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Dia 8 de Fevereiro

A minha avó Celeste faria hoje 100 anos.
Como ela gostava de contar, nasceu sete dias depois do rei ser assassinado, que a mãe passou muito mal.
Morreu poucos dias depois, também. Mais precisamente, cinco. Cinco dias depois da minha filha mais nova nascer. Morreu devagarinho, pela manhã, enquanto no quarto ao lado eu amamentava uma vida que estava a estrear-se, mas que, já na altura, era demasiado sugadoura. Sugava-me a mim e, naquela confusão de sentires de um parto ainda com pontos, eu achava que sugava também a vida da avó. Ou que a avó, gentilmente, lhe oferecia o lugarzinho dela, da mesma maneira que já tinha oferecido o coração a mim e à irmã.
A última vez que falei com a avó Celeste foi no dia que cheguei da maternidade, que depois disso já não acordou mais. Estava sentada no quarto, numa cadeira de braços, com ar de rainha, e fui mostrar-lhe a bisneta nova. A avó olhou para ela, levantou um pouco a mão direita, branca como nunca mais vi, de dedos finos e unhas pintadas, abanou-a no ar e traçou-lhe o destino não é nada nossa! Tinha razão. A cabrinha desde que nasceu que é, por dentro e por fora, a cópia fiel do pai. Como se eu tivesse faltado à chamada dos genes.
Tinha graça, a minha avó. Era de um snobismo insuportável, sabia as anedotas todas do Bocage - e contava-as todos os natais depois do golinho de champagne da praxe - era católica extremista, mas não se confessava porque um padre um dia lhe tinha dito que não precisava já que nunca tinha pecado, era gulosa até nos fazer diabetes a nós e tinha mais alergia à água que o diabo à cruz. Não me lembro nunca de a ver beber água, nem às refeições. Nada, não bebia nada. O único líquido que ingeria era um chá às cinco da tarde, e cinco da tarde tinham de ser mesmo cinco da tarde.
A avó Celeste tomava conta de mim um mês por ano. Setembro, o mês que para mim será sempre o grande. Assim que acabava a praia eu ia para a serra, para a quinta, e por lá ficava até começarem as aulas, a 7 de Outubro, que nessa altura não falhavam os programas de informática. Era a minha avó que me velava as noites de hospital cada vez que eu teimava que queria ver fazer o vinho e o cheiro me trazia de bónus mais um ataque de asma e era a minha avó que me escondia os livros, que a ler tanto gastava-os muito depressa. Era também a minha avó que me fechava no quarto para fazer a sesta, sem perceber que todos os dias eu descia agarrada às colunas da varanda e voltava a subir pouco antes da sesta dela acabar.
O único medo conhecido da minha avó era a escuridão, que ao diabo afastava-o com rezas, mas quando ficou cega não disse nada a ninguém. Cegou quando a casa ardeu, a casa onde tinha nascido poucos dias depois do rei ter morrido e a casa onde nasceram os filhos dela. Viveu na escuridão que a apavorava durante tempo demais, mas morreu a ver. A ciência de que ela não gostava, que nada disso de sermos descendentes de macacos que ela não tinha rabo como eles, fez o milagre que a fé dela não foi capaz de fazer. E no momento que lhe tiraram as ligaduras e ela pôde vêr outra vez, não agradeceu a deus nenhum. Limitou-se a dizer ao cirurgião, com os olhos ainda a piscarem, pensava que o senhor era mais bonito! e a olhar para as mãos dela e sussurar estou velha...

A avó Celeste ensinou-me, da forma mais cruel, como o amor pode ser cego. Eu era a neta mais velha, a única a quem chamou sempre "zinha", e era aquela de quem dizia são todos iguais, mas a ...zinha vai ser sempre a ...zinha. Nunca segui as regras da minha avó, mas nunca, por um momento, senti que ela gostasse menos de mim. Eu era a única que, ostensivamente, passeava o pecado carnal, o pior de todos, já que tinha decidido não me casar apesar de ter uma filha, que isso de casar não era comigo, mas o colo da minha avó foi sempre para ela. Era a menina e ai de quem se atrevesse a fazer uma crítica que fosse. Os filhos da minha irmã, casada e com a benção da Santa Madre Igreja, eram todos lindos, mas só isso, muito lindos e agora vão lá ter com a vossa mãezinha para vos limpar o nariz, a filha do meu irmão era a garota, que os pais estavam casados mas pelo civil, suprema vergonha, mas a minha era a Clarinha e o resto não interessava, que quando se ama é assim.

A avó Celeste fazia hoje cem anos e eu estou a chorar. Por mim e por ela. Porque nunca ninguém me amou tanto na vida como essa senhora pequenina, que morreu cinco dias depois da minha filha mais nova nascer.
Avó, parabéns e obrigada. De si, tenho a certeza, vou gostar sempre.

Pneu sobresselente

Infelizmente não faço parte daquela extensa lista de pessoas, normalmente do sexo feminino, que não faz a miníma ideia como se muda um pneu de um carro. Sei exactamente como se faz e já mudei vários pneus e nas circunstâncias mais complicadas. Mudei o de um velho Portaro debaixo de um nevão, que parecia ainda mais antigo que ele, e depois de ter mandado parar um autocarro para pedir o macaco emprestado, um outro às quatro da manhã em cima da Ponte 25 de Abril, ainda um outro a contra relógio, tal qual um mecânico da Ferrari em pleno Grande Prémio, com o sol de um Agosto algarvio a bater a pique e um avião para apanhar, e tantos mais outros que já nem me lembro. Nenhum destes era de um carro meu.
No meu carro tive dois furos, mas nem as mãozinhas sujei. A idade aprimora a cabronice e agora percebo que um ar de mulher desvalida consegue o milagre de pôr dois pedreiros a mudarem uma roda ou o de parar uma Brigada de Trânsito e passar o macaco para as mãos de um GNR que se não era simpático, passou a sê-lo.
Não me assustam estas coisinhas do dia a dia porque sei que, de uma forma ou outra, as consigo resolver. Mas assusta-me não ter pneu sobresselente. A estatística até pode dizer-me que provávelmente não terei qualquer furo naqueles poucos quilómetros que vou ter de fazer com um pneu furado no sítio onde devia estar o que roda na estrada, mas eu tenho medo.
Nos últimos tempos, e deve ser isso a velhice, tenho sentido a falta de muitos outros pneus sobresselentes.
Já não me chega saber que se quiser sou capaz. Percebi que nem sempre depende do querer e que o não poder é que me tolhe os movimentos. Sempre achei que isso de sobresselentes ficava demasiado caro e que a maior parte das vezes eram um enorme flop. Pior do que não ter o pneu ali mesmo à mão de semear era ir buscá-lo e estar completamente em baixo, sem um cheirinho de ar, e incapaz para qualquer serviço. Eram as falsas expectativas, as ilusões, os desencantos que custavam muito mais, porque me apanhavam de surpresa. Roda no chão, macaco instalado, chave de porcas pronta a usar e um sobresselente inútil a olhar para mim.
Desisti de tentar e tenho andado em viagem a confiar que se estiver um prego na estrada vai ser mesmo em frente de uma oficina. Mas o medo tem vindo a aumentar e já não consigo ir para muito longe. Vou mesmo ter de pensar em pneus sobresselentes. Talvez da Pirelli e com jantes especiais. Parece que são bons e bonitos e pode ser que não falhem se um dia precidar deles. Carotes, mas talvez haja mesmo que pagar um alto preço por algum descanço.

A minha vida mudou hoje.

Estranho quando começamos a ouvir as nossas palavras na boca dos outros. Exactas. Tal e qual. E como ouvimos outros a dizerem, às mesmas palavras, o contrário do que sempre nos disseram a nós.
Estou a falar comigo, mas a conversa é séria, estás a ouvir, umbigo?

Daltonismo

Verde é vermelho e vermelho é verde. Ver verde e dizer vermelho e ver vermelho e dizer verde. Sempre. Tudo certo, que eu cá não sei se vêem verde, amarelo ou branco, só sei que áquela cor chamam verde, tal como eu.
Pior é quando se baralham as cores, e as mãos, e as imagens no espelho. Agora é verde depois é vermelho, ontem direita e amanhã esquerda, que nunca se sabe por onde andam os dedos nem com quem ficaram os anéis.
E num dia tenho a olhar para mim uma eu que não sei quem é e noutro vejo quem já me cansei de ser. Verde ou vermelha, vermelha ou verde?

Eu cá sei porque gosto dela

Para ti nunca fui más que un pedazo
de mármol. Esculpiste en él mi cuerpo,
un cuerpo de mujer blanco y hermoso,
en el que nunca viste más que piedra
y el orgullo, eso sí, de tu trabajo.
jamás imaginaste que te amaba
y que me estremecía cuando, dulce,
moldeabas mis senos y mis hombros,
o alisabas mis muslos y mi vientre.
Hoy estoy en un parque, donde sufro
los rigores del frío en el invierno,
y en verano me abraso de tal modo
que ni siquiera los gorriones vienen
a posarse en mis manos porque queman.
Pero, de todo, lo que más me duele
es bajar la cabeza y ver la placa:
«Desnudo de mujer», como otras muchas.
Ni de ponerme un nombre te acordaste.

-
Amalia Bautista -

Pescadores portugueses são das Caxinas e da praia de Mira

O Carlos. Será o Carlos? Vinha a conduzir, a meio da tarde, quando ouvi falar na Praia de Mira (assim, com letra grande, que aqui praia é nome de terra!) e, desde aí, que só penso no Carlos. O Carlos foi meu colega de liceu há muitos anos atrás. Era parecido com o Cat Stevens e chegou à escola lá do sítio quando a de Mira se ficou pelo 9º ano. Fruta fresca. Exactamente isso, depois de anos seguidos a conhecer de cor todas as caras, chegava fruta fresca.
O Carlos também começou por ser fruta, mas não havia kiwi que lhe servisse. Tinha uma nobreza que não permitia gritinhos de adolescentes nem requebros de sala de convívio. Como já disse, Cat Stevens. Lindo, alto, moreno, mãos enormes, um sorriso de marés dependente das luas e um ar de perdido no mundo. De toda aquela gente que chegou naquele ano, fruta fresca, só me lembro do único que não vinha encaixotado e pronto a servir. Foi meu amigo e chamava-se Carlos. Queria seguir Engenharia Naval e construir os barcos que não seriam mais os caixões de quem lhe estava perto. Não foi há muito tempo, mas foi no tempo da arte xávega, com os barcos a bailarem no meio das ondas a rebentar e os bois a ajudarem as mulheres a puxar as redes. Foi no tempo em que o luto se fazia na praia e as viúvas e as mães e as irmãs, antes de voltarem para as couves e o milho, passavam a noite na areia a chorar os seus homens que ficavam no mar. Diferente de Nova York, como o meu pai dizia, onde não se grita pela morte, mas se carpe a dor contida em anos de psicanálise. Ali era assim - gritos de praia e a vida a continuar com um xaile negro pela cabeça.
O Carlos vivia com a família que ia tendo e mal falava nos outros, nos que o mar e a França lhe tinham tirado. Era a personagem romântica de qualquer livro de Camilo e estaria destinado a morrer tísico com um mal de amor, mas naquela altura os nossos sonhos andavam por muito longe e ainda não sabiamos que iamos ter que os gritar na praia ou desfiar no divã do shrink de serviço.
Voltei a ver o Carlos quando o meu vestido do Baile de Finalistas era uma peça de museu e o autocarro que nos tinha levado até ao Algarve estava transformado em milhares de latas de atum. Encontrei-o na Praia de Mira. Não, não tinha ido para a Escola Naval. Tinha ido para França, tinha regressado e andava no mar. Entre duas cervejas, explicou-me qual era o lugar que tinha escolhido no barco. Tinha um nome, mas não me lembro. Disse-me que era aquele onde se morria primeiro.
Hoje lembrei-me do Carlos e lembrei-me da Peste do Camus. Lembrei-me de como a peste começou longe e se foi aproximando e aproximando, até começarem a morrer os que estavam mesmo ali ao lado. E foi só nessa altura que a Peste foi peste.
Hoje pensei naquele homem no mar e chamei-lhe Carlos. E estou triste porque o Carlos morreu. Ou o António. Ou o Zé.
Ou o Carlos. Que queria ser Engenheiro Naval e morreu no mar. E era da Praia de Mira. Com Pê grande, que os nomes das terras também honram os homens.