Gosto de salas de cinema vazias. Gosto de sessões ao fim-da-tarde. Gosto de me enroscar nas cadeiras da sala e não ter que fingir que estou sozinha. Gosto de emergir do vazio da sala com a sensação de que passei um bom bocado. As pessoas estranham já há muitos anos porque vou tantas vezes sozinha ao cinema. A resposta é simples: porque gosto de ver filmes comigo. Gosto de digeri-los e, só mais tarde, discuti-los com alguém. Não que tenha algo contra ir acompanhada, mas, de vez em quando, sabe bem ser só eu e os meus pensamentos a olhar o grande ecrã.
Quando aliado a isso, me calha a sorte de uma sala absolutamente vazia, invade-me a sensação de ser adolescente e ficar sozinha em casa. De vez em quando, nessas alturas, como pipocas. É das poucas alturas em que como pipocas no cinema. Absorvida pelas imagens sinto o gosto do doce e do salgado a alternarem na minha boca sem me preocupar se o barulho que faço incomoda alguém. É que as pipocas são como os segredos: ecoam dentro das nossas cabeças e achamos sempre que alguém está a ouvir, ainda que o trovão só exista dentro de nós.