A revolta dos (tali)bispos

Tal como acontece na política, com os países democráticos a copiarem o modelo uns dos outros com uma aproximação bastante razoável, agora as religiões começam a descobrir o benefício do plágio.

À semelhança do que já se verifica nas nações sob o domínio fundamentalista islâmico, a igreja católica (não, não tenho falta de maiúsculas) decidiu assumir-se capaz de influenciar a opinião dos fiéis em termos de opção partidária (já não é mau aceitarem eleições, por este caminho...), nomeadamente fazendo pender o único camartelo de que uma qualquer religião com tiques de seita é capaz: o do pecado inerente a votar nas opções que não sirvam à risca os propósitos da santa mãe nostálgica que evidencia dificuldades na interpretação do que Estado laico quer dizer.

A chantagem implícita nas afirmações episcopais acerca da questão do casamento gay, ameaçando utilizar o poder (que o Estado em muito sustenta) sobre os fiéis por forma a manipular a sua alma eleitora, constitui (mais) um retrocesso de séculos na evolução de uma igreja incapaz de entender que não pode aplicar num país europeu do séc. XXI o mesmo critério a que se podia permitir na América do Sul do séc. XVI.

Perante o que está em causa na posição oficial dos bispos católicos portugueses e nas respectivas repercussões potenciais, nada do que escrevo acima é um exagero.

17 comentários:

AnaT disse...

Já só falta voltarmos à Inquisição (se bem que acho que ela até existe... mais suavizada, camuflada...) Que tristeza! Porque não se preocupam estes senhores com problemas mais de indole social em ajudar os que realmente precisam?!

shark disse...

Andam a sair da casca, andam...
E pode ser que lhes saia o tiro pela culatra, pois os tempos deles não mudam mas cá fora a vida não pára de acontecer.

Vekiki disse...

É pena! A Igreja Católica parece que "faz gala" na não evolução. Será que a nossa Igreja pensa que não existem homossexuais católicos? E até que ponto é que podemos aceitar esta forma de estar? Política e religião não se devem misturar e não me parece muito ético da parte da nossa Igreja utilizar o espaço da homilia para fazer propaganda. Ou melhor, anti-propaganda. É por causa desta e de outras atitudes que cada vez mais me afasto. Da Igreja. Da religião...

teresa disse...

Por acaso nem concordo com vocês. Acho que a Igreja tem toda a legitimidade para se pronunciar sobre o casamento, afinal o casamento começou por ser uma cerimónia religiosa. A Igreja, ou os bispos podem e devem ter uma opinião e se a Igreja quiser ver a homossexualidade como um pecado, ou o divórcio, ou os anti-conceptivos, só está a ser coerente com a sua doutrina. Se concordo com ela, se a aceito ou se acho que está desadequada com a realidade já é outra questão. O o que não podem, nem devem, é tentar fazer dessa opinião, dessa doutrina, a lei do Estado. Mas usar as homilias para pregarem a sua crença está certo, mau seria se não o fizessem. É na homília, na missa, que o fiéis se reunem e é o sítio certo para lhes serem transmitidas as posições da Igreja.
Estranho, muito estranho, e ridiculo, é os senhores Bispos usarem como um dos argumentos para o não em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo é que "viola a constituição". Isto é o mesmo que o Jorge Miranda dizer que a nova lei do divórcio viola os preceitoa da Biblia.
A Deus o que é de Deus, a César o que é de César. Os senhores Bispos que tratem dos assuntos de Deus e deixem-nos tratar dos assuntos dos homens. De todos os homens.

shark disse...

Vekiki, concordo com o que dizes no essencial. Ainda assim e mesmo sendo agnóstico não pude deixar de reparar na mistura entre igreja e religião. É um bocado como misturar ideologia e partidos políticos...
:)

shark disse...

Ò Chefa, tu concordas que a igreja, qualquer igreja, possa assumir-se capaz de alterar sentidos de voto? Então a seguir temos os muçulmanos (também os há em Portugal) a exigir a proibição da carne de porco nos talhos. E por aí fora...
A igreja pode emitir opiniões e afirmar-se contra determinada medida, não lhe reconheço o direito de interferir directamente (sob chantagem) nas questões políticas de uma democracia que nunca defenderam, antes pelo contrário - é só recuarmos umas décadas no tempo.

teresa disse...

Shark, olha as misturas que estás a fazer.
Posso responder-te num post? Comecei aqui mas é longo...

(já te disse hoje que gosto muito muito de ti?)

shark disse...

Chefa, claro que podes! Dá-lhe!

(Já há uns valentes dias que não o referias. Até pensei que já tinha passado o meu estado de graça... E eu retribuo, minha querida chefa.)

gaija do norte disse...

concordo que a igreja, os partidos políticos, eu e tu possamos divulgar aquilo que consideramos correcto, chefa. o que está errado é obrigar (porque é disso que se trata) quem não consegue ou teme ver outros horizontes, a aceitar aquilo que preconizamos como certo. e pior ainda, fazendo-o tendo consciência que revela falta de discernimento quando se trata de um assunto que não prejudica ninguém.

Visconde de Vila do Conde disse...

Shark, meu caro, e se fosse o ILGA a comunicar que os seus simpatizantes tomariam em consideração, na hora de votar, quais os partidos que não apoiam o casamento entre indivíduos do mesmo sexo?

shark disse...

Embora provavelmente eu não conheça essa organização com a profundidade com o que o Visconde sempre domina o seu douto saber, consideraria igualmente subversivo do princípio da liberdade individual nesse tipo de decisões.
Senão um dia começaremos a ser governados em função da dimensão da turba...

O Santo disse...

osculpem la mas as vzs te fico ao lado da xefa e neste caso tou mm encostadinho. e de alto a baixo nao concordo com quase tudo o que criticam. 1º e felizmente a igreja nao e uma democracia. 2º a que chamam a nao modernizacao da igreja? maria vai cas outras? isso numa igreja qq fica mto mal, 3º deviam preocupar-se com os que precisam??? alguem precisa mais do que os que estao no caminho errado?? nao foi essa a principal preocupacao de Cristo?? ou a igreja so e boa quando da sopa aos pobrezinhos, e neste caso é mm pobrezinhos no sentido de coitadinhos??
Finalmente... chantagem??? qual foi a parte de excomungar que nao li?? se o dizer pa nao se votar nos partidos que devendem ideias com que nao concordamos e chantagem.... sim temos inquisicao camuflada, a que vcs estao a fazer. Ou te calas ou se tens uma opiniao diferente apanhas... leiam la o que escreveram...

shark disse...

Ó Santo, não concordas pelo menos que os termos foram um nadinha exagerados? Já não basta emitir um parecer, uma posição?
Não concordar é uma coisa e até seria estranho o contrário, mas acenar com a bandeirinha do antigamente (e tu sabes do que estou a falar) soa de mau gosto, pá.
É mais isso que colide com a minha interpretação do que uma Igreja deve ser. Uma coisa é falar aos fiéis (e aos outros) e expor as suas razões, outra é indicar o sentido de voto a uma faixa da população para quem a palavra do médico, do presidente da junta e do padre ainda são lei.

gaija do norte disse...

quem está no caminho errado, santo?

sem-se-ver disse...

caríssima (chefa) e restantes que contigo concordam,

se o assunto fosse o casamento religioso, terias toda a razão sobre o direito, quiçá o dever (o dever sem quiçá, aliás) que caberia à igreja muito protestar, muito se intrometer e inclusive indicar sentidos de voto; como não é, não te cabe qualquer razão.

beijinhos

teresa disse...

´Caríssima sem se ver, prometo nunca mais voltar a emitir uma opinião sobre a avaliação dos professores dado que não pertenço à classe. Já agora, que se anule o referendo sobre o aborto já que os homens não tinham nada que votar. E deixa lá ver, não sendo católica será que posso falar da Igreja?
Minha querida amiga, explica melhor essa tua crença na limitação do direito de expressão... ai ai

Beijinhos

Santo, podes encostr-te à vontade...

O Santo disse...

gaija,

se nao se concordas com determinada situação ou atitude ou... achas que está errado. certo?
se a Igreja não aprova é pq acha que a acção é errada e como tal faz um esforço no sentido de essa acção não ser permitida. é mais uma vez uma questao de valores. e concordo que deve lutar por esses valores. claro.
mas... esses valores deverão ser aceites pela Igreja??? isso é outro assunto.