Acabei de perceber que sou uma mariquinhas. Bem que me armo em carapau de corrida, mas depois vejo-me para aqui debulhada em lágrimas, em choro convulsivo quase, e lá se vai a armação olhos abaixo.
A Xica foi de férias. Não sei se por muito ou pouco tempo, que a minha vontade era ir buscá-la amanhã. Desde que a escola acabou que estava previsto, mas já lá vai um mês e eu andava, dia após dia, a arranjar umas desculpas excelentes para ela não ir.
Foi hoje. Não durmo há quase uma semana e dez minutos antes de ir embora ainda tentei tirar um castigo da manga por ter perdido o BI, mas era esticar de mais a corda.
Foi. E eu fiquei enrolada num novelo pequenino. O comboio onde ela entrou, sozinha, é a grande aventura dos seus dez anos de vida, mas para mim é uma coisa horrivel que assim que arrancou me fez soltar as lágrimas que ainda não pararam.
Eu sei que acabam por sair do ninho, eu sei que temos de os deixar ir, mas eu também sei que não consigo viver sem elas. Ou pelo menos nas próximas horas vou achar que não consigo.
A Clara ficou, que era demasiado arriscado deixá-la fazer esta viagem sem mim, mas nós duas não somos nós três, falta-nos uma parte de nós, e andamos para aqui desasadas.
Isto passa, se não é em dois dias é em três, como diz quem também não está aqui agora e bem falta faz, mas enquanto não passar vou andar a coxear um bocado, que calcanhares tenho dois e qualquer um deles é dos que doem a sério.