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As donas da caverna.

A lenha estava molhada, mas quis acender a lareira. A caixa das acendalhas só tinha uma e as pinhas já se foram há muito. Tentei tudo o que sabia e mais o que inventei. Gastei um frasco de álcool, os suplementos todos do Expresso, as publicidades da caixa do correio e os papéis de rascunho. Chama havia muita, só que era fogo de pouca dura. Consegui uma hora depois, com cola de contacto, mas já foi mais por teimosia que por necessidade.

Matar um mamute com arcos, flechas e umas lanças de ónix nem devia ser difícil. Difícil devia ser acender o fogo para o cozinhar. Se com tantas parafernálias eu não acendia uma lareira, imagino o que seria fazer fogo para o jantar a bater com duas pedras debaixo de uma tempestade de neve.
Dê por onde der, as mulheres ficavam sempre com o trabalho pior, mas nas pinturas rupestres quem aparece são eles. Já vem de longe a ida ao café e o jornal no sofá, que fizeram muito e estão cansados. É que enquanto os Cro-Magnos se armavam em heróis pintando-se nas paredes lá da casa em menos de um fósforo, elas batiam com as pedrinhas para acenderem o fogão.
E, garanto, não devia ser nada fácil.

Má sorte não ter sido puta

Anos e anos de sabedoria popular não podem estar totalmente errados. Se à mais velha profissão do mundo o povo chama 'vida fácil', alguma razão deve ter.
É quando penso nisso, no tal fácil da vida, que sonho em ter sido puta. Não queria bordel manhoso, nem anúncio no jornal, nem mesmo esquina de engate, que o freguês não deve ter flor que se cheire e não há férias nem feriados.
Puta sim, mas de casa montada, e a história já seria outra.
Longe vai o tempo da Madame Bovary e já nem me dou ao luxo de me imaginar a acordar de manhã em lençois de cetim e quarto perfumado, com criada às ordens e sedas nos armários. Bastava-me o acordar de manhã sem ter a vida para tomar conta e contas para tomarem rumo. Era só um acordar em sossego, na casa montada. Podia tomar o pequeno almoço sem o telefone a tocar e, se tocasse, só podia ser o montador oficial e não iria atender, que mesmo as putas têm de se fazer difíceis. Depois podia sair para compras, que há sempre alguma coisinha para comprar, e a seguir ficar com um dia cheio de horas para gastar à vontade. Como se sabe, e por inerência de funções, puta que se preze tem contas pagas, salário garantido e cartão de crédito com um plafond mais elástico que as ligas das meias. Não teria prazos para cumprir, nem despensas para encher. Chave de estrela, taxa de saneamento, macaco hidráulico, contrato de electricidade bi-horário e detergente para a máquina seriam termos que nunca entrariam nos meus ouvidos de puta fina. Faria a inspecção do carro quando verificasse se o cinzeiro estava minuciosamente limpo e o gerente do banco, se me telefonasse, já o sol se teria posto há muito.
Não seria mulher de ninguém, que puta não é dessas coisas, e muito menos marido.
Iria querer mais? Sei lá, trabalhar um bocadinho, ler uns livros, ir a umas reuniões e a almoços de escritório, apresentar uns papers ou fazer um doutoramento? Porque não? Mais fácilmente se esconde no armário uma pasta de cabedal e um monte de dossiers que o colega de serviço. Vida dupla por vida dupla esta teria menos riscos e muito mais recompensas.
O meu homem, ou de outra qualquer que nem seria esquisita, chegava, despachava e saía outra vez. Podia jantar de vez em quando, ou mesmo ficar para a noite, se eu não estivesse com uma daquelas enxaquecas que qualquer gaja que é gaja, puta ou não, tem de vez em quando.
Nada de tão diferente da maior parte das casas, só que esta, como já disse, era casa montada. Vejo-a assim como que uma espécie de time sharing - propriedade realmente garantida e gozo de vez em quando.
Como alternativa, e porque isto de ser puta ainda não é lá muito bem visto por olhos mais picuinhas, pensei em casar-me. Cheguei mesmo a ponderar essa hipótese durante uns dias, mas percebi que já não é o que era. A mania das igualdades estragou o encanto feminino do casamento e deu em troca uma jantarada por ano no tal dia internacional das mulheres de respeito, que nunca sei bem qual é.
Nada tenho contra o casamento, nem mesmo a velha frase da minha mãe da 'mulher casada sempre borrada'. Consegui até, e com algum carinho, ver-me a apanhar peúgas pelos cantos e jornais na casa de banho, que a respeitabilidade do esposa e as contas pagas na mesma aliviavam a estucha. O problema é que já nem nestas coisas de casório podemos confiar na tradição e mulher casada, apesar de continuar borrada, anda cada vez mais longe da puta fina. Depressa percebi que ia levar com as meias dos cantos e as meias dos empréstimos ao banco e lá se foi o encanto do vestido de chiffon e do rancho de filhos.
Assim não há volta a dar, porque contas feitas e apuradas as razões, puta mesmo, com casa montada, é o meu sonho.