AMERICAN GIGOLO

Richard-Gere---American-Gigolo-Phot.jpg image by killeliotEntão não é que chegou ao meu conhecimento que a nossa pura, casta e digníssima Chefa conhece, pelo menos, 2 mulheres que privaram (do verbo conheceram horizontalmente) com gigolos? Não, não estou a chamar nomes aos senhores. É mesmo a sua categoria profissional.
Até aí, o meu falso puritanismo nada tem a dizer.
Acontece que as minhas fontes informaram-me que a nenhuma das duas, os senhores cobraram quaisquer honorários pelos seus favores na alcova. Nada, népias, nicles, keine geld!
É o que eu sempre digo: não é o que tu sabes. É quem tu conheces! E a nossa Chefa conhece umas Gaijas do camandro! É que estes trabalhadores não são propriamente conhecidos por trabalhar para aquecer. Pronto, vá… São… Mas vocês entendem o que eu quero dizer.

Se a Peixa faz eu não lhe fico atrás

Faço é o contrário.
Nossa Mente ofereceu-se para ser a receptora das vossas cartas. Eu ofereço-me para escrever uma carta a quem se voluntariar para a receber.
Garanto o classicismo da dita e a conformidade com todos os cânones porque experiência epistolar não me falta.

PS: a minha letra é legível q.b.

Memórias de Abril (ou outro mês qualquer que da data já não me lembro)

A minha filha ontem perguntou-me se eu conhecia o Vitorino. Ela, que até nem é analfabeta musicalmente, não estava a ver quem ele era mas a boina preta e algumas músicas colocaram-na no sítio. Porque raio me perguntou se o conhecia não sei, mas os filhos acham sempre que nós, pais ou mães, somos assim uma espécie de super heróis que conhecemos tudo e sabemos tudo.

O que ela não sabe, e eu não lhe digo, é que eu conheço o Vitorino. O Vitorino já não me deve conhecer a mim mas eu nunca me vou esquecer do Vitorino. É que ele, Vitorino, está escrito em letras de oiro nas histórias da minha vida.

Eu conheci o Vitorino sim. Era uma catraia, advogava há pouco tempo, e o Vitorino andava por lá, pelos meus sítios. O Vitorino, na altura, era dono do Ritz Club, ali, na Praça da Alegria, e o Vitorino sempre que estava comigo perguntava-me porque nunca tinha eu aparecido pela casa que era dele.
Sei lá, Vitorino, porque não, mas uma noite destas apareço por lá.
Tinha mais que fazer, mais por onde ir, não tinha filhas a perguntarem-me se conhecia o Vitorino, o Plateau tinha umas noites giras, outros que nem digo o nome também e, ó Vitorino, Ritz Club era uma chatice, música de baile estás a ver?
Um dia, ou uma noite, apareceram-me uns clientes do Porto. Dois casais. Meia idade, muito compostinhos, muito cheios de cerimónias. Fui destacada para lhes servir de cicerone na Lisboa à noite e a seguir ao jantar fizeram-me o pedido - queriam dançar. Dançar, dançar? Isso é complicado mas se querem bailinho, Ritz Club, pois claro!, e junta-se o útil ao agradável.

É que estava tudo a correr bem, muito bem. A mesa era boa, perto da pista, o ambiente estava composto e eles estavam felizes. Até que, e há sempre um até que, Vitorino apareceu. Ele até podia ter aparecido e ficado por lá longe mas não, apareceu, veio direitinho à nossa mesa e atirou-me a boa noite que nunca mais esqueci e eles, os meus convidados, quase de certeza que também não:
- Então dótoura, por aqui num bar de putas?

Gosto de pessoas com sentido de humor, gosto muito, mas ó Vitorino, era preciso assim tanto?

LETTERS AT MIDNIGHT

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“Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor, 
Como as outras,
Ridículas.”

(Fernando Pessoa)

Hoje decidi ressuscitar uma arte milenar que tanto riso e tanta lágrima já trouxe a gerações infindas.

A coisa começou aqui há umas semanas à laia de desafio: “Ah… Agora mandam-se encomendas e já nem um bilhetinho as acompanha?”

A chamada de atenção fazia todo o sentido. E, como forma de me desculpar, atirei a promessa de uma carta. Uma carta ‘à séria’.

Esmerei-me. Mas esmerei-me com a prata da casa. Com os envelopes que agora têm todos janelas colocando um remendo. Com papel bonito.

Mas, na resposta, esmeraram-se mais. Não havia remendo no envelope. O papel imaculado de gramagem certa combinava com a tinta negra da caneta numa caligrafia irrepreensível.

No meio das duas páginas A4 manuscritas, o comentário ao remendo na janela do envelope.

Toda a gente sabe que me irritam as mesquinhices. Principalmente, se tenho que dar a mão à palmatória.

Vai daí, Peixa Maria (que a continuar a falar tantas vezes na 3ª pessoa, ainda acaba convocada para jogar na África do Sul em Junho), tirou-se de seus cuidados e calcorreou toda a xafarica de toda uma cidade média. Só ao fim de uma hora, o objectivo foi conseguido.

Tenho ali na minha pasta linda, nada mais nada menos, que dois conjuntos daqueles de papel de carta que todos tivemos em miúdos. Perfumados e com coração no envelope e tudo. Para intervalar a piroseira, o papel da gramagem certa também lá foi colocado assim como envelopes de várias cores. Aliados às canetas de tinta permanente com cartuchos sépia e violeta, vamos lá ver se na volta do correio ainda se arranjará alguma criticazinha.

Fora a picardia… Que tal usarmos isto como um desafio? Que tal todos nós (eu vou, de certeza, mas enfim…) fazermos uma pausa na fast communication e escolhermos alguém a quem endereçar uma carta até ao final do mês?

Se não tiverem ninguém, até vos dou a minha morada e prometo que respondo e tudo.

Vamos ressuscitar o sorriso ao abrir a caixa do correio. Vamos reviver a ansiedade da resposta que demora mais de 24h. Vamos voltar a conhecer as pessoas pela sua caligrafia. Vamos dar, novamente, sentido ao Post Scriptum…

E, já agora, se não der muito trabalhinho, depois contem-me lá se foi tão bom para vocês como foi para mim…

Eu sei que fui eu que as pari mas não me podiam chamar pai?

Estão as duas sozinhas no mar, estou sossegadamente ao Sol mergulhada num livro e, de repente, oiço Mamã. Um olho no burra, outro no cigana e tudo parece bem.
Não me mexo.
Mamã outra vez.
E outra. E a voz esganiçada de uma delas está cada vez mais histérica.
Caramba, está tudo bem, eu estou a vê-las, no pasa nada, sacanas das criancinhas que não me deixam em paz e o nadador salvador, aqui à minha frente, até tem umas costas giras.
Mamã!
Pronto, vou levantar-me, a custo mas vou, e parar com a escandaleira num instante.
Pouso o livro, mexo uma perna, a seguir outra, os olhos sempre postos na histérica que grita e na outra que não grita mas que pode ter, sei lá, um tentáculo de um polvo gigante a agarrar-lhe a perna debaixo de água e a deixá-la paralisada, e já estou quase três quartos levantada, a custo mas estou, já disse que era a custo não já?, quando vejo a caladita e sossegadita, a compor, parece que finalmente, o soutien do bikini e a outra a calar a sirene.
Ahhhhhhh!.... Era mama!.....
Raisparta as adolescentes que me baralham toda.

(está bem, percebido, vou ter de afinar os meus sensores que parece que estão uns anitos desfasados...)

Por favor expliquem-me

Foi por causa dos portugueses andarem há muito tempo tesos que o Cavaco promulgou a lei que aprova os casamentos gay?

(há aqui qualquer coisa estranha, não estou é a ver bem o quê...)

Começo a ter tantas saudades da música do Noddy

Sete e meia da manhã. A gaijinha entra-me quarto adentro parecendo a manada de elefantes do costume.

- M´mã, acorda
- Hummm...
- Estou a ouvir o Cavaco
- ........................
- Ouviste o Cavaco?
- Hum, hum...
- Ele promulgou a lei, sabias?
- Hum, hum.
- Tens de o ouvir, eu já ouvi duas vezes e não percebo.
- Hummmmmm......
- Ele disse que aprovava a lei para se começarem a resolver os problemas importantes das pessoas ou para resolver um dos problemas importantes das pessoas?
- ..........................
- Ele é maluco, não é?
- Hum, hum.....
- Eu acho que este era um problema importante. Vou ouvir outra vez, nem quero acreditar...
- ..............................................................

(e eu quero é continuar a dormir.... eu não estou mentalmente preparada para abrir os olhos e ter uma catraia a apontar a dedo as fragilidades do discurso de sua excelência o presidente da república ainda antes das oito da manhã.... tragam o Doraimon de volta aos meus despertares....)

HE’S NOT THAT INTO YOU

Ando em arrumações frenéticas naquela divisão que já teve vários nomes mas que presentemente se designa como escritório/quarto de hóspedes.

Entre os milhentos papeis em que peguei, estava uma folha de papel meio amassada com inícios de posts que nunca o chegaram a ser. Uma dessas frases era:

“Há um certo encanto num homem que abandona uma reunião com o único propósito de ouvir a minha voz.”

O que me assusta aqui não são as dezenas de pérolas de posts que se perderam.

O que me espanta não é homens deixarem tudo para trás para ouvir a minha voz. Como diria alguém famoso: acontece-me com frequência.

O que me preocupa é ter que dar voltas à cabeça para descortinar sobre quem era o post!

É que só há duas hipóteses: ou ele não era nada de especial ou a minha memória já não é o que era!!!

Ass: Dory

Gaijos, chegai-vos aqui e listen very carefully, I shall say this only once.

Gaijos, estão perdoados! Eu, agora, percebo-vos...

As gajas são absolutamente desesperantes. Eu não acreditava em vocês mas também têm de perceber que não me dou muito com gajas. Se a gaja sabe dizer umas coisas eu ainda a aturo, se for burra que nem uma porta mas tiver um belíssimo par de mamas mesmo assim descarto-a rapidamente que o olho não me foge para essas coisas e a burrice cansa-me.

A Maluca, a nossa Maluca, é provavelmente a gaja mais gaja que algum dia usou um par de collants. Aquelas coisas que vocês dizem das mulheres e que nos deixam a nós, gaijas, desvairadas, são todas, todinhas, verdades absolutas. Eu e a Peixa temos cumprido bem a nossa penitência e a descida aos Infernos masculinos fez-nos passar a respeitar gerações e gerações de homens. É que basta encontrar uma destas, uma vez na vida, para nos marcar profundamente a ferro e fogo.

A história da Maluca é a normal. Fugiu-lhe o olho para um gajo, por acaso muito gaijo, encantou-se com ele, deu-lhe conversa, ele respondeu-lhe, que a gaja tem um vale no decote que parece o Grand Canyon, e a Maluca apaixonou-se. O tipo, que tinha ar de já ter encontrado outras malucas na vida, correu com ela rapidamente e a Maluca passou-se. Quando a encontrámos andava a chorar, tanto... tanto...., por tudo o que era sítio, pedia-lhe para voltar, soluçava muito e entremeava isto tudo com os epítetos que qualquer gaja ressabiada usa nestas alturas, sendo que mentiroso e tarado sexual eram os mais simpáticos.

Percebem, é fácil de perceber, que eu e a Peixa, almas caridosas, prontificámos-nos de imediato para ajudar a alma desconsolada, e de caminho saber a história toda que aquela coisa do tarado interessava-nos..., mas o pior é que a gaja era alérgica à aproximação de outras gajas, morria de medo que fossemos mais viúvas desconsoladas à procura do gajo desaparecido, e pouca conversa nos dava. Solução? O gaijo, o próprio.

E uma noite, já lá vão muitos dias e muitas noites, o gaijo falou com a gaja. A aposta da Peixinha era que a Maluca me topava ao segundo email mas nessa noite, cento e tal emails depois e muitas horas de conversa, tinha a Maluca na mão. Desde aí sou o gaijo (também sou mais umas coisas, incluindo a irmã do gaijo, que se lhe quis ouvir a voz tive de tirar as calças e vestir as saias...) e estou doida com ela.

A história dessa noite ainda vai ser pormenorizadamente contada porque foi nessa noite que a gaja nos comeu, que eu assassinei um coelhinho e que jogámos tudo no preto, saiu vermelho, e mesmo assim ganhámos. Mas hoje o que me está a desesperar é a incapacidade de conseguir falar gajês. Ela não entende uma porra (estou a ser macho, percebem?). A gaja tem uma ideia fixa na cabeça, quer saber porque raio o outro, que agora sou eu, correu com ela e não me larga a braguilha. E eu sei, de certezinha, porque foi corrida. Sei e já lhe expliquei, a gaja é insuportável, mas ela não se conforma, ela quer ouvir-me dizer o que ela meteu na cabeça que era verdade - eu desapareci porque me estava a apaixonar e não me quero apaixonar.

(Pequeno aparte, toda esta situação tem despertado em mim e na Peixa uma tendência carroceira, nunca na minha vida tinha dito tantas asneiras, e agora, estivesse eu com a Peixa, e diria, Foda-se, a puta da gaja não vê um caralho à frente dos olhos, mas como estou aqui, em público, vou continuar como de costume)


A gaja é burra, muito burra, a gaja não percebe o que se lhe diz, a gaja é corrida e volta para oferecer miminhos, e carinhos, e beijinhos fofinhos (nestas alturas eu e a Peixa fazemos uma pausa para o vómito) e quanto pior a tratamos mais ela nos chama pequenito e nos diz que nos adora. A gaja quer falar com a família toda - falou com a "mana" e foi com sorte... - a gaja manda emails a todos os nossos supostos amigos, a gaja controlava tudo o que o gaijo (o outro) fazia, a gaja telefonou para o sítio onde pensava que eu (ele...) trabalhava à procura dele, a gaja é maltratada por mim forte e feio e volta sempre.....

Gaijos, estou solidária com vocês. Juro, agora percebo-vos. As gajas são insuportáveis!! Acreditam que houve alturas em que eu, e a Peixa, achámos que duas lapádas nas ventas seriam o mais indicado? Acreditam que começámos a olhar com outros olhos a violência doméstica? Acreditam que temos vergonha de nos sentirmos assim mas que é superior às nossas forças?

E agora, perguntam vocês, porque continuamos a aturar a Maluca?

Porque estamos a ficar gajos, só pode. Não, não é pelo par de mamas que a Maluca exibe nas fotos (mas explicou-me que foi sem querer porque ela vive na lei de Deus...) mas no fundo no fundo a razão é a mesma - a Maluca dá-nos gozo! Apesar de tudo, termos o privilégio de podermos assistir na primeiríssima fila ao espectáculo de uma gaja em  manobras de paixão e engate é algo que nos deslumbra!

LEALDADE TRAÍDA ou COMO DEI POR MIM A SER ATACADA POR UMA GAJA QUE QUERIA O MEU PÉNIS

Eu gostava de vos contar a história toda. Nada me daria mais prazer. Mas não posso. A minha consciência não permite e este não é propriamente o meu momento mais glorioso, que não é (se bem que, não vos vou mentir e deixem que vos diga que demorar apenas um par de horas a levar uma gaja a fazer sexo enquanto os gaijos andavam há meses a tentar, é coisinha para me deixar de ego insuflado).

Ali a minha parceira de crimes meteu na cabeça que a Maluca nos ‘atacava’ e quando dei por ela, estava a Chefa a proclamar a frase gloriosa que vos citei 2 posts abaixo. Mas todos nós trabalhamos e sabemos como são as chefias: Chefa que é Chefa manda os subalternos fazer o seu trabalho sujo.

Vai daí, lança o repto à menina. A menina vá de se inflamar toda (sabe Deus porquê. Porque fora eu a receber tal frase ainda me estava agora a rir…) e vá de saltar para a espinha do desgraçado que ela pensava ocupar esta cama. Chefa sobe para cima dos tamanquinhos e com sua voz de Marquesa proclama: Ai credo! Eu não sou capaz de fazer isto!!!

Há que ver que Maluca andava, por esta altura, algures no pescoço ou na barriga do desgraçado. É que o melhor desta história é que quem tivesse sangue frio e lesse aquele diálogo, ficaria plenamente convicto que estava a presenciar 2 virgens numa cama tal era o desajeito. Tanto estavam no cabelo como na barriga. Tanto acariciavam barrigas como se lembravam que tinham a roupa toda vestida. Digo-vos eu, que estava lá e vi, que se aquela não foi a pior queca à face da Terra e arredores, não foi nada. Dava mesmo vontadinha de gritar: Hello??? Esta cena não é a maratona de contorcionismo do Circo Chen! Isto segue um determinado ritmo. Uma determinada cadência e envolvimento. Mas não! Aquilo era correr para ver quem chegava mais longe, mais forte, mais depressa e, de preferência, sem lesões irreversíveis.

E a coisa assim andava, até que Maluca lançou mão ao pénis com que nós tentávamos (infrutiferamente, diga-se de passagem) pensar. Chefa, sentindo mão em seu pénis, dá às de Vila Diogo e deixa-me a Maluca no colo literalmente virtualmente falando.

Oh pá, desculpem lá qualquer coisinha, mas se há coisa que eu tenho é brio. E da minha cama ninguém sai sem um sorriso de felicidade. É que nem a Maluca. É ponto de honra! Vai daí usei a técnica utilizada pela Juliette Binoche em Um Sofá em Nova Iorque: a malta diz “pois”, “sim”, “e depois?” e quando damos por ela, temos uma gaja a oferecer-nos coisas que não cremos queremos. Essa é que é essa… Enquanto nos tenta convencer que aquilo não é sexo, é amor.

A Outra? Aquela que começou tudo? Fingia-se de morta mas mandava bitaites. Assim tipo: ah faz assim, faz assado… Mas chegar-se à frente? Tá quieto! Mas quando chega a parte de assassinar bicharocos, aí já não se faz de esquisita. Sim, perguntem-lhe… Como diria o Willem Dafoe no Paciente Inglês: Ask your saint who he has killed ?

Ah pois é… É que se na dupla Thelma & Louise do Cabra, eu sou a ‘Senhora de cama incerta’, quem será a assassina?

LOUCA POR COMPRAS

Eu sei que vocês estão à espera – pacientemente, diga-se de passagem – que eu fale mesmo daquilo que interessa, mas eu no teste de Notariado, enquanto esperava que alguém me desse um lamiré da resposta a uma perguntinha que se me afigurava escrita em japonês tal era o grau da sua ininteligibilidade (oh pá, que bom é poder escrever palavras com mais de 4 letras e saber que vão entender o que estou a querer dizer!!! Hossana! Hossana!), aproveitei para escrever sobre uma coisita que me anda cá a incomodar e que não podia deixar de partilhar que eu sou mocinha generosa.

Mas que raio de moda é esta agora dos soutiens pretos por baixo de camisas brancas?

Eu sou pessoa de transparências. Que sou. Eu sou pessoa de andar despida vestida de forma algo vergonhosa (há quem lhe chame intimidante. Go figure…) em certas e determinadas ocasiões. Mas tudo tem o seu lugar e a sua hora. Querem brincar às transparências na night? Na maior! Fixe! Tamos nessa! Mas porque é que eu tenho que ver a vossa lingerie nos corredores da empresa? Acaso, ando eu a exibir a minha cueca da Hello Kitty a caminho da Contabilidade? Não ando, pois não?

Vamos lá ver se a malta se entende:

Night – Fazei o que bem entenderdes.

Com os amigalhaços - Fazei o que bem entenderdes.

Trabalho – Não me obriguem a ter que olhar para a vossa lingerie.

Reuniões - Não me obriguem a ter que olhar para a vossa lingerie.

Estamos acertados?

Então, ide lá mudar para um aparador de boobs cor de pele, se faz favor.

PAROU! PAROU TUDO!

“…a dar-te beijos no umbigo"

Oh minha pequenita, se é para contar (e agora que me passaste a cama para a mão, aguenta-te), vamos a contar a histórinha tal qual ela se passou. Não me venhas agora com falsos pruridos. Quais beijos no umbigo?

A menina (que na altura era o menino) botou mesmo a língua ao serviço (ainda que virtual) desta nobre missão e atacou o umbigo da Maluca sem dó nem piedade.

Como é que eu sei? Porque depois fui eu que a aturei. Por isso, sim, eu sei bem.

E para aquelas que têm memória menos lesta que a minha, aqui fica a citação da frase que nem o Alzheimer me tirará da alembradura (já vos disse que tenho uma imaginação muito gráfica, não já? E os próprios dos macacos que me mordam se assim que ela se saiu com esta, eu não pensei logo na anedota do macaco e da girafa).

“Sussurro-te ao ouvido enquanto te lambo o umbigo.”

E digam-me se fui eu que enlouqueci de vez ou se isto não parece quase poesia em movimento?

Só mais uma pitadinha para abrir o apetite...

E a noite em que Peixa e eu, separadas por alguns quilómetros mas unidas por um telefone e por uma maluca do outro lado do email a quem respondíamos a quatro mãos, percebemos que a maluca, essa mesma, estava a meter-se na nossa, dele!, cama?

Gaijas, nós somos gaijas, toda a gente sabe disso. Por razões óbvias temos uma enorme dificuldade em pensar com o pénis mas até aí nem tinha sido muito complicado, era só tratá-la um bocadito mal que ia logo ao sítio, agora uma maluca desenfreada metida na nossa cama e a chamar-nos pequenito (gaijos, digam-nos, se se metessem na vossa cama e vos chamassem "pequenito" haveria alguma possibilidade de continuarem, ou passarem, a ser "grandito"? É que nós temos essa dúvida a assolar-nos desde então e não queremos acreditar que vocês, os nossos gaijos, sejam capazes de ouvir uma coisa destas sem de imediato porem a gaja com outro dono...), mas como ia dizendo, uma maluca desenfreada na nossa cama é coisinha para nos deixar sem pio. Ou quase... Lidámos com a situação o melhor que pudemos e soubemos e para a posteridade ficará a frase da noite, minha, confesso!. É que eu era gajo, eu tinha de dizer qualquer coisa, eu não podia estar ali mudo e quedo e, num arrobo de paixão, respondendo finalmente à pergunta "e tu que estas a fazer?" atiro-lhe com um "a segredar-te ao ouvido e a dar-te beijos no umbigo"...
O berro da Peixa ao telefone foi quase imediato, ela tentava explicar-me que nem uma contorcionista chinesa seria capaz de tal proeza mas nestas coisas é precisa coragem e determinação e eu já tinha enviado o email com a frase fatal..... Querem saber? A Maluca nem reparou mas a partir daí entreguei a cama à Peixa e ela que vos conte como foi...

Deu-nos uma fúria do açúcar

Lembram-se?

Na Primavera o amor anda no ar.
Na Primavera os bichos andam no ar.
Na Primavera o pólen anda no ar
E eu não consigo parar de espilrar.


No Verão os dias ficam maiores.
No Verão as roupas ficam menores.
No Verão o calor bate recordes
E os corpos libertam seus suores.


Pois é. O calor aperta, a sede desperta e eu e a Peixinha temos andado a trabalhar furiosamente para a felicidade de todos. Os sacrifícios têm sido muitos, já tivemos de passar uma noite a afogar em Vodka os traumas, mas temos tanta, mas tanta coisinha para contar...
Longas e longas conversas que estão quase a virar livro. Um lá-mi-ré? Está bem, nós damos...

Sabem que sempre gostámos de malucas. Sabem que há muito que uma maluca não aparece por aqui nas nossas caixinhas de comentários e nós tínhamos saudades, porque tínhamos. Assim, decidimos que se as malucas não vinham até nós teríamos nós de ir à procura de uma.
Conhecem a expressão "cuidado com o que desejas que te pode ser concedido?". Encontrámos não uma maluca mas A Maluca, a mãe de todas as malucas. Tem sido uma verdadeira incursão ao mundo do non-sense, da loucura, da lógica da batata, do amor pingado. Palavras como "pequenito", "bebé", "lindo" e, last but not the least, "coelhito", passaram a fazer parte do nosso mundo e o abalo sofrido foi grande, como já expliquei em cima numa determinada altura teve mesmo de ser amenizado com uma garrafa de Vodka, mas temos o enorme prazer de anunciar que o estudo sociológico sobre uma gaja, uma verdadeira gaja, apaixonada está quase a rebentar por aqui.

Das dezenas, diria até centenas, de emails trocados escolhemos alguns da nossa maluca de estimação para aguçar o apetite. Estão longe, muito longe, de serem os melhores, mas não queremos servir já as sobremesas. Fiquem com as entradas e já gozam.
(será escusado dizer que não houve qualquer edição da forma e ou do conteúdo...)

"EU ADRO-TE!se es tu dis-me o nome do teu coelho"


"voçe deve querer é informaçoes e eu parva conto,nem o nome do coelho sabe"

"E JA AGORA PONHA O SEU COMPUTADOR NA CORRECÇAO DE ERROS E ESCREVA VOÇE,PARA VER  SE ELE CORRIGE A CEDILHA."

"FAZES MUITO BEM EM LER,eu adoro ler,eu estava a falar daqueles livros nostalgicos de cultura neurotica"

"para ti so interessa ser importante?ouvir aquelas musicas nostalgicas,ler livros bons,mas deprimentes?sera que sabes o que é ser alegre?rir com a vida e nao ter a neurosa da cultura?" 

"nunca gostei de um rapaz pelo exterior dele,eu quero vr se es a pessoa linda,mas nao é no exterior,nao me importa que sejas feio,quero ver se es a pessoa linda,ao falar contigo,se és a pessoa linda por dentro,sabes quando me bloqueias-te ,fiquei to sozinha,nao acreditava que aquela pessoa que me escrevia aquelas coisas,me tinha feito aquilo,queria falar contigo,ia ver o teu nome,onde estava o meu bébe"

Falta uma pequena informação - esta nossa maluca apresenta-se como feliz possuidora de várias licenciaturas, mestrado, técnica superior numa entidade pública e jura-nos, a pés juntos, que por lá toda a gente escreve assim e a chefe dela não liga a pormenores de escrita. Essa é, talvez, a informação mais credível de todas as que nos deu... Vá-se lá saber porquê.
E agora, não percam, brevemente, os próximos episódios!

Estou farta de coisas sérias

Tão farta que já escrevi este título uma dúzia de vezes mas não passo disso. Até escrever me chateia.

Estou ali no Facebook, já venho. E não, não jogo FarmVille, mas granel não falta…

To those who it may concern

Hoje, com estes olhos e ouvidos que Deus me deu ( e sim, Deus tinha de ser chamado para aqui), vi a Peixa calar, corar e ficar mansa que nem um cordeirinho...

A pergunta com que acordei

Posso ser cristã sem ser crente?

Eu sei que sempre venerámos o direito alemão

Mas porque raio uma investigação do Ministério Público na Alemanha há-de ser levada mais a sério que uma nacional?

"O Partido Socialista concorda com a decisão tomada pelo Governo de suspender o cônsul alemão na medida em que a honorabilidade do exercício das funções públicas deve ser insuspeita", declarações de hoje do deputado socialista Ricardo Rodrigues à Lusa.

(mas também vou ficar sentadinha à espera que o Sol faça primeiras capas com peças do processo em segredo de justiça)

O outro lado deles.

Nunca fiz esta análise em voz alta, muito menos por escrito, mas talvez seja a hora de a fazer e este parece-me um sítio tão bom como outro qualquer.
Ali em baixo, na caixa de comentários do outro post, fala-se em diferenças, mentalidades, mundo, mas eu, aqui, vou falar do tal outro lado. Vou falar de mim, só de mim, porque eu, afinal, também sou diferente e acredito que é por aí, por aceitarmos a nossa própria diferença, que tudo começa.
Não vale a pena, logo agora que me apetece chamar os bois pelos nomes, pintar o que seja com cores que não tem. Quem teve um filho deficiente, sim, é isso, deficiente, percebe o que vou dizer. Se for mãe percebe ainda melhor.

Culpa. A primeira coisa que sentimos é culpa, vergonha, falhanço. Nós não fomos capazes. Nós, mães, podemos estar conscientes de tudo, dos acasos, da ciência que não explica, da sorte e do azar, de não termos feito aquele filho sozinhas mas ali, no momento da verdade, depois de o termos carregado aqueles meses todos, nós, só nós, nos damos imediatamente por culpadas e perguntamos qual foi o nosso erro. Olhamos para o nosso filho e pensamos que a primeira coisa que nos foi pedida que fizessemos por ele fizemos mal, porque nós não fomos capazes de fazer um filho, o nosso nasceu com defeito. E começamos, logo ali, a pedir-lhe desculpa. E tentamos, logo ali, que a prova viva da nossa incapacidade não tenha de pagar ainda mais pela nossa imperfeição. E começamos a protegê-lo, e começamos a proteger-nos.
Não é fácil carregar essa culpa e menos fácil ainda é libertarmo-nos dela. Nada ajuda, nem mesmo quem quer ajudar. São poucos, muito poucos, os que conseguem dizer-nos qualquer coisa que não aumente ainda mais a nossa miséria. Por essa altura chegam as palavras de conforto, mas será que queremos ser confortadas?, o conforto implica a existência de um desconforto, culpa portanto, chegam as perguntas inocentes "fizeste amniocentese?" que nos apontam dedos sem querer, o cruel "a menina já não era assim tão nova devia ter tido cuidado", o coitada dito entre o mar de lágrimas de um amigo qualquer - não, nós não queremos ser coitadas, nós queremos ser espancadas porque somos culpadas. Todos os que nos rodeiam passam para um lado que já não é o nosso e tratam-nos como se nós, de repente, nos tivessemos tornado cicerones de um mundo que não conhecem. Sai-lhes tudo boca fora, porque estão, eles, a viver uma experiência diferente, mas nós, as mães, as responsáveis por toda aquela confusão, temos de ter respostas para dar. "Coitado do pai, tens de perceber que está transtornado", "na nossa família é a primeira vez que acontece". "não vamos dizer já, temos de dar tempo às pessoas", "foi Deus que assim quis (o tu pecadora tiveste o que merecias fica escondido com o rabo de fora..)".
É naquela altura, debaixo de fogo cerrado, a espetarmos facas em nós mesmas e a querer perceber criticas veladas em tudo o que nos dizem, que temos de tomar a grande decisão da nossa vida - vamos carregar a nossa culpa e esconder as provas ou vamos tentar virar o jogo e fazer da nossa derrota uma enorme vitória?

Acham que estou a exagerar? Acham que não é assim? Acham que as mentalidades, e o direito à diferença, e o somos todos filhos de deus nos servem para alguma coisa quando estamos lá, sozinhas, frente a frente com o fruto do nosso ventre que nos esfrega na cara o nosso enorme falhanço, que nos faz sentir que somos menos mulheres e piores mães?

Não sei, já não me recordo, como se dá o salto para este lado onde agora estou mas sei que a descida aos infernos é violenta e sei que a subida é difícil e se faz sozinha. A tentação de passarmos o resto das nossas vidas, e da deles, a pedir desculpa, a pedir-lhes desculpa, é muito grande e percebo que a tentação de vivermos essa culpa escondidas do mundo, nós e eles, é ainda maior. Os outros talvez possam ajudar, os outros talvez possam facilitar, as mentalidades diferentes talvez tornem menos íngreme a subida, mas nada, nunca, vai impedir que a primeira batalha seja travada sem outras armas que não as nossas e seja uma batalha solitária. E quer se queira quer não, quer o digamos em voz alta ou o tentemos esconder no nosso fundo mais fundinho, vai deixar sempre cicatrizes. Se as mostramos ou as escondemos é o que faz a diferença na nossa vida e nas vidas deles.

(eu gostava de ser uma pessoa perfeita e de não ter sentido nada disto, mas não sou. acredito que pode haver quem seja mas também acredito que nunca é muito diferente)

Não me sai da cabeça

É só porque nunca calhou, nunca se tinham cruzado, andavam por sítios diferentes, mas pela primeira vez a Clara tem dois amigos com sindrome down, tal como ela. Sendo amigos dela, e havendo festa de anos, é normal que tenham sido convidados. Até aqui, tudo normal portanto.
"Fica um bocadinho e já venho buscar".
Como?!... Um bocadinho? Mas um bocadinho porquê se até vou fazer lasanha para o jantar?, ficam como os outros, até ao fim, e o fim é quando eles assim o decidem. Eu depois telefono, como é costume.
Ar de espanto e tentativas para me explicarem que isto e aquilo e se se portassem mal....
O Marco e a Marta ficaram. Parece que são namorados, mas isso ainda é assunto a decidir. É que o Marco tem sardas, é giro que se farta, a Clara morre de amores por ele e a Marta só o maltrata portanto, e no que eu puder fazer, a Marta, temos pena, mas já era. Mas pronto, por enquanto a Marta e o Marco ainda são namorados e não sairam um de ao pé do outro o tempo todo. O Marco sempre atento às precisões da Marta (é um cavalheiro, vi logo, que bem que estaria com a minha filha...), a Marta  (gaja, sem "i") a chamar-lhe parvo (raio da miúda, dois lambadões e estava o assunto arrumado). Soube hoje que a única amiga que a Marta fez na festa foi a Francisca e foi porque a Francisca lhe foi à cara. Tudo certo e tudo a continuar dentro da maior normalidade, como nem podia deixar de ser.
Não sei que horas eram quando vieram buscar a Marta. A tia e uma prima. A Marta estava ao lado do Marco, a gajinha não desgruda, a lambuzar-se em lasanha tal como todos os outros. Foi embora antes do gelado, que eu acabei por nem provar (ainda!) porque entretanto fizeram-me gelar sem precisar do carapinhão e da emanha (sim, tenho gelado da Emanha no Algarve porque sim, a Peixa conhece meio mundo e o outro).
Foi pouco tempo depois da Marta ter saído que o telefone tocou. Era a mãe da Marta. Pus-lhe a vista em cima duas vezes e nem me caiu muito no goto mas o estupor do telefonema deu cabo de mim. Queria agradecer-me. Estava comovida. A voz tremia. A filha tinha chegado a casa feliz por ter ido a uma festa de anos.
E é esse telefonema que não me sai da cabeça e que ainda não consegui digerir.
Porra!  E outra vez, Porra!
A Marta tem 16 anos e apesar de eu estar prontinha para ajudar a Clara a sacar-lhe o Marco, por que raio é que a Marta, com 16 anos, nunca tinha ido a uma festa de anos de uma amiga?

Não sei se os vossos filhos, ou sobrinhos, ou enteados, ou o que seja, conhecem alguma Marta mas importam-se de a convidar para as festas de anos? As mães delas vão reclamar um bocadinho, achar estranho, dar muitos conselhos, mas passa-lhes depressa e mesmo que a Marta seja namorada do Marco, seja uma chata, e o Marco tenha sardas e seja a paixão da Clara, a Marta não tem de estar 16 anos à espera para ir a uma festa de anos de uma amiga, pois não?

Gaijas, se fosse a vocês fazia greve

Depois de quase 24 horas em duras conversações a Peixa continua a não me deixar pôr a aqui a fotografia para poder ser devidamente apreciada.

Minha querida Peixa,

Acabada de chegar a casa, depois de umas retemperadoras horas de praia, apressei-me a abrir a tua missíva e a visionar o pequeno pormenor que lhe vinha agarrado e que justificava o seu envio.
Sim, tens razão em tudo. Tal como já me tinhas descrito em traços largos mas precisos, "aquilo só pode ser uma criação dos americanos" e sim, "Deus existe", mas, infelizmente, não tem milagrado muito aqui pelas vizinhanças ou o semblante desta tua amiga andaria muito mais radioso que o habitual.

Tanta perfeição é-me desconhecida e qualquer gaija com os dois pés assentes nesta terra madrasta te dirá, sem hesitar, que um gaijo lindo de morrer como aquele (Santo, tu desculpa, mas aquilo é mesmo de morrer, não é de se ficar doente), inteligente, com bom gosto e sentido de humor tem de ter, que nós sabemos que sim, qualquer defeitozinho.

(Caso não tenha, que ainda sou de acreditar em milagres longínquos, saca morada e número de telefone, 'tá bem? Agradecida)

Ralações

Quando nos apanham distraídas e nos envelhecem uma hora durante a noite que quantidade de creme anti-rugas temos de pôr a mais de manhã?

CLARA’S HEART

heart97.jpg image by andreabraga07Há um ano atrás, o Shark fazia sexo interminável. A Gaija fazia o tradicional post de parabéns, secundada pela Gabs que também falava com o Napoleão. O Visconde partia para um daqueles sítios terminados em Onix com a promessa de voltar. O Santo devia andar atrás de algumas gémeas como é seu apanágio. Eu e a CJ iríamos continuar a ser virgens e puras por mais 24 horas.

Entretanto, mais um ano decorreu. Como em qualquer épico que se preze, houve encontros e desencontros, tragédias, funerais, viagens, risos e lágrimas, vitórias e derrotas.

Há um ano atrás, eu nunca tinha visto a Clara. Sabia-a aqui ao pé de mim e hoje pergunto-me quantas vezes não nos teremos cruzado no supermercado como acontece agora. Se a tinha visto antes? Não faço a mais pálida ideia. A culpa disso é mesmo da Carla. A Carla foi minha colega desde o 7º ano até ao 12º. A Carla tinha um irmão com paralisia infantil. Confinado a uma cadeira de rodas e com muitas limitações de movimentos e de fala, o R tinha o sorriso mais lindo do mundo. Um dia, a Carla contou-me que na Associação do irmão, havia muitos meninos que não podiam ir para a piscina porque à hora da piscina, os pais estavam a trabalhar e não tinham com quem entrar na água. Aos 16 anos, nós vamos mudar o mundo, não é? E abominamos injustiças, certo? Então na quarta-feira seguinte, lá me tinham à porta da instituição, de fato-de-banho na mochila, a voluntariar-me para entrar na piscina com um dos meninos. Sem qualquer formação, sem treino, sem preparação, sem nunca ter tido qualquer contacto com meninos ‘diferentes’ além do R. Nas primeiras semanas, saia de lá de coração estraçalhado e tinha que fazer um esforço sobre-humano para disfarçar qualquer olhar que demonstrasse a pena, compaixão, fosse lá o que fosse. Passado umas semanas, eu entrava e eles chamavam-me pelo nome e faziam algazarra para ver quem seria o sortudo que ia comigo para dentro de água (eles eram tantos, nós éramos tão poucos) eu apercebi-me que já não tinha que fazer esforço nenhum para disfarçar fosse o que fosse. Para mim eram meninos. Meninos que como qualquer menino, tudo o que queriam eram ir brincar na água. Já não lhes via a diferença. Eu já sabia ler-lhe o olhar e mesmo que não falassem, conseguia descortinar se estavam bem ou mal. Se o dia ia correr bem ou mal. Eram meninos e tal como qualquer menino queriam brincar e sentir-se seguros e era para isso que eu existia no mundo deles: para brincar e para não deixar que mal nenhum lhes acontecesse enquanto estavam nos meus braços. E no inicio, eles não confiavam. Olhavam-me de lado. Fingiam não me ver. Ficavam tensos quando lhes pegava. E depois deixavam-se ir. E eu sentia-me vitoriosa.

No Verão antes de entrar para a faculdade, os 3 meses de férias na casa da praia reduziram-se a 1. Os outros 2 foram passados a levantar-me às 6 da manhã para levar os meninos à praia. Os dias passados a levar e a trazer meninos da água. A servir lanches e sumos. A rir à sombra e a combater as paixonites dos mais velhos. E a certeza de que nunca mais iria ver meninos diferentes. Apenas meninos. E a cena que mais me marcou passou-se alguns anos depois, num supermercado, na secção da charcutaria, quando vi uma menina linda numa cadeirinha, a cabeça de lado e os olhos brilhantes a olhar para mim. Irresistível. Aproximei-me e fiz-lhe o mesmo que tantos já fizeram ao meu filho: meti-me com ela. Quando me endireitei para ir à minha vidinha, a mãe de pacote de fiambre na mãe olhava para mim e chorava. Agradeceu-me porque, pela primeira vez na vida, alguém se tinha metido com a filha num supermercado. Que, normalmente, as pessoas viravam a cara ou, pior, olhavam com pena. Que aquele tinha sido o primeiro momento de ‘normalidade’ que ela tinha tido desde que a filha nasceu. Conversámos durante um tempo e depois fui à minha vida.

Portanto, se eu encontrei a Clara antes de me ser formalmente apresentada e não dei por ela, a culpa é do R. O R. por causa deu quem eu aprendi o verdadeiro sentido de ‘diferente’. Não são os meninos que são diferentes. O que nós sentimos por eles é diferente. Por exemplo, eu nunca vou exigir da Clara o que exijo da Xica. Eu nunca vou sentir necessidade de proteger a Xica como sinto em relação à Clara. Eu vou olhar sempre para a Clara como um bem a proteger. Inclusive, do meu próprio filho o que eu sei que é ridículo. Ela tem o dobro do tamanho e da força dele, mas que querem? Eu olho para eles e vejo-os iguais. A mesma obrigação de protecção para com os dois. Logo aquele que estiver a arrear o outro leva o raspanete. Com a Xica nunca será assim. Essa vou eu mesmo arreá-la se for preciso!

E quando comecei a escrever, eu sei que isto tinha um sentido supremo e uma moral como ‘punch line’ para além dos inevitáveis “Parabéns, Clara”, mas experimentem lá escrever isto tudo com um mini gaijo pendurado ao vosso pescoço? Pronto, esqueci o final.

A virar-me do avesso

Um dos meus livros preferidos é A Peste do Camus. É um livro que se desenrola em círculos concêntricos. A peste começa lá longe, nada tem a ver connosco e só quando nos toca de perto é que percebemos, finalmente, que o mundo dos outros é também o nosso mundo. 

Há 14 anos que passo este dia de neura. Foi o último dia de uma vida que eu conheci e nunca mais voltei a encontrar. Não é que me faça falta é só porque ainda não me habituei a esta nova eu porque 15 anos, na minha vida toda, não é assim tanto tempo.

Lembro-me bem de mim. Cheia de certezas, chavões, certa que era quase imbatível, que a vida, a mim, não me trocava as voltas. Uma enorme arrogância, uma absoluta falta de humildade, a sensação de que vivia num mundo diferente do mundo dos outros.

Há 15 anos, por esta hora, estava entalada entre a parede da sala e uma estante gigantesca a martelar furiosamente os pregos que lhe iriam segurar o fundo. Três módulos de prateleiras, um metro de largura cada um, e por baixo um móvel corrido com gavetas no centro e portas duplas dos lados. Ainda sei as medidas, 3,05 m de comprimento, 2,73 m de altura. Do meu lado esquerdo tinha a janela sem cortinas ou portadas e mais longe mas ali tão perto, o Tejo. Estava mais gente na casa mas não me lembro onde estavam nem o que faziam. Eu sei o que fazia, montava a estante. Não era a melhor altura para montar um móvel daqueles mas eu queria e portanto, sem hesitações, eu podia. Lembro-me que me era complicado arranjar espaço para meter a barriga naquela pequena fresta, que tinha conquistado à custa de muito empurrar, pés fixos no chão e força nas omoplatas, entre as prateleiras e a parede. Lembro-me também que tinha vestidas umas jardineiras de ganga e tinha metido os pregos e os parafusos nos bolsos da frente e as chaves de fenda e martelo nos bolsos de trás.

A Lina e a Maria José tinha-as encontrado uns tempos antes. Não muito. Não a via desde que a Maria José tinha nascido porque nessa altura eu já vivia em Lisboa e elas viviam na terra. A conversa com a minha mãe foi na cozinha lá de casa, o lá de casa como era na altura, como ainda é hoje, porque lá em casa será sempre ali, mesmo que pouco tempo lá tenha vivido. Falei-lhe do encontro e de como achei a Lina mais triste do que a Lina que eu conhecera e de como devia ser difícil ter uma filha como a Maria José. A barriga, a mesma barriga que me incomodava a montar a estante, já ali estava, bem visível, quase a rebentar. Nem por um momento pensei nela. A Lina era a Lina, eu era eu, e a mim, como disse, a vida não me trocava as voltas.

Amanhã faz 15 anos que a Clara nasceu. Amanhã faz 15 anos que fui mãe. Amanhã faz 15 anos que a vida me ensinou a maior lição de todas e me apanhou, pela primeira vez, completamente desprevenida. Já não me atrevo a montar estantes só porque quero, porque já sei que o eu quero nem sempre me abre as portas do eu posso. Já não olho para a Lina e a vejo triste porque já sei que não há razões para estar triste mas também já sei, sei muito bem, que a vida é um dia atrás do outro e os planos que temos hoje podem ruir amanhã por mais que vivamos na ilusão que a nossa vida somos nós que a controlamos e a decidimos.

E com direito a ligar o pinónim

Quando uma gaija toma a decisão de largar tudo o que não está a fazer, marimbar nos dois anos de agonia em que o foi vendo lentamente, muito lentamente, tomar formas e jeitos até aí desconhecidos só porque talvez fosse boa ideia variar, e decide pegar num telefone, chamar o Francisco e dizer-lhe as palavras que há muito se lhe enrolavam na língua sem conseguirem sair, a última coisa que quer ouvir é que se era para hoje, agora, devia ter telefonado antes.
“Quero cortá-lo curto”. Caramba, eu acho que qualquer pessoa entende que um querer destes não é compatível com agendas, horas marcadas, decisões a longo prazo. Isto é daquelas coisas que ou é para já ou já não é. Para mim um cabeleireiro é uma espécie de urgência hospitalar onde só vou se preciso mesmo e como tal assim devia estar organizado. Ninguém no seu juízo perfeito precisa de fazer uma permanente, muito menos com urgência, portanto pulseira azul ou verde e esperem que não morrem por isso. Um brushing, que penso que é aquela coisa que se faz em casa, com um secador, nos dois minutos a seguir ao duche, é mais ou menos como uma toma de paracetamol mas se querem ir à urgência eu até posso entender que escusam de andar a fazer figuras tristes pelas ruas com a cabeça cheia de rolos, mas então pulseirita amarela e está a andar, ou melhor, está sentada e espera. Cortar as pontas já me parece mais urgente que ponta espigada é pior que sapato cambado e justifica o laranja. Cortar curto é caso mais que emergente, ou é logo ou a vontade morre na praia, código vermelho sem qualquer tipo de dúvidas.
Mas isto era num mundo perfeito, num mundo que, hoje especialmente, acredito não ser possível, e portanto vou ter de me resignar a esquecer o cabelo curto que me iria resolver de imediato o mau humor galopante e tentar descobrir se não andará por aí alguém esquecido com quem possa acertar contas e descarregar este nervoso miudinho que me está a deixar inquieta.

A vingança dos duendes

Só pode ser isso porque eu, na plena posse de todas as minhas capacidades, nunca enfiaria o telemóvel dentro do armário das chávenas do café e menos ainda o deixaria ficar sem bateria.

Pequena nota informativa

Estou de mau humor.