Por favor expliquem-me

Foi por causa dos portugueses andarem há muito tempo tesos que o Cavaco promulgou a lei que aprova os casamentos gay?

(há aqui qualquer coisa estranha, não estou é a ver bem o quê...)

Começo a ter tantas saudades da música do Noddy

Sete e meia da manhã. A gaijinha entra-me quarto adentro parecendo a manada de elefantes do costume.

- M´mã, acorda
- Hummm...
- Estou a ouvir o Cavaco
- ........................
- Ouviste o Cavaco?
- Hum, hum...
- Ele promulgou a lei, sabias?
- Hum, hum.
- Tens de o ouvir, eu já ouvi duas vezes e não percebo.
- Hummmmmm......
- Ele disse que aprovava a lei para se começarem a resolver os problemas importantes das pessoas ou para resolver um dos problemas importantes das pessoas?
- ..........................
- Ele é maluco, não é?
- Hum, hum.....
- Eu acho que este era um problema importante. Vou ouvir outra vez, nem quero acreditar...
- ..............................................................

(e eu quero é continuar a dormir.... eu não estou mentalmente preparada para abrir os olhos e ter uma catraia a apontar a dedo as fragilidades do discurso de sua excelência o presidente da república ainda antes das oito da manhã.... tragam o Doraimon de volta aos meus despertares....)

HE’S NOT THAT INTO YOU

Ando em arrumações frenéticas naquela divisão que já teve vários nomes mas que presentemente se designa como escritório/quarto de hóspedes.

Entre os milhentos papeis em que peguei, estava uma folha de papel meio amassada com inícios de posts que nunca o chegaram a ser. Uma dessas frases era:

“Há um certo encanto num homem que abandona uma reunião com o único propósito de ouvir a minha voz.”

O que me assusta aqui não são as dezenas de pérolas de posts que se perderam.

O que me espanta não é homens deixarem tudo para trás para ouvir a minha voz. Como diria alguém famoso: acontece-me com frequência.

O que me preocupa é ter que dar voltas à cabeça para descortinar sobre quem era o post!

É que só há duas hipóteses: ou ele não era nada de especial ou a minha memória já não é o que era!!!

Ass: Dory

Gaijos, chegai-vos aqui e listen very carefully, I shall say this only once.

Gaijos, estão perdoados! Eu, agora, percebo-vos...

As gajas são absolutamente desesperantes. Eu não acreditava em vocês mas também têm de perceber que não me dou muito com gajas. Se a gaja sabe dizer umas coisas eu ainda a aturo, se for burra que nem uma porta mas tiver um belíssimo par de mamas mesmo assim descarto-a rapidamente que o olho não me foge para essas coisas e a burrice cansa-me.

A Maluca, a nossa Maluca, é provavelmente a gaja mais gaja que algum dia usou um par de collants. Aquelas coisas que vocês dizem das mulheres e que nos deixam a nós, gaijas, desvairadas, são todas, todinhas, verdades absolutas. Eu e a Peixa temos cumprido bem a nossa penitência e a descida aos Infernos masculinos fez-nos passar a respeitar gerações e gerações de homens. É que basta encontrar uma destas, uma vez na vida, para nos marcar profundamente a ferro e fogo.

A história da Maluca é a normal. Fugiu-lhe o olho para um gajo, por acaso muito gaijo, encantou-se com ele, deu-lhe conversa, ele respondeu-lhe, que a gaja tem um vale no decote que parece o Grand Canyon, e a Maluca apaixonou-se. O tipo, que tinha ar de já ter encontrado outras malucas na vida, correu com ela rapidamente e a Maluca passou-se. Quando a encontrámos andava a chorar, tanto... tanto...., por tudo o que era sítio, pedia-lhe para voltar, soluçava muito e entremeava isto tudo com os epítetos que qualquer gaja ressabiada usa nestas alturas, sendo que mentiroso e tarado sexual eram os mais simpáticos.

Percebem, é fácil de perceber, que eu e a Peixa, almas caridosas, prontificámos-nos de imediato para ajudar a alma desconsolada, e de caminho saber a história toda que aquela coisa do tarado interessava-nos..., mas o pior é que a gaja era alérgica à aproximação de outras gajas, morria de medo que fossemos mais viúvas desconsoladas à procura do gajo desaparecido, e pouca conversa nos dava. Solução? O gaijo, o próprio.

E uma noite, já lá vão muitos dias e muitas noites, o gaijo falou com a gaja. A aposta da Peixinha era que a Maluca me topava ao segundo email mas nessa noite, cento e tal emails depois e muitas horas de conversa, tinha a Maluca na mão. Desde aí sou o gaijo (também sou mais umas coisas, incluindo a irmã do gaijo, que se lhe quis ouvir a voz tive de tirar as calças e vestir as saias...) e estou doida com ela.

A história dessa noite ainda vai ser pormenorizadamente contada porque foi nessa noite que a gaja nos comeu, que eu assassinei um coelhinho e que jogámos tudo no preto, saiu vermelho, e mesmo assim ganhámos. Mas hoje o que me está a desesperar é a incapacidade de conseguir falar gajês. Ela não entende uma porra (estou a ser macho, percebem?). A gaja tem uma ideia fixa na cabeça, quer saber porque raio o outro, que agora sou eu, correu com ela e não me larga a braguilha. E eu sei, de certezinha, porque foi corrida. Sei e já lhe expliquei, a gaja é insuportável, mas ela não se conforma, ela quer ouvir-me dizer o que ela meteu na cabeça que era verdade - eu desapareci porque me estava a apaixonar e não me quero apaixonar.

(Pequeno aparte, toda esta situação tem despertado em mim e na Peixa uma tendência carroceira, nunca na minha vida tinha dito tantas asneiras, e agora, estivesse eu com a Peixa, e diria, Foda-se, a puta da gaja não vê um caralho à frente dos olhos, mas como estou aqui, em público, vou continuar como de costume)


A gaja é burra, muito burra, a gaja não percebe o que se lhe diz, a gaja é corrida e volta para oferecer miminhos, e carinhos, e beijinhos fofinhos (nestas alturas eu e a Peixa fazemos uma pausa para o vómito) e quanto pior a tratamos mais ela nos chama pequenito e nos diz que nos adora. A gaja quer falar com a família toda - falou com a "mana" e foi com sorte... - a gaja manda emails a todos os nossos supostos amigos, a gaja controlava tudo o que o gaijo (o outro) fazia, a gaja telefonou para o sítio onde pensava que eu (ele...) trabalhava à procura dele, a gaja é maltratada por mim forte e feio e volta sempre.....

Gaijos, estou solidária com vocês. Juro, agora percebo-vos. As gajas são insuportáveis!! Acreditam que houve alturas em que eu, e a Peixa, achámos que duas lapádas nas ventas seriam o mais indicado? Acreditam que começámos a olhar com outros olhos a violência doméstica? Acreditam que temos vergonha de nos sentirmos assim mas que é superior às nossas forças?

E agora, perguntam vocês, porque continuamos a aturar a Maluca?

Porque estamos a ficar gajos, só pode. Não, não é pelo par de mamas que a Maluca exibe nas fotos (mas explicou-me que foi sem querer porque ela vive na lei de Deus...) mas no fundo no fundo a razão é a mesma - a Maluca dá-nos gozo! Apesar de tudo, termos o privilégio de podermos assistir na primeiríssima fila ao espectáculo de uma gaja em  manobras de paixão e engate é algo que nos deslumbra!

LEALDADE TRAÍDA ou COMO DEI POR MIM A SER ATACADA POR UMA GAJA QUE QUERIA O MEU PÉNIS

Eu gostava de vos contar a história toda. Nada me daria mais prazer. Mas não posso. A minha consciência não permite e este não é propriamente o meu momento mais glorioso, que não é (se bem que, não vos vou mentir e deixem que vos diga que demorar apenas um par de horas a levar uma gaja a fazer sexo enquanto os gaijos andavam há meses a tentar, é coisinha para me deixar de ego insuflado).

Ali a minha parceira de crimes meteu na cabeça que a Maluca nos ‘atacava’ e quando dei por ela, estava a Chefa a proclamar a frase gloriosa que vos citei 2 posts abaixo. Mas todos nós trabalhamos e sabemos como são as chefias: Chefa que é Chefa manda os subalternos fazer o seu trabalho sujo.

Vai daí, lança o repto à menina. A menina vá de se inflamar toda (sabe Deus porquê. Porque fora eu a receber tal frase ainda me estava agora a rir…) e vá de saltar para a espinha do desgraçado que ela pensava ocupar esta cama. Chefa sobe para cima dos tamanquinhos e com sua voz de Marquesa proclama: Ai credo! Eu não sou capaz de fazer isto!!!

Há que ver que Maluca andava, por esta altura, algures no pescoço ou na barriga do desgraçado. É que o melhor desta história é que quem tivesse sangue frio e lesse aquele diálogo, ficaria plenamente convicto que estava a presenciar 2 virgens numa cama tal era o desajeito. Tanto estavam no cabelo como na barriga. Tanto acariciavam barrigas como se lembravam que tinham a roupa toda vestida. Digo-vos eu, que estava lá e vi, que se aquela não foi a pior queca à face da Terra e arredores, não foi nada. Dava mesmo vontadinha de gritar: Hello??? Esta cena não é a maratona de contorcionismo do Circo Chen! Isto segue um determinado ritmo. Uma determinada cadência e envolvimento. Mas não! Aquilo era correr para ver quem chegava mais longe, mais forte, mais depressa e, de preferência, sem lesões irreversíveis.

E a coisa assim andava, até que Maluca lançou mão ao pénis com que nós tentávamos (infrutiferamente, diga-se de passagem) pensar. Chefa, sentindo mão em seu pénis, dá às de Vila Diogo e deixa-me a Maluca no colo literalmente virtualmente falando.

Oh pá, desculpem lá qualquer coisinha, mas se há coisa que eu tenho é brio. E da minha cama ninguém sai sem um sorriso de felicidade. É que nem a Maluca. É ponto de honra! Vai daí usei a técnica utilizada pela Juliette Binoche em Um Sofá em Nova Iorque: a malta diz “pois”, “sim”, “e depois?” e quando damos por ela, temos uma gaja a oferecer-nos coisas que não cremos queremos. Essa é que é essa… Enquanto nos tenta convencer que aquilo não é sexo, é amor.

A Outra? Aquela que começou tudo? Fingia-se de morta mas mandava bitaites. Assim tipo: ah faz assim, faz assado… Mas chegar-se à frente? Tá quieto! Mas quando chega a parte de assassinar bicharocos, aí já não se faz de esquisita. Sim, perguntem-lhe… Como diria o Willem Dafoe no Paciente Inglês: Ask your saint who he has killed ?

Ah pois é… É que se na dupla Thelma & Louise do Cabra, eu sou a ‘Senhora de cama incerta’, quem será a assassina?

LOUCA POR COMPRAS

Eu sei que vocês estão à espera – pacientemente, diga-se de passagem – que eu fale mesmo daquilo que interessa, mas eu no teste de Notariado, enquanto esperava que alguém me desse um lamiré da resposta a uma perguntinha que se me afigurava escrita em japonês tal era o grau da sua ininteligibilidade (oh pá, que bom é poder escrever palavras com mais de 4 letras e saber que vão entender o que estou a querer dizer!!! Hossana! Hossana!), aproveitei para escrever sobre uma coisita que me anda cá a incomodar e que não podia deixar de partilhar que eu sou mocinha generosa.

Mas que raio de moda é esta agora dos soutiens pretos por baixo de camisas brancas?

Eu sou pessoa de transparências. Que sou. Eu sou pessoa de andar despida vestida de forma algo vergonhosa (há quem lhe chame intimidante. Go figure…) em certas e determinadas ocasiões. Mas tudo tem o seu lugar e a sua hora. Querem brincar às transparências na night? Na maior! Fixe! Tamos nessa! Mas porque é que eu tenho que ver a vossa lingerie nos corredores da empresa? Acaso, ando eu a exibir a minha cueca da Hello Kitty a caminho da Contabilidade? Não ando, pois não?

Vamos lá ver se a malta se entende:

Night – Fazei o que bem entenderdes.

Com os amigalhaços - Fazei o que bem entenderdes.

Trabalho – Não me obriguem a ter que olhar para a vossa lingerie.

Reuniões - Não me obriguem a ter que olhar para a vossa lingerie.

Estamos acertados?

Então, ide lá mudar para um aparador de boobs cor de pele, se faz favor.

PAROU! PAROU TUDO!

“…a dar-te beijos no umbigo"

Oh minha pequenita, se é para contar (e agora que me passaste a cama para a mão, aguenta-te), vamos a contar a histórinha tal qual ela se passou. Não me venhas agora com falsos pruridos. Quais beijos no umbigo?

A menina (que na altura era o menino) botou mesmo a língua ao serviço (ainda que virtual) desta nobre missão e atacou o umbigo da Maluca sem dó nem piedade.

Como é que eu sei? Porque depois fui eu que a aturei. Por isso, sim, eu sei bem.

E para aquelas que têm memória menos lesta que a minha, aqui fica a citação da frase que nem o Alzheimer me tirará da alembradura (já vos disse que tenho uma imaginação muito gráfica, não já? E os próprios dos macacos que me mordam se assim que ela se saiu com esta, eu não pensei logo na anedota do macaco e da girafa).

“Sussurro-te ao ouvido enquanto te lambo o umbigo.”

E digam-me se fui eu que enlouqueci de vez ou se isto não parece quase poesia em movimento?

Só mais uma pitadinha para abrir o apetite...

E a noite em que Peixa e eu, separadas por alguns quilómetros mas unidas por um telefone e por uma maluca do outro lado do email a quem respondíamos a quatro mãos, percebemos que a maluca, essa mesma, estava a meter-se na nossa, dele!, cama?

Gaijas, nós somos gaijas, toda a gente sabe disso. Por razões óbvias temos uma enorme dificuldade em pensar com o pénis mas até aí nem tinha sido muito complicado, era só tratá-la um bocadito mal que ia logo ao sítio, agora uma maluca desenfreada metida na nossa cama e a chamar-nos pequenito (gaijos, digam-nos, se se metessem na vossa cama e vos chamassem "pequenito" haveria alguma possibilidade de continuarem, ou passarem, a ser "grandito"? É que nós temos essa dúvida a assolar-nos desde então e não queremos acreditar que vocês, os nossos gaijos, sejam capazes de ouvir uma coisa destas sem de imediato porem a gaja com outro dono...), mas como ia dizendo, uma maluca desenfreada na nossa cama é coisinha para nos deixar sem pio. Ou quase... Lidámos com a situação o melhor que pudemos e soubemos e para a posteridade ficará a frase da noite, minha, confesso!. É que eu era gajo, eu tinha de dizer qualquer coisa, eu não podia estar ali mudo e quedo e, num arrobo de paixão, respondendo finalmente à pergunta "e tu que estas a fazer?" atiro-lhe com um "a segredar-te ao ouvido e a dar-te beijos no umbigo"...
O berro da Peixa ao telefone foi quase imediato, ela tentava explicar-me que nem uma contorcionista chinesa seria capaz de tal proeza mas nestas coisas é precisa coragem e determinação e eu já tinha enviado o email com a frase fatal..... Querem saber? A Maluca nem reparou mas a partir daí entreguei a cama à Peixa e ela que vos conte como foi...

Deu-nos uma fúria do açúcar

Lembram-se?

Na Primavera o amor anda no ar.
Na Primavera os bichos andam no ar.
Na Primavera o pólen anda no ar
E eu não consigo parar de espilrar.


No Verão os dias ficam maiores.
No Verão as roupas ficam menores.
No Verão o calor bate recordes
E os corpos libertam seus suores.


Pois é. O calor aperta, a sede desperta e eu e a Peixinha temos andado a trabalhar furiosamente para a felicidade de todos. Os sacrifícios têm sido muitos, já tivemos de passar uma noite a afogar em Vodka os traumas, mas temos tanta, mas tanta coisinha para contar...
Longas e longas conversas que estão quase a virar livro. Um lá-mi-ré? Está bem, nós damos...

Sabem que sempre gostámos de malucas. Sabem que há muito que uma maluca não aparece por aqui nas nossas caixinhas de comentários e nós tínhamos saudades, porque tínhamos. Assim, decidimos que se as malucas não vinham até nós teríamos nós de ir à procura de uma.
Conhecem a expressão "cuidado com o que desejas que te pode ser concedido?". Encontrámos não uma maluca mas A Maluca, a mãe de todas as malucas. Tem sido uma verdadeira incursão ao mundo do non-sense, da loucura, da lógica da batata, do amor pingado. Palavras como "pequenito", "bebé", "lindo" e, last but not the least, "coelhito", passaram a fazer parte do nosso mundo e o abalo sofrido foi grande, como já expliquei em cima numa determinada altura teve mesmo de ser amenizado com uma garrafa de Vodka, mas temos o enorme prazer de anunciar que o estudo sociológico sobre uma gaja, uma verdadeira gaja, apaixonada está quase a rebentar por aqui.

Das dezenas, diria até centenas, de emails trocados escolhemos alguns da nossa maluca de estimação para aguçar o apetite. Estão longe, muito longe, de serem os melhores, mas não queremos servir já as sobremesas. Fiquem com as entradas e já gozam.
(será escusado dizer que não houve qualquer edição da forma e ou do conteúdo...)

"EU ADRO-TE!se es tu dis-me o nome do teu coelho"


"voçe deve querer é informaçoes e eu parva conto,nem o nome do coelho sabe"

"E JA AGORA PONHA O SEU COMPUTADOR NA CORRECÇAO DE ERROS E ESCREVA VOÇE,PARA VER  SE ELE CORRIGE A CEDILHA."

"FAZES MUITO BEM EM LER,eu adoro ler,eu estava a falar daqueles livros nostalgicos de cultura neurotica"

"para ti so interessa ser importante?ouvir aquelas musicas nostalgicas,ler livros bons,mas deprimentes?sera que sabes o que é ser alegre?rir com a vida e nao ter a neurosa da cultura?" 

"nunca gostei de um rapaz pelo exterior dele,eu quero vr se es a pessoa linda,mas nao é no exterior,nao me importa que sejas feio,quero ver se es a pessoa linda,ao falar contigo,se és a pessoa linda por dentro,sabes quando me bloqueias-te ,fiquei to sozinha,nao acreditava que aquela pessoa que me escrevia aquelas coisas,me tinha feito aquilo,queria falar contigo,ia ver o teu nome,onde estava o meu bébe"

Falta uma pequena informação - esta nossa maluca apresenta-se como feliz possuidora de várias licenciaturas, mestrado, técnica superior numa entidade pública e jura-nos, a pés juntos, que por lá toda a gente escreve assim e a chefe dela não liga a pormenores de escrita. Essa é, talvez, a informação mais credível de todas as que nos deu... Vá-se lá saber porquê.
E agora, não percam, brevemente, os próximos episódios!

Estou farta de coisas sérias

Tão farta que já escrevi este título uma dúzia de vezes mas não passo disso. Até escrever me chateia.

Estou ali no Facebook, já venho. E não, não jogo FarmVille, mas granel não falta…

To those who it may concern

Hoje, com estes olhos e ouvidos que Deus me deu ( e sim, Deus tinha de ser chamado para aqui), vi a Peixa calar, corar e ficar mansa que nem um cordeirinho...

A pergunta com que acordei

Posso ser cristã sem ser crente?

Eu sei que sempre venerámos o direito alemão

Mas porque raio uma investigação do Ministério Público na Alemanha há-de ser levada mais a sério que uma nacional?

"O Partido Socialista concorda com a decisão tomada pelo Governo de suspender o cônsul alemão na medida em que a honorabilidade do exercício das funções públicas deve ser insuspeita", declarações de hoje do deputado socialista Ricardo Rodrigues à Lusa.

(mas também vou ficar sentadinha à espera que o Sol faça primeiras capas com peças do processo em segredo de justiça)

O outro lado deles.

Nunca fiz esta análise em voz alta, muito menos por escrito, mas talvez seja a hora de a fazer e este parece-me um sítio tão bom como outro qualquer.
Ali em baixo, na caixa de comentários do outro post, fala-se em diferenças, mentalidades, mundo, mas eu, aqui, vou falar do tal outro lado. Vou falar de mim, só de mim, porque eu, afinal, também sou diferente e acredito que é por aí, por aceitarmos a nossa própria diferença, que tudo começa.
Não vale a pena, logo agora que me apetece chamar os bois pelos nomes, pintar o que seja com cores que não tem. Quem teve um filho deficiente, sim, é isso, deficiente, percebe o que vou dizer. Se for mãe percebe ainda melhor.

Culpa. A primeira coisa que sentimos é culpa, vergonha, falhanço. Nós não fomos capazes. Nós, mães, podemos estar conscientes de tudo, dos acasos, da ciência que não explica, da sorte e do azar, de não termos feito aquele filho sozinhas mas ali, no momento da verdade, depois de o termos carregado aqueles meses todos, nós, só nós, nos damos imediatamente por culpadas e perguntamos qual foi o nosso erro. Olhamos para o nosso filho e pensamos que a primeira coisa que nos foi pedida que fizessemos por ele fizemos mal, porque nós não fomos capazes de fazer um filho, o nosso nasceu com defeito. E começamos, logo ali, a pedir-lhe desculpa. E tentamos, logo ali, que a prova viva da nossa incapacidade não tenha de pagar ainda mais pela nossa imperfeição. E começamos a protegê-lo, e começamos a proteger-nos.
Não é fácil carregar essa culpa e menos fácil ainda é libertarmo-nos dela. Nada ajuda, nem mesmo quem quer ajudar. São poucos, muito poucos, os que conseguem dizer-nos qualquer coisa que não aumente ainda mais a nossa miséria. Por essa altura chegam as palavras de conforto, mas será que queremos ser confortadas?, o conforto implica a existência de um desconforto, culpa portanto, chegam as perguntas inocentes "fizeste amniocentese?" que nos apontam dedos sem querer, o cruel "a menina já não era assim tão nova devia ter tido cuidado", o coitada dito entre o mar de lágrimas de um amigo qualquer - não, nós não queremos ser coitadas, nós queremos ser espancadas porque somos culpadas. Todos os que nos rodeiam passam para um lado que já não é o nosso e tratam-nos como se nós, de repente, nos tivessemos tornado cicerones de um mundo que não conhecem. Sai-lhes tudo boca fora, porque estão, eles, a viver uma experiência diferente, mas nós, as mães, as responsáveis por toda aquela confusão, temos de ter respostas para dar. "Coitado do pai, tens de perceber que está transtornado", "na nossa família é a primeira vez que acontece". "não vamos dizer já, temos de dar tempo às pessoas", "foi Deus que assim quis (o tu pecadora tiveste o que merecias fica escondido com o rabo de fora..)".
É naquela altura, debaixo de fogo cerrado, a espetarmos facas em nós mesmas e a querer perceber criticas veladas em tudo o que nos dizem, que temos de tomar a grande decisão da nossa vida - vamos carregar a nossa culpa e esconder as provas ou vamos tentar virar o jogo e fazer da nossa derrota uma enorme vitória?

Acham que estou a exagerar? Acham que não é assim? Acham que as mentalidades, e o direito à diferença, e o somos todos filhos de deus nos servem para alguma coisa quando estamos lá, sozinhas, frente a frente com o fruto do nosso ventre que nos esfrega na cara o nosso enorme falhanço, que nos faz sentir que somos menos mulheres e piores mães?

Não sei, já não me recordo, como se dá o salto para este lado onde agora estou mas sei que a descida aos infernos é violenta e sei que a subida é difícil e se faz sozinha. A tentação de passarmos o resto das nossas vidas, e da deles, a pedir desculpa, a pedir-lhes desculpa, é muito grande e percebo que a tentação de vivermos essa culpa escondidas do mundo, nós e eles, é ainda maior. Os outros talvez possam ajudar, os outros talvez possam facilitar, as mentalidades diferentes talvez tornem menos íngreme a subida, mas nada, nunca, vai impedir que a primeira batalha seja travada sem outras armas que não as nossas e seja uma batalha solitária. E quer se queira quer não, quer o digamos em voz alta ou o tentemos esconder no nosso fundo mais fundinho, vai deixar sempre cicatrizes. Se as mostramos ou as escondemos é o que faz a diferença na nossa vida e nas vidas deles.

(eu gostava de ser uma pessoa perfeita e de não ter sentido nada disto, mas não sou. acredito que pode haver quem seja mas também acredito que nunca é muito diferente)

Não me sai da cabeça

É só porque nunca calhou, nunca se tinham cruzado, andavam por sítios diferentes, mas pela primeira vez a Clara tem dois amigos com sindrome down, tal como ela. Sendo amigos dela, e havendo festa de anos, é normal que tenham sido convidados. Até aqui, tudo normal portanto.
"Fica um bocadinho e já venho buscar".
Como?!... Um bocadinho? Mas um bocadinho porquê se até vou fazer lasanha para o jantar?, ficam como os outros, até ao fim, e o fim é quando eles assim o decidem. Eu depois telefono, como é costume.
Ar de espanto e tentativas para me explicarem que isto e aquilo e se se portassem mal....
O Marco e a Marta ficaram. Parece que são namorados, mas isso ainda é assunto a decidir. É que o Marco tem sardas, é giro que se farta, a Clara morre de amores por ele e a Marta só o maltrata portanto, e no que eu puder fazer, a Marta, temos pena, mas já era. Mas pronto, por enquanto a Marta e o Marco ainda são namorados e não sairam um de ao pé do outro o tempo todo. O Marco sempre atento às precisões da Marta (é um cavalheiro, vi logo, que bem que estaria com a minha filha...), a Marta  (gaja, sem "i") a chamar-lhe parvo (raio da miúda, dois lambadões e estava o assunto arrumado). Soube hoje que a única amiga que a Marta fez na festa foi a Francisca e foi porque a Francisca lhe foi à cara. Tudo certo e tudo a continuar dentro da maior normalidade, como nem podia deixar de ser.
Não sei que horas eram quando vieram buscar a Marta. A tia e uma prima. A Marta estava ao lado do Marco, a gajinha não desgruda, a lambuzar-se em lasanha tal como todos os outros. Foi embora antes do gelado, que eu acabei por nem provar (ainda!) porque entretanto fizeram-me gelar sem precisar do carapinhão e da emanha (sim, tenho gelado da Emanha no Algarve porque sim, a Peixa conhece meio mundo e o outro).
Foi pouco tempo depois da Marta ter saído que o telefone tocou. Era a mãe da Marta. Pus-lhe a vista em cima duas vezes e nem me caiu muito no goto mas o estupor do telefonema deu cabo de mim. Queria agradecer-me. Estava comovida. A voz tremia. A filha tinha chegado a casa feliz por ter ido a uma festa de anos.
E é esse telefonema que não me sai da cabeça e que ainda não consegui digerir.
Porra!  E outra vez, Porra!
A Marta tem 16 anos e apesar de eu estar prontinha para ajudar a Clara a sacar-lhe o Marco, por que raio é que a Marta, com 16 anos, nunca tinha ido a uma festa de anos de uma amiga?

Não sei se os vossos filhos, ou sobrinhos, ou enteados, ou o que seja, conhecem alguma Marta mas importam-se de a convidar para as festas de anos? As mães delas vão reclamar um bocadinho, achar estranho, dar muitos conselhos, mas passa-lhes depressa e mesmo que a Marta seja namorada do Marco, seja uma chata, e o Marco tenha sardas e seja a paixão da Clara, a Marta não tem de estar 16 anos à espera para ir a uma festa de anos de uma amiga, pois não?

Gaijas, se fosse a vocês fazia greve

Depois de quase 24 horas em duras conversações a Peixa continua a não me deixar pôr a aqui a fotografia para poder ser devidamente apreciada.

Minha querida Peixa,

Acabada de chegar a casa, depois de umas retemperadoras horas de praia, apressei-me a abrir a tua missíva e a visionar o pequeno pormenor que lhe vinha agarrado e que justificava o seu envio.
Sim, tens razão em tudo. Tal como já me tinhas descrito em traços largos mas precisos, "aquilo só pode ser uma criação dos americanos" e sim, "Deus existe", mas, infelizmente, não tem milagrado muito aqui pelas vizinhanças ou o semblante desta tua amiga andaria muito mais radioso que o habitual.

Tanta perfeição é-me desconhecida e qualquer gaija com os dois pés assentes nesta terra madrasta te dirá, sem hesitar, que um gaijo lindo de morrer como aquele (Santo, tu desculpa, mas aquilo é mesmo de morrer, não é de se ficar doente), inteligente, com bom gosto e sentido de humor tem de ter, que nós sabemos que sim, qualquer defeitozinho.

(Caso não tenha, que ainda sou de acreditar em milagres longínquos, saca morada e número de telefone, 'tá bem? Agradecida)

Ralações

Quando nos apanham distraídas e nos envelhecem uma hora durante a noite que quantidade de creme anti-rugas temos de pôr a mais de manhã?

CLARA’S HEART

heart97.jpg image by andreabraga07Há um ano atrás, o Shark fazia sexo interminável. A Gaija fazia o tradicional post de parabéns, secundada pela Gabs que também falava com o Napoleão. O Visconde partia para um daqueles sítios terminados em Onix com a promessa de voltar. O Santo devia andar atrás de algumas gémeas como é seu apanágio. Eu e a CJ iríamos continuar a ser virgens e puras por mais 24 horas.

Entretanto, mais um ano decorreu. Como em qualquer épico que se preze, houve encontros e desencontros, tragédias, funerais, viagens, risos e lágrimas, vitórias e derrotas.

Há um ano atrás, eu nunca tinha visto a Clara. Sabia-a aqui ao pé de mim e hoje pergunto-me quantas vezes não nos teremos cruzado no supermercado como acontece agora. Se a tinha visto antes? Não faço a mais pálida ideia. A culpa disso é mesmo da Carla. A Carla foi minha colega desde o 7º ano até ao 12º. A Carla tinha um irmão com paralisia infantil. Confinado a uma cadeira de rodas e com muitas limitações de movimentos e de fala, o R tinha o sorriso mais lindo do mundo. Um dia, a Carla contou-me que na Associação do irmão, havia muitos meninos que não podiam ir para a piscina porque à hora da piscina, os pais estavam a trabalhar e não tinham com quem entrar na água. Aos 16 anos, nós vamos mudar o mundo, não é? E abominamos injustiças, certo? Então na quarta-feira seguinte, lá me tinham à porta da instituição, de fato-de-banho na mochila, a voluntariar-me para entrar na piscina com um dos meninos. Sem qualquer formação, sem treino, sem preparação, sem nunca ter tido qualquer contacto com meninos ‘diferentes’ além do R. Nas primeiras semanas, saia de lá de coração estraçalhado e tinha que fazer um esforço sobre-humano para disfarçar qualquer olhar que demonstrasse a pena, compaixão, fosse lá o que fosse. Passado umas semanas, eu entrava e eles chamavam-me pelo nome e faziam algazarra para ver quem seria o sortudo que ia comigo para dentro de água (eles eram tantos, nós éramos tão poucos) eu apercebi-me que já não tinha que fazer esforço nenhum para disfarçar fosse o que fosse. Para mim eram meninos. Meninos que como qualquer menino, tudo o que queriam eram ir brincar na água. Já não lhes via a diferença. Eu já sabia ler-lhe o olhar e mesmo que não falassem, conseguia descortinar se estavam bem ou mal. Se o dia ia correr bem ou mal. Eram meninos e tal como qualquer menino queriam brincar e sentir-se seguros e era para isso que eu existia no mundo deles: para brincar e para não deixar que mal nenhum lhes acontecesse enquanto estavam nos meus braços. E no inicio, eles não confiavam. Olhavam-me de lado. Fingiam não me ver. Ficavam tensos quando lhes pegava. E depois deixavam-se ir. E eu sentia-me vitoriosa.

No Verão antes de entrar para a faculdade, os 3 meses de férias na casa da praia reduziram-se a 1. Os outros 2 foram passados a levantar-me às 6 da manhã para levar os meninos à praia. Os dias passados a levar e a trazer meninos da água. A servir lanches e sumos. A rir à sombra e a combater as paixonites dos mais velhos. E a certeza de que nunca mais iria ver meninos diferentes. Apenas meninos. E a cena que mais me marcou passou-se alguns anos depois, num supermercado, na secção da charcutaria, quando vi uma menina linda numa cadeirinha, a cabeça de lado e os olhos brilhantes a olhar para mim. Irresistível. Aproximei-me e fiz-lhe o mesmo que tantos já fizeram ao meu filho: meti-me com ela. Quando me endireitei para ir à minha vidinha, a mãe de pacote de fiambre na mãe olhava para mim e chorava. Agradeceu-me porque, pela primeira vez na vida, alguém se tinha metido com a filha num supermercado. Que, normalmente, as pessoas viravam a cara ou, pior, olhavam com pena. Que aquele tinha sido o primeiro momento de ‘normalidade’ que ela tinha tido desde que a filha nasceu. Conversámos durante um tempo e depois fui à minha vida.

Portanto, se eu encontrei a Clara antes de me ser formalmente apresentada e não dei por ela, a culpa é do R. O R. por causa deu quem eu aprendi o verdadeiro sentido de ‘diferente’. Não são os meninos que são diferentes. O que nós sentimos por eles é diferente. Por exemplo, eu nunca vou exigir da Clara o que exijo da Xica. Eu nunca vou sentir necessidade de proteger a Xica como sinto em relação à Clara. Eu vou olhar sempre para a Clara como um bem a proteger. Inclusive, do meu próprio filho o que eu sei que é ridículo. Ela tem o dobro do tamanho e da força dele, mas que querem? Eu olho para eles e vejo-os iguais. A mesma obrigação de protecção para com os dois. Logo aquele que estiver a arrear o outro leva o raspanete. Com a Xica nunca será assim. Essa vou eu mesmo arreá-la se for preciso!

E quando comecei a escrever, eu sei que isto tinha um sentido supremo e uma moral como ‘punch line’ para além dos inevitáveis “Parabéns, Clara”, mas experimentem lá escrever isto tudo com um mini gaijo pendurado ao vosso pescoço? Pronto, esqueci o final.

A virar-me do avesso

Um dos meus livros preferidos é A Peste do Camus. É um livro que se desenrola em círculos concêntricos. A peste começa lá longe, nada tem a ver connosco e só quando nos toca de perto é que percebemos, finalmente, que o mundo dos outros é também o nosso mundo. 

Há 14 anos que passo este dia de neura. Foi o último dia de uma vida que eu conheci e nunca mais voltei a encontrar. Não é que me faça falta é só porque ainda não me habituei a esta nova eu porque 15 anos, na minha vida toda, não é assim tanto tempo.

Lembro-me bem de mim. Cheia de certezas, chavões, certa que era quase imbatível, que a vida, a mim, não me trocava as voltas. Uma enorme arrogância, uma absoluta falta de humildade, a sensação de que vivia num mundo diferente do mundo dos outros.

Há 15 anos, por esta hora, estava entalada entre a parede da sala e uma estante gigantesca a martelar furiosamente os pregos que lhe iriam segurar o fundo. Três módulos de prateleiras, um metro de largura cada um, e por baixo um móvel corrido com gavetas no centro e portas duplas dos lados. Ainda sei as medidas, 3,05 m de comprimento, 2,73 m de altura. Do meu lado esquerdo tinha a janela sem cortinas ou portadas e mais longe mas ali tão perto, o Tejo. Estava mais gente na casa mas não me lembro onde estavam nem o que faziam. Eu sei o que fazia, montava a estante. Não era a melhor altura para montar um móvel daqueles mas eu queria e portanto, sem hesitações, eu podia. Lembro-me que me era complicado arranjar espaço para meter a barriga naquela pequena fresta, que tinha conquistado à custa de muito empurrar, pés fixos no chão e força nas omoplatas, entre as prateleiras e a parede. Lembro-me também que tinha vestidas umas jardineiras de ganga e tinha metido os pregos e os parafusos nos bolsos da frente e as chaves de fenda e martelo nos bolsos de trás.

A Lina e a Maria José tinha-as encontrado uns tempos antes. Não muito. Não a via desde que a Maria José tinha nascido porque nessa altura eu já vivia em Lisboa e elas viviam na terra. A conversa com a minha mãe foi na cozinha lá de casa, o lá de casa como era na altura, como ainda é hoje, porque lá em casa será sempre ali, mesmo que pouco tempo lá tenha vivido. Falei-lhe do encontro e de como achei a Lina mais triste do que a Lina que eu conhecera e de como devia ser difícil ter uma filha como a Maria José. A barriga, a mesma barriga que me incomodava a montar a estante, já ali estava, bem visível, quase a rebentar. Nem por um momento pensei nela. A Lina era a Lina, eu era eu, e a mim, como disse, a vida não me trocava as voltas.

Amanhã faz 15 anos que a Clara nasceu. Amanhã faz 15 anos que fui mãe. Amanhã faz 15 anos que a vida me ensinou a maior lição de todas e me apanhou, pela primeira vez, completamente desprevenida. Já não me atrevo a montar estantes só porque quero, porque já sei que o eu quero nem sempre me abre as portas do eu posso. Já não olho para a Lina e a vejo triste porque já sei que não há razões para estar triste mas também já sei, sei muito bem, que a vida é um dia atrás do outro e os planos que temos hoje podem ruir amanhã por mais que vivamos na ilusão que a nossa vida somos nós que a controlamos e a decidimos.

E com direito a ligar o pinónim

Quando uma gaija toma a decisão de largar tudo o que não está a fazer, marimbar nos dois anos de agonia em que o foi vendo lentamente, muito lentamente, tomar formas e jeitos até aí desconhecidos só porque talvez fosse boa ideia variar, e decide pegar num telefone, chamar o Francisco e dizer-lhe as palavras que há muito se lhe enrolavam na língua sem conseguirem sair, a última coisa que quer ouvir é que se era para hoje, agora, devia ter telefonado antes.
“Quero cortá-lo curto”. Caramba, eu acho que qualquer pessoa entende que um querer destes não é compatível com agendas, horas marcadas, decisões a longo prazo. Isto é daquelas coisas que ou é para já ou já não é. Para mim um cabeleireiro é uma espécie de urgência hospitalar onde só vou se preciso mesmo e como tal assim devia estar organizado. Ninguém no seu juízo perfeito precisa de fazer uma permanente, muito menos com urgência, portanto pulseira azul ou verde e esperem que não morrem por isso. Um brushing, que penso que é aquela coisa que se faz em casa, com um secador, nos dois minutos a seguir ao duche, é mais ou menos como uma toma de paracetamol mas se querem ir à urgência eu até posso entender que escusam de andar a fazer figuras tristes pelas ruas com a cabeça cheia de rolos, mas então pulseirita amarela e está a andar, ou melhor, está sentada e espera. Cortar as pontas já me parece mais urgente que ponta espigada é pior que sapato cambado e justifica o laranja. Cortar curto é caso mais que emergente, ou é logo ou a vontade morre na praia, código vermelho sem qualquer tipo de dúvidas.
Mas isto era num mundo perfeito, num mundo que, hoje especialmente, acredito não ser possível, e portanto vou ter de me resignar a esquecer o cabelo curto que me iria resolver de imediato o mau humor galopante e tentar descobrir se não andará por aí alguém esquecido com quem possa acertar contas e descarregar este nervoso miudinho que me está a deixar inquieta.

A vingança dos duendes

Só pode ser isso porque eu, na plena posse de todas as minhas capacidades, nunca enfiaria o telemóvel dentro do armário das chávenas do café e menos ainda o deixaria ficar sem bateria.

Pequena nota informativa

Estou de mau humor.

A bem da Nação

Há coisas que estão muito para além da minha compreensão e uma delas é como é que há gente que acorda e começa a falar. Assim, falar, frases inteiras seguidas, frases complicadas que implicam raciocínios e, pior, muito pior, frases que terminam com pontos de interrogação como se esperassem que lá por nos enfiarem perguntas ouvidos dentro nós tivéssemos respostas para dar.

Eu concedo que de manhã se emitam alguns sons, poucos. Palavras desarticuladas, monossilábicas, alguns grunhidos, pequenas onomatopeias e tudo isso num volume civilizado que é como quem diz ligeiramente sussurradas e devidamente espaçadas para que não se perturbe o dia que começa, mas se falar é insuportável cantar é pecaminoso.Cantar de manhã é uma afronta, é uma provocação perigosa, é um pedido para que sejam cometidos crimes vários que podem ir desde a agressão com a escova de dentes até ao afogamento no copo do leite.

Ando há quase quinze anos a tentar explicar isto às duas criaturas que vivem comigo e se elas já perceberam que eu não sou daquelas mães que fica feliz quando lhe entram de manhã no quarto e a acordam com um lindo tabuleiro de pequeno almoço – isto, os tabuleiros de pequeno almoço que nos enfiam cara dentro enquanto sensatamente dormimos e tresandam a ovos e à manteiga das torradas tem relevância suficiente para ser melhor desenvolvido mais tarde – ainda não estão suficientemente condicionadas, acho que foi falta de bofetadas mas tive de desistir desse eficaz instrumento educativo porque a seguir teimavam em berrar o que ainda era mais insuportável, e de vez em quando elas falam comigo quando acordo e, mais de vez em quando ainda, elas cantam. Hoje foi manhã de cantorias  e eu estou perturbada, estou bastante perturbada. Tão perturbada que nem consegui chegar a casa e me vi obrigada a parar no caminho em busca da cafeína redentora. Erro, grande erro.

Uma pastelaria de manhã é uma antecâmara de tortura. Gente, muita gente, e todas aquelas bocas daquela gente a debitarem palavras a uma velocidade vertiginosa. A gaja da mesa do canto, essa mesma, parecia um daqueles tornos inquisitoriais com que se esmagavam os ossos do crânio e o efeito era o mesmo. Tinha escolhido a mesa mais afastada de todas, sentou-se sozinha e mantinha várias conversas com todas as galinhas das outras mesas. Uma voz estridente, mais fina que uma agulha, com um volume adequado para chamar nomes ao árbitro num estádio cheio. Queixava-se dos filhos, tinha dois, o que foi logo estranho para mim, acho que estava a mentir, um ainda dou de barato que ninguém tem obrigação de saber ao que vai, mas dois é impossível, ninguém sobrevive a uma manhã com uma mulher daquelas, e, imaginem, estava indignada porque os miúdos andavam os dois num psiquiatra e mesmo assim ela não via melhorias.

Eu não falo de manhã. Pedir um café se faxefavor já é complicado e é por isso que reponho os níveis de cafeína em casa, mas se tal como hoje a urgência me leva até um balcão normalmente nem preciso de abrir a boca que qualquer empregada, mesmo ucraniana, olha para mim e percebe de imediato que estou ali para um café e rápido, mas falasse eu e tinha uma palavrinha para o papagaio da mesa do canto, uma palavrinha que lhe iria mudar a vida e trazer saúde aos filhos – Cale-se!

Bolas, será assim tão complicado não me violarem os ouvidos quando acordo e manterem esse registo na hora a seguir?

Vamos lá então discutir o PEC

    

 

Sagres ou Super Bock?

 

Carcassonne

A quem não conhece, e não sabe o que perde, explica-se bem. Peça a peça, jogador a jogador, vai-se desenhando o mapa de Carcassonne. Nunca é igual, que a única regra para colocar as peças é a do dominó, os lados têm de bater com o que está à volta, mas seguramente que não irão faltar castelos, estradas, mosteiros e muitos muitos campos verdes. Cada um de nós, jogadores, tem sete homens coloridos (aviso desde já que os vermelhos são meus) que vai colocando, ou não, em cima da peça por ele jogada para reclamar como seu o futuro castelo, a estrada, o mosteiro. Ou, e este ou é o busílis do jogo, os tais campos verdes que dão animação à coisa. Homem posto no campo é homem perdido até ao fim do jogo, que dali já não sai. A agricultura é assim, para a vida. Castelos, estradas e mosteiros são mais versáteis que assim que estiverem terminados libertam o seu construtor para ir carregar tijolo para outro lado ou dedicar-se à agricultura, enquanto que o irmão mais novo, o oitavo homem, avança umas casas no tabuleiro dos pontos depois de se fazerem as continhas aos ganhos imediatos por mais uma obra terminada.

Qualquer principiante, ou até jogador batido mas garganeiro, atira-se a construir grandes castelos, longas estradas, mata e esfola por mais uma pecinha que lhe irá dar um mísero ponto num mosteiro e encosta-se na cadeira, com olhar de gozo, vendo o seu homem avançar desalmadamente no tabuleiro deixando os outros para trás como se o jogo ganho fossem já favas contadas. Não são, faltam os pontinhos dos campos e esses só se contam acabado o jogo. São os campos que decidem tudo porque agricultor pode não ser castelão mas não tenha o castelão que comer que bem pode fazer-se à vida. O intuito do agricultor é ocupar campos onde irão ser construídos, por quem quer que seja, muitos castelos, porque são o castelos que lhe dão os decisivos pontos, mas ganhar os campos é difícil e trabalho para especialistas. Eles têm de comunicar entre si e qualquer estrada ou esquina de castelo pode deixar o pobre lavrador encerrado num cantinho de onde já não pode sair ou a servir de estátua no meio de uma bela rotunda. E depois há os outros agricultores. Campo que já tenha um não pode ter outro mas com muita perícia e alguma estratégia pode-se sempre tentar unir, peça a peça e sem dar nas vistas, um campo nosso a um campo do vizinho e passar a dividir com ele os castelos que já tinha. Ou, melhor ainda, pela surrelfa e sem grandes alaridos, podemos juntar vários dos nossos campos aos campos do vizinho e os nossos agricultores, em maioria, abarbatam-se com as culturas que tanto trabalho deram aos outros. Os campos. O jogo ganha-se e perde-se nos campos.

Gosto de jogar Carcassonne com a minha amiga Peixa. Conversamos, comemos, bebemos, rimos, como amigas que somos, claro, mas nem por um momento, um mísero segundo, tiramos os olhos do jogo ou baixamos as defesas, batendo-nos nos campos até ao fim e conservando o sorriso nos lábios sempre que a outra, em linguagem técnica, nos froquilha a jogada. Passamos horas nisto e nem piamos. A técnica da Peixa é conhecida, espalha agricultores pelos campos mais remotos e pacientemente vai-se dedicando a juntar aquilo tudo. Eu sou mais concentrada, junto os meus homens e tento bloquear a passagem dos outros. Umas vezes ganho eu, outras vezes ganha ela.

E agora, explicado que está o Carcassonne, vamos à vida. É que Carcassonne é jogo de gaija. Nunca, até hoje, um gajo nos ganhou o jogo, a não ser uma ou duas vezes e porque tiveram ajuda, e gajas então, daquelas sem “i”, é melhor nem tentarem - muito gritinho, muita palminha, muito castelinho mas sem verem um boi do que estão a fazer. Os homens são diferentes, eles tentam, eles esforçam-se, mas a não ser que tenham passado à categoria de ex’s eles são muito bonzinhos, muito delicados, ajudam-nos a acabar os nossos castelos, acrescentam-nos as estradas, perguntam se por acaso a peça que lhes saiu nos dá jeito para qualquer coisinha, e não conseguem perceber, nunca, que lá longe, nos campos, as gaijas estão-lhes a froquilhar o jogo todo sem perderem a compostura e nunca deixando de os tratar por meu amor. E no fim, feitas as contas decisivas, amuam, fazem beicinho, sentem-se prejudicados e não conseguem perceber que jogo é jogo e que uma gaija, por muito querida que seja, nunca tira os olhos do tabuleiro, mesmo que continue a servir as tapas e a encher os copos, e nunca, mas nunca, perde a oportunidade de lixar a jogada de quem esteja mais distraído ou a de quem não lhe chegam os neurónios para perceber o que está a acontecer por ali.

Vamos jogar um Carcassonne?

E sim, podem considerar este post ligeiramente, mas só ligeiramente, metafórico.

 

(espaço publicitário: parece que se vende na FNAC e na Bertrand, custa menos de vinte euros e vale cada cêntimo gasto)

HORTON E O MUNDO DOS QUEM*

“And so, all ended well for both Horton and Who's, and for all in the jungle, even kangaroos. So let that be a lesson to one and to all; a person is a person, no matter how small.”

(Horton Hears a Who)

Eu não sou mulher de grandes blind dates. Penso que ao longo da minha vida, terei tido uma meia-dúzia sendo que cada um deles daria posts tão hilariantes quanto o que aqui descrevi há uns dias. Há, porém, um que assume contornos de Twilight Zone misturado com Twin Peaks e Ilha da Fantasia. Num primeiro encontro com alguém que, apesar do seu 1,80, insistia em tentar convencer-me antes de nos encontrarmos que era anão daqueles à séria e tudo e tudo e tudo.

Sim, porque aquilo que a Chefa disse é verdade: eu pergunto. Eu pergunto tudo. Se eu tenho uma dúvida ou preciso de uma informação ou por mera curiosidade, eu pergunto. O pior que pode acontecer é não me responderem mas nesse pé já eu estava antes! Ora, não me venham cá com teorias que ninguém tem curiosidade e que não fazem perguntas. Não têm é coragem de o fazer. Porque têm vergonha, porque ficam nervosos, porque… porque… porque… Bolas, se querem saber, perguntem! Nem que seja à Peixa que eu já tenho mesmo fama de Liedson: A Peixa Resolve! (E, ultimamente é mesmo o que acontece, não é? Mas não me vou aqui alongar que eu trabalho ao abrigo de um Código Deontológico rigorosíssimo que me obriga a levar os segredos para a tumba e não há prescrição do crime que me safe.)

Mas estava eu a dizer que o senhor me tentava convencer que era, de facto, anão. E fez-me aquela pergunta que nós rezamos a todos os santinhos que nunca nos façam porque toda a gente sabe que há perguntas para as quais não queremos saber a resposta: E se eu for mesmo anão? Já não jantas comigo?

Arre, porra! Mas esta gente não percebe que quem faz perguntas aqui sou eu? E que se responde neste caso? Também sei que vocês estão mesmo a interrogar-se: mas porque raio fala ela com eles antes do blind date? Mas eu respondo-vos: é que eu sou distraída mas não sou parva! Eu não arrisco (por muito bem recomendado que venha, que isto são muitos anos a virar frangos) a partilhar uma mesa com alguém com quem eu não tenha a certeza de que gosto de falar. Desculpem lá, mas não. É que se há coisa que me faz espécie são aqueles homens com quem não consigo falar e aqueles que são incapazes de me arrancar um sorriso. (É tão fácil fazer-me sorrir…) Nem que seja o próprio Clive Owen, eu arrisco tal coisa! Arrisquei na 1ª vez porque fui enganada por uma velhinha de 80 anos e correu bem. Arrisquei na última vez porque fui enganada por uma coxa e já sabemos o que aconteceu, certo? (Basicamente, eu deixo-me enganar por pessoas pseudo-frágeis que usam a sua condição para me levar à certa. Mental note to self: Evitar pessoas frágeis!)

Mas onde ía eu?... Ah pois, a pergunta… E é nestas alturas que notamos que somos preconceituosos e temos raiva de nós. Eu, pelo menos, tenho. E se fosse um anão? Qual era o problema? Era um fulano divertido que sabia falar, escrever e fazer-me rir. Mas o nosso cérebro pré-formatado rejeita à partida o não convencional. E por muito que neguemos ser preconceituosos e nos declaremos espíritos abertos e livres e todos para a frentex, nestas alturas olhamos de frente a nossa mesquinhez e o nosso preconceito e vimos os quanto somos pequeninos (isto não é um trocadilho)… Eu vejo…

No entanto, toda a gente sabe que eu sou como a Chefa e a Chefa é como o São Tomé: ver para crer! Até porque o meu faro nestas coisas nunca me engana… Jamé! O senhor não era anão como toda a gente já percebeu e o jantar correu bem e ainda saímos no dia a seguir e divertimo-nos bastante.

(A Chefa nesta altura está à espera que eu conte a história do verdadeiro anão e do cavalo que aconteceu nessa mesma noite. A tal que parecia uma cena saída do Twin Peaks, mas como eu acho que isto merece ser um post educativo, mudei de ideias e vou deixar para outro dia. Se ela, entretanto, não me despedir…)

Basicamente, e porque a Xica tem uma fé em mim que só meninas de 12 anos têm nos seus mentores, eu vou-me dar ao trabalho de explicar aquilo que ela sabe mas que a mãe dela receia saber. Não há alturas ideais. Há pessoas que nos fascinam, que nos encantam. E isso acontece, independentemente, do tamanho e do aspecto da embalagem. O homem que eu mais amei fazia-me olhar bem para cima, tinha mais 15 anos que eu, era feio como uma bota da tropa e toda a gente dizia que eu merecia melhor. Desfez-me o coração em tantos pedaços que acho que ainda hoje me faltam peças. O fascínio não escolhe formato e, portanto, se o furacão Peixa tiver que dar um conselho à Xica será para lhe dizer que alto ou baixo, gordo ou magro, bonito ou feio, o que importa é que lhe desperte borboletas no estômago. Que ela sinta que ele lhe diz alguma coisa e a deixa sem resposta, desorientada, corada. E se nada lhe disser, se isso a fizer amaldiçoar e praguejar, nada terá a ver com o facto de ela olhar para ele de baixo para cima ou de cima para baixo. E repetir-lhe-ia aquilo que lhe disse no 1º dia do ano: que nunca se envergonhe ou deixe que alguém goze ou humilhe uma pessoa de quem ela gosta. Quanto à mãe da Xica, o que o furacão Peixa tem para lhe dizer é que ela há umas semanas conheceu um senhor – que muito a impressionou – e como deve ter reparado, era bem mais baixo que eu. O que a mãe da Xica não sabe é que a mulher dele, além de gira comó raio, é bem mais alta que eu. Estão casados há mais de 35 anos. As convenções somos nós que as fazemos. O que fica bem ou mal somos nós que decidimos. Assim como somos nós quem decidimos quem nos faz feliz e para nos fazer feliz, como dizem os brasileiros, tamanho não é documento.

Não há fórmulas, nem formatos, nem padrões certos e errados. Há aqueles que nós achamos que são expectáveis. Mas se há coisa que eu aprendi desde cedo, é que a vida é uma deliciosa dança com o imponderável e que nunca nos devemos esconder no canto do salão de baile com medo de trocar os passos. O melhor que nós temos a fazer é bailar até ao nascer do sol porque essa dança improvável pode ser o mais belo momento da nossa vida.

Os sailormen e os… outros.

2007_0327Clara120139 Desde o dia em que, acabadinha de me conhecer, entrou porta de hospital adentro sacou da mala de porão do costume, tirou dela uma parafernália de vernizes e me convenceu que perna partida tem de ter unhaca vermelha, que eu soube que depois da Peixa a minha vida nunca mais seria a mesma. Só não soube, e gostaria de ter sido avisada, que até as minhas filhas, tão bem criadinhas até aí, iriam também passar a ter um furacão na vida delas.

Ainda não eram oito da manhã. Ainda não tinha tomado um café que fosse. O cigarro filho único, resquício de uma noite difícil, estava a ser poupado até poder ser devidamente apreciado quando, de repente, ela larga a bomba e eu percebo que preciso rapidamente de muita cafeína, muita nicotina e calma, muita calma, para pensar.

- Pergunta à Peixa. Ela conhece bem a problemática dos anões.

Caramba, eu não estava a pedir um cataclismo, eu estava só a sugerir à minha filha mais nova que agora que já é amiga do menino do lado podia aproveitar e vir com ele da escola.

Não é que o Pergunta à Peixa me tenha perturbado porque se houve coisa que entretanto aprendi é que se não se sabe pergunta-se à Peixa, o que me deixou com a tremedeira foi a problemática dos anões. É que eu, até eu, que nunca na minha vidinha me tinha preocupado com medidas, dei por mim num passado demasiado recente a fazer a pergunta peixiana, aquela que nunca me tinha passado pela cabeça fazer, aquela que para além do normal ponto de interrogação no fim leva um estranho quanto é que medes no princípio.

Eu, felizmente, desconheço completamente a problemática dos anões. Talvez não tenha vocação para olhar para baixo ou talvez seja algo mais comezinho, talvez o meu tamanho de boa sardinha nunca me tenha feito passar por especiais agruras, mas começo a ficar assustada, tão assustada que, como disse, já dou por mim a pedir medidas.

Sempre me lembro de ter de olhar para cima, normalmente até bastante para cima, muito mais para cima até do que é lá em cima. Não por andar muito cá em baixo, que até nem ando, mas por me fugir sempre a mão para a rifa maior. É certinho, se no cesto há anões nunca me saíram em sortes que eu acerto sempre nos gigantones e afinal até o meu melhor amigo se chama Miguelão e não Miguelito. Eu sei que a vida é injusta, que eu nem precisava de XXL porque qualquer M já me daria muita largueza, e que os tamanhos maiores deviam ser guardados para quem deles mais precisa, mas é sina minha e desventura delas, só pode. Agora o que me aflige é que a miúda ande preocupada com estas coisas e remeta para a Peixa mais esclarecimentos. É que eu não lhe auguro um grande futuro de cabeça levantada porque se ela sai à mãe em muita coisa não é no tamanho de certeza que eu nem com aqueles saltos de 10 cm lhe consigo ver o cocuruto da cabeça e ainda só tem 12 anos, mas também não convém começar já a assustá-la. Eu não posso fazer nada porque até acredito firmemente que podemos ser muito felizes mesmo que os nossos olhos encontrem um imenso espaço vazio pela frente ao invés de uns ombros ou até um botão de casaco mas isso é só de ouvir dizer, não é um daqueles saberes de experiência feito. Eu sei que a Peixa resolve, eu sei que a Peixa lhe explica, mas eu não sei é se a Peixa será a panaceia mais indicada para estas dores do crescimento. É que a Peixa continua a insistir na personagem errada e toda a gente sabe que o Popeye, alto grande e espadaúdo, escolhe a Olívia Palito para namorada e nunca, mas nunca, a Branca de Neve e já estou a ver a minha rica filha com a capinha pelos ombros e a blusa branca com  folhos na gola, tal qual a guru dela insiste em usar, no bar da faculdade a tentar escolher entre o Sneezy e o Grumpy porque toda a gente sabe que Príncipes Encantados já foi chão que deu frutos e assim como assim é melhor escolher entre os sete ali à mão. Ou, considerando as alturas, ali ao joelho.