Já que falas nisso

Fizeste-me lembrar outra história, que li há tempos e que nem queria acreditar...

(por favor, dêem-se ao trabalho de carregar no link, pois não consigo reproduzir aqui a imagem, tal como está lá)

6 comentários:

tereza disse...

Esta história da sede da PIDE lembra-me sempre Berlim.
Quando lá cheguei, doida por meter o nariz em tudo, não vi quase nada. O muro já não existe. Por cima do bunker do Hitler há um empreendimento de luxo e é quase um segredo a sua localização. Restam muito poucos sinais da história.
Uma das noites que lá passei fui à "Estação das Lágrimas" (já não me lembro do nome em alemão). Chama-se assim porque era a estação onde embarcavam os poucos alemães democratas que tinham autorização para passarem para o Ocidente, mas com um bilhete só de ida. A família ia despedir-se ali e o nome está justificado.
todo o edifício continua como era, com as guaritas dos guardas, o guichet para cambiar a moeda e a enorme e horrível sala de espera em betão. E, nessa sala de espera, faziam na altura espectáculos de stand-up-comedy.
Catársico, talvez.
Explicaram-me, berlinenses, que a história devia seguir em frente e que as vergonhas não deviam ficar expostas. Tudo o que era mau devia ser destruído.

Não sei onde está a razão. Neste caso, no da sede da PIDE, acho vergonhoso o branqueamento. Não acho mal terem reconstruido e seguido em frente.

calamity jane disse...

Também quando fui ao Tarrafal fiquei estarrecida por perceber que ninguém (e quando digo ninguém quero dizer ninguém mesmo) sabia dizer-me onde era o antigo campo de concentração. Perguntei de várias maneira, a novos e velhos. A resposta mais aproximada que consegui foi "Ah, isso deve ser ali ao pé da (ou na, que já não me lembro com precisão) escola". E era. Cheguei a pensar que me tinha enganado na localidade e que certamente haveria algures na ilha outro Tarrafal...

shark disse...

A malta come muito queijo. Só acordam quando já lhes pesa a canga no pescoço...

escarlate.due disse...

não Calamity, não existia outro (até porque um já era mal que chegasse...)

e concordo Teresa que a vida segue e não fica presa à história que está atrás mas... pode seguir sem que a esqueçamos para que não se cometa a mesma borrada (para não chamar outra coisa)
mas talvez a memória seja proporcional à cicatrizes que se tem e portanto quem as não possui porque se manteve comodamente sentado à espera que os outros resolvessem, falta-lhe memória... sendo assim, espero que nunca 1 cicatriz lhes seja tatuada para lhes avivar a dita

tereza disse...

escarlate, pareceu-me um pouco violento, não?
Não disse que devíamos esquecer. Disse sim que a história segue e não sei qual a melhor forma de lidarmos com horrores.
Como já disse o bunker do Hitler foi destruído. Por vergonha, mas também para evitar que se transformasse num local de culto. Não sei que deveria ter sido feito com a sede da Pide.
Se eu nunca a conheci por dentro, o meu pai conheceu. Talvez não seja um local muito simpático para mim, não acha?
Mas quer pior que a sede da Pide? Diga-me quantos Pides foram julgados e condenados por tortura. Quantos foram presos. Quantos informadores denunciados.
Talvez seja essa a grande qualidade dos portugueses - a capacidade de perdoarem e de integrarem. Talvez seja o grande defeito.

Uma história curta. O avô de um dos meus melhores amigos, padrinho de uma das minhas filhas, era Juiz. Foi ele que ditou a sentença que levou Mário Soares até ao Tarrafal. Anos depois do 25 De Abril Soares visita a terra Natal do juiz e reconhece-o no meio da multidão. Sai do carro e vai cumprimentá-lo.
Acha que também nele fez-lhe falta a tatuagem para não esquecer?

escarlate.due disse...

perdoe-me Teresa, em tudo o que escrevi não pretendi discordar do que disse e que agora reforça e muito menos pretendi ser violenta.
temo, aliás, que o próximo "abril" venha com outras coisas que não cravos...

tem razão, por vezes a minha mão não é tão veloz quanto o meu pensamento e fica registado algo que não é o que pretendo transmitir.

concordo que não deve ficar para local de culto mas entendo que deve ficar como local de história e nunca ser transformado em local que intecionalmente leve ao esquecimento.
e sou sensivel a essa palavra "esquecimento" porque me incomoda profundamente que jovens portugueses vejam no 25 de abril apenas 1 feriado e desconheçam de todo que ele possa ter libertado da tortura o seu avô, seu pai, seu irmão...

não Teresa, não acho que lhe faltasse tatuagem, porque tenho mais certeza do que gostaria de ter, que não lhe faltam...
estou certa que a memória do avô, do seu amigo, dos respectivos filhos e dos seus também Teresa irá perdurar por muito e longo tempo porque as cicatrizes de alguma forma estão lá e ainda bem que não se apagaram. Outros há que só entendem quando as cicatrizes são literalmente tatuadas na sua pele e eu desejo mesmo que nunca cheguem lá.
permita os meus cumprimentos ao "avô" (ainda é vivo?)porque a vida segue, deve seguir e tem de seguir, manter a memória não é equivalente a alimentar ódios.

consegui agora transmitir claramente a minha opinião?