Querido Diário,
Aqui há uns tempos, vem uma suposta ‘amiga’ minha com a brilhante ideia que tem um mocinho mesmo, mesmo, mesmo bom para me apresentar. Toda a gaija acima dos 30, solteira, conhece este filme. É fatal comó destino. Eu, que sou moça educada, ‘ah e tal, tu vê lá no que me metes…’. Ela, boa amiga, ‘não te preocupes, aliás, vou já ligar para ele e até vos apresento por telefone’. Eu, muitos anos a virar frangos, ‘ah e tal, tu vê lá no que me metes…’. E ela, boa amiga, liga. Eu falei com o senhor (lá está, moça educada). Depois da conversa, na cabeça dele, ‘a gaija está no papo’. Na minha cabeça, que já ando cá há uns anos, ‘isto vai dar merda’. Ela, boa amiga, decide que devemos conhecer-nos. Eu, já aprendi há muitos anos que não vale a pena marrar com muros de pedra, mas como de parva tenho pouco, acedo a jantar com ele na casa dela. Entrementes, ela, boa amiga, dá-lhe o meu número de telefone, assim a modos que tipo ensaio para o derby. A cada telefonema, na cabeça dele, mais se se forma a ideia de que eu estava numa excitação só para o conhecer. Eu - já sabem que eu sou assim, excitável - só pensava: ‘isto vai dar merda’.
Chegados ao dia, o senhor não só me achava nas nuvens e píncaros e mais além, como também favas contadas. Eu, excitadíssima (leia-se not), depois de tanto galanteio digno de qualquer aluno do 1º ano do 2º ciclo, só pensava que ele merecia mesmo que eu fosse vestir um fatinho de treino e calçar umas crocs daquelas felpudas para fazer uma grande entrada no jantar. Ela, boa amiga, estava em pânico com a perspectiva de que eu, de facto, o fizesse. E esteve por um triz, querido diário, quando ele me liga ao final depois de um dia (parafraseando um grande pensador da nossa época) com os níveis de fodibilidade elevados ao expoente máximo, já de casa dela, com voz melada a perguntar onde ando e se fui a casa vestir uma roupinha especial, foi preciso toda a minha força de vontade para resistir ao fatito de treino. E não era daqueles justos e giros. Era mesmo daqueles de bradar aos céus e fazer os cães da vizinhança uivarem de horror. Mas pensei, Mente Maria, tu vais seguir o exemplo da tua grande Chefa e vais ver quanto é que este carro dá! Vais abrir-lhe a avenida, quatro faixas inteirinhas, tudo livre, trânsito parado nas perpendiculares, piso perfeito e boa iluminação. E depois veremos até onde é que o carrito vai. Eu até dei de borla, atestar-lhe a viatura e verificar óleo, pastilhas e travões.
Claro que a corrida refeição foi um sucesso. Logo ao minuto 10 ou 12, o senhor tentou ligar o carro com o comando do portão com a tirada fabulosa e que costuma resultar lindamente quando queremos comer conhecer alguém, que é aquele clássico que derrete os corações mais empedernidos e solta a cueca mais justa e que se resume a responder a um comentário da outra parte com: ‘Não é nada disso! Tu não sabes, eu é que sei!’. Querido Diário, o esforço que eu tive que fazer para manter as calças vestidas! Obviamente, como estava perante uma inteligência superior, encostei às boxes e decidi que agora conduzia ele. Até mandei vir uma escolta policial e tudo e tudo e tudo. Deixei-o, basicamente, a falar com ela, a boa amiga.
Diário, eu sei que a Chefa anda a tentar ensinar os senhores deste mundo e arredores como não inserir a extremidade inferior nas superfícies côncavas repletas de água no que concerne as relações com o sexo fraco e, talvez fosse boa ideia, ela ensinar-lhes que se vão a um jantar propositadamente para conhecer uma pessoa e se essa pessoa não tuge nem muge, esse é um claro sinal de que algo está podre no reino da Dinamarca. Não é, definitivamente, um sinal de que devam encetar uma dissertação sobre a ex-mulher e todas as minudências do processo de divórcio. Não é! Além disso, outra coisinha que a Chefa podia ensinar aos senhores, é que se eles se referem à ex-mulher com sinónimos de prostituta, isso tira-nos as predisposição de alguma vez chegarmos a menos de 10 metros de distância desse senhor. É que nas costas dos outros, nós vemos as nossas. E está-se mesmo a imaginar que hoje é ela, amanhã, se algo correr mal, a puta seremos nós! Mas isto foi um aparte…
Como vês, Diário, isto estava a correr bem. O carro não arrancava, mas a avenida toda iluminada estava linda! Depois da dissertação sobre a ex, passamos a uma explanação dos filhos. Os dele, claro, que toda a gente sabe que é de mau tom deixar as outras pessoas falarem, nestas coisas. De salientar, que eu, pessoa burra, já tinha o cérebro em off há muito tempo e me limitava a ‘humm’s’ e ‘pois’. Entretinha-me a pensar nas minhas coisinhas para evitar adormecer com a quantidade de informação relevante debitada por segundo. Como é que eu fazia isso? Comecei por galar o sofá que até tinha uma mantinha e tudo. Não resultou que me deu mais sono. Amaldiçoei o facto de não ter ido vestir o fato de treino. Estava mais quentinha e tirava a predisposição para tanta conversa, de certezinha. Isso já me despertou mais que eu sou energética quando me repreendo mentalmente. Por fim, quando a coisa já estava a atingir níveis épicos, dediquei-me a imaginar o senhor numa cena de sexo escaldante. O máximo que consegui, foi mesmo imaginá-lo de cueca (sim, cueca mesmo) e peúgas a fazer uma check list mental “2 linguados. Check. Agora beijo no pescoço enquanto apalpo a mama esquerda. Check. Passagem de mão a sul do Equador. Check. Truxas. Truxas. Foi bom, não foi, querida?”. E assim me entretia e conseguia manter um sorriso nos lábios. Sim, que a Chefa também lhes devia ensinar que podemos ter aquele ar de quem bebe cada uma das suas sábias palavrinhas e estarmos a pensar estas coisas. E fazemos tudo isto de saltos de 9 cms e de cueca enfiada no rabo! Acaso, pensam que a senhora da imagem está a rezar Avé Marias mentalmente, não?
O que eu não sabia é que o melhor ainda estava para vir. Ah, pois estava… No meio de uma discussão qualquer sobre qualquer coisa que como deves imaginar eu não estava nem aí, ele começa a falar dos olhos e que tinha uma coisa qualquer nos olhos e os olhos e não vai de modas, espeta-me o dedo e diz: "’E tu também tens! Tu tens hiperteloirismo! E é uma merda’. Primeira hipótese: isso explica os meus lapsos! Devo ser loira nos olhos! Mais do que isso. Sou hiper-loira! Segunda hipótese: ‘Eu tenho o quê??????"’ Ar sábio e circunspecto: ‘hiperteloirismo’. Revirada de olhos loiros: ‘sim, mas isso é português é mesmo o quê?’. E a tirada que me fez quase lançar aos seus pés e jurar a minha eterna devoção: ‘tens os olhos muito afastados’. Digam-me, a sério, expliquem-me porque raios eu nunca tinha pensado em dizer isto a alguém num blind date? É que é óbvio!!!! Nada diz ‘quero-te’ como hiperteloirismo! Nada diz ‘és uma mulher fantástica’ como ‘tens olhos muito afastados’.
E já é tarde, Querido Diário, vou-me deitar e, antes de ter sonhos molhados e eróticos e pornográficos com ele, vou ali ler umas páginas de um livro que eu penso que me será muito útil nos próximos tempos: “Como ser mulher e satisfazer outra mulher em 10 simples lições”!