É tão simples como isto – as minhas saias ou têm setenta e tal centímetros de comprimento ou, incluindo o cinto, têm 30 e poucos. Fácil de perceber, não é? Saiinha com sessenta centímetros, a bater pela dobra da perna, não obrigada. Não é por nada, mas parece-me sempre que estou a brincar às senhoras. Mas então, se é assim tão simples, porque será que nos últimos dias tenho ouvido várias referências ao tamanho das minhas saias junto com alusões à minha idade?
Difícil. Muito difícil! Principalmente porque o meu sentido de humor anda um pouco coxo e a minha capacidade de encaixe está dedicada à tíbia e perónio, os verdadeiros necessitados.
Mas todos os dias me é servida uma nova sugestão que melhoraria bastante a minha vida e a de hoje foi absolutamente fantástica. A frio, sem nada a indicar o tema da conversa e o porquê, foi-me dito que devia comprar uns rolos…
Passo a explicar, estes rolos não eram rolos da massa, o que seria aceitável para mim apesar de já ter dois. Eram mesmo rolos para o cabelo. Rolos para o cabelo!!! Aquelas coisas onde se enrola o cabelo e depois se espetam uns ganchos e que transformam qualquer gaja numa personagem de novela. Eu, que nunca consegui usar uma escova redonda sem ter de recorrer a uma tesoura para a sacar do cabelo, que mesmo escovas normais só uso para me pentear quando saio do duche e, last but not the least, eu que tenho mais caracóis no cabelo que as doses dos ditos na maioria das tascas, em nome de que santinho é que ia comprar rolos??? Pior, muito pior, como é que eu ia conseguir pôr uns rolos na cabeça? Como é que eu sobreviveria a um horror desses? Como é que eu lidaria de uma forma séria e adulta com uma situação dessas sem rebentar em salvíficas gargalhadas?
E depois estou mesmo a ver a cena. Eu, a je, com uma saia de macho pelo joelho, sapato preto de meio salto, camisa de seda brilhante e blazer assertoado, ao balcão de uma loja de rolos, se é que essa coisa existe, pedindo, por obséquio, claro!, uma dúzia de rolos de vários tamanhos para fazer a mise. De caminho comprava uma laca para segurar a obra prima.
Quero a minha vida de volta!
Quero, se e quando me apetecer, passear-me pela casa, mesmo que de muletas, em t-shirt e cuecas, fazer o jantar enquanto fumo um cigarro e bebo um copo de Lóios, gritar merda quando tenho razões para isso, pousar o pc na cozinha e ir teclando, passar horas ao telefone sem me interromperem de dois em dois minutos, pregar sustos de morte às miúdas e a seguir rirmos as três a bandeiras despegadas. Quero adormecer a ver televisão ou, melhor ainda, adormecer cansada, suada e acompanhada. Quero poder abrir as portas e janelas todas cá de casa e deixar passar o vento, quero gente à minha volta e a cozinha cheia. Quero silêncio. Quero música, muita música. Quero voltar a olhar para um copo e vê-lo meio cheio e nunca meio vazio, quero voltar a ouvir dizer bem da vida, só bem. Quero deixar de usar relógio e passear no lago quando o Sol se está a pôr. Quero atirar pedras aos patos e chatear os cães. Quero que tudo volte a ser simples e alegre como era.
Quero, quero muito, voltar a ter força no pé para carregar no pedal da embraiagem.