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Muita parra, pouca uva.

Há poucas coisas que não suporto na vida, mas uma delas é gente que gosta de andar nos bicos dos pés. Gente com muita prosápia, como o meu pai diria, mas que virada do avesso, ou nem isso, vale menos que uma noz furada.
Gosto de gente direita, com coluna vertebral que não verga e que faz antes de falar. Como a J., uma miúda, com um pai que a podia sustentar a ela e a mais vinte irmãs sem ter que se preocupar muito ou notar grande falta. Viveu anos seguidos nos Estados Unidos e no dia em que ele a mandou vir ela disse que não. A conta bancária deixou de estar recheada, mas não foi isso que a fez desistir - vendia o sangue, mas comia um hamburguer.
A J. é assim. Tem um curso de Engenharia de uma das melhores universidades americanas, mas está a secretariar o pai, que quando ele precisou ela veio. Nunca a ouvi dizer que o pai era rico e sempre a vi contar os tostões para chegar ao fim do mês. E ela sabe, como eu sei também, que era só pedir.
Depois há os outros. Os que falam muito e fazem pouco. A tal prosápia. Muita conversa, muito encanto, só bons conselhos e muita dignidade, mas da porta da rua para fora. Pessoinhas pequeninas, parasitas que se vão encostando aqui e ali, encantando este e aquele, fugindo para a frente que lá está o caminho. Ninguém os leva presos, que a faladura é muita, mas vivem como pobres coitados, a esconder o roto da meia com o vinco da calça.
Não tenho raiva, tenho pena. E a pena faz-me recolher as unhas e ir deixando passar a procissão, que pior que o olhar dos outros deve ser o deles quando se olham ao espelho. Sozinhos, sem prosápia que lhes valha.