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É fácil dizer bem

Os alunos que esta segunda-feira começaram o 7º ano de escolaridade na escola básica 2,3 de Manhente, concelho de Barcelos, foram recebidos com uma novidade: poderão passar para o 8º ano com cinco negativas desde que duas delas não sejam Português e Matemática.

A norma não é ilegal. O despacho normativo nº 50/2005 - já aprovado na gestão de Maria de Lurdes Rodrigues - dá autonomia aos Conselhos de Turma e Pedagógicos para aprovarem as transições.

Quando decidi vir viver para o Algarve, com as crianças pequenas, tinha duas grandes preocupações - a qualidade da saúde e do ensino. Vinha de Coimbra e habituada ao luxo. O Hospital Pediátrico, apesar do edifício velhinho, é um dos melhores do país e eu tinha um acesso mais que privilegiado, elas andavam num Colégio particular com excelentes instalações, ginásio, piscina aquecida, transportes, refeitório, com creche, jardim escola, primária, 2º e 3º ciclo e onde eu pagava, há seis anos atrás, pelas duas e com refeições incluidas, catorze contos por mês. Luxo, mesmo.
Por aqui nada disso me esperava. Hospitais Pediátricos nem pensar e escola era a pública, que o que eu ganhava por mês não chegava para pagar uma mensalidade, quanto mais duas.
Depois de uma apendicite aguda e várias idas às urgências com a cabrinha mais nova, que até no ar tropeça, fiquei completamente sossegada no que a hospitais dizia respeito. A escola estava sob observação, que nessas coisas os resultados não são tão rapidamente visíveis.
Este blog já tem uns dias e quem me lê está farto de saber que tenho duas filhas. A Clara e a Francisca. A Clara portadora de Síndroma Down e a outra de um feitiozinho de arrepiar cabelos. Não ia ser fácil, mas para facilitar ainda mais não vivemos propriamente numa cidade e não era possível escolher porque aqui escola só há uma.
Ontem, tal como a grande maioria de outros pais e mães, tive a reunião de início de ano escolar. Estão as duas na mesma escola, uma no 6º ano a outra no 7º. Como de costume o Carlos, o "director", recebeu-nos, e voltei a sair de lá como tenho saído todos os anos - certa de que tivemos uma enorme sorte com a escola que nos saiu na rifa.
O que é que elas têm aqui? Têm tudo o que nunca pensei vir encontrar numa escola pública do Algarve. Uma escola pequena e perdida mas que conseguiu estar entre as primeiras que a nível nacional assinaram um contrato de autonomia com o Ministério da Educação.
O ano começou ontem e não há quem não tenha professores. O Carlos continua a conhecer os alunos todos pelo nome, a saber onde vivem e quem são os pais, e não são assim tão poucos. A escola tem um excelente refeitório, as ementas estão feitas até ao final do ano por técnicos nutricionistas, o ginásio está equipado e a biblioteca a funcionar. Têm sala de convívio, salas de estudo, salas de informática, cacifos para as mochilas, horta, pomar e jardim. Têm horários completos todos os dias, de manhã e de tarde, aulas de informática desde o 5.º ano e três linguas estrangeiras. Têm inúmeras actividades extra-curriculares - clube de artes, de teatro, ténis, BTT, canoagem, natação, patinagem, jornal da escola - e têm professores que não mudam todos os anos. A Clara tem um curriculum alternativo e tem professores de ensino especial, terapeuta da fala, psicóloga, aulas de coordenação motora, uma funcionária responsável por ela e uma escola inteira a apoiá-la. A Francisca tem uma turma com 28 alunos - opção da escola, que as outras duas turmas do 6.º ano são bem mais pequenas - mas tem, também, aulas de apoio. Uma inovação, este apoio. É que a escola decidiu que nem só os alunos mais fracos precisam de apoio. Os bons alunos, e com capacidades para irem um pouco mais longe, também vão ter aulas extra para compensar o que não lhes pode ser dado na turma.
É por todas estas razões que fico chocada com a notícia da escola de Barcelos. Nivelar por baixo? Aqui não. Nesta escola três negativas é chumbo certo ou nota negativa em duas destas três disciplinas - Matemática, Português e Área de Projecto. O objectivo da escola para este ano? Aumentar em 15% o número de alunos que transita de ano sem qualquer nota negativa. O ano que passou foram 55% dos alunos da escola a conseguir fazê-lo.
É muito? Não, não é. Para além disto tudo a escola conseguiu ir buscar 15 miúdos ao mercado de trabalho, miúdos de vários concelhos e a quem a escola garante o transporte para poderem frequentar uma turma especial de 5.º ano. São miúdos de 16 e 17 anos a quem está a ser dada a possibilidade de virarem a vida.
Mais? Sim, mais tanto que mesmo pequeno faz a diferença. É que conhecem mais alguma escola que diga aos pais que, no caso de uma urgência com os filhos, para além de os informarem imediatamente lhes pagam o táxi caso não tenham transporte? Ou que tenha reuniões de turma semanais? E onde os professores sabem dos novos namoricos ou das guerras das meninas e são intermediários na maior parte dos conflitos? Que tem as portas do conselho directivo sempre abertas e os miúdos sabem que podem entrar para conversar sobre o que quer que seja? E que não podendo mandar fechar os inúmeros cafés que abriram à volta e para onde os miúdos se raspavam, resolveu fazer uma esplanada e vender no bar, a preços muito inferiores e que rebentaram com a concorrência, as coca colas e as batatas fritas que eles estavam habituados a consumir nos outros sítios onde a seguir passavam às cervejas e aos cigarros? Eu não conheço, mas a escola onde hoje de manhã deixei as minhas filhas tinha o presidente do conselho directivo ao portão a dizer bom dia aos miúdos com um sorriso enorme. E eles, todos eles, lhe dizem olá. Todos? Nem todos. A Clara vai a correr e aperta-o num abraço enorme.
Ensino público em Portugal. Mau? Eu, felizmente, não acho.
Luxo. Isso sim, um verdadeiro luxo!