Acho que já referi algures que sem saber como (deve ter sido uma partida de Carnaval ou assim) o meu nome e morada foram parar à base de dados de uma das muitas organizações religiosas deste país, nomeadamente ao que julgo ser um ramo jesuíta da Igreja Católica. Ignorando o facto de eu ser um agnóstico empedernido (o que até me torna num mercado alvo potencial, bem vistas as coisas), a palavra de Deus é-me assim entregue de forma gratuita na caixa do correio papel sob a forma de uma publicação periódica.
E eu, que não gosto de negar à partida coisa alguma excepto todas as que possam acontecer nas minhas costas, toca de ler a cena em busca de sinais que possam despertar os últimos estertores da minha fé moribunda. Não é que, para minha surpresa, eu e o Senhor até estamos em sintonia?
Então vejam os destaques “urgente” da publicação em causa:
Urgente é que diga às pessoas que lhe são queridas quanto as ama.
Tá feito! É que é a toda a hora, sou uma melga nessas lamechices. Um ponto para o filisteu.
Urgente é que saiba que é filho de Deus, e se dê conta de que Ele o ama e que o quer a ver sorrir, feliz e cheio de vida.
Resulta! E Ele até sabe do que eu gosto, daquilo que me faz sorrir, feliz e cheio de vida. E faço. Outro ponto para o excomungado potencial.
Na mouche! Digam lá, quem me conhece, se isto não é feito à minha medida? Senhor, eu é nos semáforos, na calçada, seja onde for. Fico paradinho em serena contemplação. Até as fotografo (as criaturas maravilhosas)!
Mas há mais na palavra de Deus que me veste como um casaco com forro de penas (para me ir habituando e ver se não sou alérgico para quando chegar a hora das asinhas…).
Urgente viva da melhor forma possível, contribuindo com o bem estar de todos os que o rodeiam, criando assim um ambiente de paz contínua.
Palavras (de Deus) para quê? Tirando o pormenor desse machismo gramatical do “todos” e substituindo-o pela forma correcta só posso achar que Ele sabe bem que pode contar comigo numa aflição daquelas. É só mandar um sinal ou uma crente (também pode ser descrente que eu tento convertê-la) necessitadinha de paz e de bem-estar e eu cá estarei para esse sacrifício em nome da Fé.
Pode ficar descansado, meu Pai! Não há tempo a perder e o que exista não o gastarei com toda a certeza no incessante trabalho nem no meu repugnante orgulho. É sempre a bombar pelos seus insondáveis desígnios fora. E como pouco queijo…
Urgente portanto, saiba distinguir quanto antes o que é urgente na sua vida.
Não falha! Tenho uns óculos magníficos para o efeito e o que é urgente distingue-se na boa, na hora, sobretudo quando trago calças de ganga mais apertadas.