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Os pontos nos is

Que discussão que anda para aqui. E o que eu gosto disso.

Preciso só de esclarecer uma coisinha, e nas caixas de comentários fica disperso, que já são muitas as activas.
Há várias coisas que me fazem borbulhas, mas a urticária a sério aparece com injustiças. Não consigo viver com elas, principalmente se achar que são fruto de desonestidades intelectuais. Fui advogada, e de defesa, durante muitos anos. Nunca me incomodou que qualquer cliente fosse condenado, porque se eram culpados tinham mesmo de ser. Eu não estava lá para lhes passar uma borracha por cima, estava para tentar que a Justiça fosse feita.
Quando comecei a trabalhar ouvi a história que me marcou, contada pelo meu "patrono" por empréstimo. Defendeu até ao fim, com unhas e dentes, um cliente acusado de agressões graves. Não tinha sido ele, as provas estavam todas ali, as testemunhas juraram que ele estava longe e largo naquele momento. A defesa foi perfeita e ele foi absolvido. Dias depois aparece no escritório e diz, entre esgares, doutor, foram bem enganados por nós, que eu dei-lhe e dei-lhe bem... Foi posto na rua na hora e nem a conta foi cobrada.
Ser advogado também é isto. E garanto que a minha profissão muito me honrou, porque acho que a desempenhei da forma mais honesta que soube. Quis sempre justiça, que não consigo viver de outra maneira. Mesmo para o pior dos assassinos.
Ali em baixo contei a história de um polícia que andou armado em cow-boy. Deu uns tiros, acertou num homem, e foi acusado de tentativa de homicídio. Também foi absolvido. Mas agora pode vir o resto que não disse. O meu cliente foi absolvido, o que eu achava justo, mas foi da forma errada, o que achei uma piada de mau gosto.
Foi dado como provado, na sentença, que tinha disparado em legítima defesa, E foi dado como provado também que a "vítima" estava a mais de três metros de distância e de costas. Legítima defesa? Legítima defesa de quê? de um tipo que ia a fugir rua fora?
Sim, o meu "cliente" foi absolvido, eu tinha ganho não era? Não, não era. Eu, que andava armada em justiceira, queria recorrer da sentença por absoluta desconformidade dos factos com o direiro. Fui parada por colegas mais velhos, que me explicaram que afinal o gajo tinha sido absolvido e isso é que era importante.
Não. Não era. E foi a gota de água que fez vazar o copo.
Ser advogado é também ser isto. Pôr o cliente fora do escritório porque foi desonesto e não conseguir viver com uma desonestidade, que a justiça não se faz assim. Mesmo que isso nos custe dinheiro, fama e futuro. Mas, quando achamos que estamos certos e é digno o que fazemos, mesmo que os nossos clientes "tenham só ejaculado nas cuecas", ir até ao fim, mesmo que passemos, como aqui está a contecer, por vendidos, aldrabões e gente sem coração...