Mesmo agora, que já a ouvi muita vez, ainda me parece uma pergunta estranha.
Vem, normalmente, de gente que me conhece bem, de gente que até pode saber exactamente em que joelho tenho o sinal castanho, ou o que faço nos meus dias e nas minhas noites, ou que livro ando a ler, ou em que gaveta da cómoda guardo a roupa interior. Gente que sabe de cor o meu telefone, gente que me protege dos meus medos e me distingue nos meus risos. Gente que me lê e me conhece nestas letras.
E um dia, depois de muitos outros dias, alguém nessa gente olha para um papel, um rabisco, uma lista de supermercado, e atira a pergunta fatal - Esta é a tua letra?
Era quase como olhar-lhes para a cara, ou sentir-lhes o cheiro, ou pegar-lhes na mão. Conheço-os, e reconheço-os, pela letra. A letra dos meus avós, a da minha mãe, a letra tremida e deitada do meu pai, que me lembrava sempre os pássaros que ele desenhava, a letra redondinha e pequenina e irritantemente perfeitinha da Paula, a bonita letra da bonita Ana, a letra do meu primeiro namorado desenhada no envelope que escondia a minha carta de amor, a letra que todos os dias copiava para mim uma canção da Betânia e me a mandava de lá de longe, a letra que me escondia emoções em bilhetes curtos e sem jeito, a letra que muitas vezes me mandou à merda, as tantas letras que escreveram o Teresa do meu nome.

A letra.
As letras da minha vida.
E agora não tenho letras. Conheço-vos, sinto-vos, cheiro-vos com as letras dos outros, com estas letras todas iguais que são as nossas letras, mas não é a nossa letra. E até ao Z, que é só uma letra que distingo no meio de todas as outras letras, reconheço-lhe a escrita mas não lhe conheço a letra.
E faz-me falta não vos saber a letra. E estranho que não saibam a minha. E quando me perguntam, gente que muito me leu e muito me conheceu, Esta é a tua letra?, sinto-me como se ao fim de dias e dias de muita e intensa paixão me perguntassem a correr, Qual é o teu nome?!...
