Clássicos II

Está frio.
Dizem!
Vejo as imagens da chuva, e da neve, e do granizo, e do sincelo (e isto, sabem o que é?) e lembro-me do que era ter frio. Frio a sério e não este frio maricas de que me queixo agora.
Por aqui o frio é como tudo o resto, vem de passagem, em turismo, e não chega a fazer cama. Uma lareira acesa, uma camisolita de lã e estamos conversados no que toca a frio. Não há gorros, nem luvas, nem cachecóis, nem casacos em cima de casacos. E não há, graças a todos os deuses e mais um, pijamas de flanela, botas de dormir (escarpins... até o nome é mau!, escarpins...) ou botijas de água quente. E também não há camisolas interiores. Meu Deus, como odeio as termótebes.
Aqui não temos as mãos gretadas com frieiras nem os lábios rachados e a escorrer sangue. As caras não andam vermelhas e os pés não passam a apêndices que se deixam de sentir. De manhã não custa muito sair da cama, o banho não é um tormento, a água não gela nos canos, o saco com os fatos de banho está arrumado mas à mão de semear e as camisolas de alças nunca saem das gavetas do quarto.
Mas hoje lembrei-me de como era ter frio. De como de manhã, a caminho do liceu, o vento nos cortava a meio e entrava pelas mangas dos casacos que ainda não eram kispos, os lençois da cama pareciam molhados (lembras-te Tab@sco? "o que mais me custa é isto... é isto... é isto??!!..." e os teus pezinhos sem conseguirem chegar ao fim dos ditos lençois gelados numa cama, ó espanto!, feita à espanhola...), não tinhamos polares e as camisolas tricotadas à mão, em lã escocesa, não aqueciam quase nada, e as casas nunca estavam quentes o suficiente.
Hoje lembrei-me da casa da minha mãe e das dezenas de aquecedores espalhados e do frio que tinha sempre. Na sala de jantar havia um aquecedor por baixo da mesa, outro ao lado e na outra ponta a lareira acesa e um aquecedor a gás. Quente? Nem pensar. As costas estavam sempre geladas e uma ida à cozinha, com outro aquecedor ligado, era como mergulhar no mar do Norte. Os corredores eram gelados, os halls eram gelados, as casas de banho eram geladas, a vida era seis meses gelada. Usavam-se collants por baixo das calças de fazenda, o que provocava o imediato tolhimento das pernas, e camisolas tipo casca de cebola. Vestir um casaco por cima, para ir à rua, implicava que os braços deixavam de poder ser dobrados e ficavam com uma abertura de 45º o que, aliado à pouca flexibilidade das pernas, nos dava um ar de mortos-vivos a soprar vapor pela boca.
Porque me lembrei disto? Porque o Natal vem aí, e vem com a velocidade do costume, desabrido, que ainda ontem era Verão, e eu vou ter que ir até ao frio. Espero conseguir sobreviver, mas pondero sériamente baldar-me à Missa do Galo. É que não sei se um encontro de zombies será a melhor forma de matar saudades de quem não vejo há muito tempo.

34 comentários:

Anônimo disse...

belo texto, fizeste-me sorrir debaixo do meu capuz de algodão e colete de penas de ganso,e fizeste-me comentar, coisa que também não estava à espera,

gaija do norte disse...

(andas desaparecido :) )

lembro-me disso tudo tão bem... da casa cheia de aquecedores por todo o lado, do tormento que era a hora de ir para a cama e dos sete cobertores que me esperavam. de sair para as aulas de cachecol, luvas e uma montanha de camisolas. e continuo a gostar do frio.

teresa disse...

(pois andas... estás zangado comigo??)

Nem me lembrei dos sete cobertores e do difícil que era dar uma volta na cama.

gaija do norte disse...

também tinhas? daqueles de papa que ficavam no meio dos outros porque escorregavam e picavam tanto que não podiam ficar junto aos lençois...

teresa disse...

Claro que tinha. Junto aos lençois, que nunca, mas nunca eram de flanela, porque isso seria a degradação suprema..., punham-se os cobertores de lã. A seguir, e por camadas, o da papa, dois deles dobrados ao meio para fazerem mais peso. Terminava com uma colcha de algodão. Em dias de doença tinhamos licença para usar o curpiér (não faço ideia como se escreve, sempre lha chamámos isto...) que era uma manta de pele, a lá de casa tinha desenhos em castanho, branco e preto, com pêlo alto, não faço ideia de que animal, mas era um pêlo sedoso, liso e comprido, forrada de seda e pesada como tudo, guardada normalmente no guarda vestidos do quarto da minha mãe. Acho que ainda existe e é das coisas que mais me faz lembrar a minha infância.

gaija do norte disse...

lembro-me de uma coisa assim, mas era uma capa que atava com fitas de seda. não me lembro do nome. sei que detestava aquele forro frio!

Gabs disse...

Pois era, os collants de malha por baixo das calças de fazenda que picavam. E uns gorros, luvas e cachecois que me faziam. Ainda bem que agora há estes kispos leves e umas camisolas Quechua, tudo muito levezinho. Mas eu ainda uso botijas. Duas. E um cobertor em cima do edredon. E vou pôr janelas duplas que hoje choveu granizo.

teresa disse...

Não me perguntes porquê, mas sempre ouvi dizer que granizo e neve eram sinais de que a temperatura ia subir, por isso não te preocupes muito com as janelas que isto passa...

Anônimo disse...

não estou zangado, fico meio triste de chuva e andei a escrever pesado,

com o céu em cima da tola

O Santo disse...

(nunca, mas nunca escrevi isto...)

eu tive umas ceroulas quando era miudo.

Anônimo disse...

uma kpk é pa mim:

Sol, já fiz a minha parte que tinha prometido, agora és Tu!

para já voltas senão eu morro e depois ficas tu a morrer de saudades, além de que tenho que levar muita roupa e pôr a secar, e a seguir arranjas-me uma coisa qualquer que dê para ir ao Brasil ou a Cuba ou assim, pode ser só 10 dias por exemplo, com olho científico também ok, senão faço uma birra que até te dá um eclipse

Anônimo disse...

Jupiter pai conto contigo também, só uma pata para eu agarrar, depois eu largo e podes voltar para as garinas do Olimpo,

vá lá que chuva é riqueza também

teresa disse...

(eu nunca escrevi isto)

AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH

gaija do norte disse...

(o que eu dava para o ver de ceroulas...)

teresa disse...

Tu cála-te, que eu ainda não parei de rir...

gaija do norte disse...

òbalhamedeus...

imagina-o numa noite mais acalorada a tirar as ceroulas... e a ficar em calçonitos berdes...

(de que cor seriam as ceroulas?)

teresa disse...

Tirar?? Aquilo não é para tirar nem com os calores, que pode haver uma corrente de ar e constipa qualquer coisa. Para que achas que serve a braguilha?

gaija do norte disse...

eu não sou paga para achar!



(que horror...)

teresa disse...

esta não foi mesmo das tuas frases mais felizes..

tab@sco disse...

Que incrível cobertores de papa, o maior suplicio ao cimo da terra...picavam como tudo e eram de um peso asfixiante. E vocês nunca usaram umas camisolas interiores (antes das termotébes) que picavam brutalmente? Eram assim de uma especie de algodão de cor cru com 3 botões à frente e eram piores que 30 colchões de faquir! E as calças de tweed, outro inferno!
Confidencia intima : em casa da minha avó, nos Natais e quadras afins, calhava-me sempre em sorte dormir com a minha prima mais nova, ambas soterradas no cobertor de papa. Ora bem essa prima adorada, tinha o hábito de se largar mas nos aconchegavam e acreditem que (mesmo depois de atirar os cobertores para trás em grande algazarra, e abanar tudo) de manhã ainda cheirava. Isto é, fiquei para sempre (mais ou menos porque entretanto depois de muito pensar concluí que ela o fazia repetidamente depois de adormecermos)convicta de que os cobertores de papa absorviam os odores durante horas! Olha outro odio, cobertores de papa!

Anônimo disse...

ora, issso é uma viagem espacial, gosto muito de brincar assim (mas só quando já tenho confiança, palavra chave na economia e nouros assuntos - uma vez éramos 4 numa tenda e uma chispalhada pôs tudo a dormir de cabeça de fora, menos eu que chorei a rir até engasgar)

teresa disse...

Com conversa dessa se aparece aqui a gaija estão lixados...

gaija do norte disse...

masquéstamerda? ca noijo de conversa! eu até podia fazer de conta que não percebia do que estavas a falar, tab@sco, mas a idade já não mo permite! há alguma necessidade de falar nas intimidades seja de quem for?

e tu z, pareces o meu irmão, que tinha a mania dessas graçolas na tenda! pior do que isso, só quando começava a cantar julio iglésias...

teresa disse...

e cantava Julio Iglesias como? É que eu tenho um amigo que fazia umas musiquinhas assim, com "ventosidades anais"... (um dia conto a história das ventosidades anais e do Acordão da Relação)

gaija do norte disse...

nada disso, ele cantava mesmo.
uma vez em tavira, na ilha, já não me lembro bem da história porque era muito tarde e estava muito escuro, mas sei que chegamos à tenda a seguir um: oi dáqui párá iá, dé iá párá cá... não faço ideia do que quer dizer, nem se o dialecto existe, mas a música era do julio iglésias.

teresa disse...

Gaija, o quê?? dáquiráondéedeondépráquelado? Ai, tu não me faças rir mais...

gaija do norte disse...

olha, até o youtube encrava á procura de semelhante coisa. não te consigo explicar melhor do que está lá em cima! um dia peço ao meu irmão para cantar para ti.

Anônimo disse...

hum, acho que me dava bem com o teu irmão, mas agora é xonar e é melhor não me entusiasmar,

isto da chuva sai caro, hoje foram 7 mon chéri's à falta de tortas

teresa disse...

o teu irmão a cantar para mim??? coisa estranha..

gaija do norte disse...

estranho não sei porquê, mas assustador é. garanto!


estás a olhar bem para mim, z? o meu irmão é igual a mim e completamente diferente.

teresa disse...

é a parte do assustador que me arrepia

gaija do norte disse...

não é caso para arrepiar. conseguimos sempre que se cale antes de enlouquecermos!

Anônimo disse...

hum, devia resistir a esta aqui mas não consigo,

é da chuva

mas eu acho-te simpática vai daí vi-me a rir com o teu irmão, eu dava-me muito bem com o pessoal do Norte na tropa,

gaija do norte disse...

:)

xona bem