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Também havia petróleo no Beato

Tuvalu. Conhecem Tuvalu? É um pequeno país, pequeno mesmo, em pleno Pacífico Sul. Uma ilha, melhor dizendo.

Ouvi falar de Tuvalu há uns anos atrás e não foi numa agência de viagens nem num documentário da National Geographic. Tuvalu saltou para as páginas dos jornais na altura em que a Web começou a saltar para dentro das nossas casas. No parte e reparte dos domínios tinha saído a sorte grande à pequena Tuvalu. Qual anódino .pt ou boring .uk ou acusativo .es. Tuvalu passava a ser dot tv. Isso mesmo, .tv.

Afiaram-se os lápis para as notícias e fizeram-se as previsões grandiosas do costume. Os pouco mais de 10.000 "tuvalenses" iam ficar todos ricos. Num país que não tinha uma única estação de televisão começam a nascer empresas para vender moradas na internet. Depressa se percebeu que nesta era virtual nada impedia que se registasse um endereço noutro país e se usasse o seu domínio. Constava que já havia mais endereços .tv registados que pessoas na ilha e quase que areia nas praias. Isso mesmo, que pelo que se dizia lá por onde sabiam destas coisas, todas as grandes cadeias de televisão iriam querer um endereço na net com o atractivo .tv...

Parece que sim, que venderam alguns, mas nem tantos como os que seriam precisos para comprar as tais casas de sonho e os carros que não viam na televisão que não tinham. Pobre não tem sorte, o .com passou a linguagem universal fazendo esquecer o .tv que os ia tornar ricos e, que se vende por aí, no ebay do costume, por uma mão cheia de nada.

E Tuvalu agora, porquê? Porque Tuvalu não ganhou montanhas de dólares com a civilização dos grandes, mas está a perder montanhas de terra. Tuvalu está a afundar-se! Restam poucos palmos de ilha acima das águas do mar que depressa estão a engolir a nação do .tv de todos os sonhos, aqueles sonhos que nunca uma tv como as nossas conseguiria realizar. E, para a história de Tuvalu ser ainda mais insólita, a água não sobe pelas praias, mas aparece do chão como se toda a ilha metesse água tal qual as previsões de há 10 anos meteram.

Os habitantes da ilha que virou ensopado continuam a fazer o que sempre fizeram, apanhar peixe, só que agora em mares que banham terras mais firmes e deixando para trás um país a afundar-se com o .tv que o tornou conhecido nas grandes negociatas dos homens das gravatas.

Conheci esta segunda parte da história hoje, quando fui à procura de Tuvalu, e ainda crente que a sorte lhes tinha dado tudo o que lhes tinham prometido. Afinal encontrei água por todos os lados e um artigo já com três anos e uma pergunta " What happens to a domain if a nation disappears?"

Where is Raed?

Acredito que o Dear Raed diga tanto à blogosfera de hoje como o Henrique Mendes diz a estas duas que aqui ao lado papam Canal Panda, mas comigo foi por onde tudo começou. Os americanos estavam no vai não vai atiramo-nos a eles lá na terra do Grão Vizir que queria ser Califa no lugar do Califa, nas Lajes serviam-se pastelinhos de bacalhau aos senhores da guerra e o Salam, na Bagdad de todas as notícias, procurava o Raed e dava-nos, ao vivo e a cores, as estórias que a CNN não tinha nem podia nunca ter. Lia o blog do Salam como quem lê a carta de um amigo que não se chamava Anne Frank, mas que trazia também colado à pele o cheiro fétido da maldade dos homens e, todos os dias, torcia os dedos antes de abrir a página, pedindo aos deuses que a bomba não tivesse caido naquela casa e que os danos colaterais não se chamassem Salam Pax.
Não me recordo quando deixou o Salam de postar, mas guardo na coluna dos favoritos aquela coisa chamada "blog" que me trouxe, pela primeira vez, uns olhos sem lentes e uma voz sem dono para me darem, lá de longe, notícias dos que também são meus. Mas que, pela primeira vez também, me fez tentar espreitar para além das pessoas feitas de letras, que no mundo virtual tudo pode acontecer e até o Salam, que procurava o Raed em Bagdad, podia ter pouco de Pax.