Halloween o caraças, para falar bom português.

Se não me deixam votar no Obama a que propósito tenho de levar com o americano Halloween? Eles que se divirtam neste carnaval de uma noite que nós por cá para o Carnaval temos três dias inteirinhos.
Deixem-se lá de armar ao pingarelho que não precisamos de andar feitos macaquinhos a copiar os camones. Há mais anos do que aqueles que se sabem contar que esta é a noite dos "bolinhos e bolinhós", tradição bem portuguesa e que se continua a cumprir por essas aldeias fora. Claro que a malta das cidades, aqueles todos que têm "uma terra" - passei a ouvir a expressão do "ir à terra" quando fui para Lisboa viver e matava-me sempre a rir com esta assunção de uma ruralidade que na maior parte das vezes os incomoda - prefere fingir-se muito sex and city e brincar ao halloween das gentes civilizadas, mas isso só revela a nossa pobreza, a pobreza de quem esconde a avó que usa lenço na cabeça.
Sabem porque raio as eleições americanas são sempre a uma terça feira de Novembro? Afinal é dia de trabalho e tudo. Eu também não sabia mas o Ferreira Fernandes explicou no outro dia. É que por lá não têm os nossos pruridos e fazem questão de manter as tradições. As eleições começaram por ser em Novembro porque era a altura em que se acabavam as colheitas, deixava de haver grande trabalho nos campos e o Inverno ainda não tinha começado. Ao Domingo não podia ser porque é o dia do senhor e há que respeitar. Para poderem votar os agricultores tinham de se deslocar à cidade mais próxima e precisavam de três dias para isso - um para ir, outro para votar e outro para regressar. Para esses três dias não apanharem um Domingo as eleições tinham de ser à terça ou quarta-feira. Como quartas era dia de mercado escolheram a terça e desde 1845 que as eleições são sempre na terça feira seguinte à primeira segunda feira de Novembro.
Nós por cá armamo-nos em espertos, esquecemos quem somos e toca de mimar tudo o que achamos fino. Deixemo-nos lá de finezas que temos os Finados e por esta altura os miúdos pedem o Pão de Deus ou os Bolinhos e Bolinhós de casa em casa. Os nossos, não uns de um fried chicken qualquer. E, para quem não sabe, fica a cantiguinha que era hábito cantar-se e que ouvi e cantei muitas vezes quando era miúda antes das modernices do halloween.

Bolinhos e bolinhós

Para mim e para vós
Para dar aos finados
Qu'estão mortos, enterrados

À porta daquela cruz

Truz! Truz! Truz!
A senhora que está lá dentro
Assentada num banquinho

Faz favor de s'alevantar
P´ra vir dar um tostãozinho."

Quando os donos da casa dão alguma coisa

"Esta casa cheira a broa
Aqui mora gente boa
Esta casa cheira a vinho
Aqui mora algum santinho."

Quando os donos da casa não dão nada

"Esta casa cheira a alho
Aqui mora um espantalho
Esta casa cheira a unto
Aqui mora algum defunto."

17 comentários:

ardiloso disse...

Outrora achava muito graça, bater de porta em porta,com um grupo de amigos e com o meu saquinho bordado pela minha mãe. Trazia sempre coisas (rebuçados,xupas, chocolates, fruta, dinheiro)

Agora?? desligo campainha para não ouvir miudos a tocarem à porta (confesso que detesto acordar cedo)

Anônimo disse...

Tem graça Teresa ... ainda hoje dizia ao meu filho (irritada, claro, sem que o pequeno tenha culpa !!!), que "no meu tempo", não se falava nesta porcaria, que era coisa dos americanos, que os emigrantes é que tinham culpa, bla,bla, bla, mas que gaita, esta mania de copiar tudo, não é ? Aqui, era o dia das almas, flores para as campas da nossa família, o dia de Todos os Santos, o Pâo por Deus para o Padeiro, o Leiteiro, o rapaz dos jornais. Era tudo tão diferente e melhor, acho eu. à fava com o halloweenl, por mim, pode ir à vida...

Rachel disse...

Eh pá...
"Ó" tempo que não ouvia/lia isto!
Bolinhos, bolinhós!
Isso é que é!
Raisparta as melancias acesas!

Anônimo disse...

tão g*ro, com o saquinho bordado pela mãe até fiquei derretido,

bem eu é despachar mais uma bomba, redentora, espero, para lançar breve

depois é esticar patas, I hope, hope and dreams

ardiloso disse...

não precisas ficar derretido, porque não é saco de água quente... são as melhores lembranças que podemos nós(filhos) termos das mães

Anônimo disse...

não preciso mas fiquei - eu tenho uma camisola que ela tricotou, em três tons de verde; não a visto há muito mas não me desfaço dela

ficaste ofendido e era ao contrário

Anônimo disse...

ela, claro, a minha mãe, que já não anda aqui entre nós

Anônimo disse...

oh Ardi eu se é para a porrada sou directo não vou de lado; e agora vou dar uma de galinha que está frio,

fica bem

Anônimo disse...

só um último girinho, isto é connosco pá, lembras o barco? :))

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1348339&idCanal=13

agora é que é,

zzzzzzzzzzzzzzum

ardiloso disse...

de modo algum, aqui se brinca e se descontrai, achei graça a expressao "derretido"...

fazes bem, muito frio,mas eu vou dar de galo,porque as galinhas estao a sair da toca :):)

uma boa noite a todos e cuidado não se constipem, se não la fica o curral com gripe

Anônimo disse...

ah, ainda bem, pensei que tinhas ficado ofendido quando eu tinha era achado engraçado também, e tinha ficado mesmo derretido a imaginar-te pequenito com o saquinho bordado pela mãe...

bem, eu galo é durante o dia

agora é escrever

O Santo disse...

dia de pedir sim senhora, o "Pao Prodeus". E havia sempre bolinhos de canela e erva doce (lembram-se das ferraduras?).

E em determinadas aldeias com direito a lanche e tudo, ou pelo menos bebida.

tab@sco disse...

Este blá, blá, das tradições...já nenhuma é como era, nem mesmo o Bolinhos e bolinhós. Continuo a manter as luzes do portão acesas, na véspera ou no dia compro sacos de doces, sugus... eles vêm, lá cantam a cantilena, eu ponho um ar verdadeiramente enternecido e quando estico a mão com os doces vejo aquelas carinhas infantis a esmorecer à espera da notita ou da moeda de 2€. É assim mesmo, os economistas é que têm razão quando dizem que não há almoços grátis.Filhos deste socialismo ultra-liberal. Vou é deixar de acender as luzes e fico nessa noite a lembrar-me de como era quando nós íamos!

teresa disse...

Tradição é tradição, e o Diabo às vezes anda à solta, que eu até conheço quem quase se matou quando se atirou de cima de uma ameixoeira e aterrou numa pilha de lenha só porque alguém, tal como a avó lhe tinha ensinado, cruzou os pés e os cães pararam finalmente de uivar...

Gabs disse...

Não sei onde vão buscar essas recordações... nem a minha mãe sabe disso...e eu detesto tradições...é em nome delas que existem touradas.

Psantos disse...

Obrigado teresa (vou copiar pra o meu blog). Fizeste com que voasse no tempo. E hoje bateu no lado bom!
Obrigado...pelo doce!

tab@sco disse...

Teresa: Fazes renascer o que de melhor há em nós. Limpas teias de aranha e arejas os pós. Passei o dia de ontem a cantar o Bolinhós (Já repararam nesta rima que faz os decassílabos parecerem figuras de retórica?)
Ah, maldita ameixoeira que ainda hoje se faz sentir no meu sistema músculo-esquelético. Maldito quem nessa madrugada esconjurou os demónios e os uivos dos cães...