"NUM AMBIENTE DE GUERRA NINGUÉM CONSTRÓI. TUDO O QUE SE CONSEGUE É DESTRUIR."

Hoje tive uma reunião com uma pessoa que trabalha na mesma empresa que eu há 3 anos. Nunca nos tínhamos cruzado a nível profissional. Encontrávamos-nos à hora de almoço, lançávamos umas larachas e seguíamos o nosso caminho. De vez em quando, o cavalheiro trazia bolos, doces e afins. Mas nunca tínhamos estado na mesma sala de reuniões.

Hoje descobri que trabalho com um grande homem. Alguém que com o seu discurso me convenceu que existem grandes pessoas. Alguém que ri das adversidades e não tem medo de nada. Alguém que me soube falar de caracteres chineses mas que começou o seu percurso profissional a lavar pratos noutro país porque este estava (já na altura) nas lonas. Alguém que interpretou o meu silêncio, no meio da balbúrdia, como aborrecimento e que eu não fui capaz de o deixar sair da sala sem lhe dizer que não. Que estava enganado. Que estava longe de aborrecida.

Hoje conheci uma pessoa fascinante. E mais uma vez, tive a confirmação de que podemos falar com alguém durante anos e só sabermos aquilo que nos querem dar a conhecer. Felizmente, de vez em quando, existem momentos em que nos consideram dignos o suficiente para entreabrirem um pouco a porta e deixarem entrar em contacto com mais um pouco. E esses momentos tornam a vida melhor. Um desses momentos, faz de hoje, um bom dia.

Da amizade compilada

Isto dos blogues mistos tem a vantagem de a pessoa poder aceder a pontos de vista dos dois lados da barricada que afinal é uma barrigada (de riso), isto dos géneros, a menina e o menino e o mundo tão diferente como a gente afinal o vê.

Mais abaixo, a Peixa aborda um tema que mexe imenso comigo: o de um gajo enfiar a pila nas amigas. E eu apeteceu-me introduzir um nadinha de contraditório na coisa.

Em condições normais, fora de uma terça com sabor a duas segundas comprimidas em 24 horas, eu seria incapaz de falar numa coisa assim. Mas como estou com a telha e a Peixa falou acerca de uma coisa tão importante no domínio das relações humanas e eu até sou amigo dela, entendi pegar então pelo ângulo que mais me toca (e sim, eu deixo).
A Peixa dá a entender que uma pessoa com pila muda de atitude depois de enfiá-la numa amiga. Mais: vai ao ponto de afirmar que nisso não há excepções e arrasta por tabela quilómetros de pila no seu raciocínio tão desfavorável à imagem de uma amizade no masculino.

Tenho, e isso é raro, que discordar da cabra minha parceira (e amiga, não sei se já referi). A amizade séria depreende partilha, entrega, interacção, contacto próximo, espírito de entreajuda, firmeza no empenho com que aprofundamos essa relação bonita que uma amizade pressupõe.
Ora, em nada do que enumerei se pode excluir o uso de uma pila. Ou seja, enfiar a pila numa amiga acaba por ser apenas mais uma manifestação da amizade mais ou menos profunda que nos une.
Não consigo conceber, nesta minha percepção de amigo do peito (e do resto do corpo. Ah, e da alma e assim...), ver-me a olhar a Peixa de uma forma diferente só por lhe enfiar a pila algures. Quer dizer, seria normal que acabasse por vê-la sob novas perspectivas (nem sempre uma amizade favorece a observação a partir de determinadas posições). Mas se a pessoa até for curta de vista, e enfatizo a (multi)óptica desta afirmação, acaba por nem notar a diferença na postura da amiga e ela, até porque pode perfeitamente voltar as costas à situação, terá reunidas as condições para também não alterar a sua forma de ver o amigo tão próximo.

Considero, pois, uma falsa questão, a que a Peixa levanta no seu post. E se calhar é só por aí que passa o busílis da coisa, se calhar existem amizades masculinas que quando chega a hora de usarem mais do que a inteligência emocional só conseguem levantar... obstáculos.

E nesse caso o problema resolve-se e a má impressão desvanece num canto recôndito das memórias dispensáveis, bastando para o efeito reunirem-se uma amiga com abertura total para o aprofundar destas questões importantes que uma amizade colorida como todas deveriam ser suscita e um amigo com uma mente desempoeirada aliada a um volume apreciável de... amizade pura e dura.

E é isto.

Porque um dia também vamos ter o Dia Internacional da Blogaria e vão-me entrevistar como àquele velho castiço que é rádio amador há mais de sessenta anos e nem imagina menina isto é uma maravilha eu sento-me aqui nesta cadeira, ponho os auscultadores, ligo o rádio e falo com gente de todo o mundo e depois pode estar até Sol aqui e lá a chover e tenho amigos em todo o lado e nunca os vi e a malta dos sms e do facebook e dos tuítes e de sei lá o que mais vai olhar para nós, os bloggers empedernidos velhos e teimosos e fazer um sorriso condescendente como eu fiz ao ver aquela parafernália imensa  - a onda entra, bate na válvula, esta aquece, já está a fazer barulho, e o som sai  - que lhe permite, vejam lá, ter o mundo todinho aqui neste escritório, e quando me tentarem explicar que eu já passei à história e que quaisquer 140 caracteres podem muito mais porque até já fazem cair facínoras e tudo eu vou dizer que sim, pois claro, mas, que querem?, isto é um vícioAllo, D. Rosa, D. Rosa, chegou a sua filha do Brasil.

A ROSE IS A ROSE IS A ROSE IS A ROSE*

A premissa é simples. Uma gaija é amiga de um gaijo. Só somos amigos de quem gostamos, certo? Nós preocupamo-nos com os nossos amigos, certos?

 
Mas adiante, a amiga acha piada ao amigo. Quer ir para a cama com ele. O amigo também quer ir para a cama com ela. Lembrem-se da premissa mais simples e a base de tudo: eles são amigos. Como tal é livre de dizer que gosta dele e que se preocupa. O que o amigo acha normal. Ela diz-lhe com as letras todas que o que pretende é ir para a cama com ele. Aliás, ela tem até alguns problemas de consciência porque é só isso que ela quer e não quer que ele ache que ela o está o usar. Ela entra em pânico quando ele se engana numa sms e em vez de escrever "quando conviveres comigo", escreve "quando viveres comigo". Pânico tal que telefona para uma amiga a gaguejar porque não foi para aquilo que se 'inscreveu'. E os remorsos de que ela e as suas intenções possam estar a ser mal-entendidas avolumam-se dia após dia.

Os amigos dormem juntos. E ocorre o fenómeno que existe desde que o mundo é mundo. Tudo o que existiu para trás é apagado. Tudo o que é A.F. (Antes da Foda) é esquecido. No momento em que ocorre a penetração, o macho faz delete de tudo o que sabe da fêmea. A partir daquele momento, entramos na era D.F. (Depois da Foda) e a mais velha guerra do universo é deflagrada: a guerra dos sexos. Aquela fêmea já não é a amiga com quem se falava destas coisas. É uma mulher que o quer prender numa relação. É uma criatura patética que quer um relacionamento. E para isso é capaz de tudo. Até mesmo dizer que gosta dele e que se preocupa. Já não é a amiga que gosta dele e se preocupa. É a fêmea! E faz isso com o único intuito de o controlar.

Meus queridos, nem vale a pena virem-me dizer que nem todos os homens são iguais que isso é bullshit. Um gaijo até pode conhecer John Locke de trás para a frente, mas no momento em que enfia a pila numa gaija, ele faz tábua rasa de tudo o que aconteceu antes e ela passa a ser vista como a 'mulherzinha'. E a mulherzinha quando diz que gosta dele, está à espera de que ele diga que a ama. A mulherzinha se se preocupa é porque o quer controlar e obrigá-lo a justificar cada um dos seus passos. A mulherzinha é também incapaz de humor e de brincar, tudo é feito com segundas intenções.

Tudo o que a amiga fazia e era considerado normal, agora é feito pela mulherzinha que o amigo imaginou na sua cabeça (não perguntem qual delas que eu ainda estou na dúvida) e é mau. Muito mau. Medooo...

Sabem uma coisa, gaijos por esse mundo afora, às vezes, o óbvio é a resposta certa. Às vezes, se uma gaija diz que não quer explicações e que quer só saber se estão bem, é só mesmo isso. Não há nada nas entrelinhas. É só isso mesmo: saber se estão bem. Algumas mulheres quando dizem que gostam de vocês é porque sentem carinho por vocês, não porque querem casar e ter um rancho de filhos. E quando uma gaija vos diz que quer sexo, meus amigos, é isso que ela quer. Mind blowing fucking sex. Se conseguirem ser amigos, melhor. Torna a coisa mais agradável. Mas aqui entre nós, deixem-me que vos conte um segredinho. Não é condição essencial. Nós vimo-nos à mesma.

Moral da história: A amiga fica sem fuck buddy e sem amigo e altamente refodida porque andou não sei quanto tempo a falar sozinha. O amigo é parvo e, muito provavelmente, vai encontrar pela frente uma gaja que o enrola com jogos, meias palavras e que nunca lhe diz exactamente o que quer e quando ele der por ela vai-lhe fazer uma cena de berraria no meio de um restaurante. E sabem o que é mais engraçado? Nesse momento, ele vai dizer que todas as mulheres são iguais!

*Gertrude Stein

Cabra que é cabra


imagem daqui


é cabra revolucionária. Hoje, numa avenida da liberdade perto de si.

ARRE PORRA!

(Acham mesmo que eu tenho vida para isto? Esta gente vem imbuida do espirito da Páscoa e do voltar à vida e assim e esquece-se que a malta já não tem mãos a medir e o tempo não estica. Eu vou ter mesmo que me desunhar e escrever posts? Era só o que faltava...)

Foi a Chefa que me obrigou a meter os cornos outra vez.

E a pessoa interroga-se, claro, como é possível acontecer tal coisa. Mas a pessoa olha para a exigência de um bocadinho de coerência e acha-a sempre pequenina, por comparação.

Nunca mais isto, nunca mais aquilo, e afinal é o tempo quem se encarrega de limpar o pó nas prateleiras de emoções adormecidas e de desmentir a cabeça, essa estúpida impiedosa, com a voz do coração que não reconhece outra razão que não seja a sua, imaculada das porcarias que a outra, mais acima, espalha ao longo do caminho como uma espécie de nevoeiro para evitar, por exemplo, um regresso que lhe pareça mal.
E a pessoa acha que não, às tantas, parece mal é mergulhar no lodo em vez de nadar ao largo de uma praia de areia fina, num mar azul transparente. Com montes de gajas descascadas na areia sentadas como as mais belas flores de um lindo jardim.
A pessoa prefere pensar as coisas assim, bonitas como elas devem ser, mesmo quando por algum motivo deixam de acontecer, porque isso não lhes retira a beleza que é intrínseca, aquela que só o coração consegue ver, esse espontâneo das avenidas que só tem olhos para as miúdas giras no areal que foram o melhorzinho que me ocorreu para acompanhar os violinos na imagem que acima pretendi criar.

Hoje é dia de Páscoa, um dia excelente para tirar coelhos da cartola, depois de lhe conseguir deitar a mão às orelhas por entre a carrada de amêndoas que lixam a dentição e aumentam o peso a uma pessoa mas sabem sempre muito bem e a boca, essa ganda maluca, é tão voraz nos apetites gulosos como é capaz dos disparates sem nexo de que a pessoa se arrepende algum tempo depois.
E é o tempo o segredo, esse gajo cheio de experiência de vida que nos ajuda a ultrapassar pela direita quando essa cena de seguir as regras do jogo não permite que a vida avance e a pessoa faz aquela figura palerma de quando se vê obrigada a levar com os gases de escape na traseira de um enorme e vagaroso camião.

Prego a fundo com a segunda bem metida que a estrada está sempre desimpedida quando a pessoa se deixa de merdas e olha para o tempo que passou entretanto, trocista, e percebe que ele não dá mostras de abrandar a passada e a pessoa simplesmente não dispõe de tanto tempo assim para desperdiçar.

E por falar nisso eu não tenho mais tempo para vos tomar, nesta mensagem de votos de uma Boa Páscoa para todas/os quantas/os aterrarem aqui nesta altura e perceberem que a Chefa (que saudades de poder chamá-la assim) is back.

E continua a fazer de mim o que quer.

Isto não está para graças

Ontem perguntaram-me se gostaria de ser mais nova e, pela primeira vez na minha vida, respondi que sim.
F***-se, sinto-me velha.*


*e devo estar mesmo que já nem um foda-se de jeito escrevo.

Xou!....


Estou farta de ver as caixas de comentários desta casa a serem usadas para tentarem vender iphones desbloqueados, viagra e quejandos. Porra, se querem fazer disto mercado ao menos vendam erva porque para além das óbvias vantagens eu gostava de ser como a gaja.

A NOITE DOS MORTOS-VIVOS

Susto, susto era se tentassem ressuscitar este blogue também!

Ufas... Quase que comecei a acreditar naquela coisa da Páscoa e assim...

REPOSTING

"ELECTION

Ficheiro:Feminist Suffrage Parade in New York City, 1912.jpegEste é o dia de grandes decisões. O país pode mudar. Nós podemos mudar. Dentro de minutos vão abrir as urnas (é às 9, não é?) e milhões (esperamos nós) irão votar.

Eu não falei aqui de politica que toda a gente sabe que de politica eu não percebo nada. Não esgrimi argumentos por nenhum partido e/ou candidato. Não disse qual era a minha intenção de voto porque acho que a politica é mesmo o único assunto que não discuto na vida. A politica como exercício egoísta das pessoas que o exercem. Posso discutir as 'politicas' que essas pessoas defendem ou impingem a nós, cidadãos que hoje vamos eleger os nossos representantes.

Isso talvez faça de mim uma pessoa fútil e pouco envolvida em coisas importantes, não sei, talvez o seja. Mas prefiro discutir as medidas e não as pessoas. Isso não faz de mim mais desprovida de ideias do que já sou.

Mas uma coisa sei, sei que só há 35 anos é que todas as mulheres podem votar em Portugal (podiam votar para as juntas de freguesia desde 1931 desde que fossem viúvas, divorciadas, separadas de pessoas e bens, com família própria e aquelas que estivessem casadas mas que os maridos estivessem no estrangeiro ou nas colónias e só se tivesse o ensino secundário ou fossem titulares de um curso superior com certificado). Portanto, eu vou votar não no Manel, no José ou na Graciana. Vou votar na democracia, no meu muito recentemente adquirido direito de poder contribuir e decidir sobre o destino de quem nos governa.

Vocês que estão a ler e não vão votar porque está a chover, ou porque está sol, ou porque querem ver a sessão da tarde pensem no séculos que milhões passaram a lutar por este direito. Pensem nos quilómetros calcorreados em manifestações por todo o mundo para que vocês, todos vocês, o pudessem fazer livremente.

Não gostam de nenhum candidato, votem nas ideias. Não gostam das ideias, votem naquele que promete melhores coisas para os vossos interesses. Não vos peço para votarem porque é dever cívico, digo-vos apenas que vou nem que seja por respeito aos nossos avós.

E depois de tudo isto, resta-me apenas uma dúvida (que eu sou coerente e toda a gente sabe que eu é mais cor-de-rosa e brilhos e lantejoulas): uso o vestido ou vou mesmo de calças de ganga?"

DON'T SAY A WORD

Eu não sei de nada mas ouvi da prima da tia do irmão do melhor amigo do sócio do dono da Boutique da Carne que disse que ouviu a Laurindinha que arranja as unhas com a Fabiana dizer que dois ilustres membros deste estaminé foram ouvidos a debater o tamanho da pila de uma terceira parte.
 
E não. Não eram duas gaijas. Mas eu não sei de nada, obviamente...
 
*De vez em quando apetece-me agitar estas águas. Só isso...

LEMBRAM-SE DE EU DIZER QUE TINHA SAÍDO HOJE DE DEBAIXO DA CAMA?

Foi sol de pouca dura.

Volto a sair dentro de três... Vá... trinta anos.

Man... I'm Shit Queen!

PARA QUEM POSSA TER FICADO BARALHADO...

Com o súbito desaparecimento de um post que andou por aqui um par de
horas, passo a explicar:

RAISPARTA DA CHEFA QUE TEM A PUT@ DA MANIA DE ESCARRAPACHAR O LINK
DESTA MERD@ POR TODO O LADO!*

*Hoje, finalmente, arranjei coragem de sair de de baixo da cama.

Um pé aqui outro ali

E mais uma vez guardei aquela camisola que pouco uso já tem mas de que sou incapaz de me desfazer. Não há razões para não a vestir, até gosto mais dela que da nova que comprei, mas está tão datada, foi tão vista que me sinto desconfortável com ela. Um dia talvez volte a estar no topo da pilha mas por enquanto fica guardada para não se estragar.


Não sei para que serve um blog, para tudo, para nada, mas sei que se não puder escrever o que me apetece nem vale a pena cá vir e, infelizmente, é o que está a acontecer com este blog. Desde há muito que sei que é lido por quem eu não quero que me leia, por quem eu não quero dividir pedaços de mim, por quem eu não quero que tenha uma luzinha que seja dos meus dias mas por quem eu não quero deixar de fazer o que gosto, escrever.

Há um ano, exactamente um ano, recebi um email de quem eu não sabia que me lia e há um ano, há exactamente um ano, comecei a deixar de escrever e agora já nem sei se o consigo fazer ou se o quero fazer longe dos muitos que por aqui andavam.

Na semana passada a Peixa acabou com o blog dela. Lá teve as suas razões, mas Peixa nunca vai deixar de ser. Ela anda por aí e o recomeço dela fez-me ter vontade de recomeçar também. Tentei fazê-lo aqui mas não consegui portanto decidi que também vou andar por aí. Aqui fica a Chefa e a Peixa e quem mais quiser estar, pelo outro lado irá andar uma outra que também sou eu mas que já não é, de certeza, a cabra de serviço.

Mónica e David - I



Passou ontem à noite no Canal 2. Quem quiser saber mais pode ir aqui. Por enquanto não me apetece dizer mais nada mas tenciono voltar à Monica e ao David.

O direito do mais forte à liberdade

Chama-se Maricica Hahaianu mas podia chamar-se Franz Biberkopf porque tal como a personagem de Fassbinder está estendida no chão de uma estação de metropolitano e quem passa não olha e se olha não pára. Franz tinha-se suicidado, Maricica, uma enfermeira de 32 anos, tinha sido agredida estava em coma e ainda não se sabe o que lhe vai acontecer.
A realidade, a puta da realidade, a tão bem imitar a ficção.

E será que já alguém fez linha?


Alex Vega, o décimo mineiro a sair, já está à superfície

Se há alguma coisa de que agora me arrependo...

 ... é de não ter comprado um destes quando fui ao supermercado.

A Peixa tem olho para os gajos

- Como é que se chama o anão?

- Carlos.


Assim, sem hesitar, sem piscar o olho, sem derrapar nas palavras, atirando com a resposta sem fazer perguntas desnecessárias e mantendo o mesmo ar sereno de sempre.


A vida na cidade é difícil. É pelo menos mais difícil que a vida no campo. Enquanto vivi no campo sabia que tabaco e café só na Lurdes mas pelo menos tinha tabaco e café e baile ao fim de semana e isso era certo. Agora, na cidade, a coisa é complicada. Tabaco já sei que têm mas o café está difícil e não é por falta de tentativas. Volta e meia, é só mesmo mais meia, lá aparece a Peixa por aqui e a dúvida é sempre a mesma e agora, que fazemos? e se fossemos tomar um café ali à esquina? e nós lá vamos mas nunca conseguimos tomar um café, o que é estranho, não sei porque não servem cafés, vê-se gente com copos na mão mas chávenas nada. Pelo menos têm tabaco e se não servem cafés e em Roma temos de ser romanos nós, com grande sacrifício, lá pedimos um copo com qualquer coisinha.

E é lá, nesse sítio onde não servem cafés e onde têm um gigante à porta, que anda o anão. Ele não é assim bem bem um anão, ou um midget, ou um dwarf, é só um ser pequenino com ar de duende, que ciranda lá pelo meio sempre de auricular no ouvido e que com um ar sério e mau comanda aquele mundo de gigantes. E eu e a Peixa temos medo, muito medo, que ele olha para nós e até já nos faz assim uns sorrisos e nós temos medo que um dia nos salte para dentro de um bolso sem darmos conta e lá vimos nós com o anão para casa e portanto temos sempre o cuidado de não levar malas grandes e antes de sairmos até os bolsitos das moedas nas jeans nós viramos do avesso.

Café não tomado atrás de café não tomado o anão foi entrando no nosso dia a dia, que é como quem diz nas nossas noites lá de vez em quando, e nós tínhamos pena, muita pena, de não sabermos como se chamava o anão que ele lá por nos sorrir tem cara de mau e não iria gostar se um dia lhe disséssemos olha lá, ó anão,  já que não servem café pelos menos podiam pôr vodka a sério nos sumos de laranja que isto assim não está com nada e se é para beber um suminho ficamos em casa, o nome era mesmo um problema mas da última vez que fomos beber um café ficou determinado que o meu objectivo seria saber o nome do anão, o que não era fácil, que não me dava muito jeito chegar ao pé dele e perguntar ó anão como é que te chamas? porque eu até já expliquei que ele é anão mas manda naquilo tudo e nós temos esperança de um dia ainda conseguirmos beber o tal café. 


Foi então, quase em desespero de causa e assumindo a derrota, que na última noite, já de casaco vestido e abotoado que cá fora faz frio, me abeirei do porteiro latagão que faz origamis e a seco, sem pré aviso ou rodriguinhos, lhe atirei com a pergunta. Como é que se chama o anão? E ele respondeu. Desde aí a minha consideração pela Peixa aumentou bastante. É que ela tem bom olho para gajos, ela sabe escolhê-los, que fosse outro e ainda agora estava a tentar perceber o que lhe teria eu perguntado.E eu gosto de pessoas assim, que as apanham no ar sem precisarem de explicações e agora até podia dizer que tirando o porteiro latagão da Peixa conheço poucas, muito poucas.


E eu tenho de reconhecer que lá por aquilo não ser o sítio da Lurdes, que bem que podem ter tabaco e baile mas não servem café, o porteiro faz a casa e até até agora já mostrou que para além de saber fazer origamis também é rápido no gatilho. Como já disse, a Peixa tem olho para os gajos. Deve ser pelos dentes que lhes tira a pinta.

IN BRUGES

Uma tarde, eu botei a Chefa a ver esta magnifica película. Acho que considero ser o melhor filme non-sense dos últimos anos.

"Ray: A lot of midgets tend to kill themselves. A disproportionate amount, actually. Hervé Villechaize off of Fantasy Island. I think somebody from the Time Bandits did. I suppose they must get really sad about like... being really little and that... people looking at them, laughing at them, calling them names. You know, "short arse". There's another famous midget. I miss him but I can't remember. It's not the R2D2 man; no, he's still going. I hope your midget doesn't kill himself. Your dream sequence will be fucked. 
Chloë: He doesn't like being called a midget. He prefers dwarf. 
Ray: This is exactly my point! People going around calling you a midget when you want to be called a dwarf. Of course you're going to blow your head off."

Yeah, it all happens in 'fucking Bruges' (it's in Belgium). Se não viram, não sabem o que estão a perder. As cenas com o anão são priceless...


(Sim, alguém tem que botar aqui um bocadito de cóltura, tá?)

E a outra é que é a selecção de todos nós? Somos uns tristes, é o que é...


A selecção portuguesa de Natação de síndrome de Down fechou em Taipé, Taiwan, a participação no 5º campeonato do Mundo da categoria com quatro medalhas de bronze.
No último dia de prova os atletas portugueses alcançaram o lugar em seis finais. O atleta Ricardo Pires conquistou medalhas nas provas de 200 livres, 200 metros  estilos e 200 metros bruços, e Mannie NG foi a terceira classificada nos 100  metros bruços.
(nota mental: raios partam a minha preguiça e o meu desleixo e mais a outra carrada de defeitos todos, sim, leva lá a bicicleta, o egocentrismo também, que fazem com que ainda não tenha metido os pés ao caminho e inscrito a gaijinha na natação que tenho a certeza que ia direitinha para a competição que o raio da miúda nada bem que se farta e parece que por aqui até têm uma equipe de Síndrome Down e tudo...)

Dos comboios que passam de quem os vê passar das leituras em tempo de férias e dos espelhos mentirosos


Era frequente, naquela altura, ficarmos parados dentro do carro à espera do comboio que iria passar até que de repente, cruzando um bocadinho de horizonte, lá aparecia ele para desaparecer do outro lado e era nessa altura, quando o comboio passava, que o meu pai nos voltava a ensinar, como se repetindo sempre o mesmo comboios sem conta houvesse a esperança de que não o esquecêssemos, que aquele comboio vinha de algum lado e seguia para outro, que dentro dele iam pessoas à janela, que nos viam aparecer e desaparecer tal como nós as víamos a elas e que as vidas continuavam para além daquele momento em que se cruzavam não havendo personagens principais e figurantes, porque se nós éramos só mais uns ocupantes de um carro parado numa estrada qualquer que depressa ficava para trás e eles passageiros de um comboio que passava rápido todos seguíamos um caminho e nenhum estava lá só para ser cenário do outro.

A praga, ou a regra, foi que este seria um Verão teenager e os deuses, que gostam de brincar connosco, ouviram e levaram a coisa a preceito porque se o que se estava a pensar era muito Grease com summer nights e um coro de Uh Well-a well-a well-a huh a mim, pelo menos, não me calhou o tal boy cute as can be mas um Verão inteirinho na velha Figueira com uma mãe que nos obrigava a sentar à mesa para um jantar que começava sempre com sopa ainda o Sol estava muito longe de se pôr, horas marcadas para chegar à noite porque ela não dormia enquanto eu não chegasse, erro meu, grande erro, quando há muito pensei que nunca mais ouviria esta frase, e, last but not least, Verão teenager no seu melhor, sem televisão e internet. Ora como cada mãe tem as suas regras e se a minha tinha estas a da minha filha finalmente teenager de pleno direito tinha outras um bocadinho, ligeiramente, diferentes, as minhas longas e quentes noites de Agosto foram passadas de olho aberto à espera que chegassem as 3 da manhã, vá, uma vez por outra as 4 da manhã, para abrir a porta à gaijinha mais nova. E que fiz eu nessas noites? Pois claro, reli dezenas de livros policiais mais umas dezenas de livros de ficção científica com que avisadamente, que eu já conheço a fera há muito, tinha enchido o maior dos sacos de viagem que encontrei.
Dos policiais não reza a história que quando já se sabe quem matou pouco fica mas a ficção cientifica voltou a levar-me aos outros mundos por onde gosto de deambular e foram eles os grandes responsáveis, mais a história do comboio que parece que não tem nada a ver com isto mas já vão perceber como cai aqui que nem rosas, para que ontem tenha chegado à varanda e ao ver a linha do horizonte tão bem recortada lá ao fundo no mar, o pinheiro grande aqui mesmo na frente e o céu lá em cima, pensasse de imediato como era tão impossível que tudo isto fosse só um cenário para eu ver quando chego à varanda porque se pensamos que todo este imenso universo está cá só para nós foi porque esquecemos a história dos comboios e das vidas que lá vão e que até podemos não ver por não irem à janela mas que também têm um caminho para seguir. E mais uma vez vi-me pequenina, um pontinho sem importância no meio disto tudo.

Faltam os espelhos,não faltam?
Que porra!, hoje chamaram-me egocentrista e se considero esse a babushka dos piores defeitos, que lá dentro cabe quase tudo, e se tenho que dar ouvidos a quem assim me crismou por lhe reconhecer capacidades para tanto, então os espelhos são mentirosos, coisinha que não é novidade, porque a imagem que nos dão de nós é sempre o inverso da que os outros vêem e eu vou ter de concluir que afinal o meu pai andou a gastar latim para quase nada e que na minha vida devia ter levado com muitas mais passagens de nível porque não é por saber a história dos comboios de cor e salteado e por achar que há mais vida lá em cima que eu deixo de viver à volta do meu umbigo.

Estou chateada comigo. Sim, eu sei que outros problemas me deveriam afligir de momento mas ser egocentrista é isto mesmo, não é?

(por outro lado, e fazendo outras contas, talvez só esteja a dar ouvidos aquela opinião porque eu a valorizo mas isso é voltar a pôr o fulcro em mim e portanto se aquela pessoa quiser que eu a oiça eu tenho de ser um bocadinho egocentrista, não é? Caramba, isto é muito complicado e já estou toda baralhada mas hei-de arranjar uma argumentação qualquer que prove provadinho que não sou egocentrista porque de mim quem sabe sou eu...Ou não devia ter disto isto?)

MISERY

Eu sei que isto vos pode parecer corriqueiro e não vão entender a dimensão da tragédia...

OH CHEFA!!! DÓI-ME A GARGANTA!!!

E não lhes contamos, pois não Peixa?

Socorro!, querem-me comer.

E eu estou a rir-me.
Por vezes, mas mesmo muito de vez em quando, tenho de dar a mão à palmatória e reconhecer que os homens são bichos estranhos, soltam-se-lhes assim uns apetites repentinos que nos deixam quando meninas a tremer que nem varas verdes e quando mais burras velhas a soltar gargalhadas que nem eu.

Não o vejo vão bem mais de vinte anos se bem que o vi tanto nessa altura que se passassem outros tantos não me iria esquecer dele. Era eu e ele e mais o outro e mais a outra e aquela e os outros dois e éramos alguns e durante cinco anos vivemos agarrados uns aos outros. A minha casa e a casa dele, uma de cada lado da rua como nos namoros sérios, eram as casas de todos e devo-o ter visto mais vezes nu do que vi o meu irmão, que ele também não era rapaz de muitos resguardos e o que tinha mostrava, fosse onde fosse e a quem fosse, parecendo-me até, assim quase que a modos de certezinha, que o chaveiro dele era mais conhecido que o guarda da porta férrea. Não havia queca que desse que não nos viesse contar, com todos os pormenores e os requintes da malvadez que nos fazia a nós, as da malta, rir a bom rir, salvaguardadas que estávamos de ser  vítimas daquele predador a quem a proximidade das vidas impedia os apetites das carnes. Nunca nenhum de nós cruzou o risco que nenhum de nós desenhara mas que lá estava, marcado a tinta que se julgava indelével e que era se não isso fluorescente de certeza já que nem as bebedeiras mais devastadoras que acabavam na manhã de um dia qualquer, com tudo ao molhe, num quarto desconhecido, nos fizeram quebrar a regra que era sagrada e nunca, nem nos mais longos Invernos, nos comemos uns aos outros.

Mas isto era dantes, quando as pradarias estavam cheias de gazelas e as feras ainda tinham pernas para correr que agora as barrigas já pesam e a fruta só mesmo a do sítio do costume. Então não é que o cabrãozinho, e cabrão é nome terno, me reencontrou hoje nestas coisas dos faicibuques e vai daí somos amigos, e isso não é de estranhar que amigos nunca deixáramos de ser, e logo de seguida, seguidinha, sem tempo para respirar nem para um olá por aqui e que fazes?, vem com ai continuas tão boa e se a malta coiso e tal e ninguém sabia e bebíamos até cair e acordávamos num sítio qualquer?
E agora, se fosse fim de semana, eu desceria à estrebaria, que estrebaria só abre aos fins de semana, feriados e sérias precisões dos caralhinhos todos do menino jesus, e soltava duas ou três do vernáculo mais profundo enquanto continuava a rir desbragadamente a lembrar-me do gajo no dia em que lhe desliguei o esquentador e lhe atirei com um litro do azeite lá da quinta por cima da cortina do duche porque olha lá, tu põe-me juízo nesses cornos, tu não achas que nem todo o álcool do mundo me impediria de desatar à gargalhada assim que tu pusesses a mão na braguilha para qualquer outra coisa que não fosse para um xixi em arco em cima de uma ponte qualquer?

E é por estas e outras que às vezes, muito às vezes, penso que os gajos são mesmo diferentes de nós, aliás, são mesmo diferentes de tudo o que é conhecido, é que não há força da gravidade que lhes valha e a pila, bem bastas vezes, sobe-lhes até à cabeça.

Como é que é?

A clientela está a reclamar, e com razão, mas isto está enferrujado. Foram muitos meses sem pôr óleo nas mãozinhas e agora os dedos ensarilham-se nas teclas. Mas isto vai lá...

Boa!


Pode ser que assim reeditem o Tia Júlia e o Escrevedor porque este foi um dos tais que se volatizou e que eu tenho muita vontade de voltar a ler.

Atão???

Foi só ameaço ou a coisa segue?