...por esta interrupção. O blog segue dentro de momentos...
Dia de "Pica o Boi".
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As prioridades são :
1. Jantar;
2. Responder ao correio;
3. Tomar banho;
4. Escrever uma posta ou ver o CSI;
5. Dormir.
(ou baralho tudo e dou de novo?)
Está a chover aí em cima?
Aqui está um dia de Verão, mas virei-me a norte e vi umas nuvens tão negras tão negras que ou estão a levar por aí com uma carga de água ou acordou tudo mal disposto...
A Peste de A. Camus
Gente como eu morre em guerras de que não é soldado. Morre a rir, a ler, a ir para o trabalho, a embalar o filho, a assoar o nariz, a ouvir uma música, a telefonar à mãe. Todos os dias. Em todo o mundo. As noticías entram-nos casa a dentro e fazemos nossas as lágrimas deles. Chamamos nomes às bestas que morrem para matar, juramos vingança no sofá da sala, indignamo-nos, protestamos, fazemos coro com todos e vamos para a rua, assinamos petições online, tentamos resolver os problemas do mundo. E levantamo-nos e vamos buscar o copo de água à cozinha. A nossa vida vai continuando, que a morte anda lá longe.
Há quatro anos atrás acordei com as imagens de Atocha. E antes de chamar nomes, jurar vingança, protestar, gritar, indignar-me e todas aquelas outras coisas que se fazem nessa altura, gelei de medo. Ali, onde estavam aqueles pedaços de pessoas espalhados pelo chão, ali, naquele sítio que o horror tinha escolhido para começar a manhã, tinha estado eu uma semana atrás. A rir, no meio de amigos, a apanhar o Ave para Sevilha. Na minha vida, pequenina, como todas as vidas que ali acabaram naquela manhã. Vidas que pensamos tão simples que não vão dar histórias grandes. Vidas tão banais que não poderiam acabar assim, transformadas em bandeira de gente doente.
A Peste. Vai-se aproximando em circulos cada vez mais apertados e só nos dói quando a dor nos começa a tocar.
Há 4 anos atrás a dor de Atocha tocou-me de muito perto e por muito que não queira, por muito que pense que é um tremendo egoísmo medirmos o mundo a partir do nosso umbigo, não há nada que possamos fazer excepto sermos honestos e reconhecermos que nos dói mais quando nos toca mais de perto.
E Atocha dói-me. Muito.
Knojo (a pedido de várias famílias)
Há mais de vinte anos fui ver uma exposição ao Museu da Ciência, em Londres. O tema teria a ver com a concepção e primeiros anos do ser humano, mas não me lembro precisamente de como se chamava. Lembro que era totalmente interactiva e de como eu, armada em miúda mas já graúdita, me vi a tentar ganhar a guerra do espermatozóide na conquista do óvulo, a brincar com a genética e escolher a cor dos olhos de acordo com os genes que entravam na dança, a fechar-me num útero para ouvir e sentir como um feto, a aprender o que era a perspectiva e a apanhar brinquedos que caiam ao chão e a como me equilibrar nas pernas bambas para começar a andar. Fiquei fascinada com o aprender da linguagem. Disso lembro bem. Havia um ecrã com um extra terrestre que debitava qualquer coisa numa lingua estranha. A seguir, sem nunca "traduzirem", aqueles sons iam sendo ditos mais lentamente, repetidos, explicados por mimica, metidos numa lógica do dia a dia. Cinco minutos depois conseguiamos compreender perfeitamente todo o discurso do homenzinho verde. Parecia magia, mas era só uma aplicação imaginativa e condensada dos truques da iniciação à linguagem dos bébés.
Andei dias seguidos encantada. Portugal ainda estava muito longe dessas coisas e o Museu mais divertido que conhecia era o do Caramulo, que pelo menos tinha carros. A minha descoberta de Londres, na pré-CEE, foi uma via sacra por museus, lojas de chocolates, que nós por cá tinhamos os Regina, Celeste, Favorita e pouco mais, e o Hippodrome pela noite. Na altura era o top das discotecas e se há apalpão que nunca vou esquecer na vida foi o que me deram lá, mas tenho de reconhecer que a saia era atreita a isso e só faltava o letreiro a dizer apalpem-me.
Estava a falar do Knojo não era? Fui parar longe, que nada do que me lembrei foi tão canojo assim.
Portanto, voltando a Portugal e ao Pavilhão do Conhecimento.
Quando as minhas filhas nasceram já por aqui se vendiam Kitcat, Lion, Mars, marshmallows, gomas de todas as cores e feitios, chicletes sem ser Pirata e mais duas ou três guloseimas. As discotecas também não eram más, apesar de não serem o Hippodrome e de os apalpões latinos não terem aquela determinação imperial, mas os museus eram a seca do costume. Por muito que as nossas criancinhas se esforçassem e tentassem ir além das armas e barões assinalados davam sempre de caras com uns funcionários façanhudos, um ambiente empoeirado, muitas placazinhas explicativas e uma tarde de sol perdida. A cultura era pior que o óleo de fígado de bacalhau, que pelo menos esse a Diese já vendia em cápsulas de gelatina.
O Pavilhão do Conhecimento foi uma revolução no meio do cinzentismo nacional. Passei por quase todas as exposições que lá fizeram, repetimos algumas, e era sempre melhor que a feira popular. As miúdas divertiam-se à farta e saiam com alguma coisa nova. Não podiamos portanto perder o Knojo. Há lá coisa melhor que passear no meio de arrotos, traques, macacos de nariz, vomitados, cócós, xixis e todas aqulas coisinhas que fazem a delícia de qualquer miúdo?
Como gosto de ter um painel alargado quando se trata de avaliações, que já basta o que os professores andam para aí a dizer, levei comigo seis experts na matéria. Cinco crianças entre os 6 anos e os 14, duas raparigas e três rapazes. As fases parvas estavam todas representadas e os géneros também. Levei o pai dos gajos, ou pelo menos de dois deles, o terceiro acho que é só amigo da casa, que desde a recente operação ao nariz tem batido todos os recordes no tamanho dos macacos que tira e fui eu. A minha especialidade nestas coisas de mete nojo deixa qualquer criancinha a roer-se de inveja, porque eu não sou de modas e assoar na manga é vulgaridade a mais, que eu cá limpo qualquer ranhoca mais inconveniente com a lingua. Tenho resolvido assim muitos problemas com crianças mais dadas à porcaria, que algumas entidades paternais, sabedoras da poda, mandam os seus rebentos mais difíceis cá a casa de propósito para me verem. É remédio santo, que depois desses miúdos pôrem os seus olhinhos remelosos numa mãe a servir-lhes os flocos enquanto se assoa com a lingua perdem a veleidade de se armarem em campeões da nojice e passam a comer decentemente à mesa.
O Knojo? Bem, o Knojo foi chumbado por todos nós. Está bem que a Clara resolveu desaparecer durante quase uma hora e deixou-nos a todos num estado de Pânico+1, que é mais que pânico e quase histeria colectiva, mas mesmo depois de a termos encontrado dentro de um estômago gigante, ou lá o que era aquilo, continuámos sem achar grande graça à coisa. Muita nojice, mas só no papel, que até o barulho dos traques era mal conseguido. Tudo muito colorido, uns bonecos a abanar a cabeça, umas paredes de ranho, uma máquina de vómitos, uns desenhos de uns cócós e uns xixis, mas nada de lutas na lama ou concursos de arrotos. Ainda pensei que iam pôr barcos a andar com ventosidades anais, vómitos a pintar quadros e mais coisas assim decentes, mas nada de nada. Uma perfeita desilusão. Animámos um pouco no concurso dos cheiros, porque eu insisti, e insisto, que me estavam a tentar vender cheiro a chulé por cheiro de rabo, mas eles dizem que sou eu que não sei a que cheira um rabo e tive de me calar e fingir vencida, que ainda acho que estão enganados e aquilo cheirava era a meia suja metida num canto durante quinze dias. Seja como for só posso ter razão, que ganhei a todos no teste de QI da Nojice.
Quando finalmente nos fartámos de fingir que nos estávamos a divertir muito e que aquilo era mesmo bué da giro rapidamente nos reorganizámos e voltámo-nos para o que sabiamos ser seguro, que o Knojo que não mete nojo não é a única coisa que por lá há. Revimos a "Explora", a "Matemática Viva" e a "Física no dia a dia". Ainda não são como a tal exposição que vi no Museu da Ciência de Londres há mais de vinte anos, mas não há miúdo que não se queira deitar na cama de pregos - até eu deitei, que sempre quis ser faquir - andar na bicicleta equilibrada na corda a mais de 10 metros do chão, caminhar na lua, armar-se em homem aranha e ficar preso na parede, ou fazer rádio com um balde de limpar o chão. Só por isto recomendo uma ida ao Pavilhão do Conhecimento. E já que lá estão espreitem a física que parece que nos engana e a matemática que assim mostrada até é simples. Se não tiverem crianças peçam emprestadas aos vizinhos, que elas agradecem de certeza e os vizinhos ficarão eternamente gratos por um dia de descanso.
O fim do dia foi bom, obrigada. As crianças foram para as mães respectivas e às minhas vesti-lhes o fato que as torna invisiveis e mandei-as com elas. Passaram despercebidas até às nove da noite. Acho que passaram, pelo menos foi a essa hora que o telefone tocou e educada mas imperativamente nos foi dito que talvez fosse melhor deixarmo-nos do descanço e tratar-lhes do jantar. Isto do descanço foi só um mal entendido, que sábado é dia de semanários e como não consegui gamar o Expresso ficámos no sofá a ler o Sol. O ficámos é assim mesmo - primeira pessoa do plural, que isso de singular é bom mas também aborrece.
O verdadeiro Canojo foi no domingo. Acreditem que um picnic nas matas da Lagoa de Albufeira com crianças, frangos assados, arroz e batatas fritas e sem guardanapos de papel, pratos, talheres e água para lavar as mãos bate qualquer Knojo...
E pronto. Foi assim o fim de semana do Knojo contado e do Kbom que fica no tinteiro.
Noc, Noc...
Está por aí alguém?
Eu estou, e foram três dias inteiros sem computador e sem telefones...
Hoje repeguei ao serviço.
Eu nem queria ir, mas lá vai ter que ser...
Knojo! A Ciência Indiscreta do Corpo Humano
O que provoca o mau hálito? E o cheiro a suor? De onde vêm os barulhos estranhos que o estômago produz? De que são feitos os macacos do nariz? A ciência está em todo o lado e procura a resposta para todas as perguntas… mesmo para estas!
Uma exposição repugnantemente fascinante sobre o teu corpo e tudo o que de mais desconcertante nele se passa.
No Pavilhão do Conhecimento, claro!
Esta é a justificação para a minha próxima ausência de DOIS DIAS INTEIRINHOS!... As crianças vão ao Knojo, mas eu espero aproveitar também um pouco do Kbom.
Amanhã, que é hoje depois de ter dormido, se tiver tempo ainda aqui passo. Depois fecho para fim de semana.
Blogs de Serviço
A coluna do lado tem uma nova caixinha. São os meus blogs de serviço. Por enquanto a lista é pequenina, que isto dá trabalho.
Há só um pequeno pormenor. Os blogs estão lá. A url certa também. Está é ligeiramente disfarçada na barra de endereços e têm de abrir primeiro o link para a verem.
É que me apeteceu brincar um bocadinho...
E isto também é serviço público.
Conhecem o novo site das finanças? Recomendo uma visita que, pelo menos, sempre é uma alegria para a tarde.
Cala a boca, Magda!
O Caco tinha duas expressões que se tornaram o ex-libris da série - Odeio pobre! e Cala a boca Magda!.
A Magda era a mulher do Caco, boazona, saia curta e coxa roliça, mas burra, burra, burra.
É esta Magda que me interessa.
Comprei este laptop o ano passado, quando o meu se avariou e foi de urgência passar umas férias para uma clínica em Barcelona. Comprei isto, sim, que é um "isto", como quem compra um quilo de bananas - olha, parece madurinho, o preço é bom, boa tarde quero levar, sim já sei isso tudo, obrigada e adeus.
Fui apresentada ao Windows Vista quando cheguei a casa e o liguei e passados cinco minutos já estava doida com as simpatias do programa - olá outra vez, pela sua saúdinha carregue só nesse botão que é a coisa quadradinha e preta no canto direito em baixo se tiver a certeza que quer mesmo, com toda a segurança, pôr uma virgula no texto...
Nessa mesma noite, e como uma desgraça nunca vem só, passei horas ao telefone com o apoio sapo, ou o sapo clinica, ou como é que aquela porcaria se chama, porque não conseguia ligar este bicho à rede doméstica, que Vista não é XP. Como é normal escolheram para pôr do outro lado do telefone o único operador que percebia menos do assunto que eu, já que para além de me jurar que não era possível eu ter os computadores ligados em rede, eu falava-lhe em DNS, firewall, IP, portas e outros pormenores e ele largava um ahhhh, já sei, não deve é estar ligada à internet.....
Ora, isto tudo para dizer, que quando foi preciso dar um nome a este animal, a este, ao meu, não arranjei melhor nome que não fosse Magda!
Com a colaboração do tal rapazinho idiota, que acabou por dar a grande ajuda quando decidiu desligar a chamada dizendo que o que eu queria era impossível, liguei à rede e fiquei, desde aí, com a Magda cá por casa.
Tem-me tirado horas de sono e posto vários cabelos brancos na cabeça, mas tem, sobretudo, representado dignamente o nome, que cá por casa já é normal ouvir-se o meu grito à Caco Antibes, Cala a boca, Magdaaaaaaa!!!
Ontem à noite a Magda deu mais um arzinho da sua graça. Estava eu a tentar dormir no sofá, quando vi outro recadinho a brilhar no ecrã. Era uma recomendação qualquer para alterar as cores do computador e estava já a caminho do lixo quando vi as letrinhas pequenas - ... se achar que o seu computador está demasiado lento....recomendamos...pode fazê-lo noutra altura.... Ups. Lento? Pois claro. Lento e burro. Enfim, uma perfeita Magda.
Dei-lhe um OK, que pior não ficava de certeza. Não é que resultou? Tenho uma bomba nas mãos, parece um Ferrari conduzido pelo Einstein.
Mas é Magda ou não é Magda? Só mesmo uma gaja, muito muito burra, que só faz figura com a maquilhagem certa, passa um ano, um ano inteirinho, a usar as cores erradas e quando finalmente percebe ainda me pergunta se deve mudar ou não.
Muda Magda, mas cala a boca de vez!!!
As histórias são como as cerejas...
O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos condenou terça-feira a Turquia por ter obrigado um pastor curdo de 71 anos, que vivia isolado, a cumprir o serviço militar, onde foi alvo de escárnio e de tratamentos que obrigaram à sua hospitalização. O recrutamento de Hamdi Tastan e a exigência de que participasse em exercícios reservados a soldados muito mais novos foram considerados «particularmente dolorosos e atentatórios da dignidade» do pastor, que não padecia de nenhuma doença mas foi hospitalizado após ter feito o serviço militar entre 15 de Março e 26 de Abril de 2000.
Hamdi Tastan, que é analfabeto e apenas fala curdo, foi pastor desde a infância e, a troco do seu trabalho, os proprietários do gado davam-lhe comida, roupa e um tecto no Inverno. Porém, quando a mulher morreu ao dar à luz o filho de ambos, teve de deixar de trabalhar para se ocupar da criança e os patrões denunciaram-no como desertor, contou Hamdi Tastan, que agora deverá receber da Turquia cinco mil euros por danos morais e mais mil euros referentes a custas judiciais.
A história deste pastor fez-me lembrar o meu pastor e as guerras dele com a guerra.
Não sei como é agora, mas há vinte anos, quando a tropa era obrigatória, ficavam dispensados de cumprir o serviço militar todos os mancebos que não tivessem a 4ª classe. Sempre achei alguma graça às prioridades do nosso Estado, que julgava como desertor quem fugisse à guerra e olhava com complacência quem fugisse à escola, que mais um analfabeto não fazia grande dano à pátria.
Certo é que podemos ser analfabetos, mas não somos burros e muitos se safaram de marchar invocando um total e completo desconhecimento das letras.
O meu pastor não teve essa sorte. Conheci-o quando o acusaram de falsas declarações, que tinha dito ao sargento que só sabia pastorear ovelhas, que escola tinha sido quase nenhuma, mas os documentos diziam outra coisa - tinha a escolaridade obrigatória sim senhor.
A primeira vez que o encontrei estava com a mãe. Tinham apanhado um comboio de madrugada para irem a Coimbra, falar com aquela advogada menina que lhes tinha calhado na rifa das nomeações oficiosas.
Juraram-me os dois a pés juntos que não havia 4ª classe nenhuma e que só podia ser engano dos senhores que escreviam aquelas folhas. O rapaz não mente e somos gente de respeito, ninguém quer fugir à tropa. Foi a mãe que me convenceu quando, já de saída, me assegurou com ar triste que este filho fora o mais prejudicado, que o irmão sim, tinha a 4º classe e fato novo, mas este senhora doutora, como pode ter feito o exame se nunca teve um fato novo na vida?
Não era preciso tanto para ir meter o nariz no processo escolar dele, mas assim tinha mesmo que ser, que o meu pastor não havia de ser condenado por uma mentira que não disse.
A explicação era simples e chamava-se passagem administrativa. Na altura em que devia ter ido para a escola, princípios dos anos oitenta, o ensino até já era obrigatório, mas pouco ou nada se obrigava. A matricula do pastor andou a correr secretárias de professores, mas a ele, ao próprio, só as ovelhas o viam. Quando fez 15 anos um funcionário mais expediente achou por bem recompensá-lo e deu-lhe com um carimbo as letras que ele não tinha. Só se esqueceram de o avisar, que este não era o pastor do Tou Chim e o telefonema ficou por fazer.
No dia do julgamento, e no mesmo comboio da madrugada, veio a família toda e os homens bons da aldeia para jurarem pela honra que o rapaz não sabia ler e não quis enganar ninguém. Foi uma das testemunhas que me marcou este processo para sempre. Era o decano da aldeia, um beirão pequenino, talhado no granito da serra, homem digno e respeitado, que tinha aceite dar a sua palavra pela palavra do pastor.
Quando o chamei para o Tribunal o ouvir trazia já numa das mãos o chapéu preto, que ainda não tinha tirado, e apoiava-se num enorme guarda chuva de cabo de madeira. A sala fez silêncio e neste momento vejo novamente todo aquele filme a passar na minha memória. No banco das testemunhas o homem pequeno, de traços duros e fato de casamento, a aldeia atrás esperando ansiosa que as palavras sábias lhe saissem da boca, o pastor, o pastor ali ao lado, mas longe no meio das ovelhas, que quem não deve não teme, e eu, o juiz e o delegado do Ministério Público à espera de ouvir e ir embora, que já ninguém tinha dúvidas do que tinha acontecido. Mas ele estava lá e tinha de dizer o que há muito devia ter sido ensaiado, que discurso em Tribunal é coisa importante e as palavras não podem sair trocadas.
Endireitou o casaco, pousou o chapéu no banco, com a mão direita firmou o guarda chuva no chão, pigarreou três vezes, abriu o braço esquerdo em gestos largos e quase teatrais e disse com voz grave e séria :
Senhor Doutor Juiz, antes de vir aqui perguntei a toda a aldeia, e a própria professora mo confirmou, que este rapaz que aqui está - e o rapaz finalmente endireitou-se no banco - é de uma inteligência lenta e de uma estupidez galopante.
Pronto. Foi absolvido. E pronto também, encontrei-me com o juiz e o ministério público debaixo da bancada, à procura da caneta que tinha acabado de cair, e a rir desalmadamente. Cobertos de vergonha, que a atitude não é das que mais nos orgulham, mas sem conseguir conter as gargalhadas.
Ainda hoje, nem sei porquê, chamo a esse senhor o meu António Silva...
Ninguém diria que já não acreditamos.
Estava assim, preto no branco.
O embaraço surgiu porque ao disparar sobre Ana Benavente, acabou por atingir, por ricochete, um influente membro do actual Governo, Augusto Santos Silva, ministro dos Assuntos Parlamentares, que no tempo de Guterres foi ministro da Educação, tendo precisamente Ana Benavente como sua secretária de Estado. A actuação de Benavente no Governo, disse Valter Lemos, teve como consequência "os piores resultados escolares da Europa".
O bold é meu, que por aqui começamos.
Valter Lemos, secretário de Estado da Educação acha que Ana Benavente, uma sua antecessora no cargo, fez um mau trabalho e prejudicou os alunos das escolas portuguesas. Esticou o dedo, apontou para ela, e disparou.
Parece-me que o lógico seria que a própria, ou alguém por ela, viesse defender a sua honra e garantir que, técnica e politicamente, as suas decisões tinham sido as melhores para o país. Espanto meu, que ainda sou dada a espantações, quando percebo que o busílis da questão é outro e passa muito ao lado do interesse público. Fez-se o melhor ou não se fez? Não sei, que ninguém me explicou, logo a mim que até tenho duas crianças na escola e estas coisas fervem-me com os nervos.
Ontem, numa conferência de imprensa na sede nacional do PS, Augusto Santos Silva acabou por implicitamente verbalizar o embaraço: "Não me quero alongar no assunto", disse, depois da segunda ou terceira insistência dos jornalistas. Acrescentando: "Todos temos as nossas apreciações sobre os tempos que passaram e os tempos que vivemos hoje. O mais importante é o tempo que nos espera."
Mas afinal há por aqui embaraço, e dos grandes. Sempre vou ter direito a uma explicaçãozinha. Andei eu a comprar livros, cadernos e lápis, a gastar o dinheiro que dava para aquelas férias na educação delas e afinal não lhes ensinaram nada de jeito? É bom mesmo que comecem a desbobinar tudo, que não sou de cantigas.
Sentei-me e fiquei à espera do pedido de desculpas, pronta para limpar o cadastro das minhas vítimas por engano, e compensá-las das horas de castigo por erros no ditado.
Os microfones aproximam-se, eu aproximo-me, e aí vem a resposta.
Antes de Augusto Santos Silva falar já Manuel Alegre lhe estava a exigir esclarecimentos. "Não é normal que um secretário de Estado de um Governo do mesmo partido ataque um anterior secretário de Estado", disse ao DN. O ex-candidato presidencial achou a atitude "tanto mais estranha quando isso pôs em causa o titular da pasta da Educação da altura, que por acaso é o actual ministro dos Assuntos Parlamentares". "Gostaria de saber o que ele pensa a este respeito", afirmou Alegre, que repudia a "quebra de regras de solidariedade que normalmente devem existir entre membros de diferentes governos do mesmo partido".
Obrigada. Fiquei finalmente esclarecida.
Portanto, que me lixe eu, as minhas crianças, as crianças dos outros todos e mais os impostos que pagamos e o pouco que ainda iamos acreditando. Fez-se asneira? Que é que isso interessa? Se foi um dos nossos manda a solidariedade partidária que estejamos todos caladinhos...
Já agora, este Manuel Alegre não é aquele senhor que até é poeta e andou a apregoar uma tal de ética na política?
Bem, pelo menos fiquei a saber o que quer dizer "ética". É assim mais ou menos uma espécie de comemos todos do mesmo tacho e temos de ser amiguinhos ou nem o fundo conseguimos raspar.
Hoje li uma outra notícia.
Sondagem: Portugueses desiludidos
Sistema partidário sem credibilidade.
Quem diria? Vá-se lá saber agora porquê, que os designíos do povo são insondáveis...
Indice Terapêutico
Vaticano: Bispo aconselha possuídos a recorrerem a exorcista. O bispo Gianfranco Girotti, regente do Tribunal da Penitenciária Apostólica do Vaticano, afirmou que, nos casos de possessão diabólica, a pessoa afectada deve dirigir-se a um exorcista e não a um confessor.
Porém, no caso de alegadas visões sobrenaturais, aconselha-se o recurso a confessores especializados, acrescentou Girotti numa iniciativa organizada terça-feira pelo Tribunal a que preside, revelou o diário «L'Osservatore Romano», segundo o qual o bispo também denunciou a «forte crise» que está a atingir o sacramento e a confissão.
Após analisar diferentes casos de confissões, o prelado referiu «casos complexos e delicados» como os fenómenos diabólicos, místicos e presumivelmente sobrenaturais.
Girotti incluiu nos diabólicos os casos de possessão e obsessões e aconselhou a intervenção de um exorcista, enquanto nos casos ligados ao misticismo e à histeria o ideal será consultar peritos religiosos.
Espera-se, a qualquer momento, a indicação do remédio para unhas encravadas.
Saí do buraco...
Andei chateada, mas já passou.
Vou tentar responder aos comentários todos que ficaram pendurados aí para baixo...
Não valeu... Não valeu... Batoteiras...
O Vaticano considera "inválido" o baptismo com "fórmulas alternativas" de inspiração feminista, frequentemente usadas em países de língua inglesa (...)
Dúvidas que me apoquentam.
Lembro bem demais, sinal que já me preocupava com estas coisas e portanto não estava de certeza no recreio da escola, do barril do petróleo ter passado a barreira dos trinta dólares. Ora isso foi, deixem pensar, ainda tinha aquelas botas pretas com cordões, isso foi por volta de 2000. Pois, tenho razão, já não andava de tranças - alguma vez terei andado? - mas isso já deve ter sido há muito tempo, que um aumento de 70 doláres leva uns anos, não é?
Só posso estar velha, que estes preços não se explicam de outra maneira e hoje até desceu e tudo...
John Cleese's "Letter to America"
15 02 2008
Dear Citizens of America,
Her Sovereign Majesty, Queen Elizabeth II, will resume monarchical duties over all states, commonwealths and other territories (except Kansas, which she does not fancy), as from Monday next.
Your new prime minister, Gordon Brown, will appoint a governor for America without the need for further elections. Congress and the Senate will be disbanded. A questionnaire may be circulated next year to determine whether any of you noticed.
To aid in the transition to a British Crown Dependency, the following rules are introduced with immediate effect:
1. You should look up "revocation" in the Oxford English Dictionary. Then look up "aluminium," and check the pronunciation guide. You will be amazed at just how wrongly you have been pronouncing it.
2. The letter 'U' will be reinstated in words such as 'colour', 'favour' and 'neighbour.' Likewise, you will learn to spell 'doughnut' without skipping half the letters, and the suffix "ize" will be replaced by the suffix "ise."
3. You will learn that the suffix 'burgh' is pronounced 'burra'; you may elect to spell Pittsburgh as 'Pittsberg' if you find you simply can't cope with correct pronunciation.
4. Generally, you will be expected to raise your vocabulary to acceptable levels (look up "vocabulary"). Using the same twenty-seven words interspersed with filler noises such as "like" and "you know" is an unacceptable and inefficient form of communication.
5. There is no such thing as "US English." We will let Microsoft know on your behalf. The Microsoft spell-checker will be adjusted to take account of the reinstated letter 'u' and the elimination of "-ize."
6. You will relearn your original national anthem, "God Save The Queen",
but only after fully carrying out Task #1 (see above).
7. July 4th will no longer be celebrated as a holiday. November 2nd will
be a new national holiday, but to be celebrated only in England. It will be called "Come-Uppance Day."
8. You will learn to resolve personal issues without using guns, lawyers or therapists. The fact that you need so many lawyers and therapists shows that you're not adult enough to be independent. Guns should only be handled by adults. If you're not adult enough to sort things out without suing someone or speaking to a therapist then you're not grown up enough to handle a gun.
9. Therefore, you will no longer be allowed to own or carry anything more dangerous than a vegetable peeler. A permit will be required if you wish to carry a vegetable peeler in public.
10. All American cars are hereby banned. They are crap and this is for your own good. When we show you German cars, you will understand what we mean.
11. All intersections will be replaced with roundabouts, and you will start driving on the left with immediate effect. At the same time, you will go metric immediately and without the benefit of conversion tables… Both roundabouts and metrification will help you understand the British sense of humour.
12. The Former USA will adopt UK prices on petrol (which you have been calling "gasoline") - roughly $8/US per gallon. Get used to it.
13. You will learn to make real chips. Those things you call french fries are not real chips, and those things you insist on calling potato chips are properly called "crisps." Real chips are thick cut, fried in animal fat, and dressed not with catsup but with malt vinegar.
14. Waiters and waitresses will be trained to be more aggressive with customers.
15. The cold tasteless stuff you insist on calling beer is not actually beer at all. Henceforth, only proper British Bitter will be referred to as "beer," and European brews of known and accepted provenance will be referred to as "Lager." American brands will be referred to as "Near-Frozen Gnat's Urine," so that all can be sold without risk of further confusion.
16. Hollywood will be required occasionally to cast English actors as good guys. Hollywood will also be required to cast English actors as English characters. Watching Andie MacDowell attempt English dialogue in "Four Weddings and a Funeral" was an experience akin to having one's ear removed with a cheese grater.
17. You will cease playing American "football." There is only one kind of proper football; you call it "soccer". Those of you brave enough, in time, will be allowed to play rugby (which has some similarities to American "football", but does not involve stopping for a rest every twenty seconds or wearing full kevlar body armour like a
bunch of Jessies - English slang for "Big Girls Blouse").
18. Further, you will stop playing baseball. It is not reasonable to host an event called the "World Series" for a game which is not played outside of America. Since only 2.1% of you are aware that there is a world beyond your borders, your error is understandable and forgiven.
19. You must tell us who killed JFK. It's been driving us mad.
20. An internal revenue agent (i.e. tax collector) from Her Majesty's Government will be with you shortly to ensure the acquisition of all monies due, backdated to 1776.
Thank you for your co-operation.
John Cleese
Simpático...
...gajas....
se fossem boas, Deus tinha uma;
se fossem de confiar, o Diabo não tinha cornos;
Com a desgraça dos outros podemos bem, não é?
Querem saber qual é o vosso lugar no ranking da riqueza mundial ? Talvez o resultado faça a semana que está a começar um bocadinho melhor...
Vá, toca de fazer as contas ao vosso vencimento anual e seguir o link...
http://www.globalrichlist.com/index.php
Burla?
Pelos vistos, ou lido, é para levar a sério.
Dezenas de empresários de construção civil da Grande Lisboa e Margem Sul do Tejo estão a ser burlados num esquema que, no ano passado, já conduziu a prejuízos da ordem de um milhão de euros. Em causa está um método que passa pela proposta de compra de habitações em prédios mediante a entrega de um sinal. Quem faz o negócio é uma família, mas a casa é ocupada de imediato por várias outras que transformam a vida do prédio num verdadeiro inferno. O objectivo é levar o empresário a romper o contrato, com a consequente obrigação legal de pagar ao comprador o dobro do sinal.
Pelo menos 20 casos, com base em queixas, estão já a ser investigados pela Polícia Judiciária (PJ) de Lisboa e pelo Departamento de Investigação e Acção Penal de Lisboa (DIAP), mas as autoridades acreditam que muitas outras burlas já terão ocorrido. "É normal em situações destas. Muitas vezes os lesados tentam chegar a um acordo, ou simplesmente pagam para não terem mais problemas", apontou ao JN uma fonte judicial.
Dois ou três grupos familiares estão já identificados, suspeitando fortemente as autoridades de que os mesmo têm origem na comunidade cigana, onde o método começa a ser bastante conhecido.
Acho que foi por esta razão que não acreditei na história da burla. Pensei que até podia ter acontecido alguma coisa, mas teria sido só um construtor em pânico, com medo de deixar de fazer negócio por ter uma família cigana a viver no prédio.
Se foi ou não não sei, que dificílmente alguém saberá agora como tudo começou, já só se sabe como está a ser aproveitado:
Os contactos entre alegados burlões e as vítimas são feitos de forma directa e normalmente na rua, junto ao apartamento alvo da compra. Regra geral, são escolhidos prédios com outros andares em venda.
São dois ou três os indivíduos, bem vestidos e com bons carros, que abordam o construtor. O acordo é selado com a assinatura de um contrato-promessa de compra e venda e o pagamento de um sinal vultuoso. Exigem, no entanto, a ocupação quase imediata da habitação, alegando uma necessidade premente, o que pode acontecer no imediato ou poucos dias depois.
É feita a mudança, mas ao invés da família esperada começam surgir na habitação inúmeros elementos da mesma etnia. Daí passam à criação de um ambiente hostil no prédio, em particular barulho e confusão. Na rua a estratégia é a mesma. "Qualquer outra pessoa que queira comprar ali casa, fica naturalmente de pé-atrás", disse uma fonte policial ao JN.
Ao empresário, resta, duas alternativas negociar a saída a bem, pagando, ou romper o contrato, ficando obrigado por lei a pagar o dobro do sinal. Qualquer que seja a opção sai sempre a perder.
Pois sair sai, mas daí até conseguir provar que isto seja uma burla vai um longo caminho. É que mesmo que a intenção seja só ganhar dinheiro fácil, não estão a fazer nada de ilegal, nem a enganar ninguém. Estão lá, mais nada. E ao vendedor restam poucas saídas. Não pode invocar o facto de ter sido enganado na venda, porque nesse caso teria de dizer que se soubesse que quem iria ocupar a casa era uma família cigana não faria o negócio e isso cheira demasiado a discriminação para poder ser aceite como um argumento válido.
Fazem barulho no prédio, incomodam a vizinhança? Isso pode ser um caso de polícia, mas não me parece que seja o problema. A única coisa que está aqui em jogo, e sejamos sinceros, é uma ou várias famílias ciganas a habitar um prédio onde não seria "suposto estarem que a vizinhança incomoda-se"...
Burla? Acredito que se ganhe bom dinheiro assim, mas alguém pode ser acusado de burlão se todos os seus comportamentos são legais, não está sequer a abusar da lei, e só sai a ganhar porque quem paga não quer, ou não pode reconhecer, que a descriminação existe e que pode perder dinheiro à conta dela?
Temos todos Calcanhares de Aquiles e, neste caso, estão a ser aproveitados por quem os pode aproveitar...
Irresistível...
Tempestade: Catorze mortos e milhões de euros de prejuízos na Europa durante o fim-de-semana.
Se fosse português talvez se safasse, que era quase certo que conhecesse o ditado do fia-te na Virgem e não corras e verás o trambolhão que levas...
Adormecer no sofá...
Mamã, tu não te deitas, tu mudas-te para a cama...
Não sei se fique feliz pela inteligência do comentário se fique preocupada, que isto só pode querer dizer que ando triste e já se nota...
Estou mal disposta.
Até parecia que ia ser um domingo divertido. Estava sol, calor, a árvore com vista para o lago escolhida e as medidas para a casa a construir tiradas. As miúdas fizeram o desenho do que queriam e a mim competia executar o trabalho. Já tinhamos tábuas e cordas, faltavam as ferramentas. As básicas estão sempre à mão de semear, mas lembrei-me que tinha por aí uns tornos que iam ser úteis, para ajudar a fixar umas peças que tinham de ser coladas. Tinha-os deixado cá fora, num saco de plástico, e foi esse o primeiro erro da artista. O segundo foi ter lá metido a mão e só depois os olhos. Quando vi era tarde, que a bicha já estava a fazer da minha mão poleiro.
Tenho medo de aranhas. Muito. Medo assim tipo pânico. Fobia. Horror. Saio de mim e só volto quando calha. Acho que estou a voltar agora, mas ainda não é certo, que nas próximas horas qualquer sombra estranha me vai fazer gritar.
Sim, a casa da árvore ficou para outras núpcias, que hoje, pelo sim pelo não, fiquei sentadinha, quietinha, à espera que passe a pena que tenho estado a sentir por mim ....
To whom it may concern.
Agora chegou outro, de farda lustrosa, mas ainda não passou do pode ser que sim. Príncipe príncipe, daqueles altos, belos, loiros, bons rapazes e herdeiros de um reino cheio de tesouros encantados é que nada, nicles, nadinha...
Lembrou-se a rapariga que até é fotogénica e, quem sabe, talvez mandando um catálogo com os seus lados melhores para a agência dos Irmãos Grimm, do Anderson ou até do Perrault consiga que lhe arranjem por lá um príncipe daqueles a sério.
Decisão tomada, mãos ao trabalho. Há que escolher para já, o fotógrafo disponível. Por aqui não há ninguém, que é tudo casamentos e baptizados, mas ela diz que tem andado por aí nos blogs e viu umas fotos muito bem tiradas e, quem sabe, talvez o fotógrafo não se importe de fazer um jeito...
Não sei a quem se estará a referir, que eu na internet só conheço a porta de serviço, mas se souberem de alguém podem avisar para a Posta Restante dos Sonhos Lindos que Passam num Instante mas Enquanto Duram Embalam que se Fartam...
Quem diz a verdade não merece castigo?
Há uns anos uma amiga minha comentou o meu novo namorado com um "sempre tiveste queda para a marginalidade". A minha mãe acha que eu tenho "alma de vigarista", o que nela só pode ser um cumprimento, que se fala em alma já não é mau de todo. Aliás, o meu pai dizia que se quisesse vender um carro ou casar uma filha iria ter grandes dificuldades, que a minha mãe tratava de mostrar a realidade nua e crua a qualquer possível interessado. Sempre achei que isso era uma forma de carinho, que ela estava era muito apegada às filhas e aos carros para os deixar ir assim com qualquer um. Mas pronto, talvez ela até tivesse razão, que muitos quilómetros são muita estrada e há sempre umas folgas na direcção.
Isto para dizer que o primeiro email que recebi hoje foi do meu namorado. Não, não foi um bom dia minha querida, dormiste bem? tive saudades tuas...
O que recebi foi isto:
From: V.............. [............@mail.telepac.pt]
Sent: sábado, 1 de Março de 2008 11:37
To: Teresa ..............
Subject: já...
...gamaste o Expresso, hoje?
Brincadeira? Hum, hum. Ele já me conhece um bocadinho e sabe quais são as minhas rotinas de sábado de manhã. E também sabe que tenho alma de vigarista...
Como uma dona de casa responsável aproveito o sábado de manhã para ir às compras. Apesar de viver no meio de nada tenho a cinco minutos de casa um Continente e para poupar nas voltas é lá que vou quando não me apetece ir ao mercado de Albufeira, onde, fora do Verão, encontro o melhor peixe do meu mundo.
Mas, voltando ao Continente, e já depois de ter o carro estacionado, de ter largado três asneiras por não ter trocos para o carrinho, de ter feito 256 ameaças de meses sem televião às minhas filhas e de ter discutido com os seguranças todos, entro no supermercado propriamente dito. Como é sábado, e sem mesmo olhar para a lista das compras, pego no saco do Expresso e ponho-o no sítio lógico - pendurado atrás do carro das compras, naquele gancho que tem um letreiro a dizer "É favor pendurar aqui o saco do jornal".
Duas horas depois chego finalmente às caixas. Pelo caminho perdi as duas crianças, mas não é preocupante. A Clara está no balcão de apoio ao cliente e já nem precisa de dizer nada que o aviso é o do costume Senhora Clara (ela faz questão no senhora!) chama mãe Teresa. Uma está encontrada e a outra vem aí. Nunca se perde que que é só ir seguindo o meu rasto e aproveitar para apanhar as alfaces, os pacotes de natas, o shampoo e as outras ninharias que foram caindo da montanha de compras em que se transformou o carrinho.
Ora estou então na caixa para pagar. Saem as garrafas de vinho e cuidado que se partem, os enchidos, os garrafões de água, atenção não ponham em cima dos morangos, meninas despachem-se a tirar tudo que preciso do carro deste lado, olhem as batatas e o leite que já deviam aqui estar, os sacos já tapam a menina, depressa, preciso do carro aqui... Elas tentam passar os Kinder, a Clara já pôs duas embalagens de preservativos e a TVmais, eu estou doida por fumar um cigarro, e sim tenho cartão Continente, cuidado que o óleo está a vazar, a menina da caixa redige mentalmente o pedido de baixa por esgotamento e o carro passa para a zona descontaminada, finalmente vazio.
Vazio? Não! Atrás, rodeado de alarmes e olhos atentos de empregados mal pagos, um pequeno saco com um grande jornal, aliás um pequeno saco com um pesado jornal, resiste ainda e sempre aos exércitos do Belmiro. Pronto, o Expresso passou e não foi pago....
E agora, que fazer? Volto atrás e digo ó faxefavor esqueci de pagar isto, ou não sei de nada, não vi nada, que não volto lá dentro nem que me arrastem?
Está bem. Tenho alma de vigarista. E mais, cinco em cada dez vezes o Expresso sai assim, sem nos darmos conta. Nas outras cinco já faz parte do jogo dos sábados de manhã - passa ou não passa que isto não é roubar, que está bem à vista, é só um teste de atenção...
Posso dizer que a atenção das meninas é de 0,0005% e que me dá um gozo desgraçado este engano dois em um - Belmiro e Balsemão metidos no mesmo saco nos meus sábados de manhã....
Hoje não fui ao Continente por isso escusam de me perguntar se li o Expresso. É que tenho assinatura sabem? E há sábados em que não me falta nada na despensa...
Quem diz a verdade não merece castigo, pois não?


