Mostrando postagens com marcador a nossa liberdade acaba sempre onde começa a dos outros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador a nossa liberdade acaba sempre onde começa a dos outros. Mostrar todas as postagens

Alhos e Bugalhos

Eu gosto da separação das águas. Acredito num conflito permanente entre o Bem e o Mal que estão presentes na natureza humana e só me revejo num mundo e numa sociedade que saiba distinguir com clareza o que está certo e o que está errado e saiba actuar em conformidade com essa distinção.

Na nossa sociedade são as leis que simbolizam as armas ao dispor dos cidadãos para se defenderem (partindo do princípio que a justiça pelas próprias mãos é um conceito "errado") dos que optam por ignorar essa separação entre o que se pode e deve ou não fazer. A liberdade de escolha está presente em tal opção. Podemos optar entre abusar dos outros, recorrendo à força, às armas, à manha, à essência canalha que dizem todos termos latente, dormente, em nós. Ou antes pelo contrário. Somos livres de escolher.
E quando escolhemos o caminho errado, a sociedade é livre de fazer aplicar as ditas leis, acrescentando-lhes uma punição que visa ressarcir de alguma forma os lesados (as vítimas) e, em simultâneo, tranquilizar todos quantos somos alvos potenciais da bandidagem.

A liberdade é, de facto, um bem precioso. Devemos lutar por ela por todos os meios ao nosso dispor. E mesmo sendo paradoxal que os instrumentos "decentes" ao dispor de quem opta pela conduta dentro dos padrões da lei e do senso comum constituam uma privação da liberdade para os facínoras, sinceramente não entendo essa punição como um beliscão ao meu amor pela liberdade. Logo à partida, a liberdade de que as vítimas são invariavelmente privadas, as sequelas ou mesmo a própria vida, é permanente e duradoura. Quem já se viu sob a ameaça de uma arma ou assistiu a crimes violentos sabe do que estou a falar...
Ou seja, se a Justiça é simbolizada por uma balança num dos pratos temos os direitos dos cidadãos que não a violam e do outro temos os marginais, os tais que, regra geral, são livres de escolher entre praticarem ou não os crimes que nos atormentam.

E por isso, mesmo não dispondo da bagagem jurídica da Tereza, sinto-me legitimado para defender uma corrente distinta que simboliza as tais águas onde movimento o meu modelo de sociedade (aparentemente distinto do da Chefa). E desse modelo faz parte a aplicação de penas duras, nomeadamente a prisão perpétua, para quem priva os outros para toda a vida da liberdade de viver sem medo. E também fazem parte as cadeias-empresa onde a reinserção social se faz de forma efectiva e não com os paninhos quentes e quantas vezes o desmazelo que liberta da prisão os animais que não tardam a reincidir.
Amo a liberdade e não aceito lições acerca da mesma seja de quem for. Mas a liberdade que amo tem que poder ser vivida sem o receio de a cada esquina me deparar com um cidadão livre de me molestar ou aos meus. E como não advogo a proliferação de polícias, opto por privilegiar o endurecimento do único meio efectivo de dissuasão dos malfeitores: a perda da liberdade por tempo indeterminado ou, no mínimo, pelo tempo bastante para reeducar os meliantes e habituá-los a ganharem o sustento de forma digna e honrada (o Estado deve garantir o posto de trabalho a esses cidadãos, nomeadamente através de benefícios fiscais ou outros às empresas que neles apostem). Ou para sempre, caso estejamos perante um crime cuja selvajaria denuncie o monstro que a perpetrou.

Estou-me nas tintas para a perda da liberdade de quem não sabe dela usufruir sem prejudicar os interesses ou mesmo a existência de terceiros, de inocentes que por norma saem inevitavelmente a perder pois ainda acresce o medo de ver nas ruas o mesmo bandalho a quem ajudaram e meter no cárcere. Preocupa-me sim a liberdade dessas pessoas, e a minha, por precisarem de viver com medo apesar de sustentarem os mecanismos criados para evitarem que tal aconteça.
O nosso sistema jurídico é brando, é mole, é obsoleto, é lento, é estapafúrdio.

E em opiniões soft, politicamente correctas, como a da Tereza, alguém que conhece o sistema por dentro e de alguma forma ajudou a construi-lo como está, encontro a explicação óbvia para tudo aquilo que leva noventa por cento da população a pugnar pelo mesmo que eu.

E agora para algo completamente diferente.

Não sei se sabem o que era, ou se lembram, ou se viveram, no tempo do stencil, mas eu lembro-me bem. O primeiro jornal que alguma vez fiz, tinha uns sete ou oito anos, chamava-se "A Tromba" e era em feito em stencil.
Nunca fui jornalista, mas já fiz, e já passei, por jornais, revistas, rádio, televisão. Em todos eles, desde a tal Tromba, senti a responsabilidade da vírgula, do bocejo em directo, da montagem em estúdio, do título que não podia sair. Em todos eles, de uma forma ou de outra, fui paga para fazer um trabalho. Pagou-me o Público por artigo, e pagava muito bem, foi mesmo quem melhor me pagou, pagou-me a renda de casa a rádio, ficou de me pagar o produtor que vendeu o programa para a RTP, pagou-me os transportes o Eles e Elas de má memória. Todos, de uma forma ou de outra, me pagaram, ou ficaram de pagar, ou um dia que não chegará me irão pagar de certeza.
Neste blog nunca ninguém me pagou nem ficou de me pagar. Escrevo porque gosto, porque me apetece, porque preciso. Escrevo, muitas vezes, sem ter a percepção que vou ser lida e que vou ser avaliada e que a minha escrita pode chegar muito mais longe que chegavam as cópias borradas d'A Tromba.
E, quando por vezes percebo onde esta quase brincadeira chega, assusto-me. Porque aqui, quando escrevo, não sinto a responsabilidade de nada. Ou sinto únicamente a responsabilidade de escrever igualzinho ao que me vai na alma. Sem limites que não sejam os meus.
Por aqui, tirando a lei em geral geral e o bom senso em particular, não há Livros de Estilo nem Códigos Deontológicos, não há linhas editoriais nem mínimo de caracteres (chamavam-se linguados noutros tempos, não era?), nem daqui nos vem dinheiro para o pão e muito menos para a manteiga. O que se escreve não paga taxas aduaneiras e o feed back pode nem fazer parte dos nossos planos.
Parece que temos toda a liberdade do mundo, até percebermos que podemos chegar onde nunca pensámos que chegaríamos, até percebermos que o Enter da tecla implica um entrem e estejam à vontade, sejam lá quem vocês forem, e desculpem qualquer coisinha se tiver exagerado nas cores do arco íris.

Primiro foi o convite ao Visconde, e se ele não fala falo eu. Um email para o blog a convidá-lo para um programa da RTP para falar de um post que tinha escrito aqui no Cabra (o que aconteceu a seguir fica a cargo do Senhor Visconde explicar).
Depois foi a Isabel.
Não pedi autorização à Isabel para falar nela, mas na falta do tal Livro de Estilo e do Código Deontológico e do editor carrancundo, tenho de decidir por mim e achei que ela não ia levar a mal ("levar a mal" é a expressão mais familiar que arranjei para esta circunstância).
A Isabel é a "aluna lésbica" a quem um tal Tribunal deu razão depois de ter sido agredida, e foi sobre a Isabel, que na altura não era Isabel, que escrevi este post.
A Isabel respondeu-me há uns dias e foi a Isabel que me pôs a pensar.
Nos meus tempos, se isso existe, dizia-se, para dar força a um argumento, "está escrito em letra de forma". Tudo o que aqui escrevo é em letra de forma, mas que forma é essa?
Por acaso correu bem com a Isabel, mas tenho, temos, o direito de chegar aqui, a este sítio que não é um stencil, e escrever sem limite nem fronteira? A Isabel leu o que escrevi, mas quando o escrevi não me passou pela cabeça que a tal aluna tinha nome e se chamava Isabel. Muito menos que me iria ler ou que iria responder.
A Isabel podia chamar-se Lurdes. Ou João. Ou Fernanda. Ou Teresa. E nós podíamos escrever o que quiséssemos sobre ela, ou ele, que aqui não há quase lei nem roque e somos livres de dizermos o que nos vai na alma.
Em letra de forma.
E, muitas vezes, sem pensarmos que isto não é uma mesa de café e que qualquer google pode levar o que escrevemos até onde nunca pensaríamos que ira chegar. E que as palavras que aqui deixamos soltas podem passar a ser uma carta de amor ou uma bilhete de suícida.
Ou podem ser lidas por uma qualquer aluna chamada Isabel.