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em busca do tempo perdido

Passei anos da minha vida à procura de um final feliz. Queria um sentido para tantos dias sem sentido, um único sorriso que apagaria tantos amargores, um afinal valeu a pena tanta pena sofrida. Não andava atrás de um futuro, mas atrás do passado, era esse que queria recuperar, limpar, olhar de frente e dizer agora percebo, agora pode descansar em paz.
Horas, dias, meses, anos, nessa luta quase insana em que a insana era eu. O hoje passava rapidamente a ontem, o amanhã era outro hoje e se a esperança não morria eu ia-me matando a cada tique-taque. Acumulava derrotas, frustrações, desencantos, perdas, desilusões. Síndroma de jogadora compulsiva. Quanto mais perdia mais arriscava, mais punha em cima de uma mesa que se não tinha pano verde era de jogo na mesma, porque nestas coisas da vida a sorte e o azar também mandam.
Não parei no fim da linha . Se houvesse linha e soubessemos onde está, até seria mais fácil. Não sei sequer onde parei. Não vi que tinha parado, só percebi depois. Dei por mim a arrumar gavetas, a encher sacos com lixo, a deitar fora tudo o que me pesava. Pousei por um momento o tal saco de tijolos que carregava nas costas e que todos os dias ia enchendo e esqueci-me dele lá atrás.
O tempo é assim, se se perdeu fica perdido nas voltas e contravoltas dos dias que já se foram. Mas também já não acho que tenha de dar um sentido ao que quer que seja porque o sentido estava lá, guiou cada um dos meus passos, deu razão aos meus gestos, suportou as minhas lágrimas. Não perdi nenhuma guerra, não tinha de continuar a lutar por um troféu que não era meu.
Ganhei. Ganhei hojes que estão cá e amanhãs que hão-de vir. Os ontem já não fazem parte da minha vida. Guardei algumas memórias, as boas, e atirei tudo o resto para longe. Não recuperei o tempo que já se foi mas ganhei todo o que há-de vir.
Hoje. Ou mesmo, quem sabe, amanhã.