Fevereiro, claro!

Fevereiro sempre foi para mim um mês especial. É o mês diferente dos outros todos, o mês mais pequenino, o meu mês.
É o mês em que eu faço anos, é o mês em que os meus amigos especiais fazem anos. Raros foram, e são, os meus amigos que não fazem anos este mês.
Começou com a Naninha. Nasceu cinco dias depois de mim e está em todas as minhas memórias mais longinquas. Eramos o oposto uma da outra. Eu escura de tão morena, cabelo curto e escorrido, com os joelhos esmurrados, os cotovelos esmurrados, as pernas numa lástima, atrevida, desenfreada, sempre a chegar-me à frente para oferecer tareia a toda a gente do alto do meu meio metro. Ela branca, loira, com caracóis a descerem pelos ombros, tímida, medrosa, com as lágrimas sempre a saltar e medo da sombra. Era delicada, meiga, menina. Eu não... Foi a minha primeira amiga. Somos amigas ainda hoje.
Anos mais tarde chegou o Miguelote (nunca soube escrever o nome dele. Miguelote, Miglote, Miglotes, Miótes, era como saía...) o único rapaz no meio disto, que os outros do mês chegaram mais tarde e já pertenceram a uma outra categoria de amigo. Conhecemo-nos no primeiro dia de escola e andámos à tareia em tudo o que era recreio, jardim público, quintal de casa. Ele era uma pequena bola, eu continuava o fósforo do costume. Fomos amigos desde o dia em que nos vimos até ao dia em que morreu. Há demasiado tempo. Demasiado novo. Fazia anos no dia 5 de Fevereiro.
Muito mais tarde chegou a Paula P. , já eramos bem crescidas, estávamos na 4.ª classe. A Paula era alta e gorda, devia ser o dobro de mim. Também fazia parte das meninas, nem me lembro se sabia andar de bicicleta, mas com ela a guerra era outra, era a guerra das notas. Ela era a aluna certinha, cadernos limpos, letra redonda e desenhada, vinte em todos os testes sem nunca arriscar nas respostas. Eu era mais ou menos assim. Mais para o menos. Desorganizada, pespineta, sempre a dar palpites, incapaz de responder só ao que me perguntassem. What is your name? My name is Teresa but... E nos vários but lá se ia a décima que fazia a diferença na nota. Vinte para ela, 19 para mim. Esta pouca propensão para o risco fez com que tivesse passado anos a suspirar pelo J. sem nunca se chegar à frente. Eu cheguei, e finalmente acertámos contas - vinte para mim, muito menos que dezanove para ela.
Continuámos amigas mesmo depois da faculdade nos ter atirado cada uma para seu lado. Ainda dividimos segredos e desfiámos mágoas, mas há muito que não a vejo. Sei que está magra, tem uma filha com o nome de uma princesa qualquer (tinha de ser...) e nunca me esqueço do aniversário - 6 de Fevereiro.
Dia 3 de Fevereiro. Garanto que não vou trocar! Dia 3 de Fevereiro. Não, não é como a canção, não é dia 2 de Fevereiro, dia de Iemanjá, é dia 3! Dia quê? Ah!, sim, dia dois...
Já lá vão mais de vinte anos desde que eu e a t@basco nos encontrámos, lavadas em lágrimas, na frente de uma pauta de Direito Romano. Foi em 1982, somos uns estupores de umas amigas desde aí, chamo-lhe nomes todos os dias, ela chama-me a mim, é minha amiga, minha irmã, é tudo o que já disse por aqui. Vamos gostar uma da outra até o fim das nossas vidas e vamos continuar a amuar por tudo e por nada, mas de todas é a mais parecida comigo. Pequena, magra, morena, desenfreada, cabelo cheio de insuportáveis caracóis e muito, muito mais que de tão igual nos aproxima e nos faz dar choque.
Só nunca vou conseguir saber, saber de certezinha, se é dia 2 se dia 3!...

Quando o mês já estava cheio e a vida parecia que também, chegou mais uma. Veio de mansinho, discreta como só ela sabe ser, conversa aqui, mensagem acolá, tardes no messenger e, de repente, parece que a conheço desde sempre. Os Não pode ser, tu também? já desapareceram dos nossos diálogos, que há muito que sabemos que sim, que a outra também. Trocamos cromos, trocamos filhos, trocamos casas, trocamos segredos, muitos segredos, trocamos gargalhadas e maldades, trocamos telefonemas todos os dias, trocamos as vidas uma da outra e nem a distância, a enorme distância, ou os afazeres, ou os prazeres, impedem que ela me diga, como ontem me disse, Se precisares liga logo! E eu teria ligado se tivesse precisado. Nem que fosse para lhe dizer estou pior das costas, agora nem me consigo mexer. E ela, de lá longe, ia dizer qualquer coisa, como diz sempre, como só ela sabe dizer, com aquele sotaque tripeiro que nos afaga o coração, e eu ia desligar o telefone com muito menos dores.
Gaija, só podias fazer anos em Fevereiro!

20 comentários:

gaija do norte disse...

ó chefa, este é o post que gostava de te ter escrito no dia do teu aniversário... não o fiz, eu sei, mas compensei com a ajuda que dei no design exclusivo do bolo de aniversário!

teresa disse...

mas tu nunca tiveste uma amiga chamada Naninha...

no desigh? tu fizeste tudo...

gaija do norte disse...

não fiz tudo, ingrata! atão e aquela designer que colocou as velas de forma tão original?

teresa disse...

A outra designer era muita ajeitadinha para pôr velas. Aquilo parecia um altar de Fátima.

gaija do norte disse...

altar de fátima? a tocha olímpica, isso sim!

sem-se-ver disse...

mais alto, mais longe, mais forte!

gaija do norte disse...

(só não consigo imaginar o "mais alto"...)

teresa disse...

E mais luz, muito mais luz, que aquilo ia ser um holofote de estádio...

(tás bem, gaija invisível?)

teresa disse...

Não consegues? Estava à cabeceira da mesa, como o senhor...

sem-se-ver disse...

mais alta, a chama, mais forte, o lume, mais longe, o sopro!


(estou. de férias... pelo que hoje já mamei mais um filme e amanhã outro será. desculpa qualquer coisinha...)

(e obrigadinha pelo desafio. jáo tinha encontrado por aí e achei-lhe piada. logo o ataco)

teresa disse...

Andas tão cabra que mais um pouco e és cabra de serviço!

gaija do norte disse...

e eu a pensar que o "mais alto" era para a chefa...

(também não percebes nada disto!)

gaija do norte disse...

já agora, também estou de férias. só lhe pego na quinta e sim, estou feliz, obrigada!

teresa disse...

Para mim!!?? Não, já me deixei disso...

teresa disse...

Eu preferia não estar de férias. Sempre tinha menos crianças cá por casa e mais tempo para mim.

calamity jane disse...

Eh pá não era nada comigo e acendeu-me o 'Brilhozinho nos Olhos'...

teresa disse...

CJ, soube-te a pouco?

beto cardiologista disse...

Eu concordo. Aquele sotaque tripeiro afaga-nos o coração.

calamity jane disse...

Sabe sempre :-)

Gabs disse...

Calaste-me com essa...
Mas agora cantada por uma mulher no feitiço de amor até gosto. Eu não via, mas agora dão enquanto faço o jantar...E só tenho os 4 canais...e vejo telenovelas?!?