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Para sempre (2)

Nem me apercebi na altura da forma como me tocou o cabelo quando me beijou pela primeira vez, eufórico que me sentia por vê-la chegar.

Passei a noite a observar, em silêncio, tudo aquilo que a faz. Julguei-me incapaz de reduzir a distância que parecia separar-nos por muitas razões à vista, acabaria por nem esboçar qualquer interesse ou outro sinal que pudesse dar-lhe a entender-me interessado de alguma forma.

Tirei-lhe as medidas de um modo não tão discreto como o julguei, viria a sabê-lo depois. Apenas para as guardar na memória, nunca para preservar a lembrança do início de uma história que agora partilhamos e à qual quase virei as costas. Mas ela não deixou.

 

E hoje sei que naquela noite fria em que me beijou deixava afinal em mim a semente de um amor que vejo sem fim, cada vez mais, em tudo o que nos amarra, todos os dias, às certezas que brotam de cada palavra, de cada olhar. De cada momento intenso como são todos os que o destino me ofereceu de bandeja, desde o dia em que ela entrou em mim com a força de um tornado e todo o tempo partilhado me prova ser sua a razão.

 

Para sempre não soa demais, seja na cabeça ou no coração.

Para sempre

Era impossível não reparar nele. Alto, moreno, sorriso aberto.

Por um triz não o conheci. A viagem era longa, a hora tardava e as negociações ainda nem tinham começado.

A decisão estava tomada e fiz-me ao caminho. Queria chegar ao destino tão rápido quanto possível e não me lembro de ter pensado nele enquanto percorria aquela estrada que só tarde, tão tarde, chegou ao fim. Olhei-o, disse-lhe quem era, senti-lhe o cheiro e o toque do cabelo num só beijo.

A noite foi longa e não voltei a olhá-lo de frente. Reparei que de vez em quando me observava de forma diferente. Dirigiu-me a palavra duas ou três vezes. Mantive-me ocupada mas atenta. Absorvi o pouco que disse e ele continuou a olhar-me, a espaços. Ouviu-me, anotou todos os meus gestos e sons e guardou-os para si, acreditando na minha distância.

Aproximei-me tão devagar quanto pude mas quando naquela noite gelada me deu o beijo, soube que era para sempre!