O Peter também lá terá estado?

Peter

O Presidente da República, Cavaco Silva, iniciou hoje a sua visita oficial à Áustria com o que designou de "encontro de amizade" com austríacos que no pós-II Guerra Mundial, quando eram crianças, foram acolhidos em Portugal.

Acho que já contei por aqui a história do Peter, ou pelo menos a que sei porque foi contada a mim. Do Peter, durante muitos anos, só conheci as histórias e a fotografia de meio corpo que estava no quarto que hoje é o quarto de hóspedes, mas o cabelo loiro encaracolado e os óculos redondos encantaram a minha meninice.

O Peter foi um dos tais “meninos austríacos” que hoje o Cavaco recebeu. Chegou a casa dos meus avós no pós-guerra para ser mais um filho para além dos outros seis e trinta anos depois, quando voltou àquela casa que já não era a mesma porque já era “a nossa”, explicava de cor o que estava aqui e ali, qual o lugar do “paizinho” e da “mãezinha” na mesa grande da sala de jantar, como estavam as camas naquele  quarto que foi o dele e o David, o filho que veio conhecer este lado diferente da infância do pai e que tinha exactamente os mesmos sete anos que o pai Peter tinha quando por lá passou, olhava como se de um museu se tratasse a casa que nada lhe dizia e pedia num alemão que eu tive de começar a perceber para o levar a “spielt mit machines” nos flippers do café que o pai lhe tinha mostrado e que era o mesmo, com umas máquinas a mais, a que o pai dele costumava ir com o meu pai.

Mas com as histórias do Peter chegaram-me as primeiras histórias de guerra que ouvi e arrepiava-me olhar para o miúdo loiro das fotografias e pensar que se escondia em pânico debaixo dos móveis quando ouvia foguetes ou trovoada e que fazia da colher uma bomba deixando-a cair em cima do prato da sopa com todos os outros miúdos da casa instruídos para nem um ai dizerem. Assustava-me sobretudo a tal guerra que fez com que aquele miúdo da minha idade tivesse de ir para longe dos sítios dele, dos pais dele, para ali, naquela terra do fim do mundo, poder ter o que por lá não tinha, comida e tranquilidade.

O Peter, mesmo sem nunca o ter visto, fazia parte da minha família e ele, pelos vistos, sabia disso. E tenho a certeza que este e os outros Peter todos que por cá passaram não se esqueceram deste país estranho e desconhecido onde as pessoas primeiro não os percebiam mas onde passaram a ser mais um deles no exacto momento em que entraram em casa.

E hoje o meu medo é que tenhamos deixado de ser pessoas como aquelas que há 50 anos, apesar de casas cheias e muitas vezes pão contado, abriram as portas aos filhos dos outros só porque eles estavam a precisar e que ficaram, para sempre, a ser a “mãezinha” e o “paizinho”.

5 comentários:

Sérgio disse...

Bom Dia Tereza.
Acredito que, se a situação assim o exigisse, faríamos exactamente o que os nossos fizeram há 50 anos.

sem-se-ver disse...

que magnífico! seja termos acolhido 5.000 crianças à época, o que já sabia antes, seja a tua família ter sido uma delas, o que acabei de saber! encher-me-ia de orgulho, e à história da minha família, se tivessemos sido uma delas, que não fomos.

foi um drama terrível e tenho o povo português como muito solidário, mesmo que hoje o mundo se tenha tornado mais cão. nesse sentido, creio que de novo o faríamos.

mas o que quero dizer é que há gestos que salvam vidas; e que, afinal, houve uma espécie de 5.000 aristides sousa mendes (para além de todos os outros que não couberam neste episódio concreto da Guerra) não em bordéus, mas espalhados pelo país.

um forte abraço para a tua família, tereza querida.

Ana Galoxa disse...

Que engraçado, na minha familia acolhemos duas, uma austríaca e uma alemã, e o melhor é que elas não regressaram, por cá estudaram, casaram e que as 2 se consideram irmãs (foram "adoptadas" pela minha tia avó).

sem-se-ver disse...

:))) ana

tereza disse...

Ainda bem que são todos muito mais crentes que eu...

ssv, enche-me de orgulho sim. E acredito que o contacto com um miúdo diferente arejou a vida ao meu pai e aos meus tios

Ana, afinal as famílias de acolhimento não são tão raras assim. Só por aqui já andam representantes de duas! :)))