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Sangue nos plasmas

Nem mesmo o canal público de televisão, de alguma forma obrigado a não ceder à tentação do grotesco, conseguiu escapar à exposição das imagens sangrentas de um local do crime, o assassinato de um Presidente, encharcado pela barbárie.
O apelo irresistível das ganâncias que as lutas por audiências despertam nos profissionais da informação transforma aos poucos em autênticos vampiros os jornalistas que, de resto, abdicam sem cautela do bom senso que até a eles interessaria prevalecer.
À noite, mais sangue a correr nas imagens não editadas de um acidente de viação. Espalhado nas carroçarias deformadas e na parede onde um transeunte azarado acabara de morrer.

É isto que nos dão a ver e aos nossos filhos que deitam o olho pela surra às imagens que nos prendem a atenção e nos afastam aos poucos da vontade de saber mais acerca de um mundo tão fértil em factos que nos perturbam, mesmo sem a respectiva visualização.

Um serviço público por nós suportado e que aos poucos se tem transformado em apenas mais um no grupo medonho de irresponsáveis sem tino bastante para que lhes sejam confiadas as responsabilidades inerentes à missão de informar.

Casa roubada, trancas à porta

Depois de repetir as mesmas coisas anos a fio, a aconselhar, a incentivar, a apoiar mudanças que seriam benéficas para o visado. Depois de anos a fio a ver tudo cair em saco roto, a ver fazer ouvidos moucos ou ouvidos de mercador, de o ver assobiar para o lado, de obter respostas do género: "-Sim, eu depois penso nisso"; "-Vou pensar", "-Logo se vê", "-Para o mês que vem que agora não me dá jeito"; "-Agora não porque não tenho tempo" e desculpas esfarrapadas do mesmo calibre.
Agora, sim agora, que o que não tem remédio remediado está, que não há volta a dar, que nem que se pinte de azul, que não tem forma de me dar a volta, que a história acabou e não tem volume seguinte, agora faz exactamente tudo o que eu sempre aconselhei e incentivei.
Tarde piou! Espero que também aprenda que o tempo é o bem mais precioso que temos e que esperar por amanhã pode ser tarde demais. O que eu lamento mesmo, é que não é o único e que há mesmo muita gente que faz exactamente o mesmo, que acha que amanhã, para a semana, para o mês que vem, no próximo ano, ou quem sabe um dia, ainda vai muito a tempo, engano, pode ser tarde, muito tarde e, nessa altura de nada vai valer o arrependimento a não ser para causar umas insónias.