealth and power for a time – until they are unseated through revolution or upheaval by a new aristocratic class. There is no progress in human history. Democracy is a fraud. Human nature is primitive, emotional, unyielding. The smarter, abler, stronger, and shrewder take the lion's share. The weak starve, lest society become degenerate: One can, Pareto wrote, 'compare the social body to the human body, which will promptly perish if prevented from eliminating toxins.'"

E quem é o cócó? Os pobres, ou os oligarcas?





D. Sebastião em Grândola

Em 1974 o Grândola, Vila Morena serviu como sinal de uma vitória que se anunciava. Representava a capacidade de fazer o que antes estava proibido.
Em 2013 ninguém proíbe nada, as proibições são coisas demasiado fáceis de quebrar.

As avestruzes, quando acossadas, enfiam a cabeça na areia. As lebres ficam imóveis na esperança de que não as vejam. Os portugueses, quando acossados, evocam D. Sebastião, que este ano se invoca cantando o Grândola.

Infelizmente D. Sebastião tem uma longa tradição de não aparecer, por mais manhãs de nevoeiro que se lhe conjurem.

Em 2013 cantamos, na esperança, tão portuguesa, de que o La Fontaine estivesse errado.

Dia dos Namorados

 

Dia dos Namorados

 

Do lado certo

Diz o bom senso e a educação que, quando se muda de emprego (sem ser despedido claro) que se deve colocar as coisas do ponto de vista do projecto novo e nunca dizer mal do emprego anterior.
Ora, mesmo sem estar bêbado, a passagem de ano é sempre uma altura de excessos e, seja porque sou parvo ou porque acho que um blog na Internet é algo privado (lol) não é isso que aqui vou fazer.

É com muito orgulho e satisfação que deixei a PT e passei a trabalhar para a Zon. Indirectamente, claro que criar a Jaimec Unipessoal foi a melhor coisa que fiz nos últimos tempos mas, mais do que os desafios que me esperam na Zon, fico contente em ter deixado de contribuir com o meu trabalho para o crescimento dessa organização que tanto mal esta a causar a Portugal.

Sempre acreditei que a verdadeira causa da crise que atravessamos é a corrupção institucionalizada e, não consigo esquecer as palavras de um chefe de lá, gritadas num openspace “mas quem é que liga a valores morais no mundo dos negócios do séc XXI?” e, se há bom resumo do valor desta organização, é mesmo isto.

Comprar PT, usar serviços PT, trabalhar para a PT, apoiar de algum modo a PT é defender que, em Portugal, é legitimo forçar empregados a aceitar reduções de ordenado para 1 terço do que recebiam. É defender a precariedade do trabalho e o enriquecimento de “estruturas” cujo único valor é estarem na mão de “primos”, é contribuir activamente para a destruição do tecido produtivo do país.

Claro que o projecto da Zon também vale por si. Esta é uma empresa que esta a voltar às suas bases de engenharia e como a tecnologia cria valor para os clientes mas, ter saído daquele navio a afundar é um descanso.

A todos os meus colegas, amigos e conhecidos ainda na PT, não leiam nas minhas palavras nenhuma recriminação. Eu sei que a defesa dos valores nacionais toma (e deve tomar) um segundo plano contra a alimentação e a escola dos nossos filhos mas, tenhamos esperança que os tempos dos monopólios estejam a aproximar-se do fim, que os reguladores funcionem e que a concorrência tire partido do vazio tecnológico da PT, criando mais emprego e ajudando a recuperação do país.

2012 não deixou saudades. Um feliz 2013 para todos.

And now for something completely different, …

Ao olhar para as mais recentes medidas do governo Português para “ajudar” as empresas, lembro-me de uma iniciativa de caridade que conheci à uns anos que consistia em comprar computadores para escolas em Cabo Verde, escolas essas que não tinham energia eléctrica.

Foi o caso da TSU, a descida do IRC e, agora, falam em reduzir as promoções dos Supermercados. São tudo ideias brilhantes, de génio que endereçam de uma maneira que até faz sentido uma serie de problemas reais e de difícil solução. O problema é que, tal como os computadores nas escolas de Cabo Verde, falta-lhes um bocadinho “assim”.

Toa a gente sabe que, uma parte importante dos custos de uma empresa são os custos com o trabalho. Ordenados e impostos sobre o trabalho são “a matar” portanto, uma medida como a da TSU seria, à partida boa (estou a falar apenas da redução para as empresas, vamos esquecer a outra parte por agora sff). Ora, o problema é que para as PMEs a redução da TSU seria mais ou menos insignificante e, as grandes empresas já não contratam ninguém sem cunhas anyway, têm tudo em outsourcing.

Antes de o outsourcing ter o poder que tem hoje no nosso país, as empresas que obrigavam os seus empregados a assinar clausulas de que não podiam ir trabalhar para clientes ou concorrentes até 1 ano depois de saírem eram consideradas ilegais. É que nós temos uma coisa chamada constituição que diz que o trabalho é um direito e, o facto é que para eu usufruir deste meu direito constitucional, preciso de assinar essa clausula ou não arranjo emprego.

Isso é também a definição de clausula coerciva. Para eu dar de comer ao meu filho, tenho de concordar com uma clausula cujo único propósito é garantir a perpetuidade de um serviço, reduzir o meu poder negocial no futuro e garantir que a mobilidade do trabalho é devidamente estrangulada. Tudo isto para garantir uma margem obscena como as que são habitualmente praticadas pela generalidade das empresas de outsourcing.

Devido à ausência de legislação, o Estado torna-se cúmplice desta situação que custa todos os meses às empresas algo que habitualmente passa os 40% do custo da sua massa salarial, garante o descontentamento dos seus colaboradores e estrangula a inovação.

De igual modo, as restrições às promoções com vista a proteger os produtores é uma piada de mau gosto.
O Pingo Doce (deve haver outros mas este eu conheço) tem uma lista de fornecedores aos quais paga a 10 dias, comparem isso com a habitual grande empresa que paga a 60, 90 ou não paga ou com o Estado que é como a neve em Lisboa.
Acho que é claro quem é que esta preocupado com os produtores, …

É certo que o QI combinado presente no plenário da AR é menor que o de um vulgar balde de estrume e, os nossos senhores deputados nunca tiveram 1 dia de trabalho honesto na vida mas, e que tal se eles se preocupassem em fazer leis? Just for a change, bora lá tentar esta ideia, …

Se a concorrência é atrofiada por lei, o mercado é imediatamente viciado. Sempre que a escolha é reduzida, a malta que detém o monopólio é imediatamente promovida a ditador estas leizinhas rascas e parvas de nada servem. Podem até parecer uma boa ideia a teóricos que nunca tiveram que trabalhar a serio para viver mas, se não fossem tão tristes e preocupantes, seriam apenas motivos de risada para toda a gente que lida com elas (tipo, que vai às compras, ...)

Alicerces e Fractais

Na maioria dos países, há leis bastante restritivas no que dizem respeito à construção civil. Essas leis são necessárias porque foi assumido que nenhum cliente final podia avaliar a qualidade dos alicerces pelo que a informação sobre o produto não podia ser suficiente para uma decisão de compra.
Assim, a lei obriga os construtores a fazerem casas com alicerces suficientes para o edifício não cair. Faz sentido e é útil.
À uns tempos falei com um tipo de Marketing (mas bom) que me disse que as pessoas chamavam “infraestrutura” às coisas que estavam 1 nível abaixo do que elas se preocupavam e, apesar do contexto ser informática (o modo como os programadores vêm o hardware, os admins de sistemas vêm os bastidores e os técnicos de hardware vêm a energia no centro de dados) mas, podemos ver este caso a acontecer em praticamente todos os sectores da sociedade, desde a política à mãe que compra a imitação barata do chinês como brinquedo para o filho.
Se calhar é o matemático em mim que vê um fractal (uma estrutura que se repete desde a maior à menor escala possível) mas, mais do que uma forma, isto é mas é estúpido.
Disse o Camilo Lourenço num comentário que fez no facebook:

“não sou eu que apoio o Governo, o Governo é que me apoia a mim. Pois se eu ando a dizer há mais de 15 anos que o Estado tem de ter contas públicas equilibradas... Eu fico muito contente por saber que a Troika finalmente obrigou um governo português a pôr ordem no peso excessivo que o Estado tem na Economia. Você e muita gente podem não gostar porque isto dói. Mas também doeu em 78-79 e em 83-85, quando cá veio o FMI. O problema está aí: como a gente não corrigiu os problemas fundamentais do Estado nessa altura, eles reapareceram. Portanto desta vez a Troika está a obrigar-nos a fazer aquilo que devíamos ter feito há muito... mas não fizemos."

Pessoalmente, acho que o Camilo tem razão até chegarmos ao próximo nível do Fractal. O problema é que o problema fundamental não esta na economia e, por isso, os economistas (e os jornalistas focados em economia) desenvolvem uma zona morta no seu campo de visão.

Como pode uma organização ser boa sem controle? A resposta é óbvia – não pode. E, por maioria de razão nós não vamos nunca ter um governo decente até o conseguirmos controlar, monitorizar e punir.

O caso Catroga na EDP foi sintomático da promiscuidade que há entre o governo e as grandes empresas (privadas) no país. Pode o sector empresarial controlar (ou denunciar) um governo onde os membros têm tantas relações de confiança? Claro que não.

Quando o Sócrates atacou os vencimentos dos Juízes, pela primeira vez que me lembro, vi a notícia de que o tribunal de contas tinha pedido todas as apresentações de despesas do governo para fiscalizar as contas destes. Ora aí esta outro equilíbrio de forças perfeitamente destrutivo, ó Governo, não te metas com a gente e nós não te lixamos a vida. Por outro lado, ó Tribunal de contas, não me lixas a vida e a reforma da Justiça fica adiada para depois, ok?

A própria oposição, com a disciplina parlamentar, fica sujeita aos barões dos partidos que partilham a administração de empresas e o cargo de "consultores independentes" em quanto não estão eles próprios no governo (acho que é isso a que se referem quando falam em alternância democrática).

E, termino nos jornalistas em que sempre que muda o governo mudam as caras nos jornais (porque os outros são requisitados como assessores de imprensa para o Governo) e onde todos pertencem a grupos económicos debaixo de grupos empresariais. Será ainda possível algum jornal Português fazer um artigo a bater forte na PT por exemplo? Será que tal jornalista e Editor irá manter o seu emprego durante muito tempo? Pessoalmente, acredito que não.

A Troika esta a obrigar o Estado Português a retirar da Economia. Pessoalmente acho isso muito bom mas, há países onde o Estado tem um papel ainda maior que o nosso na Economia e onde as coisas genericamente funcionam. Pois, este não é o único caminho, há outros e, apesar de não gostar de nenhum dos outros, o potencial para estragar tudo neste também é real (eu diria quase certo).

Acho que o melhor mesmo é, quando a troika sair de cá, darmos uma de TMN e despedimo-nos com o celebre "Até Já" porque, não vamos estar "Mais perto do que é importante".


confúcio explica o politicamente correcto:

"When good government prevails in a state, language may be lofty and bold, and actions the same. When bad government prevails, the actions may be lofty and bold, but the language may be with some reserve."

Nós e os outros

O Banco Alimentar contra a fome vai começar o seu habitual peditório. Mas, como este ano sabem que há pessoas que desenvolveram uma aversão à dita instituição, estão a fazer o trabalho deles e a tentar alterar a percepção pública. Até aqui, por mim tudo bem, respeito o trabalho bem feito, mesmo quando vem de tipos de marketing.

Antes de mais nada, este post não é sobre nenhuma declaração da senhora Jonet, nem sequer sobre o banco alimentar, é sim sobre um post ofensivo feito por uma senhora que claramente nada percebe de estatística e acha que a lógica deve ficar bem com batatas como acompanhamento.

Para referencia, podem ler o post Miserabilismo Português mas, para contexto, eu cito o mais relevante.

Diz a senhora Catarina Campos “Mas a maior parte das pessoas que tem surgido nestas manifestações não está nessa situação (de miséria). A maior parte, repito".
O que acho brilhante para um post que se quer a defender a solidariedade social. Então, pelos vistos eu sou hipócrita se for a uma manif protestar contra a "maconificação" do mercado, a extinção de oportunidades de crescimento profissional e a "cartelização" das empresas porque ainda tenho emprego? O facto de ver os meus colegas e amigos estarem genericamente todos pior não é causa para indignação porque eu, pessoalmente ainda tenho emprego? Se só me posso indignar com a miséria depois de ela me tocar na pele, ... bom, há uma história sobre isso que começa com "E eles vieram pelos Judeus, e eu não me insurgi porque não era Judeu".

"Não faltam a Zon ou a Meo, para poder ver as séries todas, os jogos, as notícias.
Ou as idas obrigatórias ao Optimus Alive, ao SuperBockSuperRock, ao RiR, ao Sudoeste."

Esta é igualmente brilhante e, ponho-a ao nível das velhas que reclamam com o celebre "e ainda dizem que não há dinheiro". É a falácia do terceiro excluído, negar que existe desemprego grave nos jovens à procura do primeiro emprego, que existem problemas graves nas camadas mais novas da população activa porque há outros jovens que podem ir a concertos? Se considerarmos "os outros" de um modo suficientemente grande, apanhamos, claro, imensos elementos que "provam" que aquilo é tudo um disparate. Afinal, eu acredito que os filhos (netos?) do Belmiro de Azevedo possam ir aos concertos todos que quiserem. Devem eles ficar em reclusão porque há pessoas que não têm que comer? É a senhora que participa naquele blog de algum modo censurável por andar a postar fotos em Paris quando há gente da geração dela que tem problemas graves? O facto de haver putos que podem ir a concertos, mesmo em tempos de crise é, quanto a mim, um elogio aos pais que se sacrificam de modo a poderem dar alguns luxos aos seus filhos.

Se há casos em que pessoas vão ao Alive e depois não têm dinheiro para comer? Bom, num Universo suficientemente grande conseguimos encontrar alguém que acredite ou faça praticamente tudo o que conseguimos conceber mas, tomar os casos isolados como norma é, mais do que um disparate, é um disparate puro.

Mas, a consistência continua, "Pois na minha opinião, inacreditável é a resposta dessa ínclita Geração: um boicote às Campanhas do Banco Alimentar." que é uma frase especialmente brilhante quando conjugada com um dos comentários onde referem que (à data) havia "700 e poucos" pessoas contra a Jonet no FB.
Até dou de barato tipos como o Louça pertencerem à mesma geração que os putos "à Rasca". Ó senhora, se 700 tipos em Portugal definem uma geração, então eu posso chama-la a si de puta? É que tenho a certeza que há mais de 700 senhoras dentro da sua geração que praticam essa profissão. Se é legitimo definirmos uma geração por uma amostra tão pequena, posso manda-la para a cadeia por assedio de menores? É que também tenho a certeza que houve mais de 700 indivíduos a cometerem este crime e que nasceram na mesma década em que a senhora nasceu. Ou será esta ideia totalmente parva, ofensiva e ridícula? Será que o Júnior tinha razão quando disse que era uma ideia fixe julgar um Homem pelo conteúdo do seu carácter?

Uma lei matemática é Universalmente válida, uma Lei Química é válida na Terra, à temperatura e pressão de laboratório, uma lei humana é valida no sentido estatístico, em que uma percentagem significativa da população faz ou segue algo. A história da amiga da vizinha não é exemplo de nada, é coscuvilhice e, 700 pessoas não marcam uma geração.

Nos próximos dias 1 e 2 vou dar para o banco alimentar, ... ou não, ... vou fazer o que a minha consciência (e carteira) me ditar. Não sou arrogante o suficiente para tentar impor a ninguém a minha moralzinha, ou para achar automaticamente que quem não fizer o que eu vou fazer é imediatamente uma besta sem valores de uma geração de merda (as palavras aqui são inteiramente minhas).

Eu percebo que, que a indignação é fogo que arde sem se ver (ainda mais que o amor) e, quando apanha um bocadinho de vento queima 100 hectares antes que alguém se aperceba. Por isso não altero a minha ideia previamente concebida da senhora Catarina Campos (genericamente boa) mas, este post deixou-me irritado o suficiente para escrever este e, calculista o suficiente para ter esperado umas semanas de “cool down”. Agora, ou param de me culpar pelas acções de gente cuja única coisa que têm a ver comigo é terem nascido na mesma década e/ou no mesmo país ou eu começo a pagar na mesma moeda.

Pensei em meter aqui o vídeo dos maridos das outras mas, o meu estômago não aguenta.

Leopoldina, Popota gorda ou magra?

Na tradição dos melhores serviços de informação nacionais – A CABRA junta-se à fina flor da informação nacional, lançando a discussão que efectivamente interessa. A principal diferença é que, contrariando a tradição do jornalismo de referencia que vejo por aí, tenciono lançar esta polémica 1 vez e não voltar a tocar-lhe (pelo menos, até ao próximo ano, para aí quando começar a campanha do Natal do Continente).

Mas, antes mesmo de começar a minha dissertação sobre a hipopótoma anorexica tenho de pôr o assunto de lado para perguntar que raio se passa com a comunicação social?
Eu lamento mas, já estou farto das discussões sobre a carga policial. Li os argumentos todos, que estamos de volta a um estado policial até ao só se perderam as que não bateram em ninguém e, lamento mas, não me podia estar mais nas tintas.

Tenho a sorte de ter uma colecção de armas brancas onde se incluem alguns cassetetes. Escusado será dizer que apanhei com vários no meio de malabarismos em que “I should have known better” e, consigo dizer que a esmagadora maioria de fotos que vi das vitimas da criminosa carga são tão verídicas como as fotos da referida hipopótama (qual é o feminino para um animal grande, pesado e que não faz nada senão foder tudo por onde passa? Pensei em Canavilhas mas, não sei se o AO já contempla isto). Não estou com isto a dizer que a carga policial não aconteceu, irra, acho que essa nem passa pela cabeça ao pior parvo conspiracionista (sim, hoje estou numa de inventar palavras). Estou sim a dizer 2 factos que considero óbvios eu não estive lá e, a maior parte das fotos que vi foram fakes.

Continuando na mesma senda, o facebook esteve uns dias ao rubro com um vídeo com uma entrevista que o Marques Mendes deu dia 8 de Novembro de 2012. O texto do referido vídeo era qq coisa como “Vejam depressa antes que seja retirado, bla bla bla”.
Só para começo de conversa (e saltando quase todas as piadas sobre estar à altura da situação) esse mesmo vídeo vi-o à mais de 1 ano e, foi me passado na colecção de links de alguém.

Porque raio é que as pessoas não podem ver um facto sem o tentarem “dourar” com lixo? Acham que aumentam a sua credibilidade? Acham que as palavras do Marques Mendes não valem por si só e que precisam de merdas como censura de conteúdos na Internet?

Passos Coelho foi casado com uma das doce. Dava-lhe tanta porrada que isso deu origem à canção Doi-doi.
Também ouvi esta e, se alguém consegue ler este disparate e não fazer um imediato facepalm, … diga-me como, por favor.
Sim, depois o “artigo” (posso chamar de artigo uma cena destas que só vive graças ao facebook?) continua a falar da experiência do nosso primeiro ministro e o caraças. Gente, ... o Curriculum do Passos Coelho vale por si. Não precisa de ser enfeitado com cenas parvas e tristes que só dizem respeito ao dito, à sua mulher (e à ex.) e, quanto muito à policia. Eu não estou farto do gajo porque ele bateu na mulher, … eu estou farto do gajo porque sou fodido à canzana e nem um jantarzinho ou um cinema tive direito.

Hoje é dia internacional de não dar enxertos de porrada nos filhos. Confesso que não percebo a ideia de haver um dia destes. Será que isto serve para lembrar às pessoas que, se souberem de crianças espancadas o devem reportar à Seg. Social? Curiosamente acho a ideia apenas ligeiramente menos ofensiva do que haver um dia em que não se deve espancar as crianças, …
Ou será que esperam que, ao saber que há este dia as criaturas que o fazem repensem a sua vida?

As bancadas parlamentares do CSD e do PSD conseguiram negociar com o governo uma redução de 0,5% da sobretaxa do IRS.
Sim, leram bem, a cena de lavar a roupa dentro de casa não só esta efectivamente morta como não vi nenhum jornalista a perguntar se isto não era uma manobra de marketing descarada que só fazia perder tempo. Lamento mas, não consigo respeitar que esta redução tenha vindo do próprio partido do governo e, tenha sido pública. Eu esperava que as bancadas do CDS e do PSD tivessem participado na elaboração do orçamento, não que viessem depois dar uma de externos. Afinal, eu sou sem qualquer dúvida o gajo mais inteligente que participa nos meu monólogos, …

Pois, fico-me mesmo pela polémica da Leopoldina que foi do mais interessante da semana passada.

para que serve uma greve?

As greves suspendem o acto de trabalhar. Têm por isso primariamente um impacto económico, e só em menor grau um impacto político, que é pouco mais que o da repercussão mediática que a greve pode ter e do seu eventual impacto na opinião pública, nacional e internacional.

A opinião pública internacional importa pouco ou nada para países pequenos como Portugal.
Não influencia grandemente a nossa balança comercial com o exterior, que anos de campanhas e rios de dinheiro a promover uma "marca Portugal" não conseguiram fazer. E não influencia nada a nossa política externa, que é cada vez mais condicionada por acordos internacionais e por questões comerciais do que por reais opções políticas ou por qualquer género de "prestígio" dos países.
O "prestígio" dos países, quando muito, dá desculpas para coisas como "ah, vamos subir-vos as taxas de juro nos empréstimos novos, que parece que vocês andam por lá a fazer greves e pode ser que não nos paguem". Mais uma vez, uma questão económica.

A greve tem efeitos quando mostra a existência de real poder dos trabalhadores perante o patronato.
Destina-se a levar o patronato a negociar ou a ceder às exigências dos grevistas.
Produz efeitos quando o patronato cede por comparação do custo económico da greve com o custo de implementação das medidas.

O que significa que a greve tem tanto mais impacto quanto maior for o potencial dano económico que pode provocar.

Mas também significa que a greve só é eficaz como arma contra quem se sinta lesado por esse dano económico. E é especialmente eficaz como ameaça, como moeda de troca numa negociação.

As greves não funcionam como instrumento contra o Governo.
Uma greve geral, num contexto em que não há negociação, não funciona como instrumento contra o Governo.
Uma greve geral, sem reivindicações concretas, não funciona.

Porque o Governo não é prejudicado economicamente pela greve. O País é, o Estado é, mas o Governo não é. E no momento de crise que o país atravessa, não é mais um dia ou menos um dia de greve que vai fazer o Governo subitamente ficar preocupado com o custo económico da greve. O problema, infelizmente, é muito maior que isso.

E a greve acaba por prejudicar toda a gente, menos o Governo.

Volto a dizê-lo. Uma greve geral sem reivindicações, sem ser uma peça no contexto de uma negociação, não funciona contra quem se limita a gastar dinheiro que não é seu.

A menos que seja apenas uma demonstração de força.
A menos que seja apenas o prelúdio de outra coisa.

não quero que um alemão me amarre e me espanque com uma raquete de ping pong

Ainda bem que não mostrámos aos alemães o vídeo em que damos abracinhos aos polícias e dizemos que aquilo é que é o Portugal real.

Senão, depois de ontem, corríamos o risco de eles ficarem com a impressão que nós gostamos todos é de BDSM.
E eu não gostava nada que eles ficassem com essa impressão minha.

hereditariedade

Há uma tendência para as profissões se perpetuarem ao longo de uma linha familiar.
Não é determinística, de longe, nem mandatória, mas é uma tendência que faz haver médicos filhos de médicos, advogados filhos de advogados, agricultores filhos de agricultores.

Hoje passou-me isto pela cabeça, isto e o facto de a igreja católica estar preocupada por haver escassez de padres.

descubra as diferenças - um post para pensar nisto

Figura 1

Tenho uma quinta, tem dez sócios.
São eles que entram com o dinheiro.
Precisamos de um caseiro. Abrimos uma espécie de concurso, aparecem candidatos.
Cada um apresenta, conforme pedimos, um plano de actividades e de trabalhos.
Votamos entre nós para escolher um.
Escolhemos, contratamos, a termo, a 4 anos.
Damos-lhe um orçamento para gerir que somos nós que definimos. A votação desse orçamento é separada e ele não intervém nela. Obviamente não pode endividar a quinta, nem ficar a dever, nem pedir empréstimos, Isso temos de ser nós.
Estabelecemos objectivos que são os que estavam no seu plano de actividades.
Se ele achar que tem de mudar os objectivos e o plano de actividades a meio, isso carece da nossa aprovação, e voltamos a ir a votos para aprovar ou não.
Se ele não cumprir o plano de actividades, ou se for mau profissional, cessamos o contrato de trabalho, unilateralmente, e voltamos a abrir concurso.
E não lhe pagamos indemnização por incompetência, sorte tem ele se não o processarmos por danos, se os houver.



Figura 2

Tenho um país, tem dez milhões de sócios.
São eles que entram com o dinheiro.
Precisamos de um governo. Abrimos uma espécie de concurso, aparecem candidatos.
Cada um apresenta, conforme pedimos, um plano de actividades e de trabalhos.
Votamos entre nós para escolher um.
Escolhemos, contratamos, a termo, a 4 anos.
Damos-lhe um orçamento para gerir que é ele que define. Não há votação, nem o orçamento estava submetido a escrutínio, é definido por ele a priori, e temos de contribuir com o dinheiro que ele entender.
Ele fica com plenos poderes para endividar a quinta, comprar o que quiser e ficar a dever, pedir empréstimos. Sem nossa autorização.
Não há objectivos nem gestão por objectivos. O plano de actividades não é vinculativo.
Se ele achar que tem de mudar os objectivos e o plano de actividades a meio, muda, sem nos perguntar nada, sem qualquer tipo de aprovação.
Se ele não cumprir o plano de actividades, ou se for mau profissional, aguentamos, sempre connosco a pagar. Parece que é ele que manda, que ele é que é o patrão e nós somos os empregados. E ainda nos diz que se não gostamos, podemos sempre emigrar.

a sopa é minha e fui eu que a paguei sem pedir dinheiro a ninguém

Há um argumento que nunca admiti:

Que tenho de comer a sopa toda porque há meninos a morrer de fome do outro lado do mundo.

Se alguém me conseguir explicar como é que o facto de eu comer a sopa ou não ajuda ou prejudica alguém que não eu próprio ou a minha família, cheguem-se à frente, que até hoje ninguém conseguiu.

estava capaz de dizer que...

quem, simultâneamente,

1. Se queixa do Governo mas ainda paga impostos em Portugal

e

2. Vem dizer que vai deixar de dar para o Banco Alimentar por causa das declarações da Isabel Jonet

é, pura e simplesmente, um hipócrita.

"o desemprego é uma oportunidade", diz ele...

Hoje deu-me para meditar um par de minutos nas palavras do nosso Grande Pastor.

A metáfora que me vem à cabeça para isto do Grande Pastor é o "though i walk through the valley of the shadows of death I shall fear no evil, because the Lord is my shepherd", que é coisa que vem à cabeça das pessoas quando numa família estão os dois desempregados e aparece o IMI para pagar.

Claro que resulta mal quando o "pastor" afinal é um coelho, que não só é gado que não percebe de rebanhos como se caracteriza por roer tudo, foder o que apanha e cagar às bolinhas.

Mas chega de preâmbulos. É que já há seis meses que o o nosso pastor nos disse que afinal o problema do desemprego é só falta de iniciativa.

E na verdade iniciativa há muita, vejam-se os exemplos desta senhora americana que inventou um bem sucedido serviço de dormir com pessoas sós, ou nesta inovadora empresa de limpezas, ou, mais perto da nossa porta, os serviços de acompanhantes que não dormem nem limpam, como são os casos da D. Cris Ventura, da D. Sissi Suzuki, e da D. Natasha, três exemplos de iniciativa que demonstram que Portugal tem espaço para todos os empregos que quisermos, desde que as pessoas sejam criativas.

Pois.

Buzine, pela minha saúde

Espreguiço-me de um modo espampanante na cadeira e levanto-me até à máquina de café, pelo caminho, dou uma boa coçadela ao instrumento e solto um sonoro arroto, volto-me para os meus colegas de trabalho e comento entre uma gargalhada com o volume no máximo que "o ar quer-se cá fora e não lá dentro, certo?"

Ao chegar cá fora, cuspo uma verdosca bem fundo do meu ser e chamo toda a gente que calmamente bebe o seu café matinal para apreciar os maravilhosos tons da minha criação espectural.

Ok, agora que já deixei toda a gente agoniada, acho que perceberam a ideia mas, que se note que, tanto quanto sei, nada disto é ilegal. A malta aqui do jurídico pode confirmar mas, apenas vi que cuspir para o chão é punível com uma multa de até 2 escudos e cinquenta centavos. Pelo que, se não é ilegal, pode se fazer, certo?

Claro que não, e, retórica estúpida à parte, felizmente, a maior parte de nós não faz coisas destas e, a razão disso é a critica (ou pressão) social (AKA educação).

Uma maneira mais interessante é ver a falta dessa critica social e as suas consequências. De repente, alguém decidiu que buzinar era feio, mal educado e, nunca se viu tanta barbaridade ao volante quanto agora. Chegámos mesmo ao ponto em que deixar o carro em segunda fila é um direito, fazer piscas é opcional e, deixar o carro a tapar uma garagem é culpa do proprietário da dita.

E, estas coisas têm tendência a alastrar. Desde o Fernando Nogueira e a triste desculpa que tal criatura deu quando foi o caso das OGMA e dos helicópteros (para quem se lembra) até aos mais recentes Audis como "custo da democracia", o caso Relvas e a licenciatura relâmpago, etc, etc.

Há dobras que uma coluna direita nunca consegue fazer e, uma coluna torna nunca consegue estar direita. Assim é com a moral e, não é com Heróis que se levantas as morais dos países caídos, é com critica social.

Daí ser tão importante as manifestações, ser de aclamar os tipos que insultam os nossos políticos na rua, e, ser de mandar um "thumbs up" à fila de carros que têm que circundar a criatura mal estacionada para deixar sair a madame mas, que o fazem com a mão na buzina, de quem pergunta à mamã que para à porta da escola para levar o menino lá dentro se quer que lhe arranje um lugar dentro da sala de aula.

O Mayor de Nova York (o antigo, o que dizem que era da Mafia) percebeu isso e, os resultados foram impressionantes, falta expandir, entretanto (e para me desculpar do começo algo nojento, fiquem-se com a parte humorística da coisa


E, Denis Leary fica sempre bem :)


volta, Stephanie Meyer, estás perdoada!

Por vezes é o nosso próprio feitio que nos trama.
Quase sempre, aliás.

Tenho um péssimo hábito, que me limita imenso na minha vida, que é o de não dizer mal de coisas que não li, não vi, não ouvi, não experimentei.

Talvez por isso não tenha nada contra a homossexualidade masculina***. Nunca levei no cu, não me pronuncio. Só não consigo é perceber como é que gostam de homens, mas isso é outra conversa.

Ora nada disto quer dizer que sinta qualquer género de interesse em ir experimentar tudo só para saber como é, ou para poder dizer mal. Voltando ao mesmo exemplo, não estou minimamente interessado em ser sodomizado por um senhor só para poder dizer se é bom ou não.

Mas passando ao tema de hoje:

Está meio mundo a dizer mal do livro da moda, 50 Shades Of Grey, outro meio a lê-lo, e outro meio a fingir que não sabe do que se trata porque associa isso a um fenómeno de pobres*, como a telenovela.

Li as críticas. Li excertos. Detestei. Achei que era um livro básico, com uma escrita desinteressante, repetitiva e desconexa, com um recurso entediante às mesmas metáforas uma e outra e outra vez, com uma esquizofrenia de discurso narrativo que nos faz pensar que a narradora são duas pessoas diferentes, e que ainda por cima se percebe que isto não é feito de propósito, e com monólogos interiores da narradora que eu achei que seriam coisa para experimentar em vez de azeite com mostarda e clara de ovo da próxima vez que precisasse de vomitar e nao conseguisse.

Mas lá se me levantou o meu próprio monólogo interior, que também consegue ser um pequeno cabrão quando lhe dá para isso, e que me disse "lá estás tu, pá, a querer dizer mal de uma coisa que nem sequer leste".

"Ai é? Resolve-se já!", foi a resposta que lhe dei no calor da discussão. E percebi logo que já me tinha lixado.

Eis portanto que dei por mim a ler o 50 Shades Of Grey.

O livro lê-se surpreendentemente bem, como aqueles canais no YouTube de vídeos de pessoas a cair para cima de bolos e a escorregar na lama de vestido de noiva, e em que damos por nós a clicar no vídeo seguinte. Caí num desses uma vez e consegui arrancar-me do transe e parar de clicar só quase meia hora depois. Jurei para nunca mais. Mas já vi, portanto já posso dizer mal se quiser. E aprendi nessa altura que as pessoas do telemarketing da PT - que me me ligam com frequência, como se fossem velhos amigos - só ligam às horas erradas. Meia hora de vídeos daqueles, e nem um ligou para me interromper e me salvar.

Mas voltemos às Shades Of Grey.
Lido o livro, achei que era um livro básico, com uma escrita desinteressante, repetitiva e desconexa, com um recurso entediante às mesmas metáforas uma e outra e outra vez, com uma esquizofrenia de discurso narrativo que nos faz pensar que a narradora são duas pessoas diferentes, e que ainda por cima se percebe que isto não é feito de propósito, e com monólogos interiores da narradora que eu achei que seriam coisa para experimentar em vez de azeite com mostarda e clara de ovo da próxima vez que precisasse de vomitar e nao conseguisse.

Eh pá, eu achava que o Twilight era mau... achava que a Corin Tellado escrevia repetidamente as as mesmas frases e fazia livros diferentes com aquilo, e que isso era mau.

50 Shades Of Grey é melhor que muita fan-fic que por aí anda. É. É melhor do que muitos autores publicados que por aí andam. É, embora isso seja mais um demérito para esses autores e para os seus editores que um elogio à senhora James.

Quanto à história, é a soma de todos os clichés que se possa pensar, salvo um ou dois.
Já toda a gente sabe a história portanto nem vale a pena falar nela, mas encantam-me particularmente os lugares comuns "menina virgem e pobre encontra príncipe encantado solteiro, lindo, inteligente, divertido e rico", "ele é misterioso porque tem traumas que não lhe quer contar, mas ela vai descobrir" e "ele tem problemas que fazem dele uma pessoa diferente do que ela gostava que ele fosse, mas ela vai ajudá-lo e vai mudá-lo". Autêntica caixa de ressonância daquilo que é um certo imaginário feminino pós Corin Tellado, em que essa certa mulher, libertada, já não anseia simplesmente "ser salva" mas sim "salvar", para então "ser salva".

Mas isso não interessa nada, falemos de coisas importantes.

50 Shades Of Grey é vendido e apregoado como livro "erótico".

A literatura erótica actua de uma forma específica, sobre um órgão sexual chamado "cérebro".**
Funciona de forma indirecta, actuando sobre a imaginação do leitor.
Só na literatura "erótica" é possível assistir a um acto sexual inteiro sem ter a mínima noção do tamanho das mamas da gaija nem se o pénis do gaijo é grande ou pequeno. (Ela diz que é grande. Mas ela é virgem. Sabe-se lá o que é a noção de "grande" de uma mulher que a coisa maior que já enfiou na vagina foi um tampão?)

Claro que isto é um truque. Ao não descrever a protagonista, a autora permite que qualquer mulher se identifique com ela, seja gorda ou magra, tenha as mamas grandes ou pequenas. A própria self-image da protagonista é o cliché da imagem que grande parte das mulheres tem de si mesma. Normal, banal, cheia de defeitos, comparada com a melhor amiga que é linda e deslumbrante.

50 Shades Of Grey não é erótico. É pornográfico. É pornográfico na forma como é construido para dissimuladamente permitir a identificação da leitora com a protagonista, a idealização física de Grey de acordo com as fantasias de cada um.

É pornográfico na forma como explora o BDSM em todo o seu cliché de lado "proibido" da sexualidade, de lado "vedado" à maior parte das pessoas, de coisa em que se entra porque alguém nos arrasta para ele, porque somos frágeis, e que quando estamos lá dentro nos "prende" e nos "estraga".

É pornográfico na maneira como utiliza os clichés para levar os leitores pelo caminho mais fácil.
Pela maneira como não os faz pensar. Não os faz questionar. Não os faz pensar fora daquilo que estão a ler.

É talvez o que distingue a literatura de um simples texto escrito.
A literatura produz em nós emoções e idéias novas, idéias próprias, idéias que são o que o nosso cérebro produz com o material que o escritor nos dá.

Por isso é que um manual de instruções de uma torradeira não é literatura, e não o pretende ser.
Pretende transmitir-nos indicações precisas e concretas, que passam do autor para o leitor sem produzir novas idéias e novos conceitos e novas sensações que nem o autor teve. E ainda bem, não se quereria as pessoas a tentar as torradeiras de formas próprias, individuais e criativas depois de ter lido o manual.

A pornografia é a manipulação imediatista da libido, através do uso de imagens, linguagens e fórmulas sexualmente sugestivas, de uma forma explìcitamente deliberada para provocar excitação sexual no leitor.

O objectivo da pornografia é, como nos manuais de instruções, o oposto da literatura. A pornografia é para ser tomada pelo valor facial. Se se diz que ele lhe "enfia o caralho na boca", não é para ficarmos a pensar no sentido metafórico disto, nem no valor simbólico do acto de fazer um broche. Pornografia não é literatura.

Do ponto de vista do texto, frase a frase, 50 Shades Of Grey é pornografia porque não está escrito para fazer ninguém pensar.

O problema é que a pornografia é suposto dar tesão. E 50 Shades Of Grey dá pouca tesão.

Mas um livro, dirão, é mais que o texto, é uma mensagem e uma história. E 50 Shades Of Grey não tem uma mensagem e uma história? Tem, mas é conseguida inteiramente à base de clichés. A relação de uma mulher mais pobre com um homem mais rico. O aceitar ou não de presentes, quando ele por um lado lhe diz que quer ter uma relação puramente sexual com ela e ao mesmo tempo lhe compra prendas caras. Aqui está um tema importante a explorar. E como lida o livro com ele? Ela resmunga um bocado, cala-se durante uns tempos, acaba por lhe dizer que sente que ele lhe está a pagar como se ela fosse uma puta, ele diz-lhe que não é nada disso, e a coisa acaba aí. Realmente não dá muito que pensar.

O mais importante de 50 Shades Of Grey é o que não tem a ver com 50 Shades Of Grey.
E é na verdade essa a razão fundamental que me leva a escrever sobre isto.

O mais importante de 50 Shades Of Grey é que, talvez pela primeira vez, um livro com um tema abertamente sexual atinge um público mainstream. E é isto que é novo. E atinge-o porque faz um bypass completo aos canais tradicionais de publicação. É algo que vem da fan-fiction, que começa a ser publicado num site, em capítulos, que só depois se transforma num livro, que é editado por uma editora online, que só é detectado e percebido pelas grandes editoras quando já tomou proporções que ninguém pensou atingíveis.

50 Shades Of Grey tem este grande mérito, o de mostrar que é possível atingir sucesso comercial em grande escala passando completamente ao lado dos gigantes da edição comercial.

Já tinha acontecido com a música.
Aconteceu agora com os livros.
Será mais difícil acontecer com o cinema apenas porque (ainda) é necessário mais dinheiro para fazer um filme, mas lá chegaremos.

A relação entre autores e leitores, entre produtores e consumidores está a mudar, a tornar-se menos mediada, a tornar-se mediada de uma forma diferente. Quem não perceber isto e não se adaptar vai definhar e desaparecer. Por mais que use os lobbies para adiar o facto.

50 Shades Of Grey continua a ser um mau livro, mas tem o mérito de demonstrar isto.

A dúvida, a grande dúvida, é se isto não é o princípio do fim da literatura.


* pobres/incultos/palermas/básicos/que não sabem o que é bom/deviam é ler Ezra Pound ou Delany ou Djuna Barnes/whatever

** que se situa na cabeça, caso alguém não esteja bem a ver o que é. Não, não é esse, esse é a língua. Isso. O outro.


*** estava aqui escrito "não tenho nada contra os homossexuais masculinos", o que é verdade mas não era o que que queria ali dizer. E não, também não tenho nada contra os homossexuais masculinos, ou femininos, ou contra seja quem fôr, e acho que o conceito em si - ter alguma coisa contra alguém por características individuais ou por opçoes que ele tomou e que não me impactam ou influenciam - é uma estupidez.


ah, e li o livro em inglês, portanto não sei se a tradução portuguesa está bem feita ou não. o título tem uma tradução duvidosa, que parece resultar bem e ser um bom título - antes de se ler o livro; depois de se ler o livro parece uma tradução feita por um gabinete de marketing que não leu a obra. e se calhar é. e se calhar têm razão. lê a obra quem já pagou. e o importante nisto é vender livros...

Afinal aquilo da berlaitada era só um aperitivo

Tentei, eu tentei, trazer para a discussão a Saúde Escolar e a possibilidade da criação na escola, como há em muitas outras, de um gabinete de apoio médico que funcionasse em articulação com o Centro de Saúde mas fui completamente cilindrada por qualquer coisa a que não quero chamar tacanhez e muito menos estupidez mas a que não posso chamar outra coisa sob o risco de estar a fazer uma avaliação menos correcta. É que assim que referi o facto de duas alunas da escola terem engravidado fui completamente esmagada, e emudecida, pela pergunta mais pertinente de todas:
- E sabes onde é que engravidaram?

I rest my case.
(Sim, achei que se referisse que na última secundária por onde as minhas filhas passaram o gabinete de apoio médico facultava preservativos e pílulas recuperariam o tal potro da inquisição e só sossegariam quando fosse queimada como bruxa no pelourinho mais próximo)

(E, já agora, dou por mim a pensar que ainda bem que as miúdas já cresceram e já não andam pela escola a dizer "a minha mãe é a cabra de serviço". Deus me livre!)

frases simples para um país em crise (I)


It was Braque who said about four years later when they were all beginning to be known, with a sigh and a smile, how life has changed we all now have cooks who can make a soufflé.

Gertrude Stein, The Autobiography of Alice B. Toklas