E isso é bom ou é mau ?

Disse-lhe que era bom. Muito bom. E, para ela, a resposta é e será esta, mas talvez não seja assim tão bom como eu gostaria que fosse.

Ele falava meio a brincar mas lembro-me de ouvir a história desde muito miúda. Lembro-me de estar sentada ao lado dele, de me dar um beliscão no braço e aproveitar o meu ai para explicar que tinha sido a falta do ai imediato que tinha levado à extinção dos dinossauros. E lá voltava o meu pai a contar-me como eram os dinossauros, grandes como comboios, e como o sistema nervoso, que é uma coisa assim parecida com os fios da electricidade, ainda não tinha sido aperfeiçoado pela natureza e os dinossauros, os pobres dinossauros grandes como comboios, só percebiam que lhes estava a doer quando já estavam meios devorados e como bastava um pequeno rato persistente para matar o enorme monstro.

A dor, o ai, salvava-nos a vida, mas apesar de ter ouvido a história muitas vezes ainda tenho algumas dificuldades em aiar quando devo, mesmo tendo aprendido que não é, definitivamente, a atitude mais inteligente.

Quando há catorze anos nasceu a minha primeira filha e quando depois dos dias da praxe me puseram um papel na mão e me mandaram para casa, eu ainda pensei um pouco antes de dar o tal ai. Acabou por sair e eu acabei por ficar. E enquanto me levavam de urgência para o bloco operatório porque a infecção já tinha passado a sepcis a médica insistia que a culpa era minha, que me devia ter queixado antes, que estava há dias com dores horríveis e calada, que podia ter morrido.

Pois estava calada, pois podia ter morrido por orgulho, mas também ainda ninguém me explicou como se define o horrível da dor e quando é que o ai se justifica ou é só uma mariquice e mariquinhas pé de salsa nunca fui nem quero ser. Mas, apesar de tudo, fui aprendendo algumas coisas desde a história dos dinossauros e desta vez, quando entrei no hospital a rir-me na maca e ouvi toda a gente a dizer que eu estava muito bem disposta fui avisando, como quem não quer a coisa, que podia estar a rir mas que me doía como o caraças e era melhor terem cuidadinho ou ainda havia chatices. Acho que perceberam. Como sabem, correu bem.

Mas nem tudo corre bem e esta minha propensão para dinossaura custa-me demasiado caro. Não grito, não choro, não mamo. E depois tenho de ouvir, como ontem ouvi, tu estás bem, quando daí sai tu estavas bem, não há razões para me preocupar. Não, não há, eu estou bem. Eu estou sempre bem. Tão bem que parece tudo fácil, nada me custa, que se custasse é claro que eu aiava porque foi isso que milhares de anos de evolução nos ensinaram, não foi?

Burra. Ou, pelo menos, com um atraso qualquer de desenvolvimento que não me ensinou a sobreviver como a grande maioria da minha espécie. E deve ter sido essa minha burrice e a falta de ais que fez com que tenha tido de ouvir o outro que nunca esteve a explicar-me que eu não sei o que é criar um filho sozinha. Pois, um não sei, duas talvez saiba, mas para mim é tão fácil, não é? E aquela história que me contaram há dias, assim , cara a cara, da outra que tinha imensos problemas porque estava separada do marido e a filha era disléxica?

A filha é disléxica? Bolas!!… Que grande chatice!… Nem consigo imaginar como a pobre desgraçada consegue desenrascar-se sozinha… Vejam só, uma filha disléxica…

Não, a brutal ironia na minha voz não foi percebida. Não podia ser, comigo tudo é fácil, lembram-se? Aqui à volta não há ais e é isso que, pelos vistos, as minhas filhas estão a aprender. A história dos dinossauros nunca lhes foi por mim contada e, para elas, os ais, as queixinhas, as dificuldades, também não fazem parte das rotinas e muito menos da vida.

Estava a falar-me do fim de semana e a contar muito do que tinham feito e de como o Calamitoso era divertido. Demos nomes às praias, sabias? A primeira é a dos Badochas. Viste como eram só gordos? A última a que fomos é a dos deficientes. Tu reparaste, mãe? Estavas tu de muletas, um rapaz com o braço partido, outros dois com dedos partidos e uma menina de cadeira de rodas. Eram só deficientes naquela praia.

Sim, Francisca. Eu reparei. Mas olha, já agora, parece que não estás a contar toda a gente. Então e a tua irmã? Estás a esquecer-te da tua irmã?

Tinha um ar assustado quando confessou, de imediato, que se tinha esquecido da irmã e a pergunta foi quase um pedido de ajuda.

- Mamã, esqueci-me da Clara! Isso é mau ou é bom?

- É bom filha. É muito bom!

Ficou por aqui a resposta mas agora, que ninguém me ouve, embrulho-me nela e pergunto-me, sem conseguir responder-me, se será assim tão bom. É que a falta de ais pode muitas vezes ser lixada. Foi por isso que os dinossauros desapareceram, sabiam?

40 comentários:

  1. para quem vive com a diferença é muito bom, embora continue a ser preciso soltar um ai aqui e além para que, apesar da igualdade, a diferença não seja esquecida.

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  2. Ah, estás aqui... E agora vou ler a posta.

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  3. Deixaste-me sem pio.

    Sabes, enquanto ia lendo a posta pensava no quanto a tua perna estava inchada nos últimos dias e que se calhar tinhas arranjado para aí alguma complicação. Espero que não!..

    E agora chegou a minha vez: já te disse que gosto muito de ti (vocês)?

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  4. Visconde, tenho de ir ali buscar os meus filhos à escola.

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  5. Visconde, importa-se de não se abarbatar ao meu vocês? Quer ouvir um ai daqueles? Olhe que também sei como se faz...

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  6. CJ, nós também gostamos muito de vocês (visconde, comentário de cima sff).

    A perna está boa, a alma é que estava a doer mas já passou.

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  7. Bom, então vou à escola.

    (Visconde, o caríssimo, à diferença do Jesus, não se põe a jeito... óspois não se queixe!)

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  8. SSV, se estivesse aqui a minha gémea dizia-te que era o Richard... Geeraço!

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  9. Gaija, sabemos que é assim mas quando começa a ser muito assim eles saem prejudicados. Acabamos por nos esquecer, por os enfiar numa normalidade que infelizmente não têm e exigir-lhes o que não podem.
    Lidar com a situação como se fosse normal pode ser muito bom para nós. Para eles, ou melhor, para ela, não sei. É só para essa pergunta que não tenho resposta apesar de não saber, ou conseguir, viver de outra forma.

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  10. Sem Se Ver, comentário acima sff... desculpa a resposta não ser individualizada mas só me iria repetir...

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  11. percebo, tereza, mas, do que vejo e pressinto, tu nao lidas com a situaçao como se ela fosse normal. quero dizer, penso que lidas da melhor forma, para ela.

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  12. e lá porque é sério eu deixo de ter direito a saber se vale a pena pedir-lhe o tlm do mr jones?

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  13. é normal para nós, que sabemos da diferença. os ais são para lembrar os outros...

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  14. Quem é o Mr. Jonas? será caso de a seguir me passares o númerozinho, SSV?

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  15. Talvez para todas porque se eu soubesse as respostas não tinha tido dores e não tinha escrito o post.

    E agora continuemos com o descambanço normal que já se instalou por aqui...

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  16. publique-se!


    (mas posso dizer que já tinha saudades de um post dos teus, chefa mailinda da sua gaija?)

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  17. Deves!
    (eu também já tinha, mas isto andava em silly season...)

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  18. Eu acho q estás a fazer um excelente trabalho, Tereza. Ninguém saberia lidar melhor c a situação e mais ninguém pode exigir. Ninguem!!!

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  19. Um lindo post de uma Ganda Mulher ou será que o mais apropriado é dizer uma Ganda Chefa?...

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  20. nao sei, mas como é da glaxo industries pilim nao lhe deve faltar

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  21. Se disseres Ganda Cabra dou-te razão, Ana...

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  22. Mente, não estavas numa biblioteca?

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  23. e eu parece que tenho de sair. raios.

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  24. Mas e respondendo à tua pergunta, eu tb acho que na perspectiva da tua filha pode ser bom... mostra que ela não vê a irmã de forma diferente!

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  25. Pois não vê e por isso voa tanta estalada quando chega a hora de arrumarem o quarto...
    É o tal equilíbrio que nunca se sabe bem por onde passa...

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  26. Pois aqui é o mesmo porque o Calamitoso vê a irmã como se tivesse a idade dele. Só para o que lhe interessa, claro.

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  27. (não espanques as miudas, tereza, nenhuma delas :))

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  28. Ai não posso? Mas sempre me disseram que quem dá o pão dá a inducação. Logo, e tendo em conta que estão bem nutridas...

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  29. CJ, às vezes até nós pensamos, quando nos interessa, que são da nossa idade...

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  30. como te compreendo...
    eu sou um Tiranossauro Rex, e tu?



    (vai daqui um bjoca) :)

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