Queixo-me a toda a hora e estou-me nas tintas porquê. Interessa-me apenas controlar essa tendência foleira a partir de uma de duas opções: canalizar a energia do queixume para a acção eficaz que lhe retire o pretexto para a existência ou, ainda melhor, aproveitar cada momento do meu tempo para ser estupidamente feliz.
A bola é um tema fascinante e presta-se a abordagens tão ligeiras como a bola de Berlim ser melhor com ou sem creme ou tão profundas como analisar a dicotomia entre uma bola de couro oficial vista sob o prisma dos carros topo de gama que o Cristiano Ronaldo pode dar-se ao luxo de espatifar à conta do esférico por contraponto com o trabalho escravo das crianças que definham em fábricas sinistras para o produzir tão baratinho. Eu gosto de variar o prisma em função do estado de espírito do momento e do espaço onde irei botar faladura na secreta esperança de que alguém me dará alguma atenção. Hoje, que até é Domingo e eu não consigo tirar do rosto um sorriso imbecil típico de quem se sente feliz, só me apetece falar na bola (e apetece-me também porque sou o único macho do Cabra que ainda não se pronunciou acerca do tema abordado pelo Visconde) na óptica Gabriel Alves.
O Gabriel Alves, para quem não acompanha de perto o fenómeno desportivo na versão folclórica da coisa, foi talvez um dos três comentadores televisivos mais marcantes das últimas décadas. Não me ocorrem nomes mais sonantes que não os do Alves dos Santos e do Ribeiro Cristóvão.
Mas o Gabriel Alves distinguiu-se sempre dos demais por ser um artista do comentário da bola. Ninguém esquecerá jamais como o médio ala entrava pelo centro do terreno para facilitar a penetração no interior da área, ou de como em cada jogo ficávamos a conhecer o peso e a altura dos jogadores mais a influência da sua magnífica compleição física no aproveitamento das faixas laterais (que municiavam os tais rapagões que o Gabriel descrevia com um entusiasmo impar ).
Eu gosto, como o Gabriel Alves, de jogadas construídas no miolo do terreno para romperem as linhas defensivas na zona central da defesa. Gosto de desarmar o trinco, esse jogador tão empata para o futebol de ataque que toda a gente prefere e quase se extinguiu no futebol prático (frio e sem alma) destes dias, de explorar os corredores laterais em busca do melhor caminho para escancarar a baliza à minha mercê.
Também gosto de um futebol concretizador, porquanto floreado com os adornos típicos do futebolista português. Gostamos de brincar com a bola, de a tratar bem ao ponto de ela não ser capaz de viver sem nós. Era por isso que no tempo do Eusébio e seus pares até parecia que as balizas pediam por favor para, como dizia o Gabriel, viverem a emoção sublime da concretização do objectivo último do Desporto-Rei sob os gritos da multidão em delírio que, todos sabemos, é a maior alegria que a bola nos dá.
Pois não?