Tolerar
v. tr.,
Foi há uns tempos, ao ler uma notícia sobre anfetaminas, que se acendeu um néon à volta da palavra e eu vi, finalmente, a luz.
Tolerância.
Durante muito tempo comprei-a como me a venderam, achei que ser tolerante era mais uma virtude e andei, em nome dos bons princípios, a tolerar tudo e mais alguma coisa.
Tolerei gente má e gente menos má. Tolerei sopas frias, tolerei funcionários arrogantes, tolerei salas desarrumadas. Tolerei faltas de educação, crápulas, bifes demasiado passados, gente pequenina, batoteiros, chefes mal criados, crianças barulhentas, merceeiros ladrões, duches com pouca pressão, amantes desinteressados, sapatos apertados, armários com pó e amigos com memória curta. Tolerei dias que nunca mais passavam, tolerei homens-besta e tolerei uma vida virada do avesso.
Fui tolerando.
E a tolerância é isto, uma habituação que nos vai fazendo deixar de sentir o que já está tolerado, e vai acrescentando tolerância à tolerância já gasta. Nada nos parece de mais, que é só uma questão de tolerância.
Esta é a história das gentes e da gente. Vamos-nos habituando, vamos aceitando, vamos desculpando e vamos-nos enterrando. E, um dia, acordamos, olhamos para nós, e não percebemos como chegámos ali. Se pudéssemos rebobinar a vida íamos ver-nos a ceder todos os dias um bocadinho, a tolerar mais umas afrontas, a desculpar mais uns erros, a sermos virtuosamente indulgentes.
Não quero mais ter que permitir, desculpar, deixar passar, consentir tácitamente, suportar!
Sei o que gosto e não gosto. Sei o que quero e não quero. Sei o que é certo e errado. E sei que não me apetece tolerar mais nada.
O tempo que passou por mim não deixou só rugas nos cantos da boca. Deixou vida vivida, estrada andada, decisões arrancadas cá do fundo, de onde dói mais elas saírem. E deixou, também, algumas certezas. Não muitas, que se dois e dois são quatro nem sempre tudo o resto é tão lógico e se aprende em cantigas de tabuada.
Não sei muito, mas sei que gosto de mim como sou, gosto de mim como estou e não quero, em nome de uma tolerância de anfetamina, voltar a acordar um dia e pensar - que estou a fazer aqui? Quem é esta Teresa que eu não conheço, mas que é tão tolerante?
Tolerância? Não. Tolerei tudo o que tinha a tolerar, moldei-me nesse barro e agora estou na altura de julgar. De dizer, alto e bom som, não gosto, não quero, você é uma besta ou dê-me o Livro de Reclamações.
Agora não tolero mais. Abro as portas da casa e da vida e digo saiam, não são bem vindos, não vos quero aqui, não desculpo e não consinto.
E sim, sou uma cabra intolerante. Mas sou eu.
Há 5 meses