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Misplaced Childhood

E de repente viu-se a falar sozinha com a amiga imaginária no meio da sua linda hortinha coberta de couves-flor.

Um dilema dum cabrão

Uma coisa que não costumava preocupar-me e agora assume foros quase de uma obsessão é a escolha da roupa interior a utilizar nas ocasiões especiais. Isto deriva, naturalmente, do convívio com o género que mais parece valorizar essas coisas e que se refere ao underware não como um pedaço de pano que nós, gajos, queremos acima de tudo que não nos aperte em demasia os acessórios, mas como um indicador do tipo de pessoa e (até) de amante que podemos ser.

E isso é sempre confrangedor no momento terrível de abrir uma gaveta da mesa de cabeceira em busca de um pedaço de pano capaz de ombrear (de não fazer muito má figura) com a lingerie especial com que elas nos presenteiam.

Olhamos em desespero para os slips à ciclista, que nos desenham os contornos viris mas nos atrofiam o espaço de manobra para balançar sem restrições, e depois para os boxers com banda desenhada de tubarões que tanta liberdade nos concedem mas podem depois inspirar o anti-clímax da gargalhada espontânea que nunca sabemos porque se produz e nos provoca o efeito do caracol quando mete os corninhos e sol e lhe aterra em cima uma gota que para ele parece do tamanho de um balde de água cheio até à borda.

Ficamos à rasca nesse penoso instante, enquanto tentamos imaginar o amante aos olhos da eleita que os passará com toda a certeza de raspão pela indumentária interior que parece constituir uma medida do nosso valor quando as vemos expor ao ridículo os companheiros de luta, homólogos, neste mercado do amor onde se disputa o melhor que se deseja obter. Mas a espectadora é uma mulher, como todas muito dada ao pormenor, e um gajo hesita, aquela tem bolinhas e esta tem uma risca, a do Walt Disney seguramente não e a encarnada pode cheirar a lampião e ela até possui inclinação distinta.

Um gajo sente-se intimidado pelo efeito provocado nas fêmeas quando não cuida determinados aspectos do visual, na boca delas, terrível, essa ameaça pendente que torna uma boa escolha urgente e bem ponderada. As mãos que percorrem as gavetas, que folheiam as cuecas em busca da mais adequada em função do interesse na ocasião, indecisas, as mesmas mãos que se querem precisas no momento de tocar uma pele com o mesmo efeito da luz absorvida por painéis solares, energia, daqueles que podem alimentar a máquina de lavar onde lembramos as cuecas perfeitas, ainda sujas, que nos prostram num lapso de impotência decisória que afastamos à pressa deitando a mão às cuecas que nos parecem mais discretas e por isso menos susceptíveis de atrapalharem na hora da verdade que é quando a sombra do ponteiro marca o meio dia no chão.

Acabamos por tomar a decisão com eles apertados, nos boxers ou não, e sentimo-nos melhor despidos pois parece que aí a questão é muito mais consensual e basta-nos afinal potenciar a alternativa mais à mão.

Com sorte até conseguimos desviar-lhes a atenção...