A minha avó Celeste faria hoje 100 anos.
Como ela gostava de contar, nasceu sete dias depois do rei ser assassinado, que a mãe passou muito mal.
Morreu poucos dias depois, também. Mais precisamente, cinco. Cinco dias depois da minha filha mais nova nascer. Morreu devagarinho, pela manhã, enquanto no quarto ao lado eu amamentava uma vida que estava a estrear-se, mas que, já na altura, era demasiado sugadoura. Sugava-me a mim e, naquela confusão de sentires de um parto ainda com pontos, eu achava que sugava também a vida da avó. Ou que a avó, gentilmente, lhe oferecia o lugarzinho dela, da mesma maneira que já tinha oferecido o coração a mim e à irmã.
A última vez que falei com a avó Celeste foi no dia que cheguei da maternidade, que depois disso já não acordou mais. Estava sentada no quarto, numa cadeira de braços, com ar de rainha, e fui mostrar-lhe a bisneta nova. A avó olhou para ela, levantou um pouco a mão direita, branca como nunca mais vi, de dedos finos e unhas pintadas, abanou-a no ar e traçou-lhe o destino não é nada nossa! Tinha razão. A cabrinha desde que nasceu que é, por dentro e por fora, a cópia fiel do pai. Como se eu tivesse faltado à chamada dos genes.
Tinha graça, a minha avó. Era de um snobismo insuportável, sabia as anedotas todas do Bocage - e contava-as todos os natais depois do golinho de champagne da praxe - era católica extremista, mas não se confessava porque um padre um dia lhe tinha dito que não precisava já que nunca tinha pecado, era gulosa até nos fazer diabetes a nós e tinha mais alergia à água que o diabo à cruz. Não me lembro nunca de a ver beber água, nem às refeições. Nada, não bebia nada. O único líquido que ingeria era um chá às cinco da tarde, e cinco da tarde tinham de ser mesmo cinco da tarde.
A avó Celeste tomava conta de mim um mês por ano. Setembro, o mês que para mim será sempre o grande. Assim que acabava a praia eu ia para a serra, para a quinta, e por lá ficava até começarem as aulas, a 7 de Outubro, que nessa altura não falhavam os programas de informática. Era a minha avó que me velava as noites de hospital cada vez que eu teimava que queria ver fazer o vinho e o cheiro me trazia de bónus mais um ataque de asma e era a minha avó que me escondia os livros, que a ler tanto gastava-os muito depressa. Era também a minha avó que me fechava no quarto para fazer a sesta, sem perceber que todos os dias eu descia agarrada às colunas da varanda e voltava a subir pouco antes da sesta dela acabar.
O único medo conhecido da minha avó era a escuridão, que ao diabo afastava-o com rezas, mas quando ficou cega não disse nada a ninguém. Cegou quando a casa ardeu, a casa onde tinha nascido poucos dias depois do rei ter morrido e a casa onde nasceram os filhos dela. Viveu na escuridão que a apavorava durante tempo demais, mas morreu a ver. A ciência de que ela não gostava, que nada disso de sermos descendentes de macacos que ela não tinha rabo como eles, fez o milagre que a fé dela não foi capaz de fazer. E no momento que lhe tiraram as ligaduras e ela pôde vêr outra vez, não agradeceu a deus nenhum. Limitou-se a dizer ao cirurgião, com os olhos ainda a piscarem, pensava que o senhor era mais bonito! e a olhar para as mãos dela e sussurar estou velha...
A avó Celeste ensinou-me, da forma mais cruel, como o amor pode ser cego. Eu era a neta mais velha, a única a quem chamou sempre "zinha", e era aquela de quem dizia são todos iguais, mas a ...zinha vai ser sempre a ...zinha. Nunca segui as regras da minha avó, mas nunca, por um momento, senti que ela gostasse menos de mim. Eu era a única que, ostensivamente, passeava o pecado carnal, o pior de todos, já que tinha decidido não me casar apesar de ter uma filha, que isso de casar não era comigo, mas o colo da minha avó foi sempre para ela. Era a menina e ai de quem se atrevesse a fazer uma crítica que fosse. Os filhos da minha irmã, casada e com a benção da Santa Madre Igreja, eram todos lindos, mas só isso, muito lindos e agora vão lá ter com a vossa mãezinha para vos limpar o nariz, a filha do meu irmão era a garota, que os pais estavam casados mas pelo civil, suprema vergonha, mas a minha era a Clarinha e o resto não interessava, que quando se ama é assim.
A avó Celeste fazia hoje cem anos e eu estou a chorar. Por mim e por ela. Porque nunca ninguém me amou tanto na vida como essa senhora pequenina, que morreu cinco dias depois da minha filha mais nova nascer.
Avó, parabéns e obrigada. De si, tenho a certeza, vou gostar sempre.
Como ela gostava de contar, nasceu sete dias depois do rei ser assassinado, que a mãe passou muito mal.
Morreu poucos dias depois, também. Mais precisamente, cinco. Cinco dias depois da minha filha mais nova nascer. Morreu devagarinho, pela manhã, enquanto no quarto ao lado eu amamentava uma vida que estava a estrear-se, mas que, já na altura, era demasiado sugadoura. Sugava-me a mim e, naquela confusão de sentires de um parto ainda com pontos, eu achava que sugava também a vida da avó. Ou que a avó, gentilmente, lhe oferecia o lugarzinho dela, da mesma maneira que já tinha oferecido o coração a mim e à irmã.
A última vez que falei com a avó Celeste foi no dia que cheguei da maternidade, que depois disso já não acordou mais. Estava sentada no quarto, numa cadeira de braços, com ar de rainha, e fui mostrar-lhe a bisneta nova. A avó olhou para ela, levantou um pouco a mão direita, branca como nunca mais vi, de dedos finos e unhas pintadas, abanou-a no ar e traçou-lhe o destino não é nada nossa! Tinha razão. A cabrinha desde que nasceu que é, por dentro e por fora, a cópia fiel do pai. Como se eu tivesse faltado à chamada dos genes.
Tinha graça, a minha avó. Era de um snobismo insuportável, sabia as anedotas todas do Bocage - e contava-as todos os natais depois do golinho de champagne da praxe - era católica extremista, mas não se confessava porque um padre um dia lhe tinha dito que não precisava já que nunca tinha pecado, era gulosa até nos fazer diabetes a nós e tinha mais alergia à água que o diabo à cruz. Não me lembro nunca de a ver beber água, nem às refeições. Nada, não bebia nada. O único líquido que ingeria era um chá às cinco da tarde, e cinco da tarde tinham de ser mesmo cinco da tarde.
A avó Celeste tomava conta de mim um mês por ano. Setembro, o mês que para mim será sempre o grande. Assim que acabava a praia eu ia para a serra, para a quinta, e por lá ficava até começarem as aulas, a 7 de Outubro, que nessa altura não falhavam os programas de informática. Era a minha avó que me velava as noites de hospital cada vez que eu teimava que queria ver fazer o vinho e o cheiro me trazia de bónus mais um ataque de asma e era a minha avó que me escondia os livros, que a ler tanto gastava-os muito depressa. Era também a minha avó que me fechava no quarto para fazer a sesta, sem perceber que todos os dias eu descia agarrada às colunas da varanda e voltava a subir pouco antes da sesta dela acabar.
O único medo conhecido da minha avó era a escuridão, que ao diabo afastava-o com rezas, mas quando ficou cega não disse nada a ninguém. Cegou quando a casa ardeu, a casa onde tinha nascido poucos dias depois do rei ter morrido e a casa onde nasceram os filhos dela. Viveu na escuridão que a apavorava durante tempo demais, mas morreu a ver. A ciência de que ela não gostava, que nada disso de sermos descendentes de macacos que ela não tinha rabo como eles, fez o milagre que a fé dela não foi capaz de fazer. E no momento que lhe tiraram as ligaduras e ela pôde vêr outra vez, não agradeceu a deus nenhum. Limitou-se a dizer ao cirurgião, com os olhos ainda a piscarem, pensava que o senhor era mais bonito! e a olhar para as mãos dela e sussurar estou velha...
A avó Celeste ensinou-me, da forma mais cruel, como o amor pode ser cego. Eu era a neta mais velha, a única a quem chamou sempre "zinha", e era aquela de quem dizia são todos iguais, mas a ...zinha vai ser sempre a ...zinha. Nunca segui as regras da minha avó, mas nunca, por um momento, senti que ela gostasse menos de mim. Eu era a única que, ostensivamente, passeava o pecado carnal, o pior de todos, já que tinha decidido não me casar apesar de ter uma filha, que isso de casar não era comigo, mas o colo da minha avó foi sempre para ela. Era a menina e ai de quem se atrevesse a fazer uma crítica que fosse. Os filhos da minha irmã, casada e com a benção da Santa Madre Igreja, eram todos lindos, mas só isso, muito lindos e agora vão lá ter com a vossa mãezinha para vos limpar o nariz, a filha do meu irmão era a garota, que os pais estavam casados mas pelo civil, suprema vergonha, mas a minha era a Clarinha e o resto não interessava, que quando se ama é assim.
A avó Celeste fazia hoje cem anos e eu estou a chorar. Por mim e por ela. Porque nunca ninguém me amou tanto na vida como essa senhora pequenina, que morreu cinco dias depois da minha filha mais nova nascer.
Avó, parabéns e obrigada. De si, tenho a certeza, vou gostar sempre.