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Mesa do canto

O homem estava sentado numa mesa do canto oposto da esplanada, ansioso, olhar perdido nas pessoas que passavam e nunca eram quem ele esperava ver passar.

De vez em quando o homem verificava o telemóvel e exibia uma expressão tão vazia como o visor que nada de novo arranjava para lhe dizer. E ele deambulava outra vez um olhar que substituía aos poucos a esperança pelo desespero de quem não alcança por esperar e deixava-se ficar ali sentado até ver.
E nada via, afinal, o homem sentado numa mesa em busca de algo que parecia tão vital para a sua realidade naquele momento da existência esbanjado numa aflição qualquer. Talvez à espera de uma mulher amada, de uma presença desejada para a cadeira vazia diante de si.
Deixava-se ficar ali, vida suspensa, o telemóvel confirmado outra vez na ausência de notícias que o pudessem tranquilizar e ele já não conseguia disfarçar o desconforto, a resignação de quem encaixa uma profunda desilusão na borda de um copo tão vazio como o olhar que agora se recolhia em cada pormenor do pequeno espaço em seu redor, cada vez mais fechado sobre si próprio sob o tormento da solidão a que tentava fugir naquele lugar onde a multidão o ignorava e seguramente não lhe dava a alegria que o homem sozinho procurava sem sucesso antes de finalmente desistir.

Acabou por se levantar da mesa, apressado, quase parecia atrasado para fugir para qualquer lado onde pudesse refugiar uma vontade proibida que precisava ocultar.
A realidade envergonhada, quantas vezes escondida, de um homem a chorar.