Já não sei se foi com a Adriana, a Estela ou a Tereza de quem herdei o nome, mas a história da caixa dos brincos conheço-a desde menina. Faz parte do longo reportório da minha mãe e mete freiras, meninas e um colégio cheio de regras.
Naquele tempo, e talvez também neste tempo mas não tenho como saber que colégios de freiras basta um de três em três gerações, as irmãzinhas também não gostavam de brincos de fantasia. Não sei se era o adjectivo que os manchava, já que fantasias só mesmo de noviça para cima e no segredo das celas, se era o toque popularucho que podia dar às meninas ar de garotas e garotas não frequentavam aqueles sítios.
Mas ia eu dizendo que brincos de fantasia não podiam andar em orelhas que se queriam fidalgas e menina que se atrevesse a tal via desaparecer-lhe o adorno nos interstícios das saias de madres com nomes santos.
Continuo sem saber se a voluntária foi a Adriana, a Estela, a Tereza ou mesmo a minha mãe, mas sei que um dia, uma delas, apareceu na sala de aula com uns infames brincos de fantasia que fizeram a delícia de todas as outras até a freira lhes perceber o atrevimento. Num ápice foram recolhidos e atirados para o bolso onde eram guardados os pecados mas, milagre!, pouco depois outros brincos de fantasia brilhavam naquelas mesmas orelhas. E durante todo o dia vários pares de brincos sairam da caixa escondida para as orelhas expostas e das orelhas foram em penitência até ao bolso castigador.
A gracinha não era das mais divertidas, mas gostava de a ouvir contar por me trazer uma mãe atrevida e desobediente, pronta a quebrar regras, muito diferente daquela que eu conhecia.
Lembrei-me desta história ontem ao ler uma outra. Têm cinquenta anos entre elas e estes anos todos levaram as brincadeiras para patamares estranhos e perversos.Talvez lá continue a mesma vontade de provocar, mas agora já não são meninas atrevidas que desafiam freiras com brincos de fantasia mas são as mães das meninas que se esqueceram de crescer e arrastam em vidas miseráveis as infâncias perdidas. E os filhos, esses, já não ouvem da mãe a história que os delicia mas são os brincos com que ela se diverte, como se também eles não passassem de reles fantasias.
Lembrei-me desta história ontem ao ler uma outra. Têm cinquenta anos entre elas e estes anos todos levaram as brincadeiras para patamares estranhos e perversos.Talvez lá continue a mesma vontade de provocar, mas agora já não são meninas atrevidas que desafiam freiras com brincos de fantasia mas são as mães das meninas que se esqueceram de crescer e arrastam em vidas miseráveis as infâncias perdidas. E os filhos, esses, já não ouvem da mãe a história que os delicia mas são os brincos com que ela se diverte, como se também eles não passassem de reles fantasias.
Sinais dos tempos ou falta, se melhor não houver que já estou por quase tudo, de um estupor de uma freira que ponha ordem no convento?