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...Continuar a fugir

Caminhou ao longo do caminho de ferro com a firme intenção de ver onde a linha acabaria, sem destino marcado, sem um rumo definido para a sua passada.

Queria ver a linha acabada num ponto qualquer, um objectivo alucinado para um dia tão recheado de desnorte.
Era um filho da pouca sorte, como se sentia, e essa linha que percorria agora era uma estrada que o levava para fora da vida de que pretendia escapar e por isso decidira partir quando algo na sua cabeça quebrou.
A vontade que dele se apoderou no momento pior, quando o tempo lhe pareceu parar na derradeira estação ou seria o seu coração, não o sabia, e por isso virou as costas a tudo e deu início à caminhada ao longo de uma estrada que acreditava ter um fim.
O epílogo para uma ausência de dor assim, surpreendente, no final de um amor ardente que o consumira por dentro até lhe esgotar a força para resistir à desilusão, queimado um fusível de ligação à realidade que o atormentava a cada passo que dava sobre as vigas entre carris.

E foi por isso que quando o comboio apitou por detrás ele não quis...

Post Scriptum

Espalhado pelo chão. Nas pedras frias de um soalho criado pela imaginação, em pedaços pequenos de mim, pedaços rasgados assim, com o cutelo da tristeza forjada em palavras de metal, aguçadas, palavras escritas com giz no piso gelado onde me encontro espalhado ou lá como se diz quando há partes de nós, fragmentos produzidos a sós, estendidos ao comprido no chão que dizem ser beijado quando o pisamos e alguém acha que somos merecedores.


Espalhado pelo céu. Nas nuvens húmidas de um tecto azul pintado num sonho meu, em retalhos de anjos da guarda, retalhos obtidos ao longo de uma madrugada sem sono, com o sopro de um vento sem rumo, suão, prenunciando temporais.

O mesmo que arrasta do chão as partículas do pó que serei, deixando as palavras que publiquei e pouco ou nada mais.

Fado Prosado

Esperou por ela anos a fio ao fundo das escadinhas que lhe haviam dito ser passagem obrigatória para a mulher que amara acima de todas. Os dias, à espera, olhar brilhante apontado para o primeiro dos degraus onde lhe aguardava um passo que fosse para poder sorrir-lhe outra vez.


Esperou por ela no Verão e no Inverno, um frio na alma que lhe evocava o inferno da saudade que o consumia e a tristeza que o perdia nas lágrimas que não evitava verter.
Sabia a vizinhança o quanto lhe fazia doer a descoberta de outro homem como lhe fizeram crer um dia, na misericórdia de o verem desistir do estado aflitivo que era o seu.

E quando ela o soube tão determinado e deu finalmente o passo desejado já não chegou sequer a horas de o ver partir para o exílio definitivo onde jamais a esqueceu.

Beco dos esquecidos

Espalhado pelo chão, coberto por cartão. Vadio, vagabundo, na ideia negligente dos que te vêem como um objecto representativo do fracasso, da perdição. Sem abrigo, para os poucos que interpretam essa mancha multicolor de andrajos de que se faz a tua presença como uma pessoa e não o que dela resta e a ninguém servirá seja para o que for.
Desististe do amor no meio de todas as coisas que já não tens nem reclamas, mesmo nos impropérios que exclamas encharcado numa zurrapa que te enlouquece apenas um pouco mais.

Espalhas-te pelo chão e cobres de cartão o frio, desaparecidas as vergonhas ou qualquer outro vestígio do orgulho de que entendeste abdicar perante ti próprio e aos outros nem ocorre poderes ambicionar.

Espalhado no alcatrão, abandonado como um cão no teu interior. A sós com a memória que te agride, entretido pela sobrevivência nos intervalos do tempo que dedicas à respectiva obliteração.

Sexo ao relento (Versão Mix Rapidinha na Madrugada)

Perceberam algures no caminho para o carro que tinha que acontecer. E tinha que acontecer depressa, passada interrompida pelos beijos sôfregos e pelas mãos perdidas nos corpos numa madrugada de uma cidade qualquer.

Ela pedia, cada vez com maior insistência, aquilo que ele queria dar. 
Agora, quero agora! 

E ele deitou-a de bruços no capô, a saia levantada e a cueca afastada para a possuir ali mesmo. Intenso, imenso, sem mundo à volta para atrapalhar. Tudo o resto para ignorar naquele momento inadiável, naquele desejo irreprimível que os cegava quando chegava a hora de amar.
Ela gemia, cada vez com uma cadência mais acelerada, mesmo à beira de uma estrada onde circulavam apenas as emoções desvairadas e aquela dupla de tesões descontroladas que se fundiam e depois explodiam numa reacção em cadeia que ela iniciou com um grito que ecoou nas ruas quase desertas e ele, deliciado, ouviu e murmurou o que sentiu enquanto a comia por detrás.
Agora, quero mais!

A POSTA NA LUBRIFICAÇÃO




Depois de semanas, meses, a encontrar na caixa do correio os folhetos do costume (hipermercados, serralharias, excursões com oferta de tupperware e aparelhos auditivos grátis), foi com agrado que deparei com a apresentação cor-de-rosa da Erosfarma Intimidades.
Como o nome indica, esta empresa está vocacionada para o mercado do prazer. De resto, a foto de uma jovem esbelta com a mão na anca e expressão de actriz porno ladeando a linha completa de massajadores, lubrificantes e afins não deixa margem para dúvidas. "Prometemos melhorar a sua vida sexual!" Não fazem a coisa por menos.

Estou sempre receptivo às novidades nesta área, pois o progresso tecnológico faz antever verdadeiras revoluções na parafernália ao alcance dos(as) mais arrojados(as). E dos mais necessitados(as) também.
Por isso não juntei o folheto pink ao papel para reciclar e decidi dar uma vista d'olhos (só para ver as ilustrações, claro) ao que a empresa (há 15 anos em Portugal - como é que eu não dei por isso?) propõe à vasta clientela potencial.

Logo à cabeça as Kraftdragees, as drageias da potência. O Zé, de Setúbal,another satisfied customer, refere que apesar de reformado ele e a Maria gostam de ter a sua vida sexual e pimba nas drageias que ligam o turbo e dão cabo do início de noite ao Chico e à Amélia do segundo direito que, lamentavelmente, afixaram o autocolante amarelo na caixa do correio e ficam assim privados da "extraordinária bomba de potência" que custa pouco mais de 14 euros. Uma pechincha.

Depois vêm as "super gotas" afrodisíacas que misturadas em qualquer bebida fazem com que uma pessoa não consiga deixar a "cama" (entre aspas, tão a ver?). Indicadas para diabéticos! Este artigo não me entusiasmou pois não necessito de gotinhas para exibir essa incapacidade terrível de deixar a cama. Todas as manhãs, não falha uma...

Mas há mais, no catálogo Primavera/Verão da Erosfarma.
O melhor creme para os amantes de sexo. Recomendado para bolas de berlim! (Isto sou eu a brincar) A Inês, de Ovar, afirma o seguinte: "Tenho sempre alguma dificuldade em excitar-me, mas depois que o meu marido me aplicou Erotisin Creme, tudo se tornou mais fácil, até para ele!". Mais fácil o quê? - , perguntarão.
É que o creme, devidamente barrado, actua exactamente onde é aplicado, nos centros de prazer do homem e da mulher (ou seja, directamente no cérebro).

Não liguei ao perfume com feromonas, mas não deixei de reparar no facto de o P, de Lisboa, colocar a seguinte questão: "a verdade é que as mulheres caem-me todos os dias no colo quando vou no autocarro, será coincidência?!"
Talvez seja coincidência, P, mas à cautela eu começaria a ceder o lugar às senhoras sem as forçar a medidas tão radicais e que, em circunstâncias extremas de inclinação da via e de peso da passageira podem causar danos que nem as drageias de potência conseguem contrariar.

Passei então ao artigo que mais chamou a minha atenção, pela fotografia. No que à primeira vista me pareceu um aparelho medidor de tensão, o Seaman's Pump, estava afinal um pequeno ginásio para o atleta de barguilha. Uma bomba de vácuo para exercitar o pénis, destinada a "desobstruir os corpos cavernosos" do dito. E ainda promete um "aumento generalizado do pénis". Generalizado, note-se. E ainda remove as obstruções dos corpos cavernosos (faz impressão, um gajo saber que tem coisas destas num sítio daqueles...).
Confesso que não me imagino a enfiar o meu apêndice pela "manga interior em silicone com saliências massajadoras" adentro e dar à bomba como se estivesse a encher os pneus da bicicleta, mas uma pessoa nunca sabe o dia de amanhã e quando começa a cair-nos o cabelo tememos logo que nos vai cair também a força na verga (pardon my french).

À cautela, guardarei o folheto. Nem que seja para ter à mão o contacto de quem me pode fornecer o "Super Pacote Surpresa", um kitkeka que inclui um vibrador em borracha, um lubrificante neutro, um afrodisíaco em gotas, 3 preservativos neutros e lubrificados (trazem feita a revisão dos 5.000), um óleo de massagem super deslizante, um slip sexy para ele, um slip sexy para ela e a surpresa de um brinde Erosfarma (que imaginamos não ser um colete reflector nem uma frigideira anti aderente).
E terei sempre à mão os contactos desta Super Empresa para os ceder a qualquer colega que se veja confrontado com aquele problema que, de acordo com o Nicolau Breyner, afecta meio milhão de portugueses.

Só assim poderão juntar-se ao Alberto, um idoso de Almada, que afirma "ter desenvolvido uma língua com aumento generalizado e potência extra para as mais variadas brincadeiras". Embora reconheça que o Wild Climax, lubrificante íntimo à base de água, não gorduroso, não tenha produzido os resultados esperados a "reduzir a fricção na zona mais sensível da sua anatomia traseira".

Vista de fora


Ao longe a cidade brilha sob um halo alaranjado de luz que lhe pinta o céu da madrugada, formando como que uma cúpula assinalada por um gigantesco letreiro de neon. E eu hesito e não avanço, preciso de algum espaço entre mim e aquele tapete de casas que cobre o mesmo chão onde antes cresciam as árvores e agora apenas medram habitáculos de betão.

Ao longe a cidade zune um som imperceptível que me evoca a sua respiração, ofegante, sob o manto de poluição sufocante que asfixia uma população cada vez mais vazia de vontade e menos dotada de capacidade para suportar as agressões de que uma cidade é capaz.

Ao longe a cidade que nos faz sentir periféricos nos subúrbios da emoção enquanto se instala arrogante no centro da nossa atenção.



Laços sem nós

Percebo-me, aos poucos, de costas voltadas para o sol.
Hesito até parar.
Depois começo a recuar, tacteando a berma do passeio com a traseira dos pés.
Percebo-me, aos poucos, saturado de esperar.
E começo a caminhar rumo a um futuro alternativo, paciência, enquanto o escreves pelo teu punho com a palavra ausência.

Nem tudo o que é off-shore é oiro...

Se hoje a nossa burocracia dá connosco em malucos, com simplexes e tudo, há pouco menos de quinze anos atrás era bilhete certo para o manicómio mais próximo.
Não sei bem se ainda me recordo de todos os passos, mas para um estrangeiro comprar uma casa em Portugal tinha de arranjar mais papelinhos, certidões e comprovativos que aqueles que tinha visto em toda a vida.
Começava por uma autorização do Banco de Portugal (e, se não me engano, do Investimento Estrangeiro também), o que demorava sempre uns tempos. No entretanto eram pedidas as certidões do Registo Predial, das Finanças, Procurações traduzidas e com apostilha do Consulado, certidões comerciais da empresa que estava a vender, e mais uns tantos para o monte, que havia sempre um papelinho desconhecido que faltava. Quando, meses depois, se tinha tudo na pastinha devida, percebia-se que o primeiro já tinha passado de prazo e começava a dança toda outra vez, que isto de prazos é como os dominós - cai um e arrasta os outros todos. Com a graça dos deuses e a simpatia da nota na mão do funcionário lá se conseguia ter tudo em ordem e só faltava fazer a escritura. Outra dança, que notários era mentira, tinham sempre muito trabalho e só já estavam a marcar para daí a dois ou três meses, exactamente quando os papelinhos estavam todos outra vez fora de prazo...

Disse, há uns tempos, que ia fazer um post sobre off-shores. Estou a fazê-lo agora.
Há poucos anos atrás, quando cheguei ao Algarve, fui oficialmente apresentada às sociedades off-shore. Imaginei mafias e traficantes, gangsters e foragidos. Tudo a lavar dinheiro nessas tais off-shores de má fama. Para minha grande surpresa, as personagens negras da minha imaginação eram simpáticos casais de reformados, com a vida mais limpa e branca que a roupa do omo, que tinham uma casinha de férias em Portugal em nome de uma off-shore. Porquê? Porque era simples. Tinha a mesma simplicidade que conheciam lá na terra deles. Lidavam com a burocracia portuguesa uma vez, quando compravam, mas assim que quisessem vender sabiam que em quinze dias tinham tudo despachado e o dinheiro na conta.
O processo era simples. Uma sociedade, com sede normalmente em Gibraltar, criava e vendia uma outra sociedade prontinha a ser usada. Os sócios e administradores das novas sociedades eram sempre os mesmos e quem comprava assinava com eles um contrato de Trust, coisa que em Portugal não existe, mas que funciona por toda essa europa fora. Em traços grosseiros, nesse contrato era dito que os proprietários da sociedade detinham em seu nome bens que não eram deles e se obrigavam a dar-lhes somente o uso e destino que os reais proprietários, ou "beneficial owners", na gíria, os mandatassem para dar. Uma carta ou um fax, sem grandes complicações, era o suficiente.
A casa em Portugal era comprada em nome dessa nova sociedade e quando os seus donos a quisessem vender só tinham de informar a sociedade administradora do facto e assinarem com os compradores um contrato particular onde era transmitida a posição no trust. Simples e eficaz.
Gibraltar porquê? Porque lá, tal como noutros "paraísos fiscais", estas sociedades non-trading não são obrigadas a pagar impostos, já que não têm lucros.
Nada disto era barato, que pela administração destas sociedades toda a gente se cobrava bem e só uma procuração vinda de Gibraltar chegava a custar £ 400 e as "annual fees", pagas à empresa mãe, andavam pelas £ 2500... Contas feitas e a Sisa que já não precisavam de pagar em Portugal era muitas vezes inferior.
Fuga aos impostos? Só por tontice... Branqueamento de capitais? A maior parte até comprava com empréstimo bancário... A grande parte das vezes foi fuga, mas à terrivel burocracia portuguesa.
É em nome de todos esses simpáticos velhinhos que conheci e que compraram casas ao sol e ao sul através de uma off-shore, que estou a escrever isto. Porque nem tudo o que vem na rede é peixe e eles foram apanhados numa rede estendida há exactamente cinco anos atrás, pela Manuela Ferreira Leite, que pôs carimbos de criminosos em todos eles, quando conhecia, bem melhor que eu, a situação real. Mas deu-lhe jeito para equilibrar as contas públicas. A perseguição foi tão grande e os dedos apontados eram tantos que os proprietários das casas tiraram-nas das off-shores e passaram-nas para o nome deles. Ainda hoje gostava de saber quanto o Estado português embolsou só em sisas, emolumentos notariais, registos e mais valias. Foram milhares de escrituras feitas em menos de um mês. O de Dezembro. O último do ano. Quando mais apetecia uma entradinha de dinheiro fresco para equilibrar um pouco o descalabro das contas públicas. Isto sim, foi roubar à luz da lei. E é tão certo ter sido assim que casas que na altura, se tivessem continuado em nome das famigeradas off-shore, passariam a pagar mais de dez mil euros anuais de impostos, já estariam hoje a pagar cinco vezes menos se lá tivessem continuado. Mudam-se as leis à medida dos apertos orçamentais e trata-se como criminoso quem nunca o foi nem pretendeu ser.
Moral? Só a de quem manda e pode.