Lembro-me de umas escadas escuras, uma sala de espera com cadeiras desconfortáveis e revistas velhas num canto e uma janela a dar para a Ferreira Borges. Também me lembro que quando um empregado velhote se assomou à porta e disse que a Sra. Dra. podia entrar eu continuei sem me mexer. Foi precisa alguma insistência da parte dele para eu começar a pensar - é que se estava sozinha na sala a Sra. Dra. devia ser eu...
Foi há 22 anos, tinha acabado o curso de Direito há uns dias e esperava para ser recebida pelo meu futuro patrono. Eu vinha recomendada por um ex-professor e ele era um tipo ainda novo mas uma grande promessa na advocacia e com queda para a política, dizia-se. Eu embirrava com o gajo, mas achei que era só mais um dos meus embirranços sem sentido, tinha que começar a ser mais adulta, a tratar da vida como os crescidos - falava com ele e de certeza que iria concluir que estava enganada.
Falei. Ou falou ele. Sedutor, insinuante, cheio de esperanças no futuro e duplos sentidos no presente. Eu podia começar de imediato, se quisesse.
Não quis e saí de lá a embirrar com ele ainda mais do que antes de ter entrado. E ainda hoje continuo a embirrar, mas talvez tivesse feito bem em ter aceite aquele estágio, que o jogo dele ainda não acabou mas os prognósticos continuam os melhores. O tipo safou-se bem na vida e continua a safar-se, não continua Dr. Dias Loureiro?
Há 4 meses