A primeira vez que me aconteceu foi na piscina do Grande Hotel da Figueira, a piscina lá de casa, como diziamos quando eramos miúdos, dada a proximidade e a quantidade de tempo que lá passávamos.
Cheguei com elas duas, eu de Expresso na mão, direita à esplanada, e elas para a água mesmo.
Pedi dois bilhetes de criança e a rapariguinha da caixa olhou para a Clara e atirou um seco "essa menina não".
Pronto! Ia haver festival, de certeza, mas eu tinha de tentar outra vez antes de abrir as hostilidades.
- Dois bilhetes de criança, faz favor.
O mesmo olhar, a mesma resposta. Ainda na fase civilizada, mas pronta a lançar os misseis, explico que a menina, a Clara, sabe nadar muito bem, que está habituadíssima a piscinas e que eu vou ficar na esplanada.
Acho que a rapariguinha da caixa percebeu que havia qualquer coisa errada no meu tom de voz, dada a rapidez com que explicou que o não era um não de não é preciso bilhete. A menina não paga!
Boa. Uma borla. A primeira borla da vida da Clara. A primeira vez que os olhos à chinesa lhe tinham dado uma vantagem que fosse.
Voltámos a ter outras. No Oceanário, no Zoo, no Pavilhão do Conhecimento, no Zoomarino.
Agora já sei que não paga, mas mesmo assim fico sempre à rasca. Nunca, por nunca, tive coragem de chegar a uma bilheteira e dizer A minha filha é deficiente, não paga, pois não?
Caraças, pode ser imbecilidade minha, mas tenho a sensação que a estou a usar, a usar um azar para poupar uns trocos, que só me falta pôr-lhe um letreiro e sentá-la num passeio com um acordeão (e daí, bem pensado, talvez esta fosse uma boa ideia, que a crise é lixada...).
Ora, resumindo. Temos andado a ter umas borlas nas bilheteiras dos privados mas do Estado, do pai, da mama principal, nem um chavo em 14 anos. Sim, nunca pedinchei, mas também nunca tive. Era isto, e mais aquilo, e aqueloutro, e és uma burra, e o dinheiro que podias ter recebido, e isso tudo e mais alguma coisa a juntar à minha enorme dificuldade em pedir o que quer que seja, e lá se vão 14 anos de subsídios nunca pedidos e menos ainda recebidos.
Até que chegou o Sr. António. E o Sr. António hoje lembrou-se de telefonar. Parece que trabalha na secretaria lá da escola e apeteceu-lhe, hoje, sete anos depois da Clara ter começado a frequentar o ensino público, ligar-me para me informar que ela não tem de pagar as senhas da cantina.
- Ai não??!!....
- Não. A Clara tem direito ao escalão.
Escalão! Palavra mágica.
E enquanto o Sr. António continuava a falar de senhas de cantina a minha cabeça já bitava.
Ora muito bem... Escalão... Saco o Magalhães com o código da Xica, que para ela tenho de o pagar mas esse é barato, e a Clara leva com um portátil XPTO.... Quer-se dizer..... Leva aqui com a Magda, que já tem quase dois anos e começa a ser pré-histórica, e eu, euzinha, papo um portátil tipo Ferrari sem pagar um chavo!...
Garantido! O gajo, que não é o Sr. António, tem o meu voto.