Não sei se quem usa a velha estrada nacional se safa, mas tenho a certeza que quem chega de férias ao Algarve pela auto-estrada é apanhado no pim-pam-pum da última portagem. Depois até vão rodando, com umas regras que ninguém entende, mas mal que cá entram dividem-se logo em dois grupos para as brincadeiras - índios e caras-pálidas - e ocupam os territórios respectivos - praias e centro comerciais.
Nós, por cá, já sabemos que é assim - dez meses de paraíso e dois de bang bang. Felizmente, para quem por aqui vive, distinguem-se bem e percebe-se por onde páram, de modos que é só passar de longe, que a miudagem anda entretida.
É giro vê-los, acreditem que é.
Na praia juntam-se os índios, em amontoados de tendas, panos coloridos, penachos na cabeça, barriguinhas de grande chefe touro sentado e squaw saltitante à volta das crianças, desejando mostrar o que o ginásio prometeu fazer mas é certinho que não fez apesar de estarem convencidas que sim, valeu mesmo a pena. A pele deles é vermelha, como não podia deixar de ser, e reluz ao sol com os óleos dos rituais. As tribos são sempre grandes e barulhentas, com os gritos de guerra a ouvirem-se muito longe, que lá em casa têm de saber que está sol e o mar está quente e o Manelinho já tem outras cores e ontem foram ao franguito assado. Estes índios também sabem que a força lhes vem da união e recusam-se a ficar sozinhos. Prainha boa é prainha atestada, e quantos mais e mais juntinhos melhor, que brincar sozinhos e sem o resto do povo a ver não tem graça nenhuma.
Um bocadinho mais para o interior andam os caras-pálidas. Branquinhos, branquinhos, branquinhos, coitados. Muitos acabaram de cruzar as tais portagens, ainda com o selo de cara-pálida fresquinho na testa, e vieram direitinhos para a tipicamente algarvia Zara, que pode chegar a vizinha do R/C e levar a blusita que vai fazer furor. Outros, branquinhos também, mas à força do after-sun recomendado pela empregada da farmácia de serviço, que isto de brincar aos índios não deixa dormir à noite, deliciam-se com o double-cheese menu que ninguém faz como fazem aqui. Estes também são giros e também andam sempre muito juntinhos. Cavalos e caravanas em círculo cá fora e aí estão eles, felizes, no shópingue, que férias sem shópingue nem são férias de jeito. E depois, convenhamos, lá de onde vêm de certeza que não há shopingues. E se há, não têm estas lojas. E se têm, não têm estas coisas. E se têm tudinho, não são assim assim como estas, que aqui é algarve e é logo outra categoria.
E pronto, nós lá vamos resistindo os dois meses do costume, que não tarda volta tudo ao normal e já se consegue encontrar uma praia decente outra vez, fazer as compritas que não podemos deixar de fazer e andar por estas estradas sem parecer que foram invadidas por hordas de taxistas com a mão na buzina e o pé no acelerador, que antes deles ninguém chega e o lugarzito de estacionamento não lhes roubam de certeza, que são duros e aprenderam lá na selva onde vivem a não deixar que ninguém lhes passe a perna.
Não passamos, descansem, passamos é um belo atestado de pobreza, disso não tenham dúvidas nenhumas.
Nós, por cá, já sabemos que é assim - dez meses de paraíso e dois de bang bang. Felizmente, para quem por aqui vive, distinguem-se bem e percebe-se por onde páram, de modos que é só passar de longe, que a miudagem anda entretida.
É giro vê-los, acreditem que é.
Na praia juntam-se os índios, em amontoados de tendas, panos coloridos, penachos na cabeça, barriguinhas de grande chefe touro sentado e squaw saltitante à volta das crianças, desejando mostrar o que o ginásio prometeu fazer mas é certinho que não fez apesar de estarem convencidas que sim, valeu mesmo a pena. A pele deles é vermelha, como não podia deixar de ser, e reluz ao sol com os óleos dos rituais. As tribos são sempre grandes e barulhentas, com os gritos de guerra a ouvirem-se muito longe, que lá em casa têm de saber que está sol e o mar está quente e o Manelinho já tem outras cores e ontem foram ao franguito assado. Estes índios também sabem que a força lhes vem da união e recusam-se a ficar sozinhos. Prainha boa é prainha atestada, e quantos mais e mais juntinhos melhor, que brincar sozinhos e sem o resto do povo a ver não tem graça nenhuma.
Um bocadinho mais para o interior andam os caras-pálidas. Branquinhos, branquinhos, branquinhos, coitados. Muitos acabaram de cruzar as tais portagens, ainda com o selo de cara-pálida fresquinho na testa, e vieram direitinhos para a tipicamente algarvia Zara, que pode chegar a vizinha do R/C e levar a blusita que vai fazer furor. Outros, branquinhos também, mas à força do after-sun recomendado pela empregada da farmácia de serviço, que isto de brincar aos índios não deixa dormir à noite, deliciam-se com o double-cheese menu que ninguém faz como fazem aqui. Estes também são giros e também andam sempre muito juntinhos. Cavalos e caravanas em círculo cá fora e aí estão eles, felizes, no shópingue, que férias sem shópingue nem são férias de jeito. E depois, convenhamos, lá de onde vêm de certeza que não há shopingues. E se há, não têm estas lojas. E se têm, não têm estas coisas. E se têm tudinho, não são assim assim como estas, que aqui é algarve e é logo outra categoria.
E pronto, nós lá vamos resistindo os dois meses do costume, que não tarda volta tudo ao normal e já se consegue encontrar uma praia decente outra vez, fazer as compritas que não podemos deixar de fazer e andar por estas estradas sem parecer que foram invadidas por hordas de taxistas com a mão na buzina e o pé no acelerador, que antes deles ninguém chega e o lugarzito de estacionamento não lhes roubam de certeza, que são duros e aprenderam lá na selva onde vivem a não deixar que ninguém lhes passe a perna.
Não passamos, descansem, passamos é um belo atestado de pobreza, disso não tenham dúvidas nenhumas.