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Knojo (a pedido de várias famílias)

Um flop. Não há outra maneira de dizer isto, porque o knojo é mesmo um bocadito para o canojo...

Há mais de vinte anos fui ver uma exposição ao Museu da Ciência, em Londres. O tema teria a ver com a concepção e primeiros anos do ser humano, mas não me lembro precisamente de como se chamava. Lembro que era totalmente interactiva e de como eu, armada em miúda mas já graúdita, me vi a tentar ganhar a guerra do espermatozóide na conquista do óvulo, a brincar com a genética e escolher a cor dos olhos de acordo com os genes que entravam na dança, a fechar-me num útero para ouvir e sentir como um feto, a aprender o que era a perspectiva e a apanhar brinquedos que caiam ao chão e a como me equilibrar nas pernas bambas para começar a andar. Fiquei fascinada com o aprender da linguagem. Disso lembro bem. Havia um ecrã com um extra terrestre que debitava qualquer coisa numa lingua estranha. A seguir, sem nunca "traduzirem", aqueles sons iam sendo ditos mais lentamente, repetidos, explicados por mimica, metidos numa lógica do dia a dia. Cinco minutos depois conseguiamos compreender perfeitamente todo o discurso do homenzinho verde. Parecia magia, mas era só uma aplicação imaginativa e condensada dos truques da iniciação à linguagem dos bébés.

Andei dias seguidos encantada. Portugal ainda estava muito longe dessas coisas e o Museu mais divertido que conhecia era o do Caramulo, que pelo menos tinha carros. A minha descoberta de Londres, na pré-CEE, foi uma via sacra por museus, lojas de chocolates, que nós por cá tinhamos os Regina, Celeste, Favorita e pouco mais, e o Hippodrome pela noite. Na altura era o top das discotecas e se há apalpão que nunca vou esquecer na vida foi o que me deram lá, mas tenho de reconhecer que a saia era atreita a isso e só faltava o letreiro a dizer apalpem-me.

Estava a falar do Knojo não era? Fui parar longe, que nada do que me lembrei foi tão canojo assim.
Portanto, voltando a Portugal e ao Pavilhão do Conhecimento.
Quando as minhas filhas nasceram já por aqui se vendiam Kitcat, Lion, Mars, marshmallows, gomas de todas as cores e feitios, chicletes sem ser Pirata e mais duas ou três guloseimas. As discotecas também não eram más, apesar de não serem o Hippodrome e de os apalpões latinos não terem aquela determinação imperial, mas os museus eram a seca do costume. Por muito que as nossas criancinhas se esforçassem e tentassem ir além das armas e barões assinalados davam sempre de caras com uns funcionários façanhudos, um ambiente empoeirado, muitas placazinhas explicativas e uma tarde de sol perdida. A cultura era pior que o óleo de fígado de bacalhau, que pelo menos esse a Diese já vendia em cápsulas de gelatina.
O Pavilhão do Conhecimento foi uma revolução no meio do cinzentismo nacional. Passei por quase todas as exposições que lá fizeram, repetimos algumas, e era sempre melhor que a feira popular. As miúdas divertiam-se à farta e saiam com alguma coisa nova. Não podiamos portanto perder o Knojo. Há lá coisa melhor que passear no meio de arrotos, traques, macacos de nariz, vomitados, cócós, xixis e todas aqulas coisinhas que fazem a delícia de qualquer miúdo?
Como gosto de ter um painel alargado quando se trata de avaliações, que já basta o que os professores andam para aí a dizer, levei comigo seis experts na matéria. Cinco crianças entre os 6 anos e os 14, duas raparigas e três rapazes. As fases parvas estavam todas representadas e os géneros também. Levei o pai dos gajos, ou pelo menos de dois deles, o terceiro acho que é só amigo da casa, que desde a recente operação ao nariz tem batido todos os recordes no tamanho dos macacos que tira e fui eu. A minha especialidade nestas coisas de mete nojo deixa qualquer criancinha a roer-se de inveja, porque eu não sou de modas e assoar na manga é vulgaridade a mais, que eu cá limpo qualquer ranhoca mais inconveniente com a lingua. Tenho resolvido assim muitos problemas com crianças mais dadas à porcaria, que algumas entidades paternais, sabedoras da poda, mandam os seus rebentos mais difíceis cá a casa de propósito para me verem. É remédio santo, que depois desses miúdos pôrem os seus olhinhos remelosos numa mãe a servir-lhes os flocos enquanto se assoa com a lingua perdem a veleidade de se armarem em campeões da nojice e passam a comer decentemente à mesa.
O Knojo? Bem, o Knojo foi chumbado por todos nós. Está bem que a Clara resolveu desaparecer durante quase uma hora e deixou-nos a todos num estado de Pânico+1, que é mais que pânico e quase histeria colectiva, mas mesmo depois de a termos encontrado dentro de um estômago gigante, ou lá o que era aquilo, continuámos sem achar grande graça à coisa. Muita nojice, mas só no papel, que até o barulho dos traques era mal conseguido. Tudo muito colorido, uns bonecos a abanar a cabeça, umas paredes de ranho, uma máquina de vómitos, uns desenhos de uns cócós e uns xixis, mas nada de lutas na lama ou concursos de arrotos. Ainda pensei que iam pôr barcos a andar com ventosidades anais, vómitos a pintar quadros e mais coisas assim decentes, mas nada de nada. Uma perfeita desilusão. Animámos um pouco no concurso dos cheiros, porque eu insisti, e insisto, que me estavam a tentar vender cheiro a chulé por cheiro de rabo, mas eles dizem que sou eu que não sei a que cheira um rabo e tive de me calar e fingir vencida, que ainda acho que estão enganados e aquilo cheirava era a meia suja metida num canto durante quinze dias. Seja como for só posso ter razão, que ganhei a todos no teste de QI da Nojice.

Quando finalmente nos fartámos de fingir que nos estávamos a divertir muito e que aquilo era mesmo bué da giro rapidamente nos reorganizámos e voltámo-nos para o que sabiamos ser seguro, que o Knojo que não mete nojo não é a única coisa que por lá há. Revimos a "Explora", a "Matemática Viva" e a "Física no dia a dia". Ainda não são como a tal exposição que vi no Museu da Ciência de Londres há mais de vinte anos, mas não há miúdo que não se queira deitar na cama de pregos - até eu deitei, que sempre quis ser faquir - andar na bicicleta equilibrada na corda a mais de 10 metros do chão, caminhar na lua, armar-se em homem aranha e ficar preso na parede, ou fazer rádio com um balde de limpar o chão. Só por isto recomendo uma ida ao Pavilhão do Conhecimento. E já que lá estão espreitem a física que parece que nos engana e a matemática que assim mostrada até é simples. Se não tiverem crianças peçam emprestadas aos vizinhos, que elas agradecem de certeza e os vizinhos ficarão eternamente gratos por um dia de descanso.

O fim do dia foi bom, obrigada. As crianças foram para as mães respectivas e às minhas vesti-lhes o fato que as torna invisiveis e mandei-as com elas. Passaram despercebidas até às nove da noite. Acho que passaram, pelo menos foi a essa hora que o telefone tocou e educada mas imperativamente nos foi dito que talvez fosse melhor deixarmo-nos do descanço e tratar-lhes do jantar. Isto do descanço foi só um mal entendido, que sábado é dia de semanários e como não consegui gamar o Expresso ficámos no sofá a ler o Sol. O ficámos é assim mesmo - primeira pessoa do plural, que isso de singular é bom mas também aborrece.

O verdadeiro Canojo foi no domingo. Acreditem que um picnic nas matas da Lagoa de Albufeira com crianças, frangos assados, arroz e batatas fritas e sem guardanapos de papel, pratos, talheres e água para lavar as mãos bate qualquer Knojo...

E pronto. Foi assim o fim de semana do Knojo contado e do Kbom que fica no tinteiro.