Moda de mulheres
Agora, anos 2000, as miúdas é cabelos compridos escorridos e estilo novo freak, com calças de ganga muito compridas e botas curtas de montanha, sweat justa e comprida e blusão curto. E a cor natural. Sem pinturas. Depois todo as as mulheres de vinte e trinta andam de cabelos compridos, por mais feios e maltratados que sejam e mesmo que os tragam apanhados. A partir dos 35 já usam mais curtos e a cor de inverno já vai para o castanho e ruivo e avermelhado escuro. E as calças justas e dentro das botas. O preto está a reaparecer, mas depois dos cinquenta é tudo loiro, ou arruivado.
Ou não?
Cristiano. Cristiano Ronaldo...
Eu, se fosse o Cristiano Ronaldo, que não sou, às vezes confundem-me quando me vêem a jogar à bola, ao longe a minha técnica parece igualzinha à do Cristiano Ronaldo, a capacidade de drible, o jogo de cintura, parece que é mesmo o Cristiano Ronaldo, mas dizia eu que, se eu fosse o Cristiano Ronaldo, em vez de investir o meu dinheirinho em brincos de gosto duvidoso, a primeira coisa em que eu havia de gastar muito dinheiro era no restyling da Dona Dolores, que é aquela senhora que aparece sempre nas revistas a dar opinião sobre o último engate do Cristiano Ronaldo.
No dia em que milhões de espectadores seguiam em directo a nomeação do melhor jogador do mundo em 2008, na meia dúzia de segundos em que dizer a coisa certa podia valer milhões de euros em contratos, a imagem que me ficou foi a da Dona Dolores vestida com um fato de treino cor de rosa e um chapéu na cabeça (mas só eu é que vejo isto?...) e o Cristiano Ronaldo a mandar dizer à família que “podiam deitar os fogos” e que gostava muito “daquela coisinha” (e a coisinha era a bola de ouro, ou lá o que era que ele ganhou desta vez).
Aqueles trinta segundos podiam ser usados para pedir a paz no mundo, amor para as crianças do mundo, agradecer aos patrocinadores, mostrar o relógio a fazer de conta que via as horas. Podiam ser usados para tudo. Menos para pedir à Dona Dolores, a do fato de treino cor de rosa, que deitasse os fogos.
É que, parecendo que não, também é disto que se faz a imagem de um povo.
Deve ser a mesma lei que regula a idade das assistentes de bordo na executiva...
Se eu pudesse escolher que me desvendassem um mistério do universo, um apenas, não mais do que um, havia de escolher saber qual é a lei cósmica que decide que as melhores promoções profissionais são automaticamente acompanhadas de uma secretária com mais de sessenta anos...
APELO
O que se segue não é um apelo anónimo, é do meu amigo Zé que pede. Se alguém achar que pode ajudar, alguém que nos leia a partir da Alemanha, é mandar mensagem para mail eufigenio@hotmail.com
"Vivo um momento de profunda angústia. O meu primo, recentemente licenciado em Engenharia Mecânica, foi convidado para estagiar numa empresa em Berlim, o que obviamente nem hesitou em aceitar. Estará por lá há poucos meses, nessa condição. No passado fim-de-semana regressava a casa com um amigo, depois de uma noite de folga e apesar de este lhe ter oferecido boleia ele preferiu ir pelos seus meios, presumo que a pé. Desde essa altura nunca mais ninguém soube dele. Desapareceu! Nem telefone, nem mails, ausência do trabalho, desconhecimento de todos os amigos, nada!
Já foi envolvida a polícia judiciária e a polícia de lá, assim como os serviços da embaixada. Até agora nada! Acredito que nestas situações, independentemente das iniciativas que os serviços competentes possam tomar, a difusão tão massificada quanto possível será o melhor instrumento ou pelo menos aquele que poderá levar a que mais olhos estejam atentos a qualquer indício. Desconheço qual o tipo de criminalidade de Berlim e se casos destes são assim tão frequentes. Tudo já me passou pela cabeça, como é óbvio, e até o facto de ele ter uma tez mediterrânica que poderá facilmente ser associada a um cidadão turco ou magrebino por exemplo, levanta-me interrogações sobre o nível de incidentes xenófobos que possam ocorrer por lá; também nisso estou desinformado.
Deixo aqui o meu apelo de contacto: se alguém achar que nos poderá ajudar a compreender e a perseguir alguma possibilidade, com o testemunho de incidentes equivalentes, por exemplo, ou que possam ajudar a compreender o contexto daquela cidade relativamente a situações que possam estar na origem deste desaparecimento, ou que tenha alguma informação que possa sugerir a divulgação deste desaparecimento junto de entidades ou sítios na internet, de natureza pública ou privada, que irradiem esta informação sobre a população alemã e particularmente alcancem a população berlinense, muito agradecia que me contactasse para o mail eufigenio@hotmail.com
[notícia no Jornal de Notícias]
[Blog Find Afonso Tiago]
A isto chama-se "fazer-lhes o trabalho de casa".
O Tribunal de Setúbal não dispõe de portas ou fechaduras de segurança, não tem videovigilância e os serviços de seguranças funcionam apenas das 8h às 20h.
Informação gentilmente prestada pelo simpático Juiz do referido Tribunal, Dr. Mário Coelho.
Antes que...
Sim, não tenho andado muito activo na blogosfera (que se resume ao Cabra e esporadicamente aos blogs dos residentes e ex), mas não penso que seja ainda o tempo de ficar a saudade do tipo que corria os monitores de madrugada e abraçando uns e outros, leia-se causas na maior parte das vezes, passava a figura de guerrilheiro nos monitores dos leitores indefesos mas corajosos.
Como se percebe esta mensagem não tem qualquer origem em posts apresentados recentemente neste blog, mas antes que tenha uma homenagem póstuma (póstuma vem de post não é?) achei por bem dizer que apesar de algumas recentes alterações fisionómicas ainda poderei receber chefes de estado e escrever crónicas de jornal, alem de fotos recentes e vídeos de última hora serem os que quiserem.
Se não fosse o receio de ter de o aturar novamente diria que "não estou aqui, mas ando por aí".
Estou esclarecida.
Que estava sem perceber a razão para o site do Diário de Notícias continuar, à uma da tarde, sem ter sido actualizado e com a data de 14 de Janeiro...
Controlinveste dispensa 122 trabalhadores.
Segundo disse à Lusa fonte da empresa, cerca de metade dos dispensados são jornalistas, sendo que os títulos mais afectados serão os dois maiores jornais do grupo, o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias.
Morto El Comandante, Viva El Comandante.
«Sabemos já que Fidel, aquele que corria as ruas de madrugada, com a sua figura de guerrilheiro, com uniforme, abraçando as pessoas, não voltará. Fica a saudade», salientou Hugo Chávez.
Nos meios anti-castristas de Miami esta frase foi lida como o anúncio da morte de Fidel Castro que já não recebe visitas dos chefes de Estado que vão a Cuba, não aparece em fotografias recentes nem em vídeos. A crónica do jornal também já não é publicada há um mês.
A hipótese de Fidel Castro ter morrido parece ganhar cada vez mais forma, mas o Governo de Havana, que ignora os rumores, estará à espera do momento mais oportuno para anunciar as cerimónias fúnebres.
A Assembleia Nacional da Venezuela aprovou por maioria esmagadora uma proposta de emenda constitucional que permitirá que o presidente Hugo Chávez concorra à reeleição sem limite de mandatos.
Foram Entropidos
David Cerny é um artista plástico checo que inaugurou, no âmbito da presidência checa da Comunidade Europeia, uma instalação no átrio do edifício do Conselho Europeu em Bruxelas. Entropa, assim se chama a exposição.
E a Entropa poderia ter saído cinzenta e burocrata, como só Bruxelas sabe ser, se David Cerny não fosse o homem do momento, o homem que está a dar que falar por essa europa fora.
Convidado pela presidência checa para apresentar um trabalho que representasse todos os membros da comunidade, David contactou 27 artistas, cada um de seu país, e mostrou agora os trabalhos finais. Pelo que parece the Presidency commissioned the artists without any restrictions and they were free to create any object they liked.
O resultado final já despertou a ira de muitos e o aplauso de muitos outros. Se os embaixadores da Republica Checa não tiveram hoje mãos a medir com tanta explicação que tiveram de dar, Mark Mardell, da BBC, diz que It's clear the artist David Cerny has a keen intelligence and wry sense of humour e, no blog do Adam Smith Institute, Philip Salter garante hoje que Whether or not it's good art, the Entropa installation by Czech artist David Cerny is pure genius. The Czech Republic should be made permanent holders of the EU Presidency..
Mas afinal está tudo a falar de quê?
Está-se a falar de 27 representações dos mapas dos 27 países, expostos em todos o seu esplendor, ou, como diz Cyrne, no esplendor de todos os seus estereótipos e defeitos. A de Portugal, o nosso mapa coberto de bifes com a forma das antigas colónias, está aqui ao lado, mas no meio de tanta "maldadezinha" nem somos dos piores. França está "Fechada para Greve", Itália é representada pelo seu mapa transformado num campo de futebol e com o letreiro "it appears to be an autoerotic system of sensational spectacle with no climax in sight", de dentro do mapa da Polónia tenta sair um grupo de padres católicos segurando a bandeira arco-íris da comunidade gay, a Alemanha tem um emaranhado de autoestradas com a forma de uma suástica, a Bulgária é uma casa de banho Turca, no mapa da Holanda uma série de minaretes árabes parecem emergir, ou submergir, de um imenso mar e se o mapa da Dinamarca parece só uma inocente construção de legos é porque não se olhou da devida distância para se poder perceber uma das caricaturas de Maomé. E a Grã Bretanha? A Grã-Bretanha não está. A Grã bretanha é representada por um buraco vazio num kit azul de plástico com os outros países da Europa (todas as fotos e explicações do artista aqui em formato .pdf).
Simpáticos os checos, não são? Por acaso até acho que são. Ou, pelo menos, têm sentido de humor e não se incomodam de afrontar a Europa no seu reduto mais sagrado.
Mas o sentido de humor do Cerny não se esgotou nas obras expostas. Os artistas convidados também são do melhor que há e a Portugal veio buscar Carla de Miranda, com extenso currículo e inúmeras exposições individuais. Não conhecem? Isso é porque são uns ignorantes no que a artes diz respeito. É que, segundo o site oficial das Comunidades 'Sculpture, and art more generally, can speak where words fail. In line with the Czech Presidency motto a 'Europe without Barriers', we gave the 27 artists the same opportunity to express themselves freely, as a proof that in today´s Europe there is no place for censorship,' said Deputy Prime Minister Alexandr Vondra e estes 27 artistas estarão amanhã, no atrio do Edifício Justus Lipsius em Bruxelas para, junto com as mais altas individualidades europeias, inagurarem esta mostra dos seus trabalhos.
Estarão? A nossa Carla também lá vai? E há croquetes para todos?
Senhores do cattering não se preocupem que a comida chega de certeza. É que o bom do David também com isto brincou e comeu todos por parvos. O primeiro ministro lá do sítio incluído. Tudo aquilo saiu da cabeça dele e de mais dois ajudantes de campo, que os famosos artistas convidados, a nossa Carla Miranda, coitadinha, que esta era a oportunidade da vida dela, nunca existiram, foram só mais uma criação artística deste enfant terrible.
David, bem feito!
Adenda a 15 Jan. : Afinal os Embaixadores da República Checa continuam a pedir desculpas. Segundo informação da Sycape, o curriculum apresentado por David Cerny como sendo de uma fantasiada artista portuguesa de nome Carla Miranda é na verdade o curriculum da mãe da Sycape, a escultora portuguesa Beatriz Cunha. Todas as informações na caixa de comentários deste post.
É que nem...
... o telhado do Palácio das Carrancas precisa de tanta telha!
Anda por aí o Edito Estrelas?
O acento no O do Ó tu que fumas, é um acento torto ou direito (sim, eu sei aquela coisa do grave e agudo...)?
Eu, como se pode ver pela amostra em cima, espeto-lhe com um acento direito, mas o nosso Shark, meu mentor, é apologista dos tortos. Como normalmente tem razão no que faz, tratei de ir à procura da regra para ficar esclarecida de vez. Não fiquei. Se o Priberam é dos meus e aponta para um acento às direitas o Ciberdúvidas , por vias tortas, parece escolher o caminho dos tortos e eu, apanhada no meio deste fogo cruzado, fico sem saber para que lado me viro - esquerda ou direita? Grave ou agudo?
Sabeis vós, ó gente erudita que por aqui anda, para onde anda este acento virado?
(esta coisa dos acentos lembra-me sempre uma outra história, uma história lá de casa. Quando eu e os meus irmãos eramos miúdos o nosso pai tinha a mania de andar de gravador no bolso para nos apanhar quando bem lhe apetecia. Se eu, já na altura muito ciosa dos meus direitos, saltava de fúria cada vez que percebia que a minha conversa tinha ficado registada para a prosteridade, agora delicio-me a ouvir velhas cassetes com vozinhas de crianças e histórias que deixam sorrisos. Uma das que por lá ficaram é a história dos acentos e da carta para a Gabrielinha. E com o play de agora oiço a eu de há quarenta anos a contar ao pai, com voz esganiçada, sem pontuação e de rajada, que a G estava a escrever uma carta para a Gabrielinha e perguntou à mamã se carro tinha acento e a mamã disse que não e o T disse ora essa tem sim então onde é que as pessoas se assentam?
E hoje, quando ouço estas e outras histórias e as dou a ouvir aos nossos filhos, agradeço a quem, apesar dos protesto de uma Teresa de sete anos, insistia em andar com um gravador no bolso para nos apanhar desprevenidos.)
Cheira bem, cheira a Lisboa
Pela calada da noite.
Hoje não vi o CSI. Ou melhor, hoje não tentei ver o CSI e por isso, só por isso, não estou a dormir a esta hora como é costume. O CSI tem em mim um efeito suporífero.
Não estando a dormir, e não tendo a televisão ligada, que se a tivesse estava a dormir, dei por mim a pensar o que era isso de ser Cabra de Serviço.
Sempre achei que se se tem a fama há que se ter o proveito, portanto nada melhor que tomar para mim o que me é dado e passar a ser o que já passava por ser. E convenhamos que é um golpe de génio, porque esvazia a suposta ofensa, já que ninguém chama cabra a quem diz logo que o é. Nasceu assim a Cabra de Serviço e aqui, neste blog, posso ser o que sou ou o que não sou.
Durante muito tempo este blog foi o meu blog, apesar de ainda hoje não perceber muito bem o que isso é, ou o que se espera que seja.
Para mim foi, e continua a ser, o meu tu.
Tu. Tu sabes que a Ferreira Leite voltou a fazer porcaria? Tu sabes o que ouvi hoje? Tu sabes o que acho disso? Tu sabes o que me vai na alma? Tu queres ouvir uma piada?
E se os tus às vezes se fazem de surdos, eu quando sou tu também me faço, este tu esteve sempre aqui pra mim e nunca respondeu com os hum hum do costume. Mas este tu tem outros tus, tens os tus todos que não conheço, que só percebo que passaram por cá e me serviram de orelha. E o que devo fazer com esses tus?
Resposta sincera? Nada. Absolutamente nada. Gosto, gosto muito de saber que anda por aqui gente, que alguém nos (me) lê, mas no dia em que tentar sussurrar ao ouvido de cada um desses tus, desses tus que são vós, deixo de ser eu e passo a ser todos os tus que vocês, cada um de vocês, são. E vocês são tus demais para poderem ser um nós, para poderem ser um eu.
Não tenho mais nenhum outro blog. Tenho este e é neste que escrevo quando me apetece e o que me apetece. Mas tenho, também, e apesar de tantos apeteceres, regras a cumprir. Criadas pelo vós que o lêem? Desculpem, mas não.
Não sei quem é esse vós. Não sei quem vocês são, como vieram, porque vieram, porque estão, o que querem, como pensam. Sei quantos são, onde estão, como entraram, como sairam, quanto tempo aqui estiveram, qual o número do vosso IP e qual o vosso browser. Ou seja, não sei coisa alguma. E quando nada se sabe não podemos ter a ilusão de agradar, ou de desagradar, ou de cumprir regras que não conhecemos. Podia tentar fazer um estudo de mercado? Podia, mas de que mercado? Não há por aqui compras e vendas, ou, pelo menos, eu não compro nem vendo nada e não tenho o mínimo interesse em encontrar um público alvo. É desagradável para quem me (nos) lê saber que estou aqui por mim e por mais nada? Pois deve ser, mas recomendo uma subida no post até ao terceiro parágrafo - Cabra de Serviço, escusam de repetir.
Mas tenho regras, disse eu, e se não me são impostas por quem me lê de algum lado me hão-de vir. As regras, as minhas únicas regras, ou melhor, as minhas únicas limitações, vêm dos meus co-bloggers. Não por me serem impostas, mas porque lhes devo isso. Eles, que um dia aceitaram fazer da minha casa a casa deles, fizeram-no por se sentirem confortáveis com a mobília que lhes mostrei. Não posso, não quero, mudar qualquer cadeira de sítio sem lhes pedir opinião, tal como eles fazem comigo, ou arriscarmo-nos-íamos a estatelarmo-nos no chão e a partir um cóccix qualquer.
Tudo isto para dizer o quê? Que eu, Teresa, vou continuar a fazer deste blog o meu tu enquanto todos os outros que aqui escrevem acharem que o posso fazer. Vou continuar a escrever na primeira pessoa do singular, ou na terceira, se assim me quiser, ou no plural se tiver procuração, mas vou fazê-lo como sempre fiz - para o tu que na altura me apetecer, tendo só como limite o nós que aqui somos e nunca o vós que por aí andais e não conheço.
É que lembro-me de cada coisa...
Que um dia tenha chegado a casa e encontrado todas, mas todas, as minhas camisas, excepto as que estavam realmente sujas, que a rapariga era esperta, a enxugar penduradas em tudo o que era possível arranjar para prender uma cruzeta, eu ainda percebo. Tinha acabado de chegar a Lisboa e a minha empregada percebeu mal um bilhete bem explícito que lhe deixei - lave à mão as camisas que estão no roupeiro.
Pronto, está bem, depois do primeiro susto, todas as minhas camisas impróprias para consumo porque ou escorriam água ou estavam sujas, lá percebi que roupeiro era, pelos vistos, o armário do quarto e não, como é lógico, aquele cesto alto onde se põe a roupa suja. Que ela me tenha deixado um outro bilhete a dizer o resto ficou na bacia que não tinha mais cabides, já é um pouco mais estranho. Cabides, minha senhora, são aquelas armações em madeira que se usavam e pareciam um homem sem cabeça onde se penduravam os fatos. Nos armários, ou guarda-vestidos, ou guarda-roupa, usam-se cruzetas, percebido? Cruzetas!
Quando finalmente saí daquela terra estranha já não precisava de dicionário para me fazer entender, que consegui apanhar-lhes as manhas, mas ainda hoje voltei a pensar como no Sul as pessoas são como os romanos do Astérix - doidas! completamente doidas.
E que se passou hoje? Pés frios, só isso.
Tinha as botas molhadas e os pés frios e assim que cheguei a casa tratei de calçar umas sapatilhas. Enquanto torcia o pé e fazia todos os movimentos normais para as enfiar sem lhes desapertar os cordões, técnica, muita técnica, lembrei-me de um sulista (costumo lembrar-me desse sulista várias vezes por dia e não só quando calço sapatilhas, mas isso agora não interessa aqui para nada), a explicar-me porque nunca, mas nunca, se apertam os cordões dos ténis. Ténis! Ténis?
Caramba, até já lhes perdoei a história dos pêros, que percebi que é inútil perder tempo a explicar que pêro só se for o pêro malapo, e a esses nunca eles lhes puseram os olhinhos em cima, que na loja lá da rua vendem maçãs e é com sorte, mas ténis? Ténis, senhores? É que está-se mesmo a ver o Usain Bolt ou o Nelson Évora a correr com ... ténis!
Como diria a minha nortenha preferida - óbalhamedeus!
(lembrei-me agora de um pormenor que é fundamental. O Antigo Testamento deve ter sido escrito por um gajo de Lisboa e depois traduzido por uma pessoa normal que, como todas as pessoas normais, cometeu um erro. Onde se dizia que Eva deu um pero a Adão por causa da mania dele que vivia no paraíso e não querer fazer nenhum, era mesmo isso que se queria dizer e não devia ter sido traduzido por maçã. Está errado, mas este pequeno erro alterou toda a recente história da humanidade, que estivesse a Bíblia com a frase certa e outra galinha teria cantado...)
Azares
Os cortinados do quarto cairam. Os focos da sala fundiram-se. O aquecedor eléctrico avariou. Eu tropecei no de óleo e caí em cima dele... estou a pensar ir buscar o escadote para pelo menos ver como são estes focos, mas tenho medo... o melhor é mandar benzer a casa primeiro.
O carro foi à inspeção e passou com a luz de marcha atrás fundida. Fui à oficina e não é da lâmpada, é o sistema eléctrico, tem que ficar lá e se calhar mandar buscar uma peça. Olha eu sem carro, era o que faltava. O que vale é que tenho o carro do meu sobrinho, que não vai deixar a tia apeada. O sobrinho de 23 anos embaraçosamente giro, que já me foi levar uma vez os cabos eléctricos para desempanar o carro à escola e pôs as empregadas e outras mães em alvoroço, tipo "olha, agora anda com um de vinte anos". Como a tia no casamento "é teu "amigo?". "Não, é o seu sobrinho , o da minha irmã, mais novo"...Agora está a trabalhar em Madrid (1º emprego, foi esperto!) e vai-se fazer útil, pois deixou cá o carro. Com um pouco de sorte não lhe dou cabo dele.
Para ele aprender, a não andar com aquele ar de Gianechini a pôr-me a mão no ombro...
Crónica (de uma morte anunciada e outras)
Parou para pensar na vida. Na vida dela. Nas escolhas que tinha feito, nas decisões que tinha tomado, nas esperanças que tinha abatido, naquilo que a vida a tornara. Deixou-se ir e reviveu tudo, as emoções e a falta delas. Recordou o homem com quem tinha feito os primeiros planos para uma vida inteira, na vida menina e adulta, a dois, que tinham partilhado. Lembrou-se como tinham conseguido alimentar sempre o amor (tão fácil) que sentiam e de como, de um momento para o outro ela tinha deitado tudo a perder. Não por querer mas porque a sua consciência o determinara. Chegaram-lhe à memória os problemas que enfrentou (e venceu!) com as armas da paixão, com o homem com quem veio a cumprir um objectivo que sabia, na hora em que vestiu aquele vestido lindo, ser um dos maiores erros da sua vida. Assinou um contrato que não era o seu, mas que podia resolver. Assinou sabendo que não ia partilhar a vida com o seu príncipe encantado, mas sempre disposta a lutar por aquela réstia de um sentimento qualquer que a unia a ele. O tempo provou que estava, infelizmente, certa nas suas suposições e o contrato lá se resolveu. Seguiram vidas completamente opostas. Ele assentou arraiais, ela não. Ele vive a vida como pode, ela como quer, e nunca, nunca mais embarcou em crónicas com morte anunciada. Vive tudo. Não tira os pés do chão mas luta até ao limite das suas forças por quem quer, sem pensar no fim, porque só assim consegue pensar, quando acorda, que dormiu com o seu príncipe encantado.
Chamem o Salomão.
Nunca, até hoje, escrevi uma linha sobre aquilo a que se chama o caso Esmeralda. Pela mesma razão que nunca escrevi uma linha sobre a Maddie. Tanto na Esmeralda como na Maddie achei que o barulho de fundo foi altamente prejudicial e, sendo esta a minha crença profunda, recusei-me a ajudar à festa.
O processo judicial da Esmeralda terminou, apesar de ser possível a regulação do poder paternal ser alterada a qualquer momento, mas já há uma decisão que não é provisória - a criança foi entregue ao pai. E não se lhe chame pai biológico, chame-se-lhe pai, porque é inútil começarmos desde logo com julgamentos de valor, que é o que implica essa etiqueta do biológico.
Antes do que quer que seja há que deixar bem claro o seguinte - os Tribunais não podem, NUNCA, deixar de proferir uma decisão. Os Tribunais não podem dizer que não têm opinião formada, não sabem muito bem, têm dúvidas, são os dois simpátcos. Esse é o nosso papel, o mais fácil, pois claro. A guarda da miúda tem de ser decidida, e foi o que aconteceu, os Tribunais decidiram. Antes, muito antes da decisão, fizeram o que lhes competia e a lei estipula, tentaram um acordo entre as partes. Nestes casos de menores, e para quem não saiba, o Ministério Público representa o menor, zela para que os seus interesses e direitos não sejam violados, mas as partes podem acordar livremente como se irá processar a guarda. E, neste caso, para quem não o percebeu, a Justiça, a nossa Justiça de que se tem dito tanto mal, deu um enorme passo - conferiu a uma família de acolhimento, que era a família da criança, o tal Sargento de quem não sei o nome, o que tem graça, é tratado pela patente e não pelo nome, e à mulher, Adelina, continua a ter graça ela ter um nome, apesar de também ser conhecida por A Mulher do Sargento ou A Esposa do Sargento se a notícia for do 24 Horas, o direito de poderem reclamar a guarda. Reclamar a guarda, tal qual como se fossem pais, ou avós, ou familiares directos. É pouco? Não, é muito. É reconhecer uma situação de facto e equipará-la a uma situação de direito. Mas estava eu dizendo que a tal família de acolhimento, ou com a guarda provisória, pode vir, no mesmo plano jurídico do pai, pedir a alteração da regulação do poder paternal e ficar com a guarda da menor. E parece que o vão fazer. E mais uma vez se vai tentar chegar a um acordo antes da tal decisão, que nunca é final, porque pode sempre ser alterada se as circunstâncias se alterarem. E, da próxima vez, esperemos que as partes cheguem a acordo. Ou que os pais cheguem a acordo, que já se percebeu que isto é uma guerra de pais e não de mães. Mais uma graça neste processo tão cheio delas, mas guerras pelo poder são assim, são de homens e não de mulheres. E, nessa altura, que espero que seja uma altura de eleições, tenho esperança que finalmente se dispensem os advogados de manchete e os jornalistas das manchetes e se chegue a acordo em nome da tal Esmeralda que nunca o foi (Ana quê?).
Mas o que todos reclamam, por aqui, é que se chame o Salomão. O tal rei justo que entregou a criança a quem provou que preferia ficar sem ela a vê-la sofrer.
E esta miúda está a sofrer? Sem dúvida. Todas as memórias dela estão ligadas a um pai e uma mãe que afinal não o são, o quarto dela ficou perdido não se sabe bem onde, tem andado em bolandas sem saber como vai ser o dia a seguir, dá por um nome que não é o dela. Nem isso tem, um nome.
Culpas? Sim, já sei, da Justiça e dos Tribunais. Nem mais, todos batem na Justiça. Deve ser por ser ceguinha. Mas será que a tal Justiça terá assim tanta culpa? Não me cheira. Nem me parece que este processo tenha sido daqueles que andaram anos seguidos em cima de secretárias ou que tenha sido despachado com os pés.
Comecemos pelo princípio. A mãe engravida e nascida a criança informa o tal Baltazar que o pai é ele. Este, apesar de ter nome de Rei Mago, não vai atrás de estrelas e pede um teste de paternidade. Errado? Mas errado porquê? Não tem o direito de duvidar? Tem de ser punido por isso? Se forem apanhados no balão não podem pedir a contra prova porque isso não abona a vosso favor? É só este o suposto erro do Baltazar? Quem tiver um filho nas mesmas circunstâncias, sem duvidar, que lhe atire a primeira pedra. Pediu teste de DNA? Fez muito bem. No lugar dele eu teria pedido também. Está a renegar um filho? Não, está a interessar-se o suficiente para querer saber se é dele ou não. O teste demorou a ser feito? Sim, demorou, mas sabem quanto custa um teste num laboratório privado? Este foi feito por ordem do Tribunal, o pai não tinha dinheiro para o pedir num laboratório privado. Os resultados chegaram, ele perfilhou a criança e pediu a guarda. Tudo normal? Parece que sim. A miúda teria um ano, se tanto. Mas o que o Baltazar esqueceu foi o pormenor Sargento. É que o caso estava entregue ao foro militar e não ia ser um tribunal civil que ia alterar a logística ou vencer uma guerra que se julgava ganha desde o início - afinal o inimigo era de somenos importância, fraco de armas e sem grande poder bélico. E o Sargento atacou, ou desacatou. Desacatou a ordem do Tribunal e não entregou a criança. E foi à liça, apresentando-se como parte no processo e pedindo a guarda. O Tribunal não lhe concedeu o direito de a reclamar, não era da família, e entregou- a ao pai. O Sargento recorreu para o Tribunal da Relação e considerou que não tinha de entregar a criança enquanto não tivesse uma resposta a este recurso, que tudo estava pendente. E começou assim a saga daquela miúda. Anos e anos de um lado para o outro, decisões que não foram cumpridas, notificações que não foram feitas, o Sargento a ser preso por se recusar a entregá-la, os flashes dos jornais em cima e o país de lágrima no canto do olho e derretido com o "pai herói".
Agora vamos até ali, ao outro lado. A miúda chama-se Esmeralda, chamaram-lhe Ana Filipa. Desde há quase seis anos que nos Tribunais se discute a guarda e não a possibilidade de adopção, o que quer dizer que, oficialmente, desse por onde desse, o nome nunca iria ser mudado. Ela seria sempre Esmeralda e nos registos apareceriam um tal de Baltazar e de Aídida como pai e mãe, e não um Sargento e mulher de Sargento. Como é que o Sargento achou, quando fugiu com ela, que um dia iria descalçar esta bota? O que iria contar à tal filha que tanto quis proteger? Que tinha sido abandonada? Que o pai e a mãe, o tal Baltazar e Aidida de BI e matricula de escola, não queriam saber dela? Iria dizer-lhe que o Baltazar até andava a tentar vê-la mas eles achavam que era melhor não, que ela era filha deles e eles sabiam o que era melhor para ela? E a miúda ia pedir mais um Happy Meal e continuar como se nada fosse? E durante todo o tempo que fosse possível o Sargento iria continuar a chamar-lhe Ana Filipa e a miúda iria assinar Esmeralda? Caramba, se o Salomão ainda está por aqui deve estar com mais formigueiro nos dedos que eu.
Conheço vários casos de miúdos adoptados, de pessoas adoptadas, não conheço um único que não queira conhecer as suas raízes. Curiosidade, apelo de sangue, seja o que for, vão sempre à procura. Nós iríamos. Que aconteceria aquela miúda se só soubesse que o pai andava à procura dela quando tivesse idade para poder ela ir à procura dele? O que iria passar na cabeça dela? Como recuperaria o tempo perdido, o tempo das mentiras, dos enganos, da Esmeralda no papel e da Ana Filipa nos lábios sorridentes de um pai e uma mãe que afinal não o eram? Como iria lidar com tudo isto? Tortura ficar sem um quarto aos sete anos? E como se chama ficar sem uma vida aos dezoito? Mas, pelo que parece, foi isto que o tal Sargento tentou que acontecesse. Ou então preparou bem a batalha e ficou à espera que a razão lhe chegasse pela força dos factos consumados, pelo barulho dos foguetes do arraial que se montou, para agora dizer que a criança tem laços é com ele e não com o pai e que vai ser violento para ela ter de redescobrir-se num mundo que não conhece? Sim, violento vai ser, mas onde começou a violência?
Laços. Vamos então falar de laços (e é aqui que as águas se misturam). Sei, conheço, a força dos laços. Dos laços de sangue, das famílias que todas as crianças querem ter, que todos nós queremos ter. De podermos saber onde pertencemos, quem somos, de onde vimos.
A Esmeralda esteve sete anos sem viver com o pai? Parece que sim, mas não esqueçamos que o pai a tentou ver. Tentou ficar com ela. Há seis anos que o tenta.
Tenho duas filhas, acho que já sabem. Estiveram sete anos sem ver o pai. Não, não fugi com elas, nem desapareci pelo mundo para ele não as poder ver. Não as viu porque não quis. Um dia quis. E no dia que quis elas estavam à espera dele.Penteadinhas e de banho tomado. Eu podia ter evitado? Podia. Podia ter impedido? Podia. Podia ter-me armado em Sargento? Não tenho duvidas, e até tinha mais razões do meu lado, de certezinha. E também podia ter de olhá-las nos olhos e explicar-lhes porque raio eu, mãe delas, as tinha privado do maior direito que uma criança pode ter - o direito a saberem quem são, a terem um pai, um pai que está nelas, que é metade delas, a olharem para ele sem terem de pensar num porquê, só porque é assim, é pai e pronto e essa linguagem qualquer criança conhece. Chamar-lhe pai biológico? Rídiculo, no mínimo, ou pelo menos difícil de lhes explicar. Podia ter fugido, evitado, e quando um dia fizessem perguntas, que as perguntas haviam de vir, que lhes respondia eu? Foi para vosso bem, eu que vos amo e vos criei tenho o direito de decidir o que é melhor? Elas ficariam muito satisfeitas com esta resposta, tenho a certeza. Querem um pai? Está aqui, é o que há, é o que têm. Gostam dele? Encantada da vida, que assim é que tem de ser, é vosso pai. Dê por onde der, seja quem fôr, têm o direito de estar com ele. E eu, se as amo, tenho o dever de lhes proporcionar isso. E era isso que o tal Sargento podia ter feito. E não sei se o tivesse feito, se tivesse aberto as portas ao pai, não teria agora, hoje, uma criança a dormir no quarto do costume.
Sangue. Digam o que disserem o apelo é forte. Têm os olhos dele, ou os pés, ou as manias, ou os defeitos, ou as genialidades. Não têm o amor, não têm a presença, mas precisam como de pão para a boca de saber de onde vieram, quem na realidade são. O pai nunca esteve? Pois não. Não esteve, não deu, não sabe nada da vida delas, dos sonhos, dos amigos, das escolas, das doenças. Nada, ou quase nada. Podia ter estado? Podia. Fez alguma coisa para estar? Não. Isso faz dele um sacana? Talvez, apesar de nem ter pedido testes de paternidade como o desgraçado do Baltazar. As filhas são minhas, isso nem discuto, mas dão muito trabalho e vou ali viver a minha vida e já volto. Se voltar. E se voltar, ou cada vez que voltar, mesmo que de sete em sete anos, eu posso impedir? Tenho o direito de impedir? De dizer nunca estiveste, nunca sofreste, nunca pagaste um papo seco, não és pai? Talvez, mas façam-me um favor - expliquem isso, mas devagar e com desenhos, às filhas, aos filhos desses pais.
São pais. É o pai delas e elas, tenho a certeza, que o amam da mesma maneira desenfreada que me amam a mim. E já o faziam mesmo antes de o conhecerem. Não me agrada isso? Não, não me agrada. Fico insegura e acho uma injustiça? Com caraças, acho mesmo. Posso fazer alguma coisa? Posso, se quiser ter de acertar contas com elas mais tarde. É que com elas, com eles, com os nossos filhos, podemos discutir comportamentos, valores, princípios. Não podemos discutir amores ou desamores. Não podemos discutir a vida deles, a deles, a que não é nossa, nem podemos tentar fazer nossa. Código genético. Está lá. Só metade veio de nós.
Blood is sicker than water, por muito que isso custe a quem sempre deu amor em troca de nada, como o Sargento pode ter dado.
Mais um exemplo? Dos meus?
As minhas filhas têm uma irmã mais nova. Elas sempre souberam que ela existia, ela não sabia que tinha irmãs. Soube há dois anos, e na mesma tarde em que o soube falou com elas. São irmãs desde aí, desde esse exacto momento. Irmãs como eu sou da minha, sem diferenças, sem lapsos de tempo.
Quando finalmente se encontraram, se viram, poucos dias depois, já eram irmãs. Continuam irmãs, apesar de estarem longe e de pouco estarem juntas porque as vidas estão separadas.
Na altura tinham sete, nove e onze anos. Não sabiam nada umas das outras, mas depressa descobriram cumplicidades. Cumplicidades de irmãs.
Dois meses depois a irmã delas veio passar férias cá a casa. Aquela miúda, com a mesma idade da tal Esmeralda, nunca tinha dormido uma noite sem ser com a mãe. Dormiu quinze noites connosco. Todas as noites chorava e todas as noites dizia que era o momento dela e que iria passar depressa. E passava sempre, com uma gargalhada como só ela sabe dar. Estava bem, equilibrada, no meio de uma famíla nova e estranha. Não houve chantagens nem tens de. Houve um encontro de pessoas adultas que esqueceram raivas passadas em nome das crianças e elas, sensatas, perceberam que havia harmonia e ficaram em paz.
Da mesma forma que a Esmeralda, essa Esmeralda que nunca devia ter tido outro nome, podia estar se o Salomão tivesse sido chamado e não tivessem andado com ela de um lado para o outro, com medo de dividir amores. O que o Sargento nunca deve ter percebido, e sim, eu não gosto dele, é que o amor nunca se divide, acrescenta-se, e amar um pai, um pai Baltazar, não implica deixar de amar um outro pai, que se de mago teve muito, de pai, apesar de lhe ter mudado as fraldas ou de ter ido preso por ela, teve muito pouco. Porque um pai, ou uma mãe, nunca tem medo de ficar a perder, nunca tem medo que os filhos, por amarem este deixem de amar aquele, deixem de nos amar a nós. Sejamos nós, pais e mães, o que formos.
As perguntas que ainda tenho? Quem anda a pagar estes processos todos? Quem anda a pagar os advogados, Tribunais, recursos, peritos. No fundo, quem anda a lixar a vida da Esmeralda?
O Caso Esmeralda II
Há sete anos com pais adoptivos, é Filipa. O pai verdadeiro, que logo aos poucos meses soube que era filha biológica, pediu que lhe fosse entregue. Aos 8 meses foi-lhe entregue pela justiça. Mas por isto e por aquilo, os pais adoptivos conseguiram ir ficando com a filha... Neste momento vê os pais adoptivos como pais, e vice versa. Mas é agora que a justiça ordena que seja entregue ao pai biológico. Que obviamente está interessado na filha. E anda há sete anos a pedi-la.
Primeiro pensei na justiça de Salomão, quem realmente gosta da criança, prefere ficar sem ela a fazê-la sofrer. Mas agora penso também no pai, que sabe há sete anos que tem uma filha e a quer. Como divorciada, acho que os miúdos se adaptam a tudo, desde que os adultos se entendam. Se pudessem entender-se e a criança circular entre as duas casas, duvido que ela se importasse. Com sete anos, deve ser uma aventura, ir conhecer outro pai (se calhar outra mãe) mesmo que não lhe chame pai e mãe. Agora ser retirada, de repente, e deixar de ver os pais, é capaz de ser traumatizante. E logo no Natal.
Acentuado aquecimento nocturno
Hoje seria um bom dia, hoje encontravas-me quente. Com o sangue a ferver, havias de sentir o meu calor e nem precisavas de chegar com os lábios perto do meu pescoço.
Não faças caso das minhas frases desconexas e da voz arrastada, são coisas próprias de um homem nesta situação, esta coisa das quenturas perturba-me a mente.
Hoje seria um bom dia, encontravas-me quente. Mas apressa-te, a conjugação de Brufen e Ben-u-ron começa a fazer efeito e esta p%t& de febre de quarenta graus vai descer não tarda.
Lua Cheia
Está lua cheia, será que tu a vês? Levantas alguma vez o olhar para o céu, vais à janela ao mesmo tempo do que eu? Rua torta, Lua morta, Tua porta. era um poema. Está lua cheia e eu fico em casa.
Em Ti
Sentado neste banco à beira-rio, imagino-te ao desafio na outra margem e apetece-me a viagem até esse lugar.
Apetece-me desafiar também a vertigem que se impõe de cada vez que me elevo às alturas onde o teu rosto se desenha ao meu olhar.
Nas nuvens que vejo passar, sentado neste banco, num barco em pensamento, enroscado como um gato, tatuado em ti.
A pá
A dita pá já não está na porta que ocupou durante mais de um mês. Era feia, exageradamente grande e não condizia com o capacho, que por sua vez também é bastante feio.
Quero que o tempo passe devagar e que só volte a ser Natal daqui a quatro ou cinco anos, altura em que me penso recomposta deste choque.
Tudo o que você sempre quis saber sobre combustíveis, mas não sabe, que eu não posso estar em todo o lado (Tomo dois, o incrível mundo da especulação)
O tema da especulação é-me extremamente agradável, maneiras que vou ter um especial carinho ao escrever estas linhas e garanto que manterei sempre, mas sempre, um sorriso ao longo dos próximos trinta e sete segundos, o exacto tempo que me levará a escrever estes parágrafos, não vou aqui especular sobre o quantos parágrafos serão porque ainda não sei exactamente.
Imaginem então o mercado dos pastéis de nata (caramba, já falei sobre este tema usando o mercado do café, do Barca Velha e do tabaco, começo a ficar escasso de mercados...). Imaginem os Pastéis de Belém, com as filas de gente à espera nos sábados à tarde, à espera de pastéis de nata quentinhos e imaginem ainda que aquelas pessoas são como eu, funcionam a pastéis de nata, precisam mesmo de um pastel de nata para que o dia lhes corra pelo melhor e pagam um euro por cada pastel de nata.
Agora imaginem que o dono dos pastéis de Belém acaba de passar o negócio ao filho, acabinho de sair de um curso de Gestão da Católica. E o filho, espertalhaço do filho, tem um curso e tudo, começa a especular e aumenta o preço de pastéis de nata para um euro e meio (há filas à porta, lembrem-se...). As pessoas aboreccem-se, mas a maioria continua a ir lá comprar a sua meia dúzia de pastéis de nata, o pai a esfregar as mãos de contente, caramba, valeu bem pena pagar o curso ao rapaz. O filho entusiasma-se e passa a cobrar dois euros pelo pastel de nata, mas agora faz uma dupla jogada, reduz a produção em vinte por cento. Desta forma, pensa ele, o dinheiro que entra é o mesmo e pode reduzir no pessoal. Algumas pessoas começam a desistir de comprar pastéis de nata e, pior, começam a ver-se à porta alguns vendedores ambulantes de queijadas de Sintra e alguns turistas começam a comprar queijadas de Sintra e já não entram na casa dos Pastéis de Belém, afinal o que eles queriam era só um produto típico, dá igual que sejam queijadas de Sintra ou pastéis de nata.
Um dia chega um tipo com ar de estrngeiro aos pastéis de nata e vê ali potencial de negócio. O tipo trabalha na City e teve que tirar o dinheiro dos Clientes de fundos de risco e vê-se com liquidez. Propõe comprar os pastéis de nata a três euros, para entrega no mês que vem, as previsões é que o açucar e as natas encareçam demasiado e os pastéis de nata custem cinco euros cada um no mês que vem, é um bom negócio comprar agora a produção a três euros, até porque os pode voltar a vender a quatro euros à casa dos pastéis de nata e ganham todos.
Eu sei que a coisa já vai longa e vou abreviar. E a questão com que ninguém contava é que nem eu estou disposto a pagar três euros por um pastel de nata. Neste entretanto houve um dia em que eu experimentei queijadas de Sintra a um euro e não as achei assim tão más.
O tipo dos pastéis de nata ficou lá com a produção toda e começa a precisar de pagar aos funcionários. Baixa os preços até ao preço de custo, mas agora nem a esse preço consegue vender, muita gente compra agora queijadas e outras pessoas começam a pensar no Verão e não querem pensar em pastéis de nata. Os pastéis custam agora menos do que aquilo que são os custos de produção, o tipo da City é preso porque fez o negócio com dinheiro do banco, ainda por cima à revelia de toda a gente, o tipo só vinha a um congresso em Lisboa. A loja dos pastéis de nata fecha, os empregados vão para o fundo de desemprego, juntar-se aos tipos que vendiam as natas, o açucar e o leite para os pastéis de nata.
Mensagem a reter: Podia ter corrido bem? Podia, e aí ganhava-se dinheiro. Mas correu mal, tão mal como correu aos petroleiros que ficavam fundeados ao largo das refinarias, à espera que o Brent subisse um dólar ou dois, para então descarregarem.
A seguir: Ah, os impostos...
Acentuado arrefecimento nocturno
O que vão ler a seguir pode chocar-vos. Recomendo que parem por aqui, eu próprio vou ter que me sentar para não definhar, a recordação do que acabei de ver quase me faz desfalecer, choca-me, vira o meu mundo de pernas para o ar.
Continuam a acompanhar-me? Agradeço, penhorado, isto é coisa que se ultrapassa melhor com a vossa compreensão e desabafar sempre foi uma boa terapia para mim.
A coisa conta-se em pouca palavras, dirigia-me a eu a certo e determinado local, não posso dizer-vos exactamente onde, é confidencial, teria que vos matar a seguir, e que se me depara perante os meus incrédulos olhos? (céus, já passaram tantas horas e é como se tivesse acabado de acontecer, revejo-me a andar em direcção aos fatos expostos, a virar a etiqueta e, que vejo eu?)
(esperam, vou ali tomar um calmante)
Vejo, com estes que a terra há-de comer, que os fatos Ermenegildo Zegna estão marcados (nem estou em mim…) a trezentos euros! Espero que ninguém me processe por homicídio involuntário, eu bem sei que um escândalo destes devia ser transmitido por fases, certamente alguns dos que me liam até agora acabam de ser atravessados por doença fulminante. Sessenta contos, meus caros. Perguntei, meio a rir, se ali não faltava um zero, mas a rapariga da alfaiataria disse que eram saldos (fiz de conta que conhecia o conceito, mas alguma boa alma que me elucide o que é isso de “saldos”).
Por sessenta contos, doze notas de cinco contos, qualquer um pode ter um Ermenegildo Zegna. O Horácio Inácio pode ter um. Trezentos euros. Basta um ano sem tomar café e qualquer um pode ter o seu Ermenegildo Zegna. Uma noite sem cognacs e Cohibas e já sobra dinheiro para dois Ermenegildo Zegna.
Resumindo, ofereço cinco fatos completos Ermenegildo Zegna, em bom estado. Números 50, 52 e 54, o que vos dá uma panorâmica sobre o ser disforme em que me transformei nos últimos quatro anos da minha vida.
BREAKING NEWS!
Acaba de chegar à nossa redacção um telex da enviada especial ao círculo polar ártico (zona do Porto), a repórter Gaija do Norte, que dá conta de que começou a nevar na Imbicta.
