Há uns anos atrás foi esta a única explicação que me deram - shit happens!
Hoje foi o dia dos quase restos. De sair daqui, de onde já me tinha habituado a vê-la, o resto da vida que não era minha. Mas que, três anos depois, já estava em casa.
Nunca me casei para nunca ter de me divorciar, que disso fiz para os outros e sei bem a água preta que escorre quando se torcem os lenços das lágrimas. Mesmo assim, com tantos cuidados, acabei por apanhar o pior que os divórcios têm - a tralha para dividir.
Quando ele saiu daqui, há anos, a promessa era que o resto sairia também rapidamente. Tinha deixado quase tudo, que para onde ia não cabiam outras vidas. Fiquei eu com elas, que nessas coisas também já estou habituada - eu guardo, vem buscar quando puderes.
E ficaram os restos todos da vida dele com as histórias que ouvi muita vez contar.
A aliança do casamento que já nem eu conheci, as centenas de fotografias dos outros tempos, o saca-rolhas amarelo, as caixas de moedas que nem existem mais, os bonecos do golf, os dossiers com negócios que nunca foram feitos, o candeeiro comprado em Bruxelas e que está avariado há muito, os sofás da casa de Ascot, a secretária igual, mas igual, à do meu pai, a mesa de três metros comprada em Zurique e de que nunca gostei porque era de sala de reuniões e nunca de sala de jantar, as irritantes cadeiras de cabedal preto e o armário.
O armário das discussões.
E foi tudo ficando. E eu fui tirando, que na minha casa gosto das minhas coisas e não quero um dia acordar sem elas.
E tirei, e arrumei, e carreguei, que era mais um dia e mais um mês e mais um ano e se eu não tirava elas não saiam.
E ficou o que não podia tirar. A secretária, a tal igual à do meu pai e de que eu não gostava, que era linda mas um monstro, e o armário das discussões. O resto estava em sotãos, cavalariças (que aqui espaço não falta) e duas ou três coisinhas no lixo mesmo.
No sábado o telefone tocou com o número que há muito não tocava. Era desta. Muito bem, espero que seja, e é para quando?
Para daqui a meia hora? Meia quê? Nem pensar, que estas coisas não se fazem assim. Anos à espera e agora meia hora? Vamos lá passar isso para segunda-feira, que sempre é princípio de semana e pode ser fim de outra coisa qualquer.
E foi hoje.
E eu fui cabra. E pouco antes da hora marcada troquei os calções e a t-shirt por um vestidinho e uns sapatos daqueles que não dá para andar muito, que isso de estar com ar de estiva era convite certo para o dás aqui uma ajudinha? e telefonei à Celeste. E ficámos as duas no tal alpendre, com ar de gaijas, a ver o gajo e os outros desgraçados, que vieram ajudar, a suar em bica e a espirrar com o pó do sotão, enquanto carregavam o que há muito aqui não devia estar.
E quando ele chegou não olhei muito para ele, que o olá Teresa, olá K, foi rapidinho, que afinal esta foi a nossa casa e mesmo tanto tempo depois ainda há coisas que ficam estranhas. Só vi que trazia vestida uma das camisas que eu lhe tinha oferecido, aquela que era mesmo da cor dos olhos dele, e uma enorme vontade de conversa.
E eu fui buscar as cervejas geladas, que a tarde estava quente, e voltei para o alpendre onde se estava tão bem. E não, não ofereci, que cabra tem de ser cabra. Mas entrei na sala no momento em que o armário das discussões saía. E ainda o ouvi dizer, quando me viu entrar, que era antigo e tinha de ser tirado com cuidado. E afinei o ouvido, confesso que afinei. E a seguir veio o resto, o resto que eu esperava, que gaija topa-os ao longe e sabe quando estão a dar a deixa - este armário é alemão, muito antigo, feito com a madeira dos barcos que....
E foi nessa altura que afinei o meu melhor sorriso.
Eu estava certinha, afinal ele queria era conversa! E queria que eu dissesse que não, que o armário era português de gema e que a madeira era de barcos sim mas e isto e aquillo e tudo o que sempre dissémos quando do armário se falava.
E, com o meu tal melhor sorriso, mas calada que nem um rato, voltei a sair com mais duas cervejas geladas para o alpendre das gaijas, onde a Celeste me esperava.
Mas que ganhei a tarde, isso ganhei, que aquela tal coisa verde serve-se assim - fria, como as cervejas que nós, as gaijas, estávamos a beber.
Shit happens!
Hoje foi o dia dos quase restos. De sair daqui, de onde já me tinha habituado a vê-la, o resto da vida que não era minha. Mas que, três anos depois, já estava em casa.
Nunca me casei para nunca ter de me divorciar, que disso fiz para os outros e sei bem a água preta que escorre quando se torcem os lenços das lágrimas. Mesmo assim, com tantos cuidados, acabei por apanhar o pior que os divórcios têm - a tralha para dividir.
Quando ele saiu daqui, há anos, a promessa era que o resto sairia também rapidamente. Tinha deixado quase tudo, que para onde ia não cabiam outras vidas. Fiquei eu com elas, que nessas coisas também já estou habituada - eu guardo, vem buscar quando puderes.
E ficaram os restos todos da vida dele com as histórias que ouvi muita vez contar.
A aliança do casamento que já nem eu conheci, as centenas de fotografias dos outros tempos, o saca-rolhas amarelo, as caixas de moedas que nem existem mais, os bonecos do golf, os dossiers com negócios que nunca foram feitos, o candeeiro comprado em Bruxelas e que está avariado há muito, os sofás da casa de Ascot, a secretária igual, mas igual, à do meu pai, a mesa de três metros comprada em Zurique e de que nunca gostei porque era de sala de reuniões e nunca de sala de jantar, as irritantes cadeiras de cabedal preto e o armário.
O armário das discussões.
E foi tudo ficando. E eu fui tirando, que na minha casa gosto das minhas coisas e não quero um dia acordar sem elas.
E tirei, e arrumei, e carreguei, que era mais um dia e mais um mês e mais um ano e se eu não tirava elas não saiam.
E ficou o que não podia tirar. A secretária, a tal igual à do meu pai e de que eu não gostava, que era linda mas um monstro, e o armário das discussões. O resto estava em sotãos, cavalariças (que aqui espaço não falta) e duas ou três coisinhas no lixo mesmo.
No sábado o telefone tocou com o número que há muito não tocava. Era desta. Muito bem, espero que seja, e é para quando?
Para daqui a meia hora? Meia quê? Nem pensar, que estas coisas não se fazem assim. Anos à espera e agora meia hora? Vamos lá passar isso para segunda-feira, que sempre é princípio de semana e pode ser fim de outra coisa qualquer.
E foi hoje.
E eu fui cabra. E pouco antes da hora marcada troquei os calções e a t-shirt por um vestidinho e uns sapatos daqueles que não dá para andar muito, que isso de estar com ar de estiva era convite certo para o dás aqui uma ajudinha? e telefonei à Celeste. E ficámos as duas no tal alpendre, com ar de gaijas, a ver o gajo e os outros desgraçados, que vieram ajudar, a suar em bica e a espirrar com o pó do sotão, enquanto carregavam o que há muito aqui não devia estar.
E quando ele chegou não olhei muito para ele, que o olá Teresa, olá K, foi rapidinho, que afinal esta foi a nossa casa e mesmo tanto tempo depois ainda há coisas que ficam estranhas. Só vi que trazia vestida uma das camisas que eu lhe tinha oferecido, aquela que era mesmo da cor dos olhos dele, e uma enorme vontade de conversa.
E eu fui buscar as cervejas geladas, que a tarde estava quente, e voltei para o alpendre onde se estava tão bem. E não, não ofereci, que cabra tem de ser cabra. Mas entrei na sala no momento em que o armário das discussões saía. E ainda o ouvi dizer, quando me viu entrar, que era antigo e tinha de ser tirado com cuidado. E afinei o ouvido, confesso que afinei. E a seguir veio o resto, o resto que eu esperava, que gaija topa-os ao longe e sabe quando estão a dar a deixa - este armário é alemão, muito antigo, feito com a madeira dos barcos que....
E foi nessa altura que afinei o meu melhor sorriso.
Eu estava certinha, afinal ele queria era conversa! E queria que eu dissesse que não, que o armário era português de gema e que a madeira era de barcos sim mas e isto e aquillo e tudo o que sempre dissémos quando do armário se falava.
E, com o meu tal melhor sorriso, mas calada que nem um rato, voltei a sair com mais duas cervejas geladas para o alpendre das gaijas, onde a Celeste me esperava.
Mas que ganhei a tarde, isso ganhei, que aquela tal coisa verde serve-se assim - fria, como as cervejas que nós, as gaijas, estávamos a beber.
Shit happens!
vê o lado bom, amanhã quando acordares não tens aí o que te lembre. E, é tão bom arrumar definitivamente certos assuntos. Agarras nas recordações pões dentro duma caixa e arruma-a em local bem escondido. Quando chegar o dia em que são apenas recordações poderás abrir a caixa e remexer nela.
ResponderExcluirteresa, a eterna ressabiada a transpirar os seus ódios recalcados
ResponderExcluirda cara não, que essa anda sempre limpa e erguida, mas da alma sim... fica sempre, sempre qualquer coisa que nos lembra quem por cá passou por muito que se limpe e arrume. faço como tu @na, guardo numa caixa que escondo e esqueço.
ResponderExcluirolha que giro... a ressabiada sou eu, mas este anónimo está aqui a comentar o que escrevo ainda nem as tinta secou....
ResponderExcluirTem graça não tem??
Eu guardo também e gosto de ir dar a volta de vez em quando. Mas gosto de pontos finais e, por aqui, ainda não tinha sido...
ResponderExcluir(vocês viram o anónimo? ai que vontade de lhe escarrapachar o nome aqui e agora. Este é dos tais que não percebe o que é um ponto final parágrafo muda de linha...)
hummm... e com desenhos, não vai lá?
ResponderExcluir(penso que nem assim...mas também nunca fui muito boa a desenhar... gosto mais da velha expressão "vai chatear outra"... acho que é quase tão clarinha como um desenho, mas devo estar enganada, que pelos vistos há quase vinte anos que não percebe...
ResponderExcluirSó me faltava esta hoje... é mesmo a cereja em cima do bolo. E o Tubarão que não anda por aqui para me lembrar o que é sensatez e que o melhor a fazer com picanços é levantar os pés e deixar passar...)
A mim vêem-me trazer tralhas que eu deixei, que a casa está a ser decorada mais chique, pelos vistos... Tens uns ressabiados também atrás parece, hehehe....
ResponderExcluirGrande sorte, que comigo é sempre ao contrário, quem deixa as tralhas são eles. E eu que tenho aversão a deitar coisas para o lixo vou ficando atolada.
ResponderExcluirMas viste o outro? Também te dá vontade de rir ou é só a mim? Apetece-me responder "Afinal a praga na vida quem tem sou eu...", mas essa tinha de explicar a seguir e não me apetece...
O outro é um super ressabiado, que queres...E está sempre em cima do acontecimento. Não é indiferente, não....
ResponderExcluireu também nunca casei por causa dos divórcios, já a minha mãe dizia que era certo. Mas tenho de me safar da minha própria tralha que me lixei,
ResponderExcluirzus
ok, ja percebi que teem de ser os gaijos... ajuda nas mudanças?
ResponderExcluir(grandas amigas, vejam la se tambem dão uma maozinha... heyn??)
O tubarão já anda aqui outra vez e não mudou de ideias.
ResponderExcluirE precisamente por isso silencia as suas opiniões públicas acerca de assuntos privados, tal como o bom senso lhe recomenda.
O que não invalida que as tenha, privadas e nem sempre sensatas (só a malta do convento é que coiso lá dentro e tal...).
Olá cabras e cabrões. Shark is back.
estás melhor, shark? já passou tudo?
ResponderExcluirshark estás a insinuar que dentro do convento elas coiso e tal??? Que mauzinho...
ResponderExcluirsensatas são melhores... thats my point
ResponderExcluirNão passou tudo e ainda estou de molho mas amanhã já regresso à normalidade, Gaija.
ResponderExcluirE as tuas férias, estão a correr à maneira?
Longe de mim insinuar tal e coiso, Ana...
ResponderExcluirSou muito mais erótico do que herético...
(mas de facto parceiro... aquela do "coiso lá dentro e tal" sic ... não soa nada bem)
ResponderExcluireh lecas, estão cá os habitués todos, (ou quase)?
ResponderExcluirquem ficava de molho hoje era eu, doí-me tudo... deve ser da falta dos caracóis
ResponderExcluir22
ResponderExcluirÒ Santo, tás-me a cravar prá penitência?
ResponderExcluirO homem tá imparável, ninguém o agarra...
eu que estou espantado, agora a sugestão é agarrares?
ResponderExcluirai que é desta que emigro de vez.
eu sabia que tanta molhada não podia trazer saude a ninguém. ai os macholas com tantas intimidades!!
ResponderExcluirmacholas??? Onde?
ResponderExcluiressa da molhada....
ResponderExcluirarrobana, tambem sofres de falta de vista rapariga? isso pega-se
nada disso santo, para tua informação vista é o que não me falta. Vocês é que me parece que andam um bocadinho baralhados
ResponderExcluirisso ja me cheira a mais olhos que...
ResponderExcluiré, é, fia-te na virgem... olha que com virgens não aprendes nada
ResponderExcluirvocação de professor, já nasci assim. deve ser dos genes
ResponderExcluirisso parece mais de aluno do que de professor
ResponderExcluir33
ResponderExcluiresse o segredo
ResponderExcluirjá nada é o que era! desde que eles se meteram no armário a comer bifanas e ficaram com os dedos cheios de molho que deu nisto...
ResponderExcluirfebras. e acho que os animais marinhos também preferem febras.
ResponderExcluirbifanas... falaram em bifanas
ResponderExcluirbifanas... falaram em bifanas
ResponderExcluirfebras. (e nao e preciso insistires)
ResponderExcluirfica lá com as febras
ResponderExcluir(insisti sem querer)
tás a ver gaija... tudo carne, vê lá se eles gostam de peixe... tá tudo dito!
ResponderExcluirYou had me at Cabra!
ResponderExcluirexacto, tudo dito
ResponderExcluire 44.... ainda mais dito
ResponderExcluirtu até assumes só para ficar com a capicua
ResponderExcluir:)))),
ResponderExcluirgamados em kpk's
assumo que fui mais rapido e mais atento.
ResponderExcluirtavas na moita à espera, foi o que foi
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