Esqueçam os crucifixos nos hospitais, os capelões militares ou o protocolo do Estado com o Cardeal Patriarca em lugar marcado. Tudo isso são minudências, resquicíos de outras eras sem importância alguma.
Temos uma religião oficial sim, mas não é a católica. Uma religião que é ensinada nas escolas e que é a única, a verdadeira, a que não é questionável.
Chama-se Microsoft.
A minha filha ontem teve um teste de TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação). Está no 6.º ano mas na escola dela esta disciplina faz parte do curriculum a partir do 5.º ano. Perguntei-lhe o que tinha saído e não consegui deixar de rir com a resposta.
- Estamos a dar o Word e sairam as barras de ferramentas.
- Han!? Word!??... Já agora, qual é a versão oficial?
- Mamã, essa é a parte que tem mais graça. A versão que estamos a dar é mais antiga que as nossas. Aquilo não me serve para nada...
Senhores professores, há um mundo lá fora e não é todo Windows, mas mesmo que se aceite que é a escolha do povo é melhor terem cuidado que o catecismo já tens vários upgrades...
A minha dúvida, a única, a de fé, é que não sei se diga Ó valha-me Deus! se use o mais popular Ó valha-me S. Bill Gates!
Afinal não somos mesmo um estado laico.
Queria saber porquê
Se nós, gaijas, conhecemos outras mulheres com quem conversamos (falamos umas com as outras), que sabem ler nas nossas entrelinhas poupando-nos uma data de desenhos, que concordam com tanto da nossa forma de ver o mundo, que sabem o sítio de tudo na segunda vez que vêm a nossa casa, que se oferecem para ficar com os nossos filhos, as plantas e a bicharada quando vamos para fora, que deixam o quarto e a casinha arrumados quando ficam a dormir em nossa casa, que se calam mal os nossos olhos ficam mareados ou brilhantes só para nos ouvir e mimar ou sorrir, que sabem o nome de todos os nossos amigos e parentes, que vão ao fim do mundo para nos levar os cabos da bateria, que fazem perseguições inimagináveis só para nos matar a curiosidade, que desmarcam o jantar do ano porque a só a perspectiva de um jantar entre nós vale muito mais do que isso...
Se os gaijos gostam tanto de ver outros gaijos em calções e t-shirts, normalmente horrorosos, dizem os palavrões todos e arrotam, contam tudo sobre a gaija da sua vida e os problemas de trabalho aos amigalhaços (entre outras coisas, que eu não sou gaijo e não sei), se a primeira solução para a resolução de um problema passa por partir as pernas a alguém...
Porque insistimos viver uns com os outros, de géneros diferentes? Não me venham com a treta que são as diferenças que nos aproximam, ou que os opostos se atraem. Porque teimámos manter esta engrenagem se nem a desculpa da procriação o justifica? O hextril é de venda livre! Não me falem na importância (que não nego) da presença masculina na educação de uma criança. Porque é que a sociedade não ditou que o “diferente, o estranho, o esquisito” fosse o heterossexual?
O que nos move para aquilo que nos custa tanto entender e que nos dói tanto perder?
Ainda não chove em Santiago
Mas já começo a achar que anda tudo a fazer por isso. E as receitas, apesar de velhas, estão testadas e resultam.
Um passeio ao IKEA
Nem é fim de semana nem nada, mas depois de almoço, como os miúdos não tinham aulas, fomos ao IKEA. A ideia era ver as secretárias com gavetas para o quarto dela, eu por mim gosto da dela. Mas eu gosto de tudo, e trouxemos umas almofadas, manta, candeeiro de secretária, cadeira de secretária e tapete... Nada de secretária. A verdade é que já tinhamos comprado as mesmas coisas há dois anos, no mesmo sítio... Estas são ligeiramente diferentes, mas igualmente baratas.
Porque a primeira coisa que o gato fez foi arranhar a almofada da cadeira giratória (que a minha filha montou) , o miúdo entornou leite com chocolate na carpete, a almofada serviu para uma luta, o candeeiro cambaleou... Enquanto não crescerem não vale a pena investir muito. Já me chega a carpete bege da sala, que larga cotão e tem aquele aspecto encardido, mas onde gostam todos muito de se deitar, é tão fôfa, incluindo a cadela, preta.
Olha a tua sorte!
Fui informado que disponho de uma temporada de folga.
Dívidas existenciais
Hoje recebi seis cartas dos vários bancos pelos quais distribuo (faço girar) as migalhas que mal dão para disfarçar o óbvio.
Olha a minha sorte!
Fui informada que disponho de quarenta e sete dias e meio de férias!
Era uma vez...
...um país onde se jogava futebol, e as pessoas gostavam. E formavam-se clubes e havia os muito conhecidos e os menos conhecidos e os ainda menos conhecidos e os outros e muitos jogos e muitos campos e muita gente e muitos jogadores e muitos espectadores e muitos tele-espectadores e muitos comentadores conhecidos e outros menos conhecidos e outros ainda menos conhecidos e outros, e as pessoas gostavam.
E para ajudar a coordenar todos os jogos e os jogadores e as equipas e os campos e os horários e os encontros e as transmissões e os patrocínios e as regras e para as pessoas gostarem ainda mais, uns beneméritos senhores juntaram-se num benemérito grupo e fizeram uma Federação. E como ainda havia mais senhores beneméritos e mais jogos e mais equipas e mais clubes conhecidos e os menos conhecidos e para as pessoas gostarem mais juntaram-se num benemérito grupo e criaram uma Liga. E esses beneméritos senhores juntos nesses beneméritos grupos estabeleceram regras para os clubes conhecidos competirem entre si e com os clubes ainda menos conhecidos e com os outros e com os menos conhecidos e para as pessoas gostarem mais existiam Campeonatos e Taças e Ligas e os clubes com as suas equipas competiam para tudo isso.
Face ao estado da situação do país e dos seus países vizinhos os beneméritos senhores decidiram recentemente criar mais uma competição onde os clubes muito conhecidos jogavam entre si e com os outros e fazia-se muito dinheiro e as pessoas gostavam muito e eram mais felizes e surgiu a Taça da Liga.
Para não complicar, o regulamento da nova competição era muito simples, uns jogos a eliminar, outros a pontuar, umas meias finais onde jogavam de certeza quase todos os clubes muito conhecidos entre si e com os outros menos conhecidos e gerava muito dinheiro e competição e as pessoas gostavam muito. Como uma das fases dessa Taça da Liga era a pontuar lá veio a complicação de ter de definir critérios para o desempate caso os próprios pontos não fossem suficientes para tal. Simplificando o regulamento e utilizando o estrangeirismo o critério para o desempate é o "goal average". Caso arrumado.
Nesse país e no decorrer da competição existiram 2 equipas que terminaram com os mesmos pontos e em condições de serem apuradas para as meias finais. Felizmente nenhuma delas era de um dos clubes muito conhecidos e assim não se perturbou o facto de as pessoas gostarem muito dos jogos e da competição. Para desempatar, toca de olhar para o regulamento da Taça da Liga e apurar a equipa e o clube cujos factores de desempate forem superiores aos da outra equipa do outro clube. Aplicando o processo de "goal average" como está escrito nos regulamentos é apurada a equipa que tem mais golos marcados, mas segundo um senhor juiz jubilado desse país o espírito da lei não é o que diz o regulamento mas sim a diferença de golos marcados e sofridos, que é o que normalmente se entende por "goal average". Caso existissem ainda dúvidas e perante o espanto de alguns repórteres foi reafirmado que "... não está correcto mas é assim que deve ser entendido...". E as pessoas divertem-se e gostam muito.
Dúvidas Existenciais
Acabei de colar a maldita tecla "e" do meu portátil com uma cola super rápida comprada no chinês por 30 cêntimos.
Será que resulta?
Caça
Uma câmara posta no sítio onde os javalis se costumam reunir. Onde se fazem as esperas para as caçadas. Mandou-me o meu tio. Ele já foi caçador, mas agora dedica-se mais à fotografia.
As figuras tristes que fazemos quando não nos apetece trabalhar
Recebi isto por email e estou há mais de uma hora a tentar não parecer muito idiota, mas as gargalhadas aqui ao lado não indicam nada de bom.
Juntem-se lá ao clube para ver se não me sinto tão imbecil e começo a fazer qualquer coisa de jeito.
Estão sentados à secretária? Então levantem um pouco a perna direita e, com o pé no ar, comecem a fazer circulos no sentido dos ponteiros do relógio.
Agora, com a mão direita, desenhem o número 6 no ar.
O pezinho já mudou de direcção?
É que é logo, mas eu vou continuar a tentar. Isto deve ser só uma questão de concentração. E se continuarem as gargalhadas já tenho o agrafador pronto para sair em voo picado.
Vista de fora

Ao longe a cidade brilha sob um halo alaranjado de luz que lhe pinta o céu da madrugada, formando como que uma cúpula assinalada por um gigantesco letreiro de neon. E eu hesito e não avanço, preciso de algum espaço entre mim e aquele tapete de casas que cobre o mesmo chão onde antes cresciam as árvores e agora apenas medram habitáculos de betão.
Ao longe a cidade zune um som imperceptível que me evoca a sua respiração, ofegante, sob o manto de poluição sufocante que asfixia uma população cada vez mais vazia de vontade e menos dotada de capacidade para suportar as agressões de que uma cidade é capaz.
Ao longe a cidade que nos faz sentir periféricos nos subúrbios da emoção enquanto se instala arrogante no centro da nossa atenção.
Diz o galo para a galinha...
E a galinha passa o resto da vida a tentar fazê-lo.
O pior é que, por vezes, as filhinhas não estão para aí viradas, mas mãe que é mãe não desiste nunca.
Nada mais perigoso que dizer a uma mãe, com um tom despreocupado, hoje vem cá um amigo meu. O tom pode ser despreocupado mesmo, mas estranhamente começaremos imediatamente a ouvir sugestões, ligeiras, mas sempre sugestões, para nos pentearmos, trocarmos de saia que essa é uma vergonha (claro que é, mas despreocupado era só o nosso tom, o resto está tudo pensado), apagarmos o cigarro e, nestes casos mais complexos, lavarmos a cara às crianças.
Cá para dentro vamos pensando que o combate vai ser curto, é chegar e ir embora, e não vai haver grandes possibilidades de muitos olhares e muito menos de perguntas.
Assim que ele chega já estamos à porta, prontinhas para zarpar dali para fora devidamente acompanhadas mas, surpresa, o bafo no nosso ombro direito é da nossa mãe, claro. Veio só ver as vistas. Apreciar o material. Apanhar ar fresco da rua.
As contas são feitas de cabeça e rapidamente - fim de semana portanto jeans, t-shirt, polar, barba por fazer, mas o bom ar do costume, de certeza. Não vai acontecer nada.
A porta do carro abre, ele sai, eu confirmo o bom ar e ele estica as pernas, depois de horas ao volante, e dá uns primeiros passos ainda tortos.
E, por trás do meu tal ombro direito, sai o primeiro comentário - ai, o senhor é coxinho....
Take 2.
Sim, já que por aí estás trazes-me o saco que deixei no Natal. Vou telefonar à minha mãe a avisar que vais lá a casa.
Ponderados os riscos nada podia acontecer. Ia ser rápido, muito rápido, era dia de semana, vinha de reuniões, estava com pressa e com roupa de trabalho - fato e gravata, nada a que mãe pudesse pôr defeito. O bom ar mantinha-se e quando tocasse à campainha já não devia coxear de certeza.
Telefonema para a mãe ter o saco a postos.
Quinhentos nervosos telefonemas de volta.
O vestido preto também vai? E aquela mini saia escandalosa que levaste ao casamento? E os sapatos pretos de salto alto?
A pontuar todas estas frases saía o lapidar o teu amigo...
O que se passou por lá não sei, pelo tempo deve ter sido rápido, muito rápido, mas o imediato telefonema da minha mãe foi esclarecedor - o rapazinho já cá veio...
O dele, logo a seguir, deixou-me em estado cataléptico - está convidado para ir lá a casa sempre que quiser...
"a nossa filhinha casada está
e o padrinho, quem será?"
Scoop
Absolutamente hilariante, devia ser de leitura obrigatória em todos os cursos de comunicação social.
Scoop, escrito em 1938 por Evelyn Waugh, conta a história de William Boot, um modesto cronista rural do Daily Beast, um grande jornal de Fleetwood Street.
A história começa quando um outro Boot, escritor e cronista de guerra, para se livrar de uma namorada americana mete uma cunha a uma amiga e pede-lhe que lhe arranje um lugar de correspondente no estrangeiro. A amiga fala com o dono do Daily Beast e este decide mandá-lo para Ishmaelia, país onde duas facções rivais lutam pelo poder mas onde nada acontece.
Um engano no nome faz com que siga viagem o Boot errado, que nada percebe de jornalismo. No entanto, assim que em Fleetwood se espalha que o Beast vai mandar um homem para Ishmaelia todos os outros jornais farejam um furo e mandam os seus melhores homens. De repente a capital de Ishmaelia enche-se de jornalistas e, se estão todos lá, então é porque os rumores de golpe de estado são mesmo verdade.
Boot não faz a mínima ideia do que tem de fazer para ter uma notícia, e também não há notícias, mas os seus movimentos são seguidos pelos colegas que vão tirando as mais fantásticas conclusões e vendo furos em situações que não passam de desastradas tentativas de Boot de arranjar uma história qualquer.
As notícias vão criando supostos factos, estes vão criando mais notícis e mais factos e mais notícias. O golpe de estado acaba mesmo por acontecer, e o contra golpe, e por um golpe de sorte Boot é mesmo o único a ter o furo.
Uma das melhores comédias que já li e uma fantástica sátira ao jornalismo sensacionalista, Scoop foi considerado um dos 100 melhores livros do século XX.
Recomendo a leitura. Nem sei porquê. Deve ser a chuva que traz a vontade de darmos umas boas gargalhadas.
O Rapaz do Pijama às Riscas
Bruno é um rapazinho alemão que vive em Berlim. O pai é nomeado comandante e vai para o novo emprego. A família muda-se para leste, para uma região fria e feia. Da janela do seu quarto, vê uma estranha paisagem, muito diferente das ruas de Berlim. A perder de vista, por trás de uma vedação de rede, vêem-se casas de um só andar, soldados e pessoas de pijamas às riscas e fumo, ao longe. Parece que se chama Acho-Vil.
Sem amigos, Bruno decide explorar o campo, por fora e longe, junto da rede, conhece um rapaz da sua idade, Schmuel. Que sorte que ele tem, ali vivem centenas de rapazes como ele, e pode usar um confortável pijama em vez das roupas apertadas e botas...Schmuel é magro, e Bruno leva-lhe comida.
Até que um dia Bruno decide passar por baixo da rede, para explorar aquela aldeia e ajudar o amigo a encontrar o pai, que desapareceu. E veste um pijama às riscas.
Still Alive
ou quase...
e deixo a promessa de voltar a postar antes da próxima era glaciar.
(o verso foi por acaso)
A realidade é lixada. Ou é uma lixa.
Acho que sempre tive caixas na minha vida. Caixas que me eram absolutamente essenciais.
Deve ter começado pela caixa dos brinquedos, mas da que primeira que me lembro bem é da caixa dos tesouros. A seguir veio a caixa das tintas que andava junta com a caixa das pedras. Passei para a caixa das missangas, a caixa de costura, a caixa das cartas dele, as caixas da carne assada cheias ao fim de semana e vazias à sexta feira, as caixas dos livros, a caixa dos biberões e depois a vida em caixas durante uns anos.
Sempre gostei das minhas caixas, apesar de ter acreditado que eram só experiências necessárias para um dia, com esta idade, ter as duas caixas que fariam de mim, finalmente, uma senhora. Seriam as rainhas das caixas. Aquelas. As caixas que todas as mulheres de classe têm. As que vêm nos livros e se vêem nos filmes.
A caixa da maquilhagem e a caixa das jóias.
Era um sonho lindo, um sonho de encantar, mas um sonho...
A caixa da minha vida, a caixa sem a qual não consigo viver, a caixa que me é fundamental, não é nenhuma dessas.
Foi-me oferecida há uns anos e assim que tirei o laço e abri o papel colorido saltei de alegria. Passei o resto do jantar a olhar para ela, a abri-la, a olhar deliciada para o interior e a pensar em tudo o que ia poder fazer.
A minha caixa é uma caixa de ferramentas. Mas não é linda de morrer?
Ódios de estimação, os Vizinhos
Dos que estão sempre, há:
- os que não queremos encontrar no elevador;
- os que queremos encontrar no elevador e até moram no 11º mas chegam a horas impossíveis;
- os que põem a música, TV, muito alto;
- os que discutem muito alto;
- os que estão sempre à porta ou à janela a olhar para nós;
- os que sujam tudo por onde passam;
- os que roubam o correio;
- os que nos ficam com o correio nas férias mas se esquecem de avisar quando a carta chegou;
- os que dão festas e não nos convidam;
- os que têm cães sempre a ladrar;
- os que não falam com ninguém;
- os que preferíamos que não falassem...
Marshmallows
Sou assim um bocadinho para o campónia, ou moça das serras, como se diz aqui pelo Algarve, e isso é mais do que desculpa para ter passado anos da minha vida a achar que aquelas coisas côr de rosa e brancas com ar de bolas de algodão eram tudo menos um doce decente.
Até que um dia, porque há sempre um dia na vida das campónias, fui convidada para um BBQ, assim, à americana, cheio de americanos, e descobri que afinal aquelas bolas de algodão não eram para ser comidas como uma campónia como eu as não comia e como as minhas crianças, campónias como a mãe, as devoravam - tirar do saco e meter na boca.
Aquilo são marshmallows. Daqueles marshmallows dos filmes que se espetam num pauzinho e se assam numa fogueira.
Desde aí, desde esse momento que iluminou a minha vida de tosca, não faltam frascos cheios de marshmallows cá em casa. E numa tarde de chuva como a de hoje reunem-se as crianças todas, cá por casa andam sempre muitas, acende-se a lamparina do fondue, distribuiem-se os garfinhos com cores no topo e lambuzamo-nos com marshmallows derretidos enquanto pela casa se espalha um cheiro delicioso parecido com leite creme queimado.
E, não menos doce, é o silêncio das feras enquanto comem.
Distintos entre os nossos iguais
A medida do reconhecimento que todos acabamos por procurar quando damos de nós nisto da blogosfera varia de pessoa para pessoa. Contudo, todos acabamos por sentir que o mais significativo sinal do mérito que nos assista pelo trabalho que somos capazes de produzir é o reconhecimento provindo dos nossos iguais, de gente que bloga e por isso acaba por constituir a "concorrência" natural num mundo virtual onde as audiências continuam a ser a principal (ainda que negada) motivação.
Quando esses nossos iguais são menos iguais porque se destacam enquanto bloggers por serem unanimemente (ou perto) reconhecidos como capazes, como melhores, as suas distinções acabam por se fazer sentir de forma mais gratificante porque, em simultâneo, nos afagam os egos com a certeza de que fazemos bem e porque isso implica que nos podemos permitir acreditar que estamos nisto de borla e nem assim deixamos de cumprir bem uma qualquer função que pessoas como o Paulo Querido são, sem margem para dúvidas, conhecedoras o bastante para a saberem definir.
É isso que nos faz sentir como um motivo de orgulho fazer parte da versão experimental de mais uma realização com a assinatura PQ.
São indicadores desta natureza que nos fazem acreditar que este pro bono empenhado é mais do que uma simples manifestação dos umbigos que, queiramos ou não, acabam por se alimentar nesta comunidade de todas as referências que nos fazem a imagem e nos permitem sentir que de alguma forma somos capazes de nos distinguir no meio desta imensa multidão.
Passatempo Dominical.
Reescrevam o texto substituindo como quiserem as palavras em bold.
O Manel faz parte da legião dos zangados, a qual vive com a certeza de que alguma coisa no seu quotidiano está completamente errada. Mas que será? O sentimento de confusão e insegurança aumenta com o declínio cognitivo, a ansiedade torna-se angústia, desespero. Algo está errado, e alguém tem culpa, mas nunca os zangados. Claro. A zanga só é possível num estado de narcisismo e projecção, não em abertura e renovo. A intensidade deste rancor justiceiro é a exacta medida da sua impotência política. O verbo solta-se cristalizado, lancinante, e substitui a acção. Aparecem as matrizes do social, os emblemas do poder, as forças coercivas a prometer a salvação. Quando o seu mundo parece ruir, os zangados acabam invariavelmente a chamar pela tropa. A tropa-fandanga.
Obrigada, Valupi.
Assuntos Importantes

É importante, morre mais gente por ser gorda do que por ser magra...
Deram isto a uma amiga que acha que a filha está gorda (é mais gorda que ela) e é do Hospital Distrital do Barreiro, Serviço de Alimentação e Dietética. Eu não como metade, três quartas partes, dessas coisas...
Alimentos que deve preferir: carnes magras, borrego (detesto), cabrito (não como), caça (iac), carneiro (iac), coelho (agh), pombo (argh), vaca, vitela, perú, galinha.
Peixes magros, bacalhau, carapau, cherne, corvina, faneca, garoupa, pargo, linguado, peixe-espada, pescada, robalo.
Hortaliças e legumes, abóbora, agrião, alface, bróculos,cebolas, cenouras, chicória, couve-flor, couve-portugues, espinafres, grelos, feijão verde, lombardo, nabiça, nabos, pepinos, pimentos, tomates, alhos porros.
Gorduras vegetais, azeite, óleos, margarinas vegetais polinsaturadas.
Alimentos que deve evitar: leite completo, leite condensado, iogurtes açucarados, queijos gordos (Alcobaça, Azeitão, Alverca, Cabreiro, Ilha, Rabaçal, Roquefort, Serra, Serpa,Tomar , Brie).
Carnes gordas: porco,pato leitão. Peixes gordos: atum, cavala, congro, enguia, salmonete, sarda, sável, sardinha. Conservas. Produtos de salsicharia, orgãos e vísceras, banha, toucinho, açúcar.
Produtos com açucar: bolos, pudins, compotas, marmelada, chocolates, rebuçados, bombons, Nestun, Cerelac, produtos achocolatados.
Produtos oleaginosos, bebidas alcoólicas, refrigerantes, molhos....
Então agora um exemplo de dieta de 1400 calorias (bem bom, ahn!)
Pequeno Almoço: 2 dl de leite meio gordo e 1/2 paposeco c/ 5 g. de manteiga (ou carcaça...)
Meio da manhâ: 200 gr de fruta e duas bolachas
Almoço: 150 gr de carne de vaca, duas colheres de sopa de massa, hortaliças e legumes.
Lanche: 1 iogurte sem pedaços, 1/2 paposeco com 5 gr de manteiga (é um pão!)
Jantar: 50 gr de fiambre, 2 ovos mexidos,60 gr de batata, 150 gr de maçã (ou bacalhau cozido, ervilhas com ovo escalfado, peixe com batatas)
Ceia: Chá, 1/2 paposeco c/ 5 gr de manteiga.
O mais engraçado é o paposeco (tudo pegado) que por aqui também se chama carcaça, embora eu diga um pão...
As gajas são lixadas
O vento acalmou, deixou de chover e o Sol até dá um arzinho da sua graça. Hora de dar uma volta lá por fora e fazer o balanço dos estragos.
Nada de especial. Uns ramos partidos, cadeiras no meio do jardim, telhas levantadas. Pouco grave.
Mais uma vez, tinha-me precipitado nas conclusões.
Ainda não tinha entrado na lavandaria e já ouvia uns barulhos estranhos mas perfeitamente reconhecíveis. No chão, encostados à máquina da roupa, lá estavam eles. Dois cachorros que ainda nem os olhos abrem, filhos da cadela preta. Eu sabia que tinham nascido e até sabia onde estavam, mas a última coisa que me apetecia era que as miúdas os vissem. Estava decidido que estes saiam daqui o mais depressa possível.
Sacana da cadela deve ter-me lido os pensamentos e esta noite, no meio da chuva e do vento, pegou nos filhos e veio deixá-los onde sabe que estão a salvo.
Trocou-me as voltas, foi o que foi, porque para além de me ter comovido com este instinto de mãe protectora que carrega as crias nos dentes pelo meio da tempestade, eles são tão lindos...
(mas está decidido.... não podem ficar cá...)
O (in)crível Mr. Smith.
Do Mr. Smith só sei uma coisa - é um homem desonesto porque ou pagou cinco milhões em subornos ou ficou com o dinheiro para ele. Parece que há quem saiba muito mais, mas eu, que já há muito não vou ao cabeleireiro, só sei isto.
É que parece que o tal Mr. Smith, de quem não se conhece curriculum para além de ser inglês, o que deve ser certificado de alguma coisa, foi encarregue por outros ingleses de conseguir a aprovação de um projecto, acho que era um mega-projecto o que explica a quantidade de bites que agora por aí andam, daqueles mesmo mesmo difíceis.
Claro que foi uma manobra altamente inteligente por parte dos ingleses que não eram o Mr. Smith, porque está-se mesmo a ver que o Mr. Smith para além de conhecer todas as leis cá do burgo conhecia também quem lhes punha as virgulas e os pontos finais. E como não há inglês que não saiba que não existe qualquer povo civilizado para além do Canal da Mancha, convém ter um Mr. Smith no local que conheça bem os paus com que as canoas se fazem e saiba como fazer andar o homem dos remos.
O Mr. Smith, o nosso Mr. Smith, o quase tuga Mr. Smith, fez o que lhe pediram, ou foi fazendo, e os ingleses que não eram o Mr. Smith foram também fazendo o que lhes competia e o Mr. Smith lhes ia pedindo - foram-lhe enchendo as contas com as libras de Sua Majestade.
No fim estava tudo muito contente, os ingleses de lá com um shopping cá e o inglês de cá shopping lá. O pior foi que os ingleses de lá queriam saber ao certo ao certo para que tinha sido aquele dinheiro todo e o Mr. Smith, que até já sabia umas coisas daqui, fez o milagre do costume - com o regaço cheio de pão, e de mais umas coisas que cinco milhões em carcaças era muita carcaça, abriu o manto e entregou as rosas - subornos senhores, foram subornos, que estes selvagens são assim. E os ingleses, os tais que não deviam ser muito espertos porque até tinham contratado o Mr. Smith, acreditaram na palavra dele. Um inglês não mente, toda a gente sabe e a Felícia Cabrita jura.
Afinal até parece que o tal projecto foi aprovado sem ser preciso mudar virgulas e pontos finais, mas essa história não devia dar jeito nenhum ao Mr. Smith.
E eu até sei outra coisa do Mr. Smith - sei que não é capaz de prestar contas de cinco milhões de Euros. Ele diz que os pagou a uns gabirús mas os gabirús, como são gabirús, dizem que não sabem de nada e não viram a côr do dinheiro. Mas só podem ter-se afiambrado com as notas, que o Mr. Smith até escreveu isso nuns emails. Uns emails que mandou aos chatos dos outros ingleses que lhe estavam a pedir contas.
Este Mr. Smith é mas é um espertalhaço, porque ou conseguiu o que os senhores do BES não conseguiram, que foram apanhados mal puseram o pé naquela quinta tão gira para fazer um campo de golfe e que até tinha umas regras feitas só para ela e umas autorizações especiais assinadas pelo Telmo Correia no último dia que pisou o gabinete de ministro, ou embolsou os cinco milhões.
O que me intriga no meio disto tudo é porque é que o incrível Mr. Smith é tão crível. Muito mais crível que um primeiro ministro que por acaso até é nosso. Mas deve ser por o Mr. Smith não ser um Sr. Silva qualquer, ele é inglês e nós sabemos perfeitamente que lá fora é que é tudo bom, porque o Sr. Pedro, sócio do Mr. Smith, jura a pés juntos que nunca pagou subornos a ninguém. Valem-lhe de pouco as juras. É que o Sr. Pedro não é um mister, o Sr. Pedro é português e só pode ser desonesto.



