Veneno ou outros meios insidiosos.

Código Penal Português. Artigo 132º, Homicídio Qualificado. Número 2, alínea i).

Vim ver se ainda por cá andavam os venenos. Encontrei-os e, se bem que ligeiramente diferentes, ainda mantêm a sua marca pessoal.

A história dos venenos é engraçada na lei penal. Era este o único crime onde a tentativa era punível exactamente da mesma forma que o crime consumado. E isso desde quase que as leis foram feitas leis.
Agora, pelo menos por cá, a tentativa deixou de ser punida tão duramente, mas o venenozinho ainda mantém um lugar de destaque. Quem matar outra pessoa com uns pózinhos na sopa fica com um homicídio qualificado às costas e com uma pena que pode ir até aos vinte cinco anos de cadeia. "Especial censurabilidade" isso de usar veneno, porque se forem uns tiros bem dados ou uma facada nas costas não tem de ser assim.
O veneno é, segundo a lei, um meio "insidioso". É falso, pérfido, traiçoeiro.
Traiçoeiro. Palavra chave. E um tiro enquanto dormem, não é traição na mesma?

Lembrei-me da história dos venenos quando ontem li a história da Maria no Hospital de Braga e do papelinho que queriam que apresentasse para provar que era vitima e doméstica, sim senhores.
Queira-se ou não vivemos ainda numa sociedade machista. Eles talvez não tenham grande culpa, nós temos de certeza. Há coisas pequeninas, que parecem sem importância, com que vamos vivendo e convivendo sem darmos conta que muitas delas fazem as grandes. Ou fazem, pelo menos, uma forma de pensar que nos puxa o pé para o chinelo. De dona de casa, pois claro.

Os venenos e o Código Penal são uma dessas coisas pequeninas. Veneno é assim, coisa de mulheres. Não está lá escrito, preto no branco, mas sabe-se que somos nós as grandes clientes deste crimezinho. E também se sabe que os principais despachados são os maridos das catalinas, que veneno na sopa implica recato do lar. Foi esta a razão para, durante séculos, o crime de envenenamento ser tomado como especialmente grave. Era uma espécie de olhem lá, nós fazemos as leis e vocês a sopa, por isso nem se atrevam a baptizá-la que nós tratamo-vos da saúde.

Mudou um bocadinho hoje, mas ainda lá continua o veneno como "meio insidioso". Quando cruza a porta do seu castelo, homem que é homem tem de se sentir tranquilo e não pode deixar janelas abertas para a fada do lar o despachar desta para melhor. Pelo sim pelo não, que nunca se sabe, o aviso está feito e em letra de lei - façam o jantarinho, mas cuidado com os ingredientes, que os vossos homens estão protegidos por nós e se se atreverem a mandá-los desta para melhor, com um tempero mais atrevido, nem sabem o que vos acontece...

E nós outros, que temos idade e cabeça para ter juizo, vamos deixando passar estas insinuaçõezinhas machistas e um dia fazemos um escândalo porque pedem um papelinho num hospital.
What's new?

3 comentários:

samuel disse...

Como dizia o José Carlos Ary dos Santos, "isto vai, camaradas, isto vai!"... só que vai tão devagar, não é?

Abreijos.

samuel disse...

E já agora, aproveito para pendurar o "Cabra de Serviço" na lapela do "Cantigueiro", coisa que me tinha passado...
Já lá está!

Abreijos.

Teresa disse...

se é.... vai devagarinho mesmo.
pela lapela no cantigueiro, agradeço a honra, mesmo que a de cabra seja pouca. e estou quase a arranjar uma lapela para mim só para poder retribuir a simpatia.
beijinhos e volte sempre