Quatro anos e dez meses de prisão efectiva foi a sentença aplicada pelo Tribunal de Monsanto a Mário Machado, por vários crimes, entre os quais discriminação racial.
Há que não ter medo das palavras e eu sou racista.
Há muito tempo que o sei e há uns anos que o assumo, com uma tranquilidade que não chegou com a maturidade, que essa ainda não tenho, mas com a certeza de quem se conhece e sabe que é inútil tentar contrariar o que está escrito bem fundo no meu ser. E se as causas não são irracionais as minhas reacções são quase instintivas. Há determinadas espécies de pessoas que me repugnam, há grupos sociais que me provocam sentimentos de hostilidade quase básicos, há qualidades onde não reconheço uma réstia de humanidade e só vejo bestialidade.
Sou assim, não gosto de racistas. Não quero saber se são brancos, pretos, altos, baixos, ciganos ou asiáticos, professores catedráticos ou pedreiros, homens ou mulheres, judeus ou árabes. Não gosto e pronto. Sou racista, há que dizê-lo sem peias.
Há anos que não advogo, e há muitos mais que não defendo quem quer que seja, mas passei muitos dias da minha vida em bancos de tribunal a defender quem me calhava em sortes ou quem me pagava para o fazer. Calhou-me de tudo, muita miséria, muita maldade, muita sacanice. Tanta que até eu já me sentia suja com tanta sujidade. Mas fui sempre lá, fiz o que tinha de fazer. Só nunca defendi um racista. Não o faria. Era a única certeza que tinha, a única excepção a priori. Em tudo o resto, mesmo no mais medonho dos crimes, eu sabia que conseguiria fazer um esforço para ver a pessoa por detrás da besta, para olhar nos olhos e perceber se valia a pena e se tinha estômago para lá ir.
Gosto de pessoas. Já o disse antes. Talvez por isso sinta como minhas as dores de muitas. Talvez por isso me ofenda quando lhes roubam a sua individualidade e as encerram num todo onde deixam de ser homens e mulheres e crianças e passam a ser pretos, brancos, ciganos, chinas, ou o que mais inventem para lhes tirarem o nome e lhes darem um nome. Um nome onde deixam de existir como um ser mas passam a existir só porque são. Pretos, brancos, amarelos, gays, mongos, judeus, conjuntos sem elementos onde se rouba o que de mais precioso se tem - o Eu.
Por isso esta é gente a quem não desculpo, é gente que não respeito, é gente que não é gente e a quem faço o mesmo que tanto gostam de fazer - roubo-lhes os Eu e ponho-lhes um rótulo. O de bestas. E não gosto da raça deles. Provoca-me, mesmo, vários sentimentos de hostilidade.
Sim, sou racista!
Há 3 meses