pequenos contributos para resolver a crise, parte 1

Ora vamos ao que interessa.

Portugal atravessa uma crise, bláblá, os mercados, bláblá, internacional, blábla.

A verdade é que é uma tradição muito portuguesa dizer que a culpa é dos outros.
A culpa é sempre do patrão que despede, dos filhos que gastam muito, dos vizinhos que passam a vida a comprar televisões novas e a obrigar-nos a comprar também.

O que é que os colegas vão dizer, se formos trabalhar com um fato do Continente?

A resposta é: não vão dizer nada. E se disserem é problema deles. Quando muito podem dizer "olha, o Antunes queixa-se que ganha pouco e é verdade, até usa fatos do Continente". A alternativa é o que eles acham hoje: "queixa-se da crise mas parece que até nem está muito mal, continua a usar fatos bons e almoçar fora".

E se isto é uma mensagem para os cidadãos, não o é menos para o Estado e para quem representa o Estado. Aliás, os cidadãos já se adaptaram à crise, e muitos se adaptam todos os dias. Mas o Estado não. E porquê? Porque as decisões do Estado são decisões de pessoas, mas o dinheiro do Estado não é delas. Dito por outras palavras: o dinheiro do Estado não custa a ganhar a ninguém. Custa a pagar aos cidadãos, mas não são esses que depois decidem de que forma é gasto.

Gerir um Estado, especialmente um Estado em crise, é, e que me desculpem as pessoas alérgicas ao antigo regime, como gerir uma casa de família.
A contabilidade geral do Estado, em termos macro, deve ser suficientemente simples para qualquer pessoa a perceber.
Se o objectivo é pagar as dívidas, o primeiro passo é deixar de fazer dívidas novas.
E no entanto, o Estado endivida-se cada vez mais. O valor da dívida pública quase triplicou entre 2000 e 2012. E sem fim à vista, sem se saber porquê, sem se saber para quê. 

Numa casa de família, quando isto acontece, alguém, normalmente quem traz o dinheiro para casa, diz "basta". E corta a direito na despesa, doa a quem doer.

Um Estado não é uma família, mas pode e deve ser gerido com o mesmo rigor. A diferença é que numa família quem contrai as dívidas é normalmente quem as tem de pagar. Num Estado, as dívidas são contraidas por Governos que já não estão lá quando elas têm de ser pagas.

Como se resolve? Fazendo com que o contrair de dívidas do Estado seja aprovado por quem o paga, ou seja, pelos contribuintes, pelos cidadãos.

Referende-se, prèviamente e dívida a dívida, a emissão de dívida e o contrair de empréstimos pelo Estado - faça-se com que os Governos venham à praça pública explicar, tintim por tintim, para que serve o dinheiro que vão pedir emprestado, e faça-se com que os cidadãos o aprovem.

Porque, afinal, eles é que o vão pagar.

E se acaso for aprovado que o Estado se endivide, que depois se garanta e se inspeccione se o dinheiro é empregue naquilo que o povo autorizou, que se auditem essas contas, com ampla visibilidade, de preferência por entidades estrangeiras que não devam favores aos nossos políticos. E se alguém desviar os fundos do povo para outra coisa que não a autorizada, que seja julgado, de preferência por juízes que não devam favores aos nossos políticos. Também podem ser estrangeiros, se fôr preciso.

Ah, mas a dívida serve para pagar despesas correntes do Estado, que é que se faz quando é assim?
Disso, falarei a seguir.

2 comentários:

Fusão do Atomo disse...

Boas

Não há duvida que já se sabe que foram as familias a pôr portugal no fundo....foram os plasmas, foram as férias, foram os popós, foram o diabo a sete. Isto lendo ou ouvindo as clarinetas do regime.

Mas o que eu gostava mesmo, era saber os NUMEROS da divida, da divida publica, da privada, da que passou para a banca e vice versa, daquela que nos leva a pagar a agiotas, com o papãp da falta de dinheiro para as reformas. Agora menino, comparar gerir um estado com o gerir uma familia, não lembra nem ao menino jesus. Se for uma familia tipica do sul de italia ou uma de um cartel da bolivia acredito, mas isso são outros presépios.

Menino De Sua Mãe disse...

Fusão, boas,
a diferença é que nas famílias típicas do sul de Itália e nos cartéis da Bolívia, quando alguém mija fora do penico, leva nas orelhas.
Aqui o que se passa é que temos uma constituição que deixa uns gastarem o dinheiro de todos. E já se viu que todos os que lá têm passado são mais ou menos irresponsáveis a geri-lo, portanto não os deveríamos proibir?

Percebo que saber os números é giro, e tal, e é importante, mas enquanto andamos por aqui a arrepelar-nos por não haver transparência, o estado continua a emitir dívida e a endividar-se todos os dias, não se sabe para quê.

Obriguem lá os meninos a explicar para onde vai o dinheiro novo, e pelo menos não nos endividamos mais enquanto arrumamos a casa.