E o Grande Livro é todo assim, cheiinho de vidas, de gentes, de pequenos apartes que fazem a história de uma família grande, a minha, que dividia irmamente uma casa de férias. E é por ele que agora sei que no dia 7/7/77 chegou a chuviscar, que eu os meus pais e os meus irmãos fomos ao Cabo de São Vicente e que apesar do dia estar pouco agradável as lulas estavam boas, ou que os únicos telefones públicos por aqui eram no quiosque da praça de Albufeira ou na cabine em frente ao Banco Pinto & Sotto Mayor, que a bomba de gasolina mais próxima era na estrada da Balaia, que a pesca ao currico se faz com amostra metálica, de manhã e à tarde, e que às restantes horas cu-rico só na Praia da Falésia, que o grelhador foi comprado em 1978 e custou 450 mil reis, que a família Chiodo visitou-nos em 79 e prometeu voltar, que o Pedro F. passou por cá em 1980, que em 1991, e graças à colecção de panos de cozinha da tia N., voltámos a ganhar o popular prémio "a varanda mais folclórica", que o Conan, que na altura tinha nome próprio e apelido e era namorado da minha prima, assinou o Livro em Agosto de 83, que os empregados de um tal Restaurante Venezia eram giros e que o bar da Quinta do Lago (haveria só um?!) tinha bons cocktails e era "favorável ao engate".
E há histórias de tarântulas gigantescas, de gatos pequenos, de angústias, de casamentos, funerais e aniversários, de amigos que já morreram e amigos que nunca mais vimos, de puxadores de portas que se partiram e torradeiras que se compraram, do vento que derrubou árvores, do coração que derrubou o meu pai, dos centímetros todos que a Clara, com 4 meses, aqui cresceu, de maridos, mulheres e namorados oficiais, que tinham autorização para sair da clandestinidade e deixarem o nome no Livro mas que não deixaram mais nada, e que desapareceram das vidas de quem por cá esteve com eles.
O "Grande Livro da Casa do Algarve" poderia um blog se não tivesse o dia 3 de Outubro de 1975 a datar o primeiro post e hoje eu, tal como a Peixa há uns dias, andaria mergulhada em arquivos na vez de desfolhar páginas e seguiria links na vez de ir atrás de setas desenhadas a esferográfica azul e sairia do blog tal como saí do livro, coberta de pó, nostálgica, saudosa e feliz.
Um blog é só um blog e um livro, mesmo que seja O Grande Livro, é só um livro. O que encontramos lá dentro, o que encontramos aqui dentro, as histórias que lembramos, as pessoas que por cá ou por lá passaram, os afectos que ficaram ou se foram, são, também, a nossa vida e este blog, este Cabra de Serviço, pode não ter 35 anos da minha história mas faz, definitivamente, parte dela. Com letras desenhadas ou em caracteres de computador a diferença é nenhuma porque o que está, e o que fica, guardado no blogger ou no armário da sala, são vidas de gente que se cruzam e descruzam e se nesta casa de férias passaram muitos que não vão poder voltar nunca há outros que continuam a aparecer e outros ainda que até podiam ser o namorado da prima com nome e apelido e entrarem pela porta 1, ou 2, e voltam a aparecer com nome de super herói, mais de vinte anos depois e por um caminho diferente porque a porta, ou as portas, para a nossa gente, a que foi, a que é e a que virá a ser, continuam abertas e casas de férias, mesmo que se durma no chão, têm sempre espaço para mais alguém.
Conan is back...:):):)
ResponderExcluirBom regresso Srª Dona Tereza, e em grande forma. Mas esse livro é uma ideia genial.
ResponderExcluirGostei logo da ideia do livro e daquele livro (objecto) em si. E gostei muito de ler o texto todo.
ResponderExcluir:)))
Ah ah! Essa entrada da varanda mais folclórica fui eu que pus, graças aos panos que a minha mãe insistia em pendurar (as cuecas ficavam dentro do fio na arrecadação)....
ResponderExcluirhum...a casa do algarve, pois é, já viste... lá sai com esforço, a coisa, mas pronto, ah e tal, a minha grande família grande, e o livro das férias e coiso... tá bem, ok, pronto, tá certo.
ResponderExcluirpassa.
mas estarás a ficar velhota, ferrubenta quiçá, perdão, genta, escapou-se, sei lá... nota-se.
mas passa, vá.
já passou.
Dentro da arrecadação penduradas num fio, para não se verem da rua.
ResponderExcluirEu também estou a ficar ferrugenta a escrever.