Quando pensei que estava curada, veio o Ensaio Geral e o desgraçado do Padre voltou a instalar-se neste cérebro mínimo pelos dedos hábeis do Santo.
Chegados ao Encontro Geral, a Chefa decide que o que é mesmo bom de viver dentro do meu crânio é o "doidas, doidas, doidas andam as galinhas" (não, não perguntem porquê porque eu estou farta de vos dizer que há perguntas para as quais nós não queremos saber a resposta) e eu começo a pensar que esta gente é perigosa e que, de facto, a net é o ponto de encontro de psicopatas.
É que isto das músicas funciona no meu cérebro de forma muito estranha. Ás vezes, parece que se entranha – muitas vezes, só um verso ou um refrão – e passa em repeat, over and over and over again. Sempre foi assim. Há uns anos, ouvia alguma coisa na rádio e começava a desgraça. É que eu não conheço vozes, nem tenho sorte naquela coisa de esperar para ouvir quem é o artista. E a tal da melodia instalava-se no meu cérebro e lá pegava eu na minha querida Fi e adentrava a Valentim de Carvalho do Oeiras Parque e lá lhe implorava que cantasse a música ao empregado (é que eu sou tímida, embora não pareça…). Ele que já nos reconhecia, suportava o sacrifício e apressava-se a reconhecer a música e a colocar-me o cd nas mãos. A última vez que a ‘obriguei’ a isso foi com o cd da Billie Meyers. E estávamos ambas convencidas que quem cantava a música que me fascinava (Kiss the rain) era um homem. Portanto, eu diria que fechámos com chave de ouro o ciclo de actuações na Valentim…
Portanto, acho que é claro que a música se entranha em mim. Eu não percebo nada de música, entenda-se. Além disso, sou dura de ouvido como um penedo. Mas a música transporta-me. Faz-me reviver fases da minha vida. Faz-me sonhar. Faz-me pensar em pessoas que associo àquele trecho em particular. Fica a fazer parte de mim.
É portanto, altamente destabilizante quando uma música ‘entra’ na minha cabeça. Como daquela vez que andei uma semana a cantar o ‘tenho uma lágrima no canto do olho’ e acreditem que esta é a única parte da música que eu conheço. Eu já não me podia ouvir a mim própria.
Anteontem, no entanto, vejo pegarem numa música. Só que desta vez, em vez de a introduzirem na minha cabeça, sinto-a antes a sair das minhas recordações. Sinto o cheiro de mar e de juventude quando relembro os primeiros acordes. Revejo o meu quarto de adolescente e sorrio à jovem sonhadora que lá habitava. Vejo o tempo avançar e sinto o peso do Complete Works of Shakespeare que me acompanhou na faculdade e que tinha uma declaração de amor logo no inicio feita por uma paixão da altura e fico triste por esse livro ter desaparecido. Releio, mentalmente, Virginia Wolfe, Goethe, Schiller, sento-me novamente na Távola Redonda e sonho com um futuro risonho e brilhante. Sinto a menina que fui caminhar a par com a mulher que sou. Reconciliadas e em paz como que cada uma perdoando à outra os erros que cometeram.
Ao fundo, enquanto elas riem baixinho de amores passados, dos sonhos que acalentam agora e contemplam embevecidas o herdeiro das duas, ouve-se a voz do Rui Veloso a empenhar um anel de rubi para apenas concluir que não se pode amar alguém que não ouve a mesma canção…