No dia 9 de Outubro de 1995 fiz um pedido a um médico. Pedi-lhe que quando tomasse a decisão de desligar as máquinas e declarar a morte lhe desse mais cinco minutos, porque tinha a certeza que ela seria a última a desistir.
Estava a falar da minha filha Clara, que já antes tinha provado que mesmo quando já devia estar morta não tinha morrido e agarrou-se à vida com uma força impossível de imaginar num toco de gente.
Foi por isso que naquele fim de tarde de Outubro, sozinha com o cirurgião, lhe fiz aquele pedido. Cinco minutos. Só queria que lhe dessem mais cinco minutos.
Não consigo saber se teria coragem para pedir vinte anos. Não sei mesmo se os queria. Mais importante ainda, não sei se a Clara os queria. Acho que não. Acho que nem eu nem ela quereriamos esta morte anunciada e não cumprida.
Já falei da Eluana e do pai da Eluana aqui e aqui.
Vinte anos depois de ter perdido a vida a Eluana continua sem morrer. As máquinas prendem-lhe o corpo na terra porque mais nada dela aqui está.
Mais nada? Segundo o Vaticano a alma da Eluana ainda por ali anda no meio de tubos e máquinas à espera de um milagre que a medicina já declarou que não era capaz de fazer e que da parte dos seus representados, que até têm exclusividade na matéria, tarda em aparecer, porque a Eluana há demasiado tempo que espera pelo famoso "Levanta-te e anda".
E agora que todos os Juizos terrestres decidiram que a Eluana podia acabar de morrer em paz a Santa Sé, incapaz de fornecer o tal milagre, meteu a cunha a S. Berlusconi, milagreiro com pouca queda para a santidade, que toda a gente sabe que o S lhe vem de Silvio e não de Santo.
E S. Berlusconi está pronto para afrontar os Tribunais de Itália e aprovar de urgência um decreto lei que impeça os médicos de interromper a administração de alimentos e água ao corpo de Eluana porque "A alimentação e a hidratação, como formas de suporte vital e fisiologicamente destinadas a aliviar o sofrimento, não podem ser rejeitadas em nenhum caso pelas pessoas ou por quem lhes presta assistência".
Este até pode ser um Decreto Lei cheio de virtudes cristãs, que a caridade é uma virtude, mas parece-me é que se está a interpretar mal o Evangelho de S. Mateus ( e este S não é de Silvio).
Jesus disse «Vinde, benditos de meu Pai (…). Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber…» (Mt 25, 34-35), mas não acrescentou " e enfiem-me comida por tubos mesmo que eu tenha dito que não"...
Há 2 meses