A minha filha ontem perguntou-me se eu conhecia o Vitorino. Ela, que até nem é analfabeta musicalmente, não estava a ver quem ele era mas a boina preta e algumas músicas colocaram-na no sítio. Porque raio me perguntou se o conhecia não sei, mas os filhos acham sempre que nós, pais ou mães, somos assim uma espécie de super heróis que conhecemos tudo e sabemos tudo.
O que ela não sabe, e eu não lhe digo, é que eu conheço o Vitorino. O Vitorino já não me deve conhecer a mim mas eu nunca me vou esquecer do Vitorino. É que ele, Vitorino, está escrito em letras de oiro nas histórias da minha vida.
Eu conheci o Vitorino sim. Era uma catraia, advogava há pouco tempo, e o Vitorino andava por lá, pelos meus sítios. O Vitorino, na altura, era dono do Ritz Club, ali, na Praça da Alegria, e o Vitorino sempre que estava comigo perguntava-me porque nunca tinha eu aparecido pela casa que era dele.
Sei lá, Vitorino, porque não, mas uma noite destas apareço por lá.
Tinha mais que fazer, mais por onde ir, não tinha filhas a perguntarem-me se conhecia o Vitorino, o Plateau tinha umas noites giras, outros que nem digo o nome também e, ó Vitorino, Ritz Club era uma chatice, música de baile estás a ver?
Um dia, ou uma noite, apareceram-me uns clientes do Porto. Dois casais. Meia idade, muito compostinhos, muito cheios de cerimónias. Fui destacada para lhes servir de cicerone na Lisboa à noite e a seguir ao jantar fizeram-me o pedido - queriam dançar. Dançar, dançar? Isso é complicado mas se querem bailinho, Ritz Club, pois claro!, e junta-se o útil ao agradável.
É que estava tudo a correr bem, muito bem. A mesa era boa, perto da pista, o ambiente estava composto e eles estavam felizes. Até que, e há sempre um até que, Vitorino apareceu. Ele até podia ter aparecido e ficado por lá longe mas não, apareceu, veio direitinho à nossa mesa e atirou-me a boa noite que nunca mais esqueci e eles, os meus convidados, quase de certeza que também não:
- Então dótoura, por aqui num bar de putas?
Gosto de pessoas com sentido de humor, gosto muito, mas ó Vitorino, era preciso assim tanto?
Há um ano