Toda a gente fala de Guy Fawkes nos últimos anos, desde que o Plano da Pólvora se tornou moda. Mas, como acontece com grande parte da cultura que se aprende nos filmes, muita gente confunde Fawkes com o líder do Plano da Pólvora, e o Plano em si com uma intentona de motivações nobres e elevadas.
Mas o mito, não substituindo a verdade, sobrepõe-se tantas vezes a ela que hoje temos a imagem de Guy Fawkes, da máscara de Guy Fawkes, associada a uma espécie de anonimismo interventista a que tantos se associam.
O que não percebem é o reverso da medalha.
Guy Fawkes, para ser forçado a confessar, foi torturado num potro durante quatro dias, até confessar.
O potro funciona esticando as pessoas até - e para além - dos seus limites. Começa-se por lhes prender as mãos e os pés, e vai-se esticando lentamente. E quando parece que já não estica mais, estica-se só mais um bocadinho.
Ironicamente, quando tantos já usaram a máscara de Guy Fawkes para se integrar na tal turba anónima que é suposto inquetar os Governos, os mesmos Governos tratam-nos, a todos, como a Guy Fawkes.
Impõem-nos uma crise, de sua própria manufactura, e começam a esticar-nos devagar, com mais impostos, com mais taxas, um depois do outro.
E nós, como os torturados no potro, gritamos e dizemos que não aguentamos mais, mas estamos atados de pés e mãos por casas e por filhos e por famílias e fugir não é fácil e também dói.
Eles vão continuar a esticar a corda, até que os deixemos, até que uma qualquer espécie de síndrome de Estocolmo que nos é tão particular nos vá dizendo a todos que eles afinal até têm razão, que até estão a proceder bem, que não tinham outra hipótese. Coitados. Os torturados da Inquisição também acabavam por achar que quem os esticava tinha razão, e por agradecer terem sido levados à luz divina. Os que não morriam pelo caminho, claro, mas esses era porque eram demoníacos e maus - como maus e "a viver acima das suas possibilidades" são os que hoje se insurjem contra o potro fiscal.
Há quem diga, gritando como os torturados, que isto não se aguenta.
Na opinião deles, citando Fernando Ulrich, "aguenta, ai aguenta".
