E de repente viu-se a falar sozinha com a amiga imaginária no meio da sua linda hortinha coberta de couves-flor.
Um dilema dum cabrão
Uma coisa que não costumava preocupar-me e agora assume foros quase de uma obsessão é a escolha da roupa interior a utilizar nas ocasiões especiais. Isto deriva, naturalmente, do convívio com o género que mais parece valorizar essas coisas e que se refere ao underware não como um pedaço de pano que nós, gajos, queremos acima de tudo que não nos aperte em demasia os acessórios, mas como um indicador do tipo de pessoa e (até) de amante que podemos ser.
Olhamos em desespero para os slips à ciclista, que nos desenham os contornos viris mas nos atrofiam o espaço de manobra para balançar sem restrições, e depois para os boxers com banda desenhada de tubarões que tanta liberdade nos concedem mas podem depois inspirar o anti-clímax da gargalhada espontânea que nunca sabemos porque se produz e nos provoca o efeito do caracol quando mete os corninhos e sol e lhe aterra em cima uma gota que para ele parece do tamanho de um balde de água cheio até à borda.
Um gajo sente-se intimidado pelo efeito provocado nas fêmeas quando não cuida determinados aspectos do visual, na boca delas, terrível, essa ameaça pendente que torna uma boa escolha urgente e bem ponderada. As mãos que percorrem as gavetas, que folheiam as cuecas em busca da mais adequada em função do interesse na ocasião, indecisas, as mesmas mãos que se querem precisas no momento de tocar uma pele com o mesmo efeito da luz absorvida por painéis solares, energia, daqueles que podem alimentar a máquina de lavar onde lembramos as cuecas perfeitas, ainda sujas, que nos prostram num lapso de impotência decisória que afastamos à pressa deitando a mão às cuecas que nos parecem mais discretas e por isso menos susceptíveis de atrapalharem na hora da verdade que é quando a sombra do ponteiro marca o meio dia no chão.